Há cerca de dois anos, em janeiro de 2019, saía no jornal Público uma reportagem, assinada por Samuel Silva, sobre a falta de interesse ou motivação dos jovens portugueses para prosseguir estudos no Ensino Superior. “Portugal tem muitos alunos no secundário, mas poucos chegam ao superior”, lia-se no título seguido de uma entrada que o aprofundava: “Há mais estudantes no 12º ano do que nos parceiros da OCDE, mas os que ingressam numa universidade ficam aquém da média internacional. Modelo dos cursos profissionais e pouca diversidade de ofertas no superior ajudam a explicar o fenómeno.” Este ano, cerca de 53 mil alunos foram colocados no Ensino Superior, um número que marca um máximo histórico no contexto português. Ainda assim, há quem não veja o seu caminho a passar pela universidade — seja por falta de condições económicas, ou simplesmente porque não lhes faz sentido. 

“O tabu sobre quem não vai para a universidade”, que serviu de título a uma reportagem feita no contexto britânico, publicada em setembro deste ano na BBC, existe em Portugal, como em Inglaterra, e noutros lugares pela Europa. Em conversas entre jovens adultos, é frequente surgir a pergunta “és de que área?”, seguida de “em que universidade estudaste?”, partindo do princípio que todos os caminhos passam pelo ensino superior, especialmente quando se encontram em contexto de trabalho. Mas não só nem todos os caminhos são os mesmos, como nem todos os percursos fazem sentido para quem os percorre. 

“Há, obviamente, uma pressão social para prosseguir estudos da forma mais ‘normal’ possível”, diz Matilde Cunha, fotógrafa natural do Porto, que acredita que também faz parte desconstruir essa ideia perante “a família, o amigo e o primo, mostrando que existem outras opções e cada um sabe de si”. Matilde, com 24 anos, estudou fotografia na Escola Artística Soares dos Reis (Porto), tirou um CET – Curso de Especialização Tecnológica no IADE (Lisboa), durante um ano, e um Curso Avançado de Fotografia no Ar.Co (Lisboa), durante dois. Para si, esta foi a formação ideal e não teria feito outra, nem de outra forma. 

André Sancio, brasileiro de 21 anos a viver em Portugal há cerca de quatro, passou pelo Politécnico de Santarém, no curso de Marketing e Publicidade, mas acabou por desistir do curso em quatro meses. “Entrei, porque tinha a pressão externa que me dizia que eu precisava de uma faculdade, então entrei no que consegui. Fiz o 10º e o 11º no Brasil, por isso não tive uma boa média. Me sentia humilhado, mesmo não tendo culpa nenhuma”, partilha. 

Já Pedro Faria Cunha, designer de 33 anos, tirou um curso técnico-profissional de Design Gráfico de Comunicação e, entre 2011 e 2013, frequentou o curso de Design numa faculdade, que não concluiu. Entre 2014 e 2019, teve o seu primeiro emprego como Designer Gráfico numa companhia de teatro, onde fazia os materiais de comunicação, mas “o valor que recebia era mínimo”, não chegando ao de um part-time, e viu-se obrigado a manter outros trabalhos. Trabalhou numa empresa de transportes, num call-center e numa fábrica; paralelamente, ganhou experiência no Design na companhia de teatro em que esteve durante  cinco anos e, em 2018, lançou-se num projeto “em que conseguia criar sem qualquer tipo de restrição artística”. Com um portfólio completo, começou a conseguir “viver do design”. 

Matilde Cunha, André Sancio e Pedro Faria Cunha têm caminhos distintos, backgrounds também eles distintos e o lugar onde querem chegar não é o mesmo — mas para lá chegar, sabem com certeza, não precisam de um curso superior. Em comum têm, além dessa certeza, o facto de já terem sentido na pele o preconceito por não seguirem um caminho “tradicional”, cada vez mais visto como saída única e óbvia. 

Como se a universidade fosse uma obrigação, e quem não tem curso superior fosse uma pessoa de ‘segunda classe’ ”

“Eu, como muitos que conheço, cresci com a ideia de que a vida é linear. Nasces, vais para a escola, vais para a faculdade, tiras um curso, vais trabalhar (nessa área), casas, tens filhos e pronto. Ao crescer nunca me foi dada a opção de não ir para a universidade; os meus pais queriam que eu fosse, mas na altura em que deveria ter ido não fui (muito por minha culpa, nessa altura já trabalhava). Optei por tirar um curso técnico-profissional e foi aí que me apercebi de que talvez não fosse preciso ir para a universidade”, partilha Pedro. Na altura, Pedro conhecia algumas pessoas que estavam a tirar design num instituto especializado na área e, em conversas, percebia que já estava “preparado para uma realidade que eles desconheciam por completo”. 

Não prosseguir estudos na universidade já era uma ideia cimentada, para si, mas sentia que “nunca iria encontrar um trabalho na minha área sem ter um ‘canudo’ ”. Entrou para a universidade no programa +23 anos, frequentou o curso durante um ano e meio, mas não o chegou a concluir por “questões familiares e monetárias, e até mesmo por falta de motivação”.  “Devo admitir que foi algo que gostava de ter terminado e cheguei a contactar a faculdade, anos mais tarde, para ver se podia voltar… entretanto fechou”, conta Pedro.  

Já André partilha que nunca conseguiu entender “se a vontade de ingressar na universidade” era sua ou imposta por algo superior a si. “Sempre me fazem essas perguntas [“onde estudas? que curso tiraste?”] como se a universidade fosse uma obrigação, e quem nao tem curso superior fosse uma pessoa de ‘segunda classe’.” Há sempre um “olhar que menospreza”, conta, seguido da pergunta “o que vais fazer da vida agora?”, “como se houvesse apenas a universidade como opção para um futuro de sucesso”. 

O jovem de 21 anos acredita que este pensamento vem de trás, de um tempo em que “se não fosse ser médico seria advogado, ou então faria algum serviço braçal”, que está de tal forma enraizado que dificulta o trabalho de desconstrução. “Há tantas opções, porque é que temos sempre de seguir todos a mesma, e porque é que temos todos de nos identificar com o mesmo e seguir o mesmo caminho?”, questiona Matilde Cunha, que admite continuar a fazer formações práticas direcionadas à área da fotografia. 

Sobre o preconceito dirigido a quem não prossegue estudos no ensino superior, Matilde Cunha acredita que “na área artística existe algum preconceito, mas não é das piores”. A fotógrafa sublinha que em alguns cursos é mesmo necessário ir para a universidade — como por exemplo em medicina —, mas que noutros, como no seu, não é tão linear. Pedro, que também trabalha na área, conta que “neste momento” não tem “qualquer tipo de problemas”, nem liga, mas já sentiu “uma ‘aura’ de superioridade por parte de algumas pessoas devido à questão de não ter um curso superior.” Curiosamente, no lugar onde trabalha, apenas uma de quatro pessoas trabalha na sua área de formação. 

O aspecto levantado por Pedro convida a um olhar para o artigo “Engenharia Civil e Psicologia são os cursos com mais desempregados”, publicada no Diário de Notícias a 30 de abril de 2017, e assinada por Sérgio Pires. No subtítulo encontram-se duas frases-resumo desta reportagem que reunia, na altura, alunos de licenciatura e recém-licenciados a trabalhar em áreas que não a de formação: “Os alunos não deixam de escolher em função do gosto. Mas muitos acabam por só encontrar trabalho fora da sua área de formação.”

A exigência de um curso superior surge, muitas vezes, nas vagas de emprego no Linkedin ou em propostas que vão aparecendo noutros espaços que se destinam a estabelecer uma rede de contactos. André, aquando da sua procura de emprego, conta que encontrou “exigências que não faziam sentido”, como por exemplo em “cargos como ‘Chefe de Equipa’, em empresas de logística, pediam candidatos com ensino superior — e não um curso em específico, podia ser qualquer um”. “Isso aconteceu na última empresa em que trabalhei. Dos três chefes de equipa, só o mais novo tinha curso superior, e ironicamente era o menos competente, a meu ver. Qualquer colega de trabalho meu, com 10 anos de empresa, saberia fazer o trabalho dele com sucesso”, desabafa.

Com este desabafo, André não pretende tirar credibilidade ao ensino superior, mas reforçar a ideia de que um curso universitário não é sinónimo de sucesso e credibilidade. “O mundo mudou muito, há infinitos caminhos para o sucesso e para a felicidade. Até quando vamos abrir mão da nossa felicidade e realização pessoal por um salário mediano e uma reforma nos nossos últimos anos de vida?”, pergunta. 

“Quando entrava no site ‘carga de trabalhos’ e via um anúncio que correspondia ao que procurava, muitas vezes tinha como condição ter uma licenciatura. Nunca consegui um trabalho pela via tradicional de responder a um anúncio, tem sido um boca a boca. Mas ainda acredito que não é o único caminho, e que cada vez mais existem caminhos alternativos”, diz Pedro seguindo a mesma linha. Como exemplo fala do seu irmão que “está a frequentar um curso técnico-profissional que tem uma taxa de empregabilidade superior a 80% (nos primeiros meses) com um ordenado a rondar os 1200€” e, “apesar de não ser o seu dream job, é algo que gosta muito de fazer”.

Matilde Cunha partilha que não sentiu, em algum momento, que não ter formação superior lhe tenha limitado oportunidades.  “Já me perguntaram várias vezes onde é que eu tinha estudado e que percurso tinha feito e, quando disse que não me licenciei, algumas pessoas ficaram meio “OK…”, mas eu acho que isto só faz diferença em empresas maiores e que dêem mesmo valor a esses diplomas. Eu nunca quis seguir uma área muito institucional na fotografia, e como trabalho como freelancer acaba por não  interessar tanto o que é que eu estudei e onde estudei”, conta. “Acho que nunca deixei de fazer um trabalho por causa disso — ou pelo menos nunca mo disseram frontalmente.”

Neste momento, Matilde Cunha continua o seu trabalho enquanto freelancer e trabalha para diversas marcas e projetos editoriais; Pedro Faria Cunha tem um trabalho full-time como designer e gere o seu projeto editorial, a revista FOmE; e André Sácio despediu-se do lugar em que trabalhava para se dedicar a um projeto pessoal. Nos três, destaca-se uma vontade de não seguir um caminho que é a norma só “porque sim”, ou “porque tem de ser”, e a persistência de mostrar que as possibilidades são múltiplas. 

Texto de Carolina Franco
Colagem a partir da fotografia de Nathan Dumlao

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