“Defender, unir, organizar e promover o setor da música independente nacional, tanto em Portugal como no estrangeiro”: é este o mote da Associação Profissional de Músicos Artistas e Editoras Independentes em Portugal (AMAEI), criada em 2012, que passados oito anos se mantém urgente e necessário.

Ao longo das últimas décadas, o panorama musical em Portugal foi-se modificando à boleia do aparecimento de novas editoras de música independentes, bem como do aumento do número de artistas auto-editados, que vieram reforçar a necessidade de uma maior regulação do próprio mercado. Por outro lado, a entrada do digital no universo da criação e edição musical trouxe novos desafios que nem sempre são facilmente compreendidos por quem se aventura neste mercado.

É neste sentido que se tem dirigido o trabalho desenvolvido pela AMAEI e que agora aprofundamos no âmbito da Semana Temática em torno das editoras de música independentes, partindo da reportagem “No universo das editoras independentes, a resistência faz-se pela edição”, publicada na Revista Gerador 32. Em entrevista ao Gerador, Nuno Saraiva, presidente da associação, dá conta deste panorama em termos nacionais, onde a burocracia continua a dificultar o trabalho de artistas e produtores. Num retrato complexo, em que nem sempre os artistas recebem os direitos que lhe são devidos, o papel da AMAEI tem sido o de promover o conhecimento e dar armas às editoras independentes para que estas possam lutar de igual forma pela sua quota de mercado.

“Diria que qualquer artista ou editora independente, se quiser desenvolver de forma profissional o seu trabalho e fazer crescer o seu rendimento, para continuar a fazer música, precisa de se profissionalizar e capacitar. O trabalho da AMAEI e das nossas congéneres pelo mundo fora permite aos artistas e pequenas editoras lutar num mercado difícil com conhecimentos ou ‘armas’ iguais”, sintetiza.

Gerador (G.) – A AMAEI foi criada em 2012 com o objetivo de “defender, unir, organizar e promover o setor da música independente nacional, tanto em Portugal como no estrangeiro”. Tendo em conta a evolução do mercado de música nacional, esta missão mantém o seu sentido de urgência?
Nuno Saraiva (N. S.) – Sim, diria que cada vez mais. A evolução do mercado para o streaming significa que são necessários cada vez mais conhecimentos na área do digital, e no que toca aos ramos dos direitos de autor e direitos conexos os independentes continuam a não receber o que é deles, uns por falta de conhecimento outros por falta de tempo e mão de obra relacionada com a enorme quantidade de metadados que é necessário processar para reclamar o que é nosso. A união, a capacitação, a organização e a promoção — agora sobretudo na área do marketing digital — tornam-se cada vez mais relevantes.

G. – O panorama da música nacional tem vindo a mudar ao longo dos anos, com o aparecimento de um maior número de artistas autoeditados e de novos projetos editoriais. Como caracterizam atualmente este panorama?
N. S. – É precisamente essa a tendência. A AMAEI tem crescido em termos do número de editoras associadas, mas também ao nível do número de artistas autoeditados que se inscrevem: quando falamos em “músicos artistas” estamos a falar deles, dos autoeditados, pois a AMAEI é uma associação fonográfica para titulares de fonogramas — chamados “Masters”, quer sejam editoras ou artistas autoeditados. O panorama é complexo, pois existem muitos serviços de distribuição digital hoje em dia, alguns pouco fidedignos. É importante partilhar as boas práticas na cadeia de distribuição digital, de forma a chegar às plataformas sem intermediários desnecessários. Nunca, mas nunca, se deve pagar à cabeça para distribuir música digital. É fundamental perceber que quando uma plataforma se promove anunciando que paga até 100% de royalties, há que perguntar: «Certo. 100% de quê? Qual é o acordo que, de facto, tem ou não tem com as plataformas? Quanto cobra? Qual o grau de envolvimento na promoção e marketing digital?» Muitas vezes, os artistas, com a urgência de partilhar com o mundo as suas músicas, não estão capacitados para tomar as melhores decisões neste e noutros contextos do music business.

G. – Porque faz sentido que exista uma associação como a AMAEI no contexto nacional?
N. S. – Tanto no contexto nacional como internacional, entre 80% a 90 % da nova música produzida e editada é música independente. O market share do setor independente tem vindo a crescer, e sem associações que defendam, por exemplo, a boa distribuição dos direitos conexos dos produtores fonográficos aos independentes, é muito difícil para pequenas editoras ou autoeditados reclamarem o que é só sem fazer parte de uma trade association como a AMAEI. Pelo mundo fora, existem mais de 35 países com associações fonográficas independentes. Em rede na Worldwide Independent Network, pelo mundo fora, e também agrupados na Europa pela IMPALA – European Independent Music Producers and Labels Association. O trabalho que desenvolvemos é fundamental para aumentar as distribuições dos direitos conexos, pagos pela Audiogest, ao nosso setor. Já agora, é importante referir que o setor fonográfico internacional tem por hábito o estabelecimento de associações fonográficas “nacionais”, como a AFP — Associação Fonográfica Portuguesa, mas que, de facto, não o são, no sentido de serem controladas pelas multinacionais. São, de facto, braços locais do IFPI. A AMAEI dá voz ao verdadeiro setor independente nacional, ou seja, micro e pequenas empresas com menos de 5% market share. Para além destas questões mais políticas, a AMAEI também serve para partilhar conhecimentos e capacitar todo o setor, através de workshops, webinars, conferências como o Westway LAB e o Digital MusicDays, e até foi fundadora da WHY Portugal, export office para a música portuguesa, que nasceu a partir do grupo de trabalho de internacionalização da AMAEI. Não só faz sentido pelas necessidades de agrupamento do setor, mas também pelos benefícios que traz — aos próprios associados, mas também a todos os outros independentes que, mesmo às vezes sem saber, beneficiam da existência da AMAEI. É com um verdadeiro sentido de missão e interesse público que desenvolvemos todas as nossas atividades desde 2012.

G. – Que vantagens é que uma banda ou uma editora pode encontrar ao ser vosso associado?
N. S. – Diria que qualquer artista ou editora independente, se quiser desenvolver de forma profissional o seu trabalho e fazer crescer o seu rendimento, para continuar a fazer música, precisa de se profissionalizar e capacitar. O trabalho da AMAEI e das nossas congéneres pelo mundo fora permite aos artistas e pequenas editoras lutar num mercado difícil com conhecimentos ou ‘armas’ iguais, através do que aprendem nos workshops e formações da associação. Depois, há também descontos exclusivos em feiras e conferências internacionais para quem já entra nesse outro campeonato. Temos protocolos de distribuição digital com empresas fidedignas, e damos apoio on going com a questão fundamental dos direitos conexos através do Helpdesk da AMAEI. Todas estas vantagens e outras estão no nosso website, que também publica regularmente informações da indústria da música que partilhamos com os nossos associados. É incrível quando se juntam novos artistas que nos dizem que não faziam a mínima ideia de que, sendo titulares dos seus fonogramas, também tinham direitos a receber da Audiogest — muitos só conhecem a SPA e GDA.

G. – Dois dos aspetos que vocês têm destacado referem-se à importância dos direitos conexos e ao apoio à internacionalização de artistas portugueses. Em que medida é que um trabalho e um conhecimento redobrados sobre estes eixos podem ajudar a mudar o mercado de música nacional?
N. S. – Os direitos conexos em Portugal são uma parcela muito importante do setor fonográfico — o streaming já ultrapassou o físico, isso sabe-se. Mas muito pouca gente sabe que em vários mercados na Europa, os direitos conexos valem mais até do que o streaming… e são repartidos entre os produtores fonográficos, que recebem da Audiogest, e os artistas intérpretes e executantes que recebem por via da GDA. O trabalho do Helpdesk da AMAEI é fundamental neste aspeto: as sociedades de gestão coletiva são para todos, pois a organização dos metadados necessários para coletar os direitos que são nossos é um trabalho moroso que muito poucos conseguem ter tempo ou conhecimento aprofundado para tratar sozinhos. Os direitos conexos, bem distribuídos aos produtores fonográficos independentes, podem valorizar exponencialmente o setor independente. Estamos a operar num setor da música onde os criativos que de facto são o motor da nova criação musical produzem mais de 80% das obras e recebem menos de 5% dos direitos. Onde é que já vimos isto? A música precisa de um 25 de Abril. As regras de distribuição dos conexos devem rastrear de forma completa as utilizações digitais, o que foi prometido, mas ainda não acontece. Mais, muitas vezes as distribuidoras coletam os conexos como se o market share fosse delas — não é. É dos titulares dos fonogramas. A equação de distribuição continua completamente desequilibrada e protege o status quo dos grandes catálogos. Já o eixo de internacionalização é fundamental por sermos um mercado pequeno — quer seja para os independentes como para as majors, que por razões de hierarquia interna muitas vezes têm dificuldade em internacionalizar artistas nacionais. A internacionalização de artistas, nos eixos físicos ou digitais, tem de garantir a pequenos países como Portugal um mercado global. Há bons exemplos de países que o conseguiram fazer antes de nós, tais como a Islândia, por exemplo. A WHY Portugal está no ativo desde 2016 e, desde então,os números de artistas em processos de internacionalização dispararam.

G. – Enquanto associação, têm alertado para a falta de conhecimento por parte de artistas e até mesmo de editoras dos seus direitos (conexos). Porque acham que isto acontece e como é que se pode criar mais conhecimento a este nível?
N. S. – Não existe em Portugal um único estabelecimento de ensino que ofereça cursos sobre a nossa indústria de forma consistente. A AMAEI organizou, com a Coimbra Business School (ISCAC), a primeira pós-graduação sobre o music business. Por outro lado, existe também uma grande ausência de bons formadores — os profissionais da música em Portugal não estão ao nível do talento dos seus artistas. Isso acontece, porque há falta de noções ligadas ao empreendedorismo na música. Muitos optam por funcionar de uma forma informal, a recibos verdes, ou em associações culturais em vez de empresas. Está errado. Para o bem da arte que é a música, há que encarar a nossa atividade de forma profissional. Abrir empresa, pagar impostos, relatar todas as vendas. É assim que avança o setor. A ausência de conhecimento sobre os conexos não me surpreende, durante anos e anos a Audiogest nem um website tinha. A AMAEI tem liderado na partilha de conhecimento da indústria da música em Portugal, e estamos agora a transpor os antigos workshops físicos para webinars digitais para continuar esta atividade tão importante de partilha de conhecimento.

G. – Já se falava igualmente da tendência crescente do digital na indústria musical, mas que este contexto de pandemia parece ter acentuado ainda mais. Consideram que tanto as pequenas editoras independentes, como as bandas, estão a aproveitar bem o uso do digital/streaming?
N. S. – Não, de todo. Dar concertos gratuitos online não é aproveitar bem o streaming. Aliás, no início da primeira vaga, no primeiro confinamento, o streaming não cresceu! Antes pelo contrário. Para aproveitar bem o digital há que escolher bem os parceiros de distribuição e termos a certeza de que todos os nossos rendimentos — autorais, conexos de artistas, conexos de produtores fonográficos e, claro está, as vendas ou rendimentos de streaming — têm de ir parar ao bolso certo com um mínimo de intermediários. A maioria dos artistas está muito longe de ter estas 4 ou 5 fontes de rendimento bem organizadas. Há uma grande fatia do bolo que fica pelo caminho.

G. – Podemos ligar a dimensão digital à questão da internacionalização? Como é que podemos continuar esse caminho de levar artistas portugueses para um contexto internacional?
N. S. – Podemos e devemos, uma vez que no panorama atual é impossível internacionalizar de outra forma. É fundamental desenvolver projetos de marketing digital da música portuguesa, playlisting e playlists nossos, bem como projetos de apoio a campanhas de promoção noutros mercados, seja radio plugging ou PR para media tradicional (a pouca que resta), blogs, etc., pois sem esse tipo de apoio será sempre difícil. Estamos a trabalhar nisso bem como na capacitação de cursos online, por exemplo na plataforma MusicAlly que ajudam nas questões fundamentais de marketing digital e manutenção de perfis de artistas nas DSPs, as plataformas digitais.

G. – Recentemente organizaram o Digital Days, em conjunto com o WestwayLab e o Why Portugal Event. Que balanço fazem desta iniciativa após o sucesso da sua primeira edição no CCB em novembro de 2019?
N. S. – Foi uma edição digital, esta segunda edição do Digital MusicDays, com o apoio da MERLIN. Por um lado, recebemos antecipadamente a informação de que o CCB não estaria disponível por causa da preparação da Presidência de Portugal ao Conselho da União Europeia; por outro lado, a 7ª edição do Westway LAB tinha sido adiada de abril para outubro, pelo que nos fez sentido juntar as duas conferências na mesma plataforma. Foram três excelentes dias de mais de 35 conferências e concertos em streaming — com as atuações dos artistas nacionais ao vivo do grande auditório do CCVF em Guimarães, no contexto do Westway LAB e WHY Portugal Event. Como resultado direto, temos vídeos de vários artistas e novos showcases em outros eventos como Miramar no Eurosonic 2021, Seiva no NAMM e Sim São Paulo e ainda IAN e Lemon Lovers com trechos das suas atuações na SIM São Paulo — isto tudo pela WHY Portugal, através do WHY Portugal Event no Westway LAB. Do lado da AMAEI e do Digital MusicDays fazemos um balanço positivo com 205 participantes nas conferências online, um keynote de Jeremy Sirota, novo CEO da MERLIN, e sessões com representantes do Spotify, Apple Music, Amazon, Instagram/Facebook, YouTube, Mixcloud e muitos outros. Para mim, o ponto alto foi um excelente debate sobre as boas práticas do Livestreaming com Helen Smith da IMPALA, SophieGoosens da Reed Smith e outros.

G. – Tendo em conta ainda aquilo que foi debatido neste último Digital Days, quais diriasque são os principais desafios para as editoras independentes?
N. S. – A questão do marketing digital, playlisting e promoção internacional de pequenos catálogos é certamente o maior desafio — como fazer crescer novos artistas e novas carreiras sem o método tradicional dos concertos ao vivo? E para além disso, como lidar com as várias ramificações e impacto dos concertos em streaming de forma positiva? Como monetizar efetivamente a nossa presença online? Longe de ter atingido aquela promessa original de democratização de acesso, a Internet de hoje e as redes sociais tendem a promover o que já é grande. A teoria do longtail estava errada. A teoria dos 1000 verdadeiros fãs talvez seja um objetivo a atingir, mas continua a ser muito difícil. O importante é perceber que o trabalho digital bem feito, a cadeia de distribuição, ou passa pelas majors ou passa pela MERLIN, que agrega muitos direitos independentes e pesa o suficiente para equilibrar a balança à mesa das negociações com as plataformas.

G. – A distribuição digital será um dos fatores determinantes para o sucesso de novos artistas, mas também de novas editoras?
N. S. – Com toda a certeza. É fundamental conhecer bem o trabalho da MERLIN e o ecossistema da cadeia de valor digital. No Digital MusicDays de 2019 premiámos o trabalho do primeiro CEO da MERLIN, o Luso-descendente Charles Caldas, e agora acolhemos um keynotedo novo CEO Jeremy Sirota no Digital MusicDays 2020. Entender o que faz a MERLIN é o ponto de partida para tomar boas opções na escolha de uma boa distribuidora digital. É algo complexo, pois a MERLIN não distribui; só trata da parte da negociação com as plataformas por parte do setor independente. É necessário, depois, ter uma forma de entregar os conteúdos às plataformas.

G. – Que outros desafios podemos destacar para além desses?
N. S. – O peso diário do processamento de metadados, tanto na cadeia de distribuição para fora, na comunicação, e depois nas declarações de rendimentos entre editoras e artistas vai continuar a aumentar exponencialmente. Atualmente, já é necessário usar várias plataformas para nos organizarmos, como por exemplo páginas e páginas de googledocs ou excelpara organizar todos os metadados dos nossos catálogos, códigos ISRC’s, autorias, labelcopy, quem tocou o quê em cada faixa, e depois entregar toda essa informação a três ou quatro sociedades de gestão para além do backoffice da nossa distribuidora digital. Quanto mais bem feito for, mais trabalho dá, claro. E depois vem a promoção, é preciso organizar websites, newsletters, como enviar músicas corretamente no meio b2b, por exemplo para sincronizações audiovisuais, aí é mais uma plataforma, pelo menos. Finalmente, toda a parte do royalty accounting, a ser bem feita, terá de processar linhas intermináveis de excelsde micro-pagamentos de streaming… já para não falar do lado do musicpublishing ou gestão de direitos autorais, de formatos como o CWR - Common Works Registration utilizado pelos publishers e sociedades de autores… sempre um desafio. Do lado dos conexos dos produtores fonográficos temos o DDEX e agora vem aí a RdX também… é muita aprendizagem!

Ao longo desta semana, falamos-te um pouco mais sobre editoras de música independente, tendo como ponto de partida a reportagem “No universo das editoras independentes, a resistência faz-se pela edição”, publicada na Revista Gerador 32. Sabe mais sobre a Semana Temática das editoras de música independentes, aqui.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves

Se queres ler mais notícias sobre a cultura em Portugal, clica aqui.