A época que se vive tornou permanente o debate, que já existia, sobre o papel do jornalismo, sobre a veracidade ou falsidade das informações vinculadas e de escrutínio dos meios de comunicação tradicionais mas também dos alternativos, que têm primado por conteúdos e formatos distintos. A pandemia, o estado de emergência e o confinamento, trouxeram picos de audiências e do número de visualizações de conteúdos noticiosos, relançando a discussão sobre o valor de troca do jornalismo e do seu papel na sociedade contemporânea. Mas afinal o que nos mostram os indicadores que têm sido apresentados ao longo dos últimos meses?

Num estudo recente, conduzido pela Universidade do Minho e pela Universidade do Porto, a conclusão geral é de que o jornalismo teve um “papel fundamental” na contenção da pandemia em Portugal. De acordo com os dados, 92% dos jornalistas tiveram a preocupação editorial de, a par da difusão de informação relevante, “orientar os cidadãos para comportamentos de prevenção da covid-19”. O inquérito sobre o impacto da covid-19 no jornalismo em Portugal, recebeu respostas de 200 jornalistas, entre jornalistas de saúde, editores, coordenadores e diretores de órgãos de comunicação social nacionais.

Para Luís Loureiro, jornalista da RTP e Professor Auxiliar na Universidade Lusófona do Porto, esta conjuntura evidência uma discussão antiga sobre o papel do jornalismo na sociedade, que pode ser analisada sob diferentes perspetivas. “Entendo que o jornalismo existe para fornecer instrumentos de cidadania. Mas há outro entendimento que, no fundo, critica uma certa postura do jornalismo como uma instância pedagógica. Porque isto pressupõe o jornalismo como algo que serve para educar os cidadãos”, explica em entrevista ao Gerador.

Há um mês, aquando da apresentação dos dados preliminares do estudo, Felisbela Lopes, coordenadora da investigação, salientava à TSF que esta era “a primeira vez em Portugal que os jornalistas assumem fazer uma orientação de comportamentos”. Para a docente da Universidade do Minho “essa orientação foi encarada pelos jornalistas como um trabalho de serviço público” e fez com que os mesmos se constituíssem como “um grupo importantíssimo no combate à pandemia”.

Essa orientação levanta, no entanto, alguma polémica, tal como expressa Luís Loureiro, sendo igualmente sentida por João Ribeiro, cofundador e diretor do Shifter. “Se pensarmos, por exemplo, no que foram os telejornais durante a pandemia, facilmente recordamos momentos em que o jornalismo foi substituído por uma espécie de moralismo. Se isso para os jornalistas até pode vir de um lugar de preocupação em ‘orientar os cidadãos’ não quer dizer que a longo prazo o efeito seja positivo”.

A par disso, os resultados do inquérito revelam também que mais de metade dos jornalistas (52%) tiveram dificuldade na triagem da informação credível sobre a covid-19. Ao mesmo tempo, 14% sentiram falta de colaboração das fontes de informação e 12% tiveram dificuldade no acesso à informação do dia. Há ainda 87% dos jornalistas que dizem ter notado um aumento da informação falsa.

Luís Loureiro corrobora os dados, alegando que em, termos nacionais, a pandemia deu lugar a um enviesamento dos canais informativos a que os jornalistas podiam aceder como fontes. Sobre este aspecto, Felisbela Lopes refere mesmo a existência de um paradoxo, em que o jornalismo se tornou fundamental no combate à pandemia, ao mesmo tempo que os jornalistas “não tenham conseguido obter informação de que necessitavam por parte das fontes oficiais”.

No seu caso particular, o jornalista da RTP, que trabalhou atentamente sobre a evolução da pandemia em Portugal, denota um “afunilamento das fontes”, que impossibilita alguns aspectos centrais do jornalismo de investigação que tenta desenvolver no programa “Sexta às 9”. “O que se observou foi claramente um estreitamento do acesso à informação. Em termos de fontes oficiais foi-nos fornecido, basicamente, um canal, que é o canal combinado DGS – Ministério da Saúde, através dos seus boletins informativos e nada mais. A informação foi de tal forma centralizada que os dados são muito fracos do ponto de vista do seu tratamento científico e a comunidade fica presa a uma informação muito escassa, que se oferece a essa possibilidade do enviesamento”, sustenta.

Leonor Mateus Ferreira, jornalista do ECO, por seu lado, considera inadmissível a falta de acesso a fontes numa altura em que a sua própria área de trabalho é acusada de transmitir informações falsas. “Muito facilmente alguém apelida notícias de serem fake news ou tentam vedar o acesso a determinada informação. Se quando se tratam de privados, é eticamente questionável, quando se trata de fontes oficiais públicas então é inadmissível e considero que deve ser dado a conhecer essa realidade”, realça. A jornalista olha para o surgimento de segmentos de fact checking dentro dos jornais ou até jornais especializados nesse mesmo processo como um sinal dos tempos, realçando, porém, que esse mesmo trabalho deve fazer “parte das funções de todos os jornalistas”.

Numa perspectiva mais ampla, João Ribeiro advoga que este mesmo problema não é exclusivamente português. “Os estados têm forma de falar diretamente às pessoas, nomeadamente através até de publicidade que financia os meios de comunicação social, portanto parece-me que esse paradoxo se prende mais com uma sobreposição dos papéis. E uma certa falta de contemporaneidade do jornalismo que continua baseado em modelos antiquados e, pior, em dogmas ultrapassados”, sintetiza.

Com melhor ou pior acesso a fontes, nomeadamente de entidades oficiais, há ilações positivas a retirar desta situação. Leonor sustenta, por exemplo, que a pandemia ajudou a tornar mais claro para a opinião pública o papel da informação e do jornalismo. “Fechadas em casa (e em muitos casos sem atividade profissional), as pessoas procuraram muito mais informação e questionaram a veracidade dessa informação até porque a saúde pública dependia, e continua a depender, da informação que chega às pessoas”.

Reforço do online como espaço mediático e do papel da televisão

Antes deste período de pandemia se iniciar, a televisão e as redes sociais já eram considerados os principais meios para se obter informação. Já com a pandemia em foco, um estudo – Barómetro Gerador Qmetrics – sobre a cultura em Portugal feito recentemente pelo Gerador, confirma a tendência crescente destas plataformas como as mais utilizadas pelos inquiridos no acesso à informação, destacando ainda o desuso, nos diferentes segmentos etários, de jornais e revistas em papel.

Segundo os dados (que já têm em conta o período de confinamento), numa escala de 1 a 10 em que 1 representa “não utilizava nada” e 10 “utilizava constantemente”, a televisão tem uma avaliação média de 7,5 e as redes sociais 6,9, contrastando com a avaliação de 3,0 no caso das revistas e jornais em papel.

Na mesma linha, o Reuters Digital News Report de 2020 – que analisou em foco a situação portuguesa – refere que, mais do que a utilização da Internet, os últimos meses confirmam as audiências televisivas a atingir níveis históricos, com a procura de informação a liderar as razões para a procura exponencial. Paulo Nuno Vicente, docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, considera que é totalmente previsível que, “perante um pico de confinamento doméstico, os meios eletrónicos assentes na transmissão à distância (teledifusão) tenham um pico de uso”.

Não obstante, para o investigador importa, contudo, precisar o que se define, hoje em dia, por televisão: “Ecrã/suporte ou cultura de programação? Por outras palavras, interagir com um documentário interativo da Netflix através da Playstation 4 pode ser considerado ‘ver televisão’. No meu entendimento, não. Ou seja, não há qualquer indício que, em matéria de programação e de tipologia de uso, a televisão se esteja a renovar. Está, sim, a cumprir um papel que há décadas lhe é reconhecido: o de ser um dispositivo de convergência circunstancial perante eventos excecionais”.

Ao Gerador, Luís Loureiro adianta que o crescimento de audiências também se confirmou no programa “Sexta às 9”, que aumentaram “cerca de 20% durante o confinamento”. Porém, o jornalista observa agora uma tendência contrária, isto é, uma descida abrupta nesses mesmos números. “O elemento da repetição, de afunilamento e o facto de todos os meios estarem a falar da pandemia leva a um cansaço. Mesmo que os jornalistas tenham uma perceção de que há informação nova, essa informação para as pessoas não é assim tão nova, está saturada. Outro aspecto veio com o início do desconfinamento, que fez com que a possibilidade de mobilidade das pessoas as retirasse das suas casas.

“Esta queda abrupta pode ter aspectos perversosna evolução do estado epidemiológico no país. O desligar-se abruptamente da informação pode trazer um excessivo relaxamento, sendo que as pessoas devem estar bem informadas para poderem tomar as melhores decisões relativamente à sua segurança”, acrescenta.

Apoios do Estado e incremento dos modelos de subscrição online

Outro dos aspectos que a pandemia veio salientar prende-se com os apoios à comunicação social e os modelos de subscrição online que se têm tentado estabelecer. No âmbito do quadro de apoio de emergência ao sector da comunicação social, o Estado português anunciou um apoio de 15 milhões de euros através de uma compra de publicidade institucional aos media.

A decisão não foi consensual, levando vários órgãos de comunicação a questionarem os critérios de escolha, baseados nas receitas comerciais, isto é, na publicidade dos órgãos de comunicação social e nas vendas em banca. No rescaldo, vários meios recusaram o apoio. É o caso das administrações do jornal e da rádio Observador e do jornal Eco que decidiram abdicar desse montante. Os dois jornais (ambos online) justificam a recusa com o facto de nunca terem pedido “um apoio de subsidiação direta” aos meios de comunicação, com o qual não concordam, e de a distribuição da verba pelos órgãos de comunicação social não ser suficientemente transparente.

Muitos destes órgãos têm também investido, nos últimos anos, na inclusão de modelos de subscrição online, com o intuito de promoverem novas formas de financiamento das empresas de media. Sobre este aspecto, o relatório da Reuters sublinha que com a pandemia “o aumento de subscritores digitais de conteúdos noticiosos deverá concentrar-se em marcas com modelos de negócio digital minimamente consolidados, concentração que afeta seriamente a diversidade e pluralidade de fontes e práticas jornalísticas no mercado português”.

Por outro lado, o relatório lembra a importância do jornalismo de nicho, como o jornalismo local ou regional, que subsiste como eixo comunicacional fundamental para muitos portugueses e que se encontra, no contexto da crise pandémica, sob forte ameaça.

O jornalismo como área prioritária na sociedade

No estudo do Gerador, o jornalismo, embora não seja uma das áreas prioritárias para a população – surgindo em 9º lugar numa lista com 10 áreas –, ultrapassa a dimensão de entretenimento. A par deste indicador, o relatório da Reuters destaca que os portugueses são unânimes no reconhecimento da centralidade do jornalismo na sociedade. Segundo os dados, 7 em cada 10 portugueses considera que esta área desempenha um papel importante no bom funcionamento das estruturas sociais contemporâneas.

Os vários factores que determinam a importância dada pelas pessoas são confrontados, no entanto, com uma outra dimensão. Ainda que a área mantenha a sua importância, a análise da Reuters revela uma maior desconfiança dos portugueses face aos conteúdos noticiosos. Num quadro comparativo, entre 2015 e 2020, a confiança em notícias caiu 9,1 pp., dos 65,6% para os 56,5%. “Não obstante a grandeza dos dados gerais, os portugueses confiam menos em notícias com origem em plataformas de indexação online, com cerca de 4 em cada 10 a dizer confiar em notícias em motores de busca (43%) e menos de 3 em cada 10 declarar confiar em notícias com origem em redes sociais (28%)”, adiantam.

Do papel do jornalismo na sociedade até à forma como os profissionais da área olham para a evolução da profissão, a verdade é que a pandemia motivou novas reflexões sobre a sua vitalidade. Ao Gerador, Leonor Mateus Ferreira sublinha que “a pandemia abriu à sociedade civil uma discussão que já era tida há muito dentro do setor sobre o papel do jornalismo”. Essa abertura, ao transportar uma discussão interna para o centro do debate público, pode abrir um novo espaço para uma reflexão mais ampla sobre a sustentabilidade do setor. “Não sei que tipo de mudanças pode motivar, mas acima de tudo espero que sejam alterações que reforcem a independência dos media (e não o contrário). E espero essencialmente que a tomada de consciência da opinião pública não seja passageira”, conclui.

Por seu lado, João Ribeiro considera que “a pandemia acentuou as dificuldades do setor”, alertando para as diferenças de tamanho, mas também de financiamento, das diferentes redações: “o vírus não se faz sentir em todos por igual, mesmo dentro das redações. O que sofre um jornalista num pequeno media é incomparável com o que sofre um pivot a apresentar um telejornal. Contudo, em termos de percepção pública, talvez o segundo saia mais valorizado que o primeiro”.

Já Luís Loureiro sublinha que, a partir do momento em que existe uma determinada igualdade no acesso às fontes de informação que todos os cidadãos têm, aquilo que o jornalista produz “vai estar sempre sujeito a um escrutínio a que eu gostaria de chamar informado, mas que nem sempre o é”. “Há pré-formação opinativa daqueles que lêem uma coisa, que eventualmente até destorcem o que leram e que ficam bem com isso”, sustenta, acrescentado que é, por isso, essencial que se apoie cada vez mais outras formas de jornalismo, mais centradas na investigação e no questionamento permanente da própria informação que se procura.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de brotiN biswaS via Pexels

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