Depois de muitos anos a viver no estrangeiro, tinha finalmente decidido regressar a Lisboa.  Com cerca de 18 anos da sua vida empacotados em caixas de cartão e um bilhete só de ida, levava ainda a confiança de ter deixado todas as suas histórias pendentes resolvidas e o peito cheio de determinação. 

Costumava visitar a família três ou quatro vezes por ano mas, da última vez, apenas fora a Lisboa para despedir-se da mãe. Foi tudo demasiado rápido, sem dó nem piedade. A mãe, tal como tantas outras pessoas, foi enrolada num saco e enterrada sem cerimónias fúnebres. Nesse dia, passou pela casa dela, fechou as portadas, regou as plantas do jardim e esvaziou o frigorífico. Não derramou uma única lágrima. Não conseguiu. Depois, pediu à vizinha do lado que lhe arranjasse alguém para limpar a casa, na expectativa de voltar no fim de semana seguinte. Mas não voltou. Nem nesse fim-de-semana, nem em todos os seguintes. 

Tinham passado exatamente nove meses desde aquele dia, quando decidiu tornar a casa.

Tinha uma conferência importante ao fim da tarde.  Adorava falar para grandes audiências, quer estivesse num grande auditório, quer em frente ao seu portátil a palestrar para uma audiência online. Mas naquele dia acordou inquieto. Sentia-se angustiado.

E foi nesse preciso instante que recebeu aquele email.  

Nunca tinha pensado em voltar a trabalhar no seu país de origem. Já tinha recebido várias propostas ao longo da vida que sempre recusara. Considerava que o seu coração pertencia aquele local, ao epicentro da Europa. Era ali que toda a sua vida adulta tinha acontecido. 

Em menos de duas semanas, deu por si a fechar a porta do seu apartamento pela última vez e a apanhar um táxi para o aeroporto.  Chovia torrencialmente. Aliás, chovia torrencialmente há já várias semanas. Pelo que aquele dia era apenas mais um dia, igual a tantos outros dias. 

Sempre que chovia Artur usava a sua emblemática gabardine amarela, oferecida pelos seus amigos de Londres quando fez 30 anos. Era visto pelos seus pares como um homem elegante e com muita pinta e, por essa razão, tinham-lhe oferecido “aquela” gabardine, dizendo que só mesmo ele conseguiria transformar uma gabardine de um urso num novo conceito de moda masculina na capital da Europa. 

Ninguém ficava indiferente ao ver aquele homem alto, de cabelos negros e barba em forma de pêra, com aquela indumentaria. Rapidamente começou a ser apelidado como Homem Paddington. 

Com um olhar feliz, sentou-se num lugar do avião junto à janela e despediu-se do “do seu” país. Pediu um aperitivo e começou a ler o seu novo livro de bolso: Guia American Express de Lisboa. 

Foi com esse espírito que sobrevoou a sua nova capital e vislumbrou aquele que seria o seu novo bairro. Nunca tinha reparado que, visto do céu, se parecia com um coração. Recostou-se e começou a pensar em Português. Há muito tempo que tinha adotado outra língua materna. Sentia-se bem e disponível para viver o resto da sua vida. 

No dia seguinte, ao acordar, decidiu dar uma volta pela vizinhança. Reconheceu uma senhora amiga da sua mãe. O pai tinha sido jardineiro no palácio de Belém e, pelos vistos tinha ensinado à filha esse mesmo prazer. O seu jardim estava irrepreensível. Lembrou-se da forma como a mãe costuma falar da Dona Perseverança: “Sabes filho, ela tem sempre uma palavra amiga e é tão meiga ao dirigir-se às pessoas que só essa sua doçura, abraça e conforta qualquer um. Sabe sempre calçar os sapatos dos outros e é a pessoa mais doce que conheço. A única amargura que traz dentro de si diz respeito ao dia em que o marido faleceu e em que não foi capaz de ser paciente com Deus”. 

Artur cumprimentou a Dona Perseverança e comunicou-lhe o seu regresso. A senhora, sorridente e feliz, ofereceu-lhe umas rosas vermelhas para embelezar a sua nova casa. 

Continuou o seu caminho e dirigiu-se ao bosque. Folgou em encontrá-lo especialmente arranjado. Dava para perceber que era bem tratado pela freguesia. Cheirava muito bem, a início de Primavera. Parecia um cocktail de boas vindas. Ouviu latidos de cães e caminhou nessa direção. 

Ao aproximar-se, ficou estarrecido.

Uma mulher, morena, de cabelos longos e vestido da cor do tempo, estava sentada num banco do jardim, por baixo de uma cerejeira. Naquele instante, sentiu uma brisa fresca do norte que abanou os ramos daquela árvore, cobrindo-a por centenas de pequenas flores. A imagem era tão bela que ficou ali, parado, a observá-la sem se mexer, com o bouquet de rosas vermelhas na mão.

(continuação da história anterior - segunda parte)

-Sobre a Marta Crawford-

É psicóloga, sexóloga e terapeuta familiar. Apresentou programas televisivos como o AB Sexo e 100Tabus. Escreveu crónicas e publicou os livros: Sexo sem TabusViver o Sexo com Prazer e Diário sexual e conjugal de um casal. Criou o MUSEX — Museu Pedagógico do Sexo — e é autora da crónica «Preliminares» na Revista Gerador.

Texto de Marta Crawford
Fotografia de Diana Mendes
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