Para valorizar o território é preciso, primeiro, investir nas pessoas. A educação e formação especializadas, a valorização da cultura e a descentralização das decisões, foram alguns dos pontos destacados como cruciais para conseguir almejar a um futuro próspero para as zonas do interior, naquele que foi o terceiro e último dia do Festival Visit Portugal Descobre o Teu Interior.

Estratégias e procedimentos têm de ser repensados para aproveitar os recursos atuais

O primeiro destaque do dia 10 de abril foi O novo turismo interno, num painel que contou com a participação de Dalila Dias, Lídia Monteiro e Luís Veiga.

Lídia Monteiro diz que o turismo foi “sem dúvida” um dos setores mais afetados pela pandemia mas frisa que houve um aumento da afluência de turistas portugueses nos territórios de baixa densidade. “O interior foi, de uma forma geral, uma opção que os portugueses fizeram, no ano 2020”, referiu a diretora coordenadora do Turismo de Portugal, destacando que este cenário deve repetir-se este ano.

Já a Coordenadora da Rede Aldeias Históricas de Portugal frisou a importância das festas e romarias para os territórios de baixa densidade, cuja ausência prejudicou as pequenas localidades onde habitualmente se realizam. “Há sempre uma costela ligada ao interior, mesmo de quem já nasceu nas grandes cidades”, afirmou Dalila Dias referindo-se à impossibilidade de muitas famílias se reunirem. A responsável destacou ainda o facto de algumas destas festas terem procurado a digitalização e concordou que isso promoveu o contacto intergeracional.

Para Luís Veiga a hotelaria foi “a” área mais afetada pela pandemia, a par com o setor da aviação, porque, ao contrario da restauração, não conseguiu uma adaptação imediata às limitações impostas pela pandemia. O presidente da Associação de Hotelaria de Portugal referiu ainda outros fatores que “geram entropia” no interior, como as portagens nas ex-scut ou a falta de outros planos turísticos estruturados em rede.

Dalila e Lídia mencionaram não só a importância do turismo em rede, mas ainda os passadiços e rotas que têm vindo a ser desenvolvidas em várias áreas de natureza. A Coordenadora da Rede Aldeias Históricas de Portugal deixou claro, no entanto, que não vale tudo para receber mais pessoas, pois é importante preservar a relação com a comunidade local.

Os oradores foram unânimes na conclusão de que o interior é cada vez mais procurado, seja através do turismo cultural ou do turismo natureza ou de aventura. Apesar disso Luís Veiga deixou o apelo: “se não fidelizarmos as pessoas agora - ou seja, os turistas que nos visitam - esta rivalidade inter-regional [nomeadamente em relação a províncias espanholas] que vai aparecer, numa fase pós-pandémica, vai-nos destruir e vamos voltar ao mesmo”.

Para debater A resiliência do interior (o segundo painel do dia), o ponto de partida foi a burocracia inerente à aplicação de fundos europeus e forma como esta afeta o desenvolvimento de projetos nestas regiões. O Secretário de Estado Adjunto e do Desenvolvimento Regional foi perentório ao afirmar que “nós [Portugal] temos projetos, e projetos e projetos à espera daquele e daqueloutro parecer para que eles avancem”. Carlos Miguel frisou que este é um problema já antigo e destacou que “a burocracia emperra o desenvolvimento do país e, emperrando o desenvolvimento do país, emperra, naturalmente, também o desenvolvimento do interior”.

Esta falta de desenvolvimento afeta, desde logo, as populações residentes já que, em primeira instância, é delas a responsabilidade afeta à resiliência do interior. Para Margarida Pinto Correia “esta resiliência merecia mais ferramentas, porque temos um material [para desenvolvimento] incrível”.

Com estas “ferramentas” a gestora de stakeholders esclareceu que se refere a “menos ego e mais agilização dos projetos”, desde logo porque, em muitos territórios de baixa densidade há dificuldades na própria compreensão dos processos de candidatura aos fundos, o que bloqueia o acesso aos mesmos.

Para Francisco Ferreira, o interior tem de ser repensado não apenas do ponto de vista social e económico mas também ao nível do ordenamento do território. O presidente da associação ambientalista Zero, sublinhou que temos hoje “um clima mais quente, riscos maiores de incêndio [logo], uma gestão mais complicada do território para com esses riscos”. “Temos um interior polvilhado de habitações dispersas” o que, para o responsável “torna a gestão [de recursos] muito mais difícil e muito mais dispendiosa”, afirmou.

Repensar a educação e descentralizar decisões

No debate sobre Cultura e Educação foram sobretudo os modelos de ensino que estiveram sob escrutínio.

Reconhecendo a relação proporcional entre o consumo de cultura e a formação superior, Ana Costa Freitas diz que questão se coloca não tanto no acesso ao ensino superior - que diz ter-se vindo a “democratizar” nos últimos anos - mas prende-se com a necessidade de “facilitar o retorno das pessoas ao ensino, à educação”, já em idade adulta.

A reitora da Universidade de Évora sublinhou a importância de continuidade na educação, e admitiu a necessidade de mudança nos modelos.

José Pacheco, por sua vez, questionou todas as bases do modelo educacional, frisando que há demasiado tempo se mantém inalterado. “Ando há 50 anos a ouvir falar da educação no futuro e o futuro nunca mais chega. A educação do futuro está sempre no passado”, lamentou.

O antropogogo diz ter feito a “via sacra da desconstrução do modelo escolar e social instituído, que é um modelo importado do início do século XX” e questiona a falta de inovação no ensino. “Porque é que continua a centrar-se no professor?”

Ana Costa Freitas concorda e refere que é “um facto que o ensino, como tudo, tem de ser alterado. “A cultura, aquilo que se chama cultura, não sei se é cultura se é evolução da sociedade. Nós temos evoluído e portanto o ensino tem que acompanhar essa evolução”, declarou.

Aida Carvalho destacou os programas educativos desenvolvidos pela Fundação Côa Parque (a que preside) em parceria com os agrupamentos de escolas locais, que permitem fomentar a relação com o território e respetivo património. “Isto é um sinal caro que há aqui uma tentativa de mudança, que até mesmo os agrupamentos já perceberam que é fundamental esta interação com o meio”, referiu.

A responsável chamou à atenção para o facto de os níveis de escolaridade serem inferiores à média nacional nas regiões de baixa densidade, usando a atividade referida como um exemplo de mudança necessária.

Apesar de reconhecer pontos em comum, José Pacheco insistiu que discorda até dos termos aplicados à educação – como “agrupamento de escolas”, “dar matéria”, entre outros – e referiu a importância de o ensino ser focado no aluno. O responsável criticou fortemente a “perpetuação do modelo de ensino”, que diz não se alterar há cerca de dois séculos.

Todos os oradores concordaram com a necessidade de mudança para o desenvolvimento do interior. Estas mudanças, que se ambicionam para o futuro, foram, aliás, o mote do último painel de debate do Festival Visit Portugal Descobre o teu Interior.

Para Desenhar o futuro do interior, Catarina Valença Gonçalves destacou a importância da descentralização para melhor encarar as necessidades dos territórios, que diz não serem compreendidas “em gabinetes”. A fundadora e CEO da Spira diz que a experiência e vivência do quotidiano é “fundamental para se conseguir compreender as razões profundas pelas quais muito do desenvolvimento que vem desenhado em papel depois na prática não funciona”. A responsável sublinhou que “é impossível perceber o que são estes fenómenos, nomeadamente estas relações humanas nos territórios sem estar aqui”.

Luís André Sá, diretor do Festival Planalto, acredita que a educação, cultura e turismo são os “três pilares” para um melhor futuro do interior. O responsável acredita que “estas três estruturas deviam estar efetivamente interligadas” e frisou que são muitas vezes cultivadas por projetos como o seu, desenvolvidos no território, que acabam por aplicar políticas públicas necessárias sem que as entidades políticas estejam de facto envolvidas. “O que temos de começar a falar não é da descentralização, mas sim da centralização destes territórios periféricos”, declarou.

Sara Barriga Brighenti disse, por sua vez, que a conceção que é mantida em relação aos territórios deve ser gerida cuidadosamente. “É muito importante a maneira como falamos dos lugares, as palavras que usamos para os designar. Falar de periferias, falar de descentralização são tudo formas que, se calhar, trazem para a nossa cabeça ideias feitas”. Dando o exemplo da “excessiva romantização do interior ou, pelo contrário, “ideias mais ligadas a despovoamento, declínio, empobrecimento u desigualdade”, a subcomissária do Plano Nacional das Artes referiu que é necessário arranjar formas de tornar o país “maior”, valorizando-o além dos centros urbanos.

Também a participação democrática foi referida como chave para capacitar jovens a intervir em projetos que possam vir a ser estruturantes. Para Catarina Valença Gonçalves o futuro do interior é, antes de tudo “feito de pessoas”, motivo pelo qual as políticas publicas devem ser mais “construtoras” do que “dadoras”.

Luís André Sá referiu a importância de “democratizar as escolhas” dos residentes e destacou que essa ação permite atribuir “às pessoas que vivem nos territórios uma importância de pensar o sítio onde vivem e que é que querem para ele”.

“Se todos pensarmos que somos capazes vamos mesmo criar um futuro diferente”, disse ainda Sara Barriga Brighenti.

Interior é um “mundo para voltar a explorar”, diz Ana Abrunhosa

Após três dias de longas e diversas reflexões sobre o interior de Portugal, a Ministra da Coesão Territorial foi quem teve as honras de encerramento. Ana Abrunhosa elogiou a iniciativa do Gerador, e referiu a importância da participação de todos neste debate, pois “só de forma integrada é que conseguimos o desenvolvimento que queremos para o interior”.

A responsável referiu a importância de um “desenvolvimento que tem de ser centrado nas pessoas”, e em que a principal preocupação tem de ser “cuidar de quem já cá está”.

Ana Abrunhosa enumerou diversos elementos que importa valorizar para promover o desenvolvimento, como a educação, a ciência, os serviços públicos, a digitalização e o setor social.

 “Nesse novo olhar, o interior já não é mais um caminho de cabras, já não é mais uma mulher de lenço preto na cabeça, já não é mais a floresta, a agricultura e o meio rural. É, sim, a agricultura, a floresta, o meio rural com conhecimento, com tecnologias, com pessoas qualificadas e com outras atividades”. O interior “é um mundo que o nosso próprio país tem de voltar a explorar”, concluiu Ana Abrunhosa.

O Festival VisitPortugal Descobre o Teu Interior decorreu entre 8 e 10 abril e contou com a participação de dezenas de oradores de vários quadrantes da sociedade, desde políticos, a governantes, passando por responsáveis associativos e artistas. O evento teve o apoio dos Municípios da Guarda e Mértola e incluiu debates, atuações artísticas e espaços de lazer, que contribuíram para destacar a riqueza e cultura das regiões do interior.

Texto por Sofia Craveiro

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