O Prémio Revelação Ageas Teatro Nacional D. Maria II tem como objetivo a promoção de talentos emergentes no âmbito do teatro nacional. Tratando-se de uma prémio anual, os elementos do júri têm até ao final de 2019 para decidir os favoritos. O processo culminará com a apresentação do vencedor, no dia 27 de março de 2020, que receberá 5000 euros.

Este prémio resulta da parceria entre o grupo Ageas Portugal, que opera na área dos seguros com marcas como a Ocidental e a Médis, e o Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII).

O júri tem um “elenco” de luxo, incluindo profissionais de várias áreas intrínsecas ao teatro: Albano Jerónimo, Álvaro Correia, Beatriz Batarda, Carlos Avilez, Catarina Barros, Cristina Carvalhal, Inês Barahona, John Romão, José António Tenente, Marta Carreiras, Mónica Garnel, Nuno Cardoso, Rui Horta, Rui Pina Coelho e Tónan Quito.

O Gerador foi ao Teatro Nacional D. Maria II para entrevistar os dois pólos da parceria – Cláudia Belchior, presidente do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II, e Teresa Thöbe, responsável pelas parcerias do grupo Ageas Portugal.

Gerador (G.) – Como surgiu a parceria entre o TNDMII e o grupo Ageas, bem como a ideia de criar este prémio?

Cláudia Belchior (C.B.) – Foi sobretudo um desafio lançado pelo grupo Ageas. Achámos que era muito pertinente para o Teatro D. Maria II porque há muitos anos, desde que me lembro, não existe um prémio de teatro avaliado por pares – (neste prémio) quem está a avaliar são pessoas conhecedoras do métier, pessoas que veem espetáculos, mas que também sabem fazê-los. É quase uma prova de generosidade. Por outro lado, foi extremamente gratificante perceber que uma empresa como a Ageas está a apostar no teatro, incentivando-nos e dando-nos a ideia do prémio. Surpreendeu-nos e foi uma iniciativa muito generosa por parte da Ageas.

Teresa Thöbe (T.T.) – A ideia do prémio surgiu a partir do nosso posicionamento na área da cultura. Temos esta parceria com o Teatro D. Maria II, mas também com outras entidades. Aquilo que queremos, além de tornar a cultura acessível a todos, é premiar, estimular e promover quem escolheu a arte como forma de estar. Criámos o prémio com essa ideia – a de divulgar o que está a ser feito no nosso país, quer a nível de atores, quer a nível de encenadores, cenógrafos, etc., distinguindo os jovens que escolheram ter o seu percurso profissional na área do teatro. A Ageas tem essa obrigação, é uma questão de responsabilidade para com o país, para com a sociedade e para com os nossos jovens que são o futuro. De certa forma, este prémio é uma consequência doutro projeto que tem corrido muito bem – o prémio Novos Talentos da Casa da Música (Porto). Este tem a mesma missão mas dirigida à música, os premiados passam a fazer parte da nossa família, vão aos nossos eventos internos, e gostamos de acompanhar o percurso deste jovens que qualquer dia serão adultos. No teatro, procuramos a mesma coisa e temos felicidade de contar com um júri espetacular que enriquece muito o prémio. Estamos muito felizes pelo Teatro D. Maria II ter aceitado este desafio.

G. – Este prémio foi pensado para estudantes finalistas das diversas áreas do teatro ou também engloba pessoas que não tenham seguido um percurso académico?

C.B. – Não é um prémio dirigido a finalistas, é um prémio para um(a) jovem até aos 30 anos, independentemente de ter, ou não, percurso académico. Procura-se alguém que se tenha destacado no ano anterior ao da atribuição do prémio. Pode ser um cenógrafo, um ator, um dramaturgo... Alguém que se tenha dedicado ao teatro e que se tenha destacado por ter feito um trabalho de qualidade inegável, segundo o júri.

G. – Em termos gerais, como é que o júri vai escolher o vencedor?

C.B. – O júri faz uma avaliação retrospetiva, ponderando sobre aquilo que se passou no ano anterior, para depois fazer a sua escolha. Não há inscrições e, portanto, o júri tem toda a liberdade. Há uma primeira reunião preparatória sobre os critérios de avaliação, a partir desse momento não há interferências por parte do Teatro D. Maria II, nem do grupo Ageas. O júri é soberano e independente nas suas escolhas. O prémio será anunciado no dia 27 de março de 2020, que é o Dia Mundial do Teatro.

T.T. – O júri deste prémio é constituído por 15 pessoas de diferentes áreas dentro do mundo do teatro. Isto permite que o prémio seja desprovido de qualquer influência. O facto de haver representantes de áreas distintas, ainda que complementares, torna o prémio bastante mais isento. Não se cai na tendência de distinguir apenas aqueles mais visíveis, como é o caso dos atores. Qualquer pessoa do teatro poderá receber o prémio, nomeadamente aqueles que estão no backstage.

G. – Como foi feita a seleção dos elementos do júri?

C.B. – Foi lançado o desafio a um grupo de pessoas com mérito e carreira publicamente reconhecidos. Procurou-se representar as diferentes áreas que operam em teatro – encenação, cenografia, dramaturgia, interpretação, etc. O convite foi feito pelo diretor artístico do Teatro D. Maria II, Tiago Rodrigues.

G. – De uma forma global e olhando para o panorama nacional, de que forma esta iniciativa da Ageas é importante no apoio aos jovens artistas? O que falta em Portugal?

T.T. – Talvez faltem mais iniciativas como esta. Na Ageas, acreditamos que o apoio privado a instituições, como o Teatro D. Maria II ou a Casa da Música que têm a missão de prestar um serviço público, ajuda a criar mais oferta e mais procura. Havendo oferta em Portugal, há que divulgá-la. O que falta é, sobretudo, dar visibilidade àquilo que temos. Este prémio dá visibilidade, e a visibilidade traz pessoas. Além disso, ao lançarmos iniciativas deste tipo estamos a inspirar outras empresas para o fazerem também. Queremos acreditar que daqui a alguns anos existam muito mais empresas a apoiar a cultura. Há outras empresas que o fazem, mas o objetivo é que este tipo de prémios e de iniciativas se multipliquem.

G. – Para além do prémio monetário (5000 €), de que forma é que esta iniciativa contribui para o aperfeiçoamento do sistema de educação na área artística? (objetivo referido no regulamento deste prémio)

C.B. – Estes prémios são importantes de forma multifacetada. Não só leva ao reconhecimento de quem faz teatro, como é também um incentivo ao apoio. Existe o sentimento de que é difícil obter-se o apoio das empresas nas áreas do teatro – nisso a Ageas destacou-se. Em comparação com o mundo da música, no teatro é mais difícil arranjar parceiros da sociedade civil ou da sociedade empresarial para nos apoiarem. Além disso, o facto de termos uma empresa a apoiar este prémio é um estímulo para que as próprias escolas se tornem também mais audazes.

T.T. – É também uma forma de promover a retenção. Vemos que muito alunos acabam o seu percurso académico – quer na Escola Profissional de Teatro de Cascais, quer na Escola Superior de Teatro e Cinema – e acham que a única opção é ir para fora por falta de oportunidades e reconhecimento em Portugal. O objetivo é mudar um pouco esta mentalidade, mostrar que não é bem assim, que o teatro está cheio – cheio de pessoas jovens. É importante que os jovens percebam que também há oportunidades cá dentro. Além disso, o facto de Carlos Avilez ter sido escolhido para integrar o júri deixou-nos muito satisfeitos. Carlos Avilez é o diretor da Escola Profissional de Teatro de Cascais que, além de ter uma carreia no teatro, tem também uma carreira robusta no meio académico. Trata-se de uma pessoa muito versada nesta área de formação que irá partilhar o seu conhecimento.

G. – Que outros projetos o Teatro Nacional D. Maria II tem em mãos para a promoção de novos talentos?

C.B. – Temos vários. Procuramos integrar pessoas mais jovens. Todos os anos, recebemos 12 estudantes finalistas de teatro – 6 em cada temporada. Este jovens trabalham connosco, sendo integrados nas peças do Teatro Nacional D. Maria II. Estes atores, ao serem integrados numa temporada, vão trabalhar com vários encenadores, completamente diferentes entre si, e vão fazer peças também completamente diferentes. Podem fazer um clássico, mas também podem fazer uma peça mais dedicada ao público infantojuvenil. Vão trabalhar texto, vão fazer leituras encenadas... Têm a oportunidade de trabalhar de uma forma profissional, muito séria, durante uma temperada. A experiência que temos tido é a de que quase todos estes jovens acabam a trabalhar – isso é muito bom. Muitos voltam ao Teatro D. Maria nos encontros que aqui se organizam, por exemplo, na altura do Natal, na altura do Dia Mundial do Teatro. Muitas vezes queremos mesmo contratá-los, mas já não estão disponíveis, o que é bom sinal. Outro projeto que temos é a Bolsa Amélia Rey Colaço que procura apoiar a produção de espetáculos de jovens artistas e de companhias emergentes. Tem a colaboração do Teatro Nacional D. Maria II, do Centro Cultural Vila Flor, d’O Espaço do Tempo e do Teatro Viriato. Neste projeto, os grupos/companhias de teatro têm um período para concorrer, isto é, para apresentarem a sua ideia. A peça/ideia escolhida pelo júri será trabalhada e depois apresentada nos quatro locais já referidos. A escolha da peça vencedora dá-se um ano antes da tournée – durante um ano aqueles artistas têm espaço e tempo para escrever, para experimentar, para ensaiar, para voltar atrás... para recomeçar. É um período de liberdade e há tempo. Normalmente, as companhias de teatro têm muito pouco tempo, pouco tempo para ensaiar porque o dinheiro é curto, e porque num mês e meio tem de estar tudo pronto para a estreia. No projeto Amélia Rey Colaço, não é assim há muito tempo. Temos tido projetos extraordinários e estamos com muita expetativa em relação ao próximo.

G. – Em que outros projetos de âmbito cultural o grupo Ageas está envolvido?

T.T. – No Teatro Nacional D. Maria II, há ainda outro projeto, não relacionado com os novos talentos, que tenho de referir. Prende-se com a circulação das peças D. Maria e chama-se Rede Eunice Ageas. Tivemos a felicidade e a honra de associar o nome Ageas à grande atriz Eunice Muñoz. O objetivo é permitir que produções e coproduções do Teatro D. Maria entrem em tournée pelo país inteiro, incluindo as ilhas, chegando assim aos teatros municipais, aos cineteatros, etc. É um projeto que nos diz muito porque está associado aos nossos valores, queremos tornar o teatro mais acessível – não é apenas para quem está nas grandes cidades. Para além deste projeto, temos o da Casa da Música, com o prémio Novos Talentos que já vai para a terceira edição. Além disso, estamos presentes no Festival Internacional de Música de Marvão e também no Festival das Artes em Coimbra que tem lugar no jardim da Quinta das Lágrimas. Para concluir, temos o Coliseu Porto Ageas. No dia 27 de setembro, organizámos um concerto com uma orquestra metropolitana – conseguimos encher o Coliseu.

G. – Voltando ao prémio Prémio Revelação Ageas Teatro D. Maria II, porquê a restrição da idade? (jovens até aos 30 anos de idade)

C.B. – Sem dúvida que podíamos ter optado por uma pessoa que se tivesse destacado no ano anterior independentemente da sua idade, mas também acreditamos que esse tipo de prémios já existe, noutras instituições, como o Prémio de Teatro SPA, o Prémio da Fundação GDA, etc. – portanto, achámos que era fundamental direcionar o nosso prémio para as idades em que as dificuldades são muito maiores. É difícil para um jovem começar. Infelizmente, ainda não temos um mercado de teatro que integre facilmente todos os jovens profissionais. Nós sentimos que é necessário chamar a atenção para estes jovens que são muito talentosos. Temos visto jovens maravilhosos a trabalhar em Portugal e que, por vezes, têm de recorrer àquilo que é mais imediato porque sentem que no teatro não conseguem fazer uma carreira a tempo inteiro. Acreditamos que com estes prémios, estamos a destacar estes jovens profissionais – o que poderá ser um estímulo importante.

Texto de Maria Costa

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