Vergílio Ferreira foi um dos mais importantes escritores portugueses. Deixou-nos uma obra vasta e fundamental. O título do livro que escolhi, “Para sempre”, faz inteira justiça a todo o seu universo literário. É bonito escrever, em 2017, sobre um livro que foi publicado, pela primeira vez, em 1982.

De todos os livros que já li de Vergílio Ferreira, este foi aquele que mais me transformou enquanto leitor: pela atenção constante que esta escrita pede e merece, pelo sofrimento presente no enredo, pela genialidade em toda a construção da narrativa e pela relação com Deus, nomeadamente com a educação católica que também encontramos noutros livros do autor.

Estas páginas contam-nos a história de Paulo, no passado e no presente. É um encontro constante com as suas várias fases da vida, uma procura contínua pelo que ele conseguiu ser, um sofrimento profundo pelo que não foi.

Deixo-te uma questão, leitor. Ela surgiu-me, por diversas vezes, ao longo do livro: daqui a uns anos, vais encontrar-te com a pessoa que és agora. Será que te sentirás orgulhoso? Acredito que este exercício pode mudar pequenas coisas.

“O homem é um ser tão extraordinário. O que ele inventa para ver se é eterno. Não apenas na eternidade da grandeza, a que em obra e monumento e em História se fabrica, mas ainda em dimensão pequena e corriqueira, num corpo bem tratado e paradigmático que a morte não viesse codilhar. Mas vem sempre. Tapam-nos todos os buracos de acesso à Natureza para se cumprir, há sempre um que fica aberto.” – pág.81.

São muitas as citações que eu gostava de colocar nesta crónica. Principalmente pela sabedoria e pela inteligência de Vergílio Ferreira. No próximo excerto que te apresento, há uma aproximação à realidade da literatura contemporânea:

“O tempo do livro é o tempo da morte e nós estamos vivos e cheios de coisas a fazer. O tempo do livro é o da imaginação trabalhosa e nós estamos cheios de realidade. Descreve esta sala e vê o tempo que se leva, tu a escreveres e eu a ler. Mas eu olho a sala e sei logo tudo. O tempo do livro é o do carro de bois. Tenho mais que fazer.” – pág.107.

Talvez aqui se perceba que a escrita necessite de um tempo próprio e de um sentido orgânico. Tal como a verdadeira leitura. Quando se escreve, dá-se uma interpretação de alguma coisa. E é preciso fazê-lo porque, caso contrário, tudo continuaria a ser aquilo que é. A sala referida na citação anterior, não será a mesma se for passada para o papel.

Mostro-te, de seguida, um dos excertos que mais gostei de ler:

“Então há um jeito que fica como quando se pergunta «está bom?» ou «bom dia, como vai?», há um modo articulado de sermos, um gesto desencadeia outro nessa articulação, a vida é tão feita de automatismos. E tanto que enquanto se está a rezar se pode estar a pensar em assassinar alguém. Ou dizer «bom dia!» em dia de tempestade. Ou dizer «não sou crente, graças a Deus».” – pág.161

Dário Moreira