O SOS Racismo surgiu em 1990, pelas mãos e a visão de José Falcão. O SOS Racismo surgiu, já na altura, por uma sensação de urgência no combate à violência generalizada, que culminou no assassinato de José Carvalho, militante do Partido Socialista Revolucionário, junto à sede do seu partido por um grupo de neonazis, em 1989. No ano em que o SOS surge, sai na RTP uma reportagem sobre o medo, naturalmente também generalizado, que as “comunidades africanas” tinham de skinheads. “Ah, vai para a tua terra, há alguns que dizem isso”, contava Pedro Mendes Moreira, funcionário da Carris, logo no início da reportagem. Sobre os skinheads, Eusébio Eduardo, um estudante, dizia que só os via na televisão, mas que quando saía, todas as noites, para ir aos treinos, tinha medo. 

Trinta anos depois, frases como a que Pedro Mendes Moreira ouvia, na altura, continuam a ser proferidas — na rua, nas escolas, no ambiente de trabalho, nas redes sociais. Mamadou Ba, que se juntou a José Falcão no SOS Racismo em 1998, ano em que também trabalhou nas obras da Expo 98, recebe mensagens como essas diariamente. E é para as combater que trabalha, também diariamente, na luta anti-racista, pela descolonização das mentes e das instituições, de forma incansável. Pela dignidade da comunidade negra em Portugal. Pelo caminho, vai-se juntando a outras pessoas que “amplifiquem” esta luta que é, sobretudo, pela liberdade e pela dignidade. Dois mil e vinte, trinta anos depois da criação do SOS Racismo, foi o ano em que se juntou a Eddie Pipocas, fundador e jornalista do Bantumen, para pôr em perspetiva três décadas de luta anti-racista em Portugal. 

Se não fosse o segundo confinamento obrigatório, 30 anos, olhares sobre o racismo teria estreado no Doclisboa, no passado dia 14 de janeiro, seguido de uma apresentação com Dércio Ferreira, co-realizador do documentário que contou também com o olhar de Bruno Cabral e Eddie Pipocas. Se não fosse a pandemia, provavelmente ter-nos-íamos encontrado com Eddie Pipocas e Mamadou Ba num local público para conversar sobre o filme. Ainda que a estreia do filme tenha acabado por ficar em espera, posteriormente anunciada para o próximo dia 20 de fevereiro, e que essa conversa não fosse já possível de acontecer, encontrámo-nos através de uma plataforma de videoconferências — de outra forma não estaríamos em Paris, em Lisboa e em Setúbal ao mesmo tempo. 

Por detrás de Mamadou, na sede do SOS Racismo, uma estante de dossiers cobria a parede e via-se surgir um vulto a reorganizá-los, de vez em quando; era José Falcão. Ao seu lado, simbolicamente, Eddie sentado numa poltrona, com uma energia contagiante. A conversa não tinha tempo limite, só tinha um ponto de partida, o documentário, e um assunto que certamente estaria sempre a ligar cada pergunta e resposta, a importância de debater e combater o racismo. E foi esse o ponto de partida e de chegada. 

Gerador (G.) - O documentário que fazem em conjunto marca 30 anos de racismo, que são também 30 anos de existência da SOS Racismo. Onde é que vocês, Eddie e Mamadou, estavam há 30 anos?
Eddie Pipocas (E.P.) - Vamos começar pelo Mamadou [risos]. 

Mamadou Ba (M.B.) - Há 30 anos estava eu no Senegal, cheguei a Portugal quando o SOS [Racismo] tinha sete anos de vida e juntei-me logo em 98. Há 30 anos eu era ativista estudantil no Senegal e fazia parte da direção da associação académica da Faculdade de Letras da Universidade Cheikh Anta Diop e quando cheguei aqui vim com uma bolsa do Instituto Camões, e evidentemente o meu primeiro embate foi logo um embate com o racismo. Vinha com uma posição privilegiada, porque vinha com uma bolsa, não vinha como um emigrante convencional, digamos assim — como vinha com uma bolsa, supostamente teria alguma proteção, desse ponto de vista, mas isso não me poupou ao confronto com o racismo. O primeiro embate foi logo quando fui ocupar o quarto que me foi atribuído pelos serviços sociais na Residência Tomás Ribeiro, onde aconteceu um episódio caricato que era muito revelador do racismo já na altura. Mas como eu também vinha um bocado na senda do ativismo, não me deixei levar; arredei pé, lutei pelo meu direito. Foi um episódio realmente caricato, era uma residência que não tinha muita gente negra, tinha dois estudantes negros, um de Cabo-Verde e um de Angola, não tinham tido estudantes negros ainda por cima não-PALOPS (eu não sou PALOP), então era uma confusão na cabeçoa deles como é que um tipo, que ainda por cima não é PALOP, está a estudar português e ainda por cima chega como caloiro. Porque toda a conversa começa em torno da ideia de caloiro: normalmente, nas residências universitárias, os caloiros não podem ocupar um quarto individual; há umas regras artistocráticas que eu nunca percebi, e a mim tinha-me sido atribuído um quarto individual porque eu vinha fazer o mestrado, e entenderam que eu não podia ocupar esse quarto. Recusei-me, naturalmente, a desocupar o quarto, e então gerou-se uma grande confusão, tivemos de ir aos serviços sociais da Universidade de Lisboa, acabei por ficar no quarto até me apetecer deixar de estar, porque entretanto chegaram umas levas de estudantes senegaleses e aí comecei a dividir quarto com um outro estudante senegalês e um estudante espanhol. 

Eu chego, também, numa altura em que Portugal estava muito flagelado com a questão da emigração. Na década de 90 estava tudo a correr para preparar a Expo 98, é uma altura em que o país está literalmente obcecado com o sucesso do que podia ser uma espécie de regresso ao passado glorioso. Todo o desenho arquitetural da Expo 98 a isso se remete: a essa nossa glória. O desenho urbano da própria Expo tem toda essa simbologia, das ditas descobertas. Eu começo também a trabalhar nas obras, porque infelizmente os países africanos na altura, e acho que não mudou muito, abandonavam os seus estudantes. Os estudantes chegavam aqui, tinham uma bolsa, e passado algum tempo já não havia bolsa, porque não cumpriam com o protocolo e os serviços sociais deixavam de pagar a bolsa, só pagavam uma parte. Evidentemente eu deixei de ter bolsa, e comecei a trabalhar nas obras. E onde é que eu fui parar? Às obras da Expo 98. Desempenhei lá funções de servente de pintor, servente de pedreiro, servente de carpinteiro, depois pintor… e começa assim o meu embate com a realidade do racismo. E a minha primeira interação com o movimento associativo foi com uma associação que ainda existe, que se chama Olho Vivo, porque, na altura, os emigrantes não tinham contratos, embora existisse uma coisa que era uma vergonha, o quadro de trabalho para estrangeiros — que era uma espécie de lifting do código de indigenato — havia um código de trabalho para estrangeiros, mas mesmo assim raramente os estrangeiros tinham contrato de trabalho. Então eu não tinha contrato de trabalho. Éramos apanhados ali no Campo Grande ou no Colégio Militar, e trabalhávamos à jorna. Tínhamos um acordo verbal com o patrão que nos dizia “quanto é que tu cobras por desempenhar esta função?”, e eras levado para o estaleiro, trabalhavas, o encarregado apontava o número de horas que tinhas feito e depois ao fim da tarde entregava ao engenheiro ou mestre de obras, e no fim do mês faziam-se os cálculos e pagava-se aos emigrantes. E o que é que os patrões faziam na altura? Sabendo que não havia contrato e que havia uma perseguição aos emigrantes por parte do SEF, chegavam ao fim do mês e diziam-te — “trabalhaste 40 horas, mas eu pago-te 15, e se tu refilares eu vou-te denunciar ao SEF”. Eu fui trabalhar na Quinta do Infantado, que era dentro do pacote da modernização do país, no âmbito da Expo 98, e o meu patrão resolveu pagar-me um terço do total do salário que me devia pagar, e então indicaram-me a Olho Vivo, que apoiava emigrantes que tinham problemas salariais com os seus empregadores. Eu fui ter com eles, e depois criei, com alguns amigos, a associação Luso-Senegalesa, em 97, e nessa criação depois sou chamado pelo José Falcão da SOS Racismo para a criação da Rede Anti-Racista em 98, e, a partir daí, junto-me à SOS. A partir daí, acontece também outra situação caricata, porque eu apareço na televisão no primeiro congresso da Rede Anti-Racista e nesse dia sou despedido, porque o meu patrão me vê na televisão e diz que quer um trabalhador, não quer sindicalistas. Esse é o contexto em que eu entro no SOS, e, desde então, aqui estou. 

E.P. - Em 95 a minha mãe tinha acabado de se mudar para Portugal, e eu não vim logo com ela, mas vim visitá-la com os meus avós e fiquei hospedado no Hotel Mundial, no Rossio, e acabei por ficar lá — não sei se é verdade ou não — durante seis meses, e era vizinho do Kumba Lalá, o ex-presidente da Guiné Bissau. Eu na altura estava a estudar em Portugal e a minha mãe, que era assistente de bordo, ficava sempre nos hotéis onde eu ficava, e ele tomou conta da minha pessoa durante seis meses. No entanto, acho que vivo o anti-racismo agora que sou adulto, mas se me for lembrar de uma memória ligada ao racismo, nessa mesma altura estávamos na confeitaria na Praça da Figueira, eu, o malogrado presidente da Guiné Bissau, e um senhor caucasiano gozou com o meu cabelo, que é crespo e comparou o meu cabelo à palha de aço. Houve uma discussão, e quando a minha mãe chegou foi para a esquadra porque bateu com o chapéu de chuva no senhor. Então, quando penso há 30 anos, é deste episódio que me lembro quando penso na estrutura do racismo. Eu regressei a Angola e vinha a Portugal de castigo, porque em Angola eu tinha liberdade para passear, e cá a minha mãe vivia sozinha, então quando vinha para Portugal era para estar no apartamento sozinho. Eu lembro que sou dos primeiros negros que eu conheço a ter PlayStation, não porque eu era uma boa pessoa, mas porque precisava de uma companhia. São essas recordações que tenho… e o racismo eu acabo por viver agora, que me mudei para Portugal definitivamente já quase adulto, com 15/16 anos. Desde as notícias a impasses na música, como aconteceu com situações que eu antes não sabia explicar, como quando estava a Força Suprema na SIC e quem apresentava o programa em questão era o Daniel Nascimento, ele fez uma pergunta a um dos membros dos Força Suprema e, na altura, um deles respondeu, o Daniel Nascimento, que agora está em Angola, diz assim “calas-te tu e fala ele, porque assim não nos fazes envergonhar”. São essas memórias que eu tenho do quanto precisamos ter cuidado do que falar, de como vestir, o que vão pensar de nós. Sempre foi aquele cuidado redobrado, em que na Amadora todo o mundo fazia fiado na cantina mas a minha mãe tinha horror porque o negro não podia dever a ninguém. São essas falas associadas à discriminação, ao ser negro, que eu lembro. Porque essa vontade de ir para a rua e juntar-me ao Mamadou ou a quem quer que seja, é agora que eu sou adulto; é agora que eu tenho uma filha que aos sete anos de idade chegou a casa a perguntar-me porque é que o cabelo da colega caucasiana era mais bonito do que o dela, e foi a professora que incitou essa conversa. Então eu percebi que a educação de defesa pela minha cor é importante; a minha mãe não me ensinou a defender-me, mas a saber comportar-me; já eu ensino os meus filhos a defenderem-se, a estarem preparados para isso. A perceberem o quanto somos belos como somos. Foi aí que comecei a envolver-me com essa luta, foi aí que surgiu a vontade e que eu percebi que não existia uma média negra, que ganhei outra perspetiva com o SEF. Quando me tornei independente, quando saí de casa da minha mãe e tive de começar a ensinar aos meus filhos a estarem prontos para a rua, comecei a perceber que é uma luta eterna. Comecei a ver que os negros na cultura não falavam o que pensava; nas nossas rodas são livres, mas nas rodas que abrangem todo o mundo são politicamente corretos. Porque é que os negros tinham medo de dizer que existe racismo? E fico extremamente feliz, porque aos 35 anos sou livre e independente financeiramente para falar o que eu penso e o que eu quero. Hoje, talvez, porque existe um movimento de facto, percebo que muita gente cresceu com medo na rua por estar entre brancos e não poder estar à vontade, e em casa falava alto e crioulo. Apesar das dificuldade, que nós, negros, passamos, eu acho que não vivi isso diretamente, e consegui estruturar-me financeiramente para não ter essa dependência. 

Stills do documentário Olhares sobre o Racismo

G. - Eddie, tu e a Vanessa trabalharam no Sapo e começaram a sentir que não havia espaço para a vossa agenda, não é? Porque quando se quer incluir na agenda assuntos que têm que ver com pessoas negras, é visto como ilegítimo por estares a falar na primeira pessoa — mas, na verdade, quando uma pessoa branca está a falar sobre pessoas brancas, também fala na primeira pessoa. Por isso, a criação do Bantumen acaba por recuperar um lugar de fala que nem sempre existe nos media tradicionais, como permitem que se mantenha uma certa relação com a ancestralidade? 
E.P. - Eu estaria a mentir se dissesse que a Bantumen nasceu com esse vínculo racial. A Bantumen cresceu em Angola, numa altura em que eu e a Vanessa saímos de Portugal para ir trabalhar diretamente no terreno, em Angola, por causa do Sapo Internacional, e estávamos em reuniões no Estádio do Benfica e a missão era fazer um milhão de euros. Dávamos aqueles exemplos como “imagina eu estar em Portugal e trazer sempre aquele ícone da sardinha”, e eu disse “os angolanos não querem levar mais com carnaval, com as cores, com o que é deles”. Eles têm televisão, têm acesso ao mundo, e querem uma porta que lhes faça ter acesso a esse mundo. E a ideia era dada por um caucasiano: “não não, eles querem festa, querem colorismo, e vocês têm de ir lá e fazer isso”. E chega a uma altura em que sou eu, o negro, a enganar o negro. Eu entrei na PT porque levei um projeto editorial, depois de ter acabado o curso e estar como estagiário no Diário de Notícias, não tinha dinheiro para fazer um site urbano e cheguei lá e disse — “eu conheço todo o pessoal do skate e da música, e quero fazer um site assim assim e assim” — na altura chamava-se Na Via. Eles gostaram, ficaram a gerir a publicidade e eu o conteúdo; o que acontece é que um dia a diretora do Sapo liga-me e diz: “enquanto estamos a desenvolver o site, porque é que não vens trabalhar connoco?”. Eu tinha 20 e poucos anos, fizeram-me uma proposta para ganhar 900 euros limpos e senti-me um homem rico [risos]. Fui empurrando a minha ideia e estando no terreno percebemos que estávamos a trabalhar para outras pessoas, e eu não queria ser como a minha mãe ou como a minha avó que morreram com um patrão branco com um monte de regras que estão implícitas na nossa mente. Então juntei a Vanessa, que já era minha colega há muito tempo, ganhámos a coragem de falar sobre nós, e o medo de não ter fome. Porque quando deixas o teu salário fixo e te aventuras num projeto que não sabes como é que vai ser amanhã… e o estar em Angola, com a experiência da comunicação urbana que nós já tínhamos … eu sou angolano, mas vivo em Portugal há quase 20 anos, a Vanessa é portuguesa, e conseguimos antecipar a crise que hoje Angola vive e juntámo-nos à pauta de toda a urbanização que existe hoje em Portugal que é mostrada por brancos mas é feita por negros. E hoje a Bantumen consegue mostrar isso antes de vir uma major pagar o cantor. Qualquer pesquisa mais importante na net vai perceber que qualquer puto com 20 ou 20 e poucos anos antes de entrar numa major passou na Bantumen. E eles entram nas majors porque existe uma Bantumen que os mostra, porque antigamente não entravam nas majors. Esse é o  nosso plano: um bocadinho de trazer um negro cosmopolita e que não é obrigatoriamente africano, só tem descendência africana. Por exemplo, a Vanessa, que é minha sócia, a avó tem 80 anos e é portuguesa nascida em Portugal, a mãe tem 50 anos e é portuguesa, a Vanessa tem 35 anos e é portuguesa, a filha com três anos é portuguesa. Perguntas a qualquer uma delas de onde são e respondem “Cabo Verde”. Faz sentido? Nenhuma delas tem documentos de Cabo-Verde, mas todas elas dizem que são de lá. Acho que o papel da Bantumen é dar a fala ao negro, é contar a história da Cláudia Simões não na perspetiva do repórter que está uma senhora espancada e pergunta — “mas o que é que a senhora fez?”. Cada vez mais, a Bantumen, apesar de ser uma media urbana, também é uma media da luta. E se formos a ver a cultura urbana é a luta, é a moda, é a música, são a mesma coisa. Hoje em dia não adianta eu estar bonitinho e não saber quem é o Mamadou. Não adianta eu ter o melhor gadget do mundo se não saber os problemas nos bairros que estão à minha volta. Existe uma comunidade negra e essa comunidade negra, apesar de não estar contada, existe. Precisa de uma representação jornalística, precisa de uma comunicação, precisa de ter fala e de uma comunicação direta. Pode não ser a televisão, mas é de um sítio onde eles têm a porta aberta para o mundo. E a media da Bantumen, apesar de ter base em Portugal, chega a todos os cantos da lusofonia. Só não tenho a certeza de Timor Leste. Se fores ver as estatísticas do top5 de sites em Moçambique, a Bantumen está lá; em Angola está no top10, em Cabo Verde também. Conseguimos fazer a união entre uma comunidade lusófona que nunca existiu. Somos nós que estamos a dar a cara, e por isso estamos juntos com associações e com guerreiros de dois metros como o Mamadou [risos]. 

G. - Mamadou, o Eddie está a falar da forma como os media contam a história de Cláudia Simões (que não se distancia muito da forma como se contaram a de Giovanni ou Alcindo Monteiro), e sei que o SOS tem formações dirigidas especificamente a tratamento noticioso — como é o caso da (In)Formar para a Igualdade e para a Cidadania. Achas que essa devia ser uma componente nos cursos de comunicação — como noticiar, como enquadrar, como mencionar quem está nas notícias?
M.B. — Antes de responder à tua pergunta, queria só comentar algo que o Eddie disse. Há um pensador que eu costumo citar muito — apesar de não concordar com tudo o que ele diz — que é um teórico do Afro Pessimismo, o Frank Wilderson, que foi um guerrilheiro do ANC e viveu anos na África do Sul, quase até à libertação do Nelson Mandela, e ele tem uma frase que é absolutamente límpida e eloquente e que pode resumir aquilo que o Eddie estava a dizer: ele diz que a fala negra não tem lugar em espaços estruturalmente racistas, porque ela ocorre sempre em coerção, está sempre vigiada, e a sua recepção é sempre coerciva porque as estruturas racistas não conseguem ter a capacidade de empatia que têm para com falas de outras posições. Há sempre uma predisposição ou em desvalorizá-la, ou invisibilizá-la, ou deturpá-la. Nunca tem o mesmo padrão de aceitação e de visibilização, até como dispositivo de diálogo, e é normal que quando as pessoas são diferentes têm interesses diferentes, porque têm backgrounds diferentes, um projeto socio-económico diferente, têm percepções da realidade e da vida diferentes também, em função da sua própria condição socio-económica. Têm interesses divergentes, mas normalmente todas as pessoas oprimidas têm algum espaço de fala sobre a sua opressão, só que não acontece o mesmo com pessoas racializadas. Porquê? Porque é uma forma de, desde logo, colocar as pessoas racistas em frente ao espelho. Elas olham-se e vêem logo o monstro que são, e é coisa que não querem ser; querem ser sempre pessoas boazinhas. Fazem tudo muito bem. É por isso que a existência de Bantumens e estruturas, entidades, organizações como a Batumen são absolutamente essenciais. Ninguém se pode libertar se não se tornar na sua própria força. Não há liberdade sem a sua própria força, isso não existe. Em todos os processos de emancipação, as pessoas assumiram essa força e venceram a opressão; para vencer a opressão temos de ser a nossa própria força. Isso não quer dizer, porque é isto que normalmente traz logo um grande celeuma, e isso não quer dizer que a gente não faça alianças com outras pessoas. Todas as pessoas que querem uma humanidade radical, em que o que conta é a minha humanidade, não é a minha cor da pele, são convocadas para uma luta pela igualdade. Como é óbvio. O que não pode acontecer é que essas pessoas achem que podem continuar sempre a ditar a forma como a luta se desenvolve, se move, se leva. 

Quanto à cobertura noticiosa, a imprensa não é uma ilha, faz parte das relações sociais e reproduz uma narrativa do imaginário coletivo. E qual é a narrativa do imaginário coletivo? Ela assenta em dois princípios ou dois pressupostos: um é a ideia de não pertença, o que o Eddie estava a dizer — como é que uma pessoa de 80 anos, e três gerações depois da sua, continua a não sentir filiação com Portugal? Algo não vai bem aqui. Porque é que essas pessoas não sentem que pertencem à nossa comunidade geográfica, política e económica, têm sempre um referencial fora do tecido nacional? Porque essa narrativa foi criada, e a imprensa alimenta-a. A segunda é uma narrativa mais perversa, que é a de perigosidade de determinados corpos e espaços, e para retratar, para informar ou para retratar uma narrativa que justifique determinadas formas de abordar essas comunidades por parte do Estado — ou seja, para descrever a relação que o Estado tem com essas comunidades — , é preciso torná-las estranhas ao corpo nacional. Para existir uma justificação sobre a violência que se exerce sobre ela, sobre a exclusão que se exerce sobre ela, sobre a estigmatização que se exerce contra ela; para justificar isso. Porque se não não faria sentido; nós estamos numa democracia, como é que é possível a polícia entrar como entra na Cova da Moura ou na Quinta da Princesa ou na Quinta do Mocho e não entrar da mesma maneira na Lapa ou em Alvalade para a mesma circunstância? Porque é que a segurança social trata de forma diferente uma pessoa nascida na Cova da Moura ou na Quinta da Princesa de uma pessoa nascida em Alvalade? É preciso criar uma narrativa que justifique, que sustente essa ideia de que essas pessoas, pela sua diferença supostamente ontológica, devem merecer determinado tipo de tratamento. Isso é uma forma de reificar o racismo. E há outra circunstância que me parece contribuir muito para isso: os corpos não brancos continuam a ser espaço de extração de mais-valia, porque a forma e caracterizar, de noticiar sobre pessoas não-brancas em espaços que elas ocupam, vende. Dá dinheiro. O sensacionalismo jornalístico tem um propósito, e esse propósito é um propósito comercial. É um propósito económico, também. E é por isso que não se pode dissociar a questão racial da questão económica. A questão do poder simbólico e do poder real. Poder ser como eu sou e ter o direito de ser como eu sou, como dizia o Eddie, e o poder ser retratado como uma pessoa antes da minha cor de pele. E isso não dá jeito para uma narrativa que vive do lucro e da estigmatização. Eu acho que há uma enorme responsabilidade porque nós não damos o mesmo valor moral e ético a violência racial. Se nós déssemos, não teríamos tido o tipo de cobertura mediática que temos tido sobre pessoas racializadas, negras, ciganas, emigrantes. E isso é muito estrutural. Por isso é que quando dizemos que Portugal é um país racista, cai o carmo e a trindade. Eu já não estou com muita paciência para refutação, porque o lugar de refutação é um lugar de inação, de inércia, e eu quero propor coisas. O que o Movimento tem feito é propor alternativas. Não há nada a refutar, tudo o que está à nossa volta nos explica o quão estrutural é o racismo no país. Não vale a pena sequer perder tempo com isso. Em tempos, num debate do Prós e Contras tive uma pega com a apresentadora, porque ela perguntou-me se Portugal era mais ou menos racista do que a Alemanha, e eu na altura respondi — e era uma resposta mesmo genuína, e continuo a pensar exatamente a mesma coisa hoje — “não faço concurso de burrice”. Porque eu não quero saber se é mais ou menos racista, eu quero saber se é ou não racista. E é racista, é o que me interessa. Se há racismo, eu tenho de o combater; se é menos ou mais, eu não tenho um medidor de racismo. O racismo é uma violência, portanto se ela se abate sobre mim, é sobre ela que tenho de discutir, não é saber se é maior ou menor, aqui ou acolá. Existe racismo em Portugal e é preciso combatê-lo, e isso tem que ver com a nossa História. Se não fizermos uma catarse histórica relativamente ao nosso passado colonial, não vamos conseguir enfrentar o racismo. Todo o sensacionalismo a que temos vindo a assistir, a invenção de histórias, a criação da ideia de perigosidade, de sítios não frequentáveis, de pessoas incapazes de observar os corpos, de moralidade social, tudo isto é uma fabricação da cobertura mediática. E tornou-se, hoje em dia, um dos principais veículos do racismo. Se olharmos para o que tem acontecido nos últimos anos, eu nunca pensei que fosse possível, em Portugal, termos jornais de referência cujos diretores se dedicam a atacar diretamente ativistas anti-racistas em editoriais. Nunca antes tínhamos visto isso. Eu não tenho medo das minhas palavras, as pessoas sabem: o diretor do Diário de Notícias, por exemplo, foi o principal responsável pelo meu linchamento público em Portugal. Foi ele que escreveu um editorial em janeiro de 2019 — e isto tem a sua graça porque este senhor costuma auto-intitular-se de angolano — em que fez um linchamento público à minha pessoa, e tivemos o Manuel Carvalho, diretor do Público, insistentemente a escrever insultos diretos ao movimento anti-racista em editoriais. Não é uma peça de opinião. Eu posso admitir, em tese, que um cronista de um jornal possa ter opiniões insultuosas contra este ou aqueloutro num âmbito de um debate público, agora que um diretor de um jornal sentisse necessidade de fazer um editorial em que dirige insultos a ativistas anti-racistas ou a figuras públicas, como foi o caso da Joacine, não. Nunca tínhamos visto isto; ele fez um editorial contra a Joacine. E isto é a prova de que a fronteira entre informação e opinião é tão ténue que é quase tudo permitido para legitimar uma narrativa racista, e isso é um problema para a democracia. Porque sem informação de qualidade, não há democracia de qualidade. E não temos informação de qualidade. Temos aqui um problema estrutural que se relaciona com os órgãos de fiscalização da imprensa; eu já assisti a uma situação muito confrangedora com a Entidade Reguladora da Comunicação (ERC), em que uma representante estava numa reunião com o Conselho da Europa a pedir que o Estado legisle para que finalmente tenham condições para sancionar as atitudes racistas na imprensa. Porque não temos argumentos para sancionar o discurso de ódio na imprensa, porque a nossa lei geral também não tem. Em Portugal continua-se a achar que racismo é opinião, não é crime. Só é crime, em circunstâncias agravantes, de acordo com o Artigo 240 do Código Penal, quanto ao resto está na ordem jurídica ordinária. Ou seja, eu posso ser racista se tiver dinheiro para pagar para ser racista. Se eu disser “pr*to, vai para a tua terra”, se a Comissão para a Igualdade entender que aquela atitude é uma atitude racista o que faz é obrigar-me a pagar uma multa. Se eu for um racista convicto e tiver os meios de pagar a multa, não vou deixar de ser racista nem de exercer violência contra pessoas racializadas porque poderei sempre pagar se for condenado. A consequência é menor, mas se o racismo fosse crime, eu sei que não só vou ter de pagar custos judiciais, como pagar indemnizações, mas também como vou ter de pagar penalmente. Aí sim, tínhamos mecanismos de dissuasão que permitiam que não assistissemos ao que assistimos há uns tempos atrás, em que Fátima Bonifácio escreveu aquele vómito no Jornal Público e toda a gente a veio defender, dizendo que tinha direito à sua opinião, mesmo ofendendo e agredindo pessoas. Ou, por exemplo, o Octávio Ribeiro, que é um dos donos de grandes grupos de comunicação social, que escreveu um artigo nojento contra o Gelson Fernandes do Sporting. E nada lhe aconteceu. E eu posso citar vários. Quando a imprensa inventou o arrastão que não existiu, o diretor da TVI confrontado por um canal internacional sobre a manipulação mediática que tinham feito do acontecimento em Carcavelos, admitiu que sim, que tinha sido uma manipulação, mas também se recusou a corrigir a notícia dizendo que tinha mais pressa em noticiar do que em averiguar a veracidade dos factos. E o comandante da polícia, na altura, admitiu que tinham sido enganados pela comunicação social, e que fizeram um comunicado a dizer que tinha sido um arrastão quando não tinha sido. O caso mais paradigmático é o da esquadra de Alfragide. Vou-vos contar um episódio, que foi no dia 5 de fevereiro de 2015: a CMTV, antes de estar no local, tinha uma notícia a dizer que tinha havido uma invasão da esquadra. Como é que a CMTV soube disso? Porque é que a CMTV noticia uma coisa que não aconteceu, e não estava lá? Eu e o Octávio Raposo fomos os primeiros a chegar à esquadra de Alfragide, quando chegámos não havia nenhum jornalista em frente à esquadra. No entanto, eu estava no comboio, em frente à esquadra, e vi a notícia da CMTV a dizer que tinha havido uma invasão de esquadra. O que é que aconteceu? Foi que a PSP plantou um comunicado na CMTV para justificar a barbaridade que a polícia tinha cometido, antecipar o debate público, e a CMTV foi porta-voz de uma mentira institucional da PSP. E é o que tem acontecido nos últimos tempos: sempre que há um abuso de violência por parte da PSP, a PSP planta notícias na imprensa, e a imprensa replica essa notícia e transforma essa notícia numa narrativa geral e coletiva. A Cláudia Simões, o Giovani, o Bruno Candé, e posso voltar atrás, o Cuco, o MC Snake, o Tony de Setúbal, o Saleh, vários casos em que a polícia mata ou agride pessoas negras. Plantam a notícia e a imprensa pega nessa notícia e transforma-a como a verdade única. 

Still do documentário Olhares sobre o Racismo

G. - A questão também é que quando esses assuntos vão para a televisão, as pessoas que estão a comentá-los são maioritariamente brancas. Lembro-me que a Djamila Ribeiro, na primeira conversa que o SOS Racismo organizou no DocLisboa dizia algo como “a gente liga a televisão e nem parece que estamos num país com tanta pluralidade racial”. E o mesmo acontece em Portugal. 
M.B. - Exatamente. Aliás, não sei se reparaste mas no ano em que nós tivemos um partido de extrema direita não houve, em momento algum, nas televisões ou nas rádios, um debate que incluísse uma pessoa racializada. Um único. Pela primeira vez tivemos uma pessoa racista eleita, e teve o resultado que teve. Em todos os debates na rádio, na televisão, nos jornais, ninguém se lembrou de perguntar às pessoas racializadas o que acham daquilo. Fizeram horas e horas, toneladas de papel e de peças sem terem a voz de uma única pessoa racializada, e isso também diz alguma coisa; quer dizer que nem sequer acham que as pessoas racializadas sabem articular alguma coisa sobre a sua condição, o que é absolutamente inacreditável. Isso só acontece em Portugal, mesmo nos países mais racistas isso não acontece.

G.  - Há pouco falavas do Prós e Contras, do momento em que a Fátima Campos Ferreira te pergunta se Portugal é mais ou menos racista que a Alemanha. A questão não será antes como é que Portugal lida com esse racismo e como se questiona ou não com ele? Nessa mesma conversa do Doclisboa referiste logo no início que constantemente se nega que existe racismo, e acaba  por se negar também a memória racista das cidades — como a Djamila falava, no caso do Brasil, no Parque da Juventude, por onde a filha talvez um dia passasse sem saber o que se passou no outrora Complexo de Carandiru. Em Lisboa também há muitos lugares onde isso acontece, cuja história só é recuperada em projetos como a African Lisbon Tour ou o Batoto Yetu. Reformular os programas dos livros de História continua a ser urgente?
E.P. - Nós agora temos dado muitas entrevistas para o Brasil e eu tenho defendido que pior do que existir racismo em Portugal é a inexistência que Portugal dá a negros. Simplesmente não existimos. É como aquela conversa que tu sabes que é mentira, mas ouves à mesma. Estruturalmente não existem negros em Portugal, estão como pessoas inexistentes. E então não há essa ocupação de ninguém, e não existe um medo sobre penalizar ou ofender. Nós africanos temos um grande respeito sobre os adultos e se eu estiver na sala com os amigos e a mãe estiver a 20 metros, mas no mesmo espaço, a minha linguagem vai ser completamente cuidada. E não existe isso em Portugal, de todo. O negro está a dois centímetros e não existe esse respeito. 

Sobre os livros de História, não sei que grandes planos existem sobre isso, mas acredito que as estruturas como a SOS Racismo e a Bantumen vão criar possibilidades, escolas para educar os nossos como nós achamos que merecemos. Se não, daqui a pouco, nos Lusíadas vai ter um segurança negro, a Siá que era negra, vão começar a incluir os escravos nas histórias (só) para incluir. E não é essa inclusão que nós queremos, nós queremos ser vistos como pessoas existentes e ninguém ter de se preocupar com isso. Agora, a minha filha entra na escola às 8h00 da manhã e sai às 17h00 e na hora de jantar eu conto uma história negra ou vou desconstruir o que ela aprendeu na escola, correndo o risco de ela tirar um monte de negativas a HGP (História e Geografia de Portugal). Eu, sinceramente, acho que essa responsabilidade está do nosso lado. Pessoalmente acredito nisso, todas as pessoas à minha volta acreditam nisso. Mas estão a ser criadas soluções, e a resolução vai ser nossa. Daqui a uns anos, a Afrolink, a AfroLis vão ser os canais. Em vez da minha filha abrir a Cidade FM ou a Antena 1, vai abrir uma rádio negra. Em vez de entrar num site como o Público, vai entrar na Bantumen. E é assim que nos estamos a estruturar. O que aconteceu na América nos anos 60 e o que está a acontecer agora, onde tens pessoas negras que investem nessas soluções, para mim é o caminho da comunidade negra e racializada em Portugal. 

M.B. - Sobre a memória, eu costumo dizer — foi por isso que falei logo de catarse histórica —  que não é possível nós continuarmos como temos continuado a produzir saber coletivo, imaginário coletivo. Porque esse mesmo imaginário coletivo exclui pessoas, porque é um imaginário que nasceu da empresa colonial imperialista, em que a sustentação teórica é a desumanização — a ideia de que há pessoas que estão fora da humanidade pela sua dimensão cultural, pela sua dimensão cromática, pela sua pertença geográfica. Por qualquer motivo não fariam parte da humanidade tal como a situação colonial a encarou e a pensou. E não é por acaso, eu digo isso e também irrita um bocado alguns aliados. O problema central é que a doutrina central da democracia é uma doutrina estruturalmente racista. Todos os pensadores do iluminismo, do Hegel ao Montesquieu, ao Diderot, ao David Hume, ao Kant, até ao Durkheim, todos eles, nas suas obras principais, têm tiradas que um Hitler ou um Mário Machado podiam ter. E são eles os fundadores da matriz ideológica do pensamento ocidental. O [Edouard] Glissant, por exemplo, dizia que o Ocidente não é um lugar porque não está no Este; o Ocidente é um projeto, é uma ideia de sociedade. E é esta síndrome do Ocidente que marca a memória nacional, a memória coletiva. E é por isso que em Portugal temos, por exemplo, um presidente da câmara do Partido Socialista que se lembra de erguer uma estátua ao Padre António Vieira em 2017, nas condições em que ergueu. Esse anacronismo político é um anacronismo ideológico, é uma filiação ao passado colonial. Ou seja, há uma persistência do passado no presente; há um passado que teima em não passar, na cabeça, nas estruturas políticas e económicas, num pensamento doutrinário. Tudo isso insiste em permanecer entre nós como forma de pensar as pessoas, e enquanto isso não acabar — e isso é uma trincheira entre nós, pessoas racializadas. Nós temos de vencer o passado. Temos de refletir aquilo que nós somos e fomos enquanto sujeitos políticos. O que fomos e o que somos. E também tem de refletir uma coisa que incomoda bastante: há uma dívida histórica impagável do ocidente para com pessoas racializadas — negras, ciganas, árabes, indígenas. Há uma dívida histórica impagável. E é por isso que eu evito essas discussões esquisitas sobre “quanto querem receber agora?”. Não é nada disso. As reparações não são questões monetárias. Há uma dívida histórica que precisa de uma reparação histórica, que tem que ver com a ressignificação da nossa humanidade. Resgatar a nossa humanidade que foi violentada, espezinhada, ignorada, e que tem de ser restituída. O meu filho não pode chegar a casa e dizer que tem vergonha de se chamar Mamadou. Isto não pode acontecer. E isso acontece porque há uma opressão real sobre o que o nome dele representa na coletividade, e isso tem de acabar. Portanto, eu acho que revisão curricular não é para inglês ver, é para recontar a História tal e qual como ela foi. Contar a história das barbáries, mas também das resistências. Contar a história das conquistas. 

O SOS vai publicar o dicionário das invisibilidades. Qual é o nosso propósito? É dizer uma coisa muito simples: a humanidade, como ela é, resulta do contributo de todas as pessoas do mundo. E todos os arquivos da humanidade contam a História da Humanidade, porque senão não é a História da Humanidade que estamos a contar mas uma parte dela. Há pessoas, no continente africano, que fizeram coisas que são úteis para toda a humanidade. Há pessoas no continente asiático que fizeram coisas que são úteis para toda a humanidade. Na América Latina, noutras partes do mundo. Os saberes e os conhecimentos que formam hoje o conhecimento que temos do mundo, tudo isso é contributo de todas as partes da humanidade, e portanto silenciar isso, invisibilizar isso é perpetuar uma narrativa racista, eurocêntrica. E, portanto, o nosso dicionário vai sair por causa disso mesmo, para dizer que só há história da humanidade se ela comportar todos os seus arquivos, e nós não estamos aqui num lugar de refutar se os negros tinham civilização ou não, se escreviam ou não escreviam, se os índios escreviam ou não escreviam. Toda a forma de ver e de dizer o mundo tem substancialmente uma dimensão humana, e ela é útil a toda a humanidade. Aliás, tudo no mundo antes de ser escrito, foi dito; a oralidade precede a escritura. Essa disputa entre tradição e civilização, história escrita e história oral, isto tudo não interessa a não ser para perpetuar uma ideia de superioridade. Ainda por cima, há uma falácia histórica: toda a gente acha que, por exemplo, a Carta Magna, que é do século XIII, é a fundação do imaginário democrático como o conhecemos, e que não houve nenhum outro documento ou nenhuma outra iniciativa parecida no mundo. Não é verdade. Tal como houve a Carta Magna, houve a Carta do Mandé, que é de 1222. Os negros pensaram ideológica, filosófica, politica e economicamente antes da dominação colonial, e esse pensamento estrutura as relações políticas e geopolíticas, e é um contributo para a humanidade. Por exemplo, na Carta do Mandé há princípios que hoje estão na Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Carta do Mandé é do século XIII, é contemporânea à Carta Magna. O Dicionário da Invisbilidade tenta restituir esta igualdade, acabar com esta invisibilidade e claro que as comunidades negras têm o dever de defender e ensinar a sua história, promovê-la, mas a gente, como dizia o Fanon, somos negros, e com orgulho, mas ser negros não nos define como pessoas. Eu não sou a cor da minha pele, há outras coisas que me definem enquanto pessoa. No entanto, eu sei que a cor da minha pele define o que sou numa sociedade racista. Se sou negro, benfiquista e outras coisas que tais, isso não interessa a um racista, porque ele só me vai ver como negro. E portanto acho que esse trabalho feito pela existência de estruturas como a Bantumen, a Afrolink, a AfroLis, outro tipo de organizações, são absolutamente importantes, e volto ao início: ninguém se liberta sem ser a sua própria força. 

Stills do documentário Olhares sobre o Racismo

G. -  Há uns tempos numa entrevista que fiz à antropóloga Fabiana Leonel, ela disse-me que na sua geração não conhecia ninguém que tivesse tido essa preparação em casa de que o Eddie falava, para ir para a escola e saber lidar com o que se passava lá. E isso lembra-me também de outras pessoas cujos pais e mães têm, por vezes, três ou quatro empregos, estão nos transportes públicos às cinco da manhã, e não conseguem ter espaço para a reconfiguração, a revalorização de si mesmas, porque as suas vivências não o permitem. Daí a escola também ser um lugar importante em que isso também possa acontecer…
M.B. - O racismo é uma questão de poder. No dia em que nós pudermos ter as condições de educar as nossas crianças em igualdade de circunstância, teremos dado uma grande machadada ao racismo. Poder económico, poder simbólico; o poder de eu ter a capacidade de ter as condições económicas e sociais para dotar os meus filhos de ferramentas de autoestima, de projeção pessoal, de identidade múltipla — porque ninguém é uma só coisa, as pessoas são várias coisas —, no dia em que tiver essa possibilidade, terei dado uma machadada ao racismo. O Estado tem a responsabilidade de garantir que qualquer cidadão, independentemente da sua pigmentação, tenha o direito de ser um sujeito político numa sociedade diversa. É a responsabilidade da escola pública: eu estar no ambiente escolar na plenitude da minha condição de pessoa negra. O que não me exclui de nada, antes pelo contrário. Quando nós vemos hoje, quando se fala muito de sucesso escolar não se fala dessas questões que estão por trás, porque não é uma questão biológica, como é óbvio; é uma questão económica. É preciso também assumir isso. A igualdade tem um preço, e o Estado tem de saber se está disponível ou não a arcar com o preço da igualdade. Não é possível ter política pública contra o racismo sem definir no orçamento de estado qual é a dotação orçamental para combater as desigualdades com fator racial. O que nós temos assistido é a muito orçamento de palavra, mas orçamento real para combater o racismo nunca houve. Eu desafio qualquer pessoa para olhar para o orçamento de estado dos últimos dez anos e identificarem uma verba acima de 10 milhões de euros alocada no combate ao racismo. Desafio qualquer pessoa. Não encontra. Isto significa que o Estado ainda não deu nenhuma centralidade política à questão da desigualdade racial, nenhuma. Porque a representação de Portugal na Feira Internacional da Arte do Dubai tem mais dotação orçamental do que todo o dinheiro que é alocado para combater o racismo em Portugal. Portanto, se assim é, quer dizer que o Estado não está preparado e não quer combater o racismo. Para isso o Estado tem de dizer: nesta rubrica orçamental, vou desenvolver x ações que vão resultar em x programas e em x medidas concretas para combater o racismo. Vou ter quotas, por exemplo.

G. - Medidas de ação afirmativa.
M.B. - Claro, e isso custa dinheiro. E dinheiro é nosso, porque o resultado da construção da sociedade portuguesa é da sua empresa colonial, da escravatura e do colonialismo. Sem escravatura e colonialismo, Portugal não seria o que é. Portanto, toda a riqueza que nós temos hoje resulta do sangue e do suor de pessoas como eu. E essa dívida histórica é uma dívida coletiva. Não é auto-flagelação — nada disso — é assunção de responsabilidade. Nós não queremos culpar ninguém. Ontem vi um artigo no Público que dizia que os Movimentos Anti-Racistas eram racistas, que querem vingança. Mas a escravatura é um crime contra a humanidade, e os crimes contra a humanidade não prescrevem; são imprescritíveis. Não há medida económica nenhuma que vá pagar a indignidade que foi a escravatura. Não existe. A única coisa que se exige é responsabilidade para que nunca mais volte a acontecer, e que as pessoas que resultaram desse processo por esse processo tenham a mesma dignidade que as outras pessoas. É preciso ter em conta a dimensão da barbaridade que foi a escravatura e o colonialismo. 

G. - Na primeira conversa do Doclisboa de que falávamos há pouco, a Ruthie Wilson Gilmore dizia que os protestos Black Lives Matter no verão passado, após a morte do George Floyd, em Lisboa, foram também a reunião de muitos outros protestos e lutas ao longo de vários anos — o que se relaciona muito diretamente com a visão da Audre Lorde quanto à revolução enquanto um processo e não um ato único. O vosso documentário acaba por ser também parte desse processo, dessa revolução.
M.B. - Eu gostava de agradecer publicamente ao Eddie. Quando decidimos fazer o documentário, eu pensei logo no Eddie. Nunca tinha falado com ele, só tinha feito um ato de solidariedade com ele, sigo o Bantumen com interesse, e achei que era importante juntarmo-nos. Nós aqui no SOS temos uma filosofia: nós não somos donos de nada, não somos donos da luta. Somos uma ferramenta para que todas as pessoas que querem combater o racismo possam apropriar-se. É por isso que somos uma organização um bocado estranha, onde não há presidente. Cada pessoa tem de assumir a sua responsabilidade histórica de saber que tem de contribuir para combater o racismo à sua maneira, à sua medida. O que temos vindo a fazer é ter uma plataforma para que outras pessoas a possam usar para levar ainda mais longe a luta. Se conseguirmos emprestar o nosso nome, o nosso património de luta, a nossa capacidade de confrontação, a qualquer organismo que exista no espaço público, estamos disponíveis para o fazer. Então, achei que era importante fazer isso com a Bantumen. Eu gosto de pessoas que são frontais, mesmo que não concorde. Acho que é muito mais fácil para o debate político que tenhamos um debate absolutamente frontal e honesto. E depois podemos fazer uma síntese das nossas propostas, mas é absolutamente essencial que as pessoas sejam honestas. E o Eddie conseguiu trazer outra forma de ver. Muitas vezes quando estamos embrenhados há 30 anos numa estrutura, podemos nem ter noção de tudo o que está a acontecer… e ter outros inputs, alguma humildade e modéstia para dizer que temos de aprender com outras pessoas, porque se outras organizações surgiram quer dizer que não fomos capazes de chegar ali. E é preciso construir estas convergências e sinergias, com autonomia política, como é óbvio, mas tentar sempre criar mais força. Porque para mim, continuo a dizer, o movimento tem de ser a sua própria força. 

A Bantumen, para mim, é uma dádiva, tal como o Afrolink e AfroLis. Sempre que surge uma plataforma, tento sempre acompanhar, e espero que esta parceria vá crescendo e que a gente vá fazendo mais coisas nesse sentido. E quero mesmo agradecer profundamente ao Eddie, porque aprendemos muita coisa nesse processo, e isso é muito útil para a luta. 

G. - E quando é que todo esse processo começou?
E.P. - Nós começámos no final de setembro, quando o Mamadou entrou em contacto comigo e com o Bruno Cabral, que é um cineasta da nossa praça e que trabalha em torno do racismo há muito tempo. Houve aquela conversa de enquadramento de quem nós, Bantumen somos, com o nosso pensamento mais urbano, e qual é a minha estrutura enquanto jornalista, e a do Bruno enquanto cineasta. Nós em menos de um mês metemo-nos no carro do Bruno e percorremos Portugal de Norte a Sul. Eu conheci Beja, conheci sítios que nunca tinha pisado… nunca tinha estado em reuniões de comunidades ciganas e aprendi muito, da mesma forma que acredito que eles possam ter aprendido com os meus pensamentos. Uma das senhoras que está no documentário é uma senhora que em casa tem a experiência de ter uma criança negra, uma criança cigana e uma criança branca, cria-os de forma igual e eles têm o mesmo pensamento. Então, todos estes estereótipos de racializado, negro, branco, foram criados para nós negros, e digo isso cada vez com mais vergonha porque tenho cada vez mais pessoas não racializadas que estão comigo, que me apoiam, mas eu sou sempre o gajo da luta, o que está sempre chateado com tudo. Eu estou a encontrar-me, e estar perto de uma estrutura com 30 anos, estar perto do Mamadou, do Falcão, da Cristina Roldão, isso fez-me aprender milhões de coisas. Fez-me perceber que não há uma luta única. A luta é pela igualdade, é por aí que me estou a construir interiormente. 

Se nós tivessemos todos os negros que são celebridades a dizer o que pensam de verdade, isto estaria muito mais à frente. Muito menos pessoas estariam a bater no Mamadou, porque são pessoas que têm voz, mas eles têm um medo enorme. Têm medo porque estão casadas com brancos, têm medo porque quem lhes paga são brancos. Esse medo é a maior frustração que eu acredito que eles também tenham. Quando eu falo, o Mamadou pode fazer-me correções, a Vanessa também, mas tudo o que eu falo, falo com liberdade. 

M.B. - Com o filme Soul, viram a reação. Isso não é inocente. É verdade que nós tivemos artistas que se posicionaram, mas há uma coisa que ficou óbvia naquela circunstância: é que a voz de pessoas não-brancas sobre a sua própria condição é uma voz silenciada. E há uma ideia de que é sempre quase um favor que se faz a pessoas não-brancas para desempenharem as suas responsabilidades e funções no contexto cultural, político, económico. E de que somos ingratos. Eu ouço sempre pessoas a perguntarem “mas não houve progressos? não houve avanços?” e isso lembra-me sempre a famosa frase do [James] Baldwin, quando um jornalista lhe disse — “tu estás sempre raivoso, estás sempre zangado, apesar de já haver votos para os negros e avanços nos direitos civis; porquê?” — e ele vira-se para o jornalista e diz-lhe — “mas de quanto tempo é que precisas para o teu progresso? quanto tempo é que vou ter de esperar para que aches que eu posso falar?” — e são essas nuances que também fazem com que projetos como o Bantumen sejam importantes, porque ali não há filtro. Eu digo o que me vai na alma e em função das circunstâncias reais em que me encontro. Não estou à espera da aprovação de ninguém para dizer o que quero dizer. E ter direito à palavra é exatamente isso, é ter soberania sobre a nossa condição política. Isso não é ser exclusivista, não é sermos sectários, é termos soberania política para decidirmos como é que nos queremos posicionar em função da nossa condição. A questão da soberania é uma questão de dignidade. Um ser soberano é um ser digno de poder assumir a sua condição. Sem que para isso tenha de ser atacado, espezinhado, e que as pessoas possam respeitar sobretudo uma coisa que não conseguem respeitar. Pessoas racializadas são sujeitos políticos e são portadoras de iniciativa, querem construir o seu lugar de fala, o seu lugar de enunciação, a sua condição de sujeito político. Claro que quando falamos em lugar de fala, de repente vem a conversa da cultura de cancelamento, e é ridículo; porque as pessoas que gritam mais sobre a cultura de cancelamento são as que mais voz têm no espaço público. E as pessoas que acusam de cancelar, são as pessoas que nem sequer têm espaço mediático. Quantos negros e quantas negras existem na academia para cancelar quem fosse em Portugal? Quantas pessoas negras existem na televisão para cancelar quem quer que fosse? Não há. É absolutamente uma fantasia; é uma espécie de biombo para dizerem tudo o que lhes vai na alma, incluindo violências racistas. Sempre que as pessoas evocam a cultura de cancelamento, o politicamente correto, é um pretexto para continuarem a ser racistas e continuarem sem ser condenadas por isso. E é para isso que nós estamos aqui. 

Bruno Gonçalves, ativista cigano, é uma das vozes do coumentário / Still de Olhares sobre o Racismo

G. - E é nesse sentido que vem também o documentário, não é?
M.B. - Exatamente, o documentário vem dizer o que precisa de ser dito. Doa a quem doer. Porque não há mudança sem incómodo. Nós viemos para ficar e viemos para incomodar até que tudo mude, esse é o nosso propósito, gostem ou não gostem. 

E.P. - E o nosso discurso já não é “a geração dos nossos filhos vai mudar”, é “nós vamos mudar”. O Mamadou está nisso há trinta anos, eu quando tiver a idade do Mamadou vou estar nisto há vinte e cinco, e vamos ser nós a mudar isto, agora. E palavras minhas: vai ser a bem ou vai ser a bem. 

M.B. - Malcolm [X] já tinha dito: com todos os meios necessários. Se Portugal quer consolidar a sua democracia, sabe o que tem de fazer. Porque há uma coisa que é óbvia: as pessoas não vão ficar à espera até não mais poderem respirar. O racismo é um sufoco permanente na vida das pessoas. 

E.P. - No teaser do documentário, há uma senhora no início que não sei quem é, mas cujo rosto diz o quanto as pessoas estão frustradas. Aqueles dois segundos, parece exagero, mas sempre que eu vejo aquilo dá-me um arrepio na espinha. Nós conseguimos ligar os pontos de escravatura com tudo isso,  da mesma forma que conseguimos ligar os pontos da escravatura a porque é que falamos alto, porque é que nós cantamos, está tudo ligado. E uma coisa muito, muito importante é que nós gostamos tanto de paz e temos tanto medo de ser novamente mal tratados que não nos importamos de perder a paz um minuto para nesse um minuto de guerra perder a nossa paz. 

M.B. - Sem justiça não há paz. Não se pode manter as pessoas em sufoco e dizer para ficarem quietas. Eu em tempos escrevi um artigo que me valeu uma enxurrada de críticas quando morreu o Bruno Candé porque estou absolutamente farto que as pessoas me peçam para ter calma. Não quero ter calma, e não vou ter calma. Não vou estar à beira do sufoco e ter calma. A única maneira de eu ter calma é eu sentir-me livre. O racismo tira-nos vida, porque a vida não é só respirar, não é só estar biologicamente em vida, é poder sentir-me livre em qualquer espaço sem que a cor da minha pele seja determinante para a forma como alguém olha para mim. E então não vou ter calma enquanto não tiver essa possibilidade. Esta frase do George Floyd, “não consigo respirar” é uma frase que nos acompanha há séculos. A pandemia veio mostrar o quão profundo é o sufoco em que se encontram pessoas racializadas neste mundo. Em todos os países que tiveram processo colonial, escravocrata, as principais vítimas da pandemia são pessoas racializadas. O caráter mortífero do racismo que se construiu por causa do imperialismo e do colonialismo, ele persiste e sufoca vidas humanas. E perante isso, não há calma. E eu prefiro morrer de pé do que viver sufocado, como é óbvio. 

Olhares sobre o Racismo estreia no dia 20 de fevereiro, através deste link.

Texto de Carolina Franco
Stills de Olhares sobre o Racismo

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