O despertador toca. São seis da manhã. É hora de iniciar mais um dia. Incerto, escuro, sem previsões. Cláudia Evaristo, proprietária do LuadiaTerapias , vive esta realidade desde o dia 14 de março de 2020. A artesã de cosmética natural , da cidade de Lisboa, relata que, com a chegada da Covid-19 a Portugal, o setor do artesanato ficou arrasado. Para muitos profissionais foi o fim da atividade. De acordo com o Registo Nacional do Artesanato, criado pelo DL 41/2001, disponível no “CEARTE”, Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património, existem, atualmente, inscritos em Portugal, 3035 profissionais na área.

Fotografia disponível via instagram LuadiaTerapias

Sem espaço próprio, a artesã vivia exclusivamente do contacto direto com os clientes. Das 10/15 feiras que fazia por mês, atualmente só realiza três a quatro feiras. Foi obrigada a “escoar” o stock total dos produtos, não tendo rendimento para apostar em novos. Ainda assim, “dá graças a Deus” e admite que nunca deixou de ter trabalho devido à ferramenta do online.

Aliás, para Cláudia, o melhor mês, desde que exerce a profissão, foi o mês de abril. Como se dedica à produção de sabão artesanal, reconhece que com a Covid-19 “as pessoas aperceberam-se de que o sabonete vale de tudo, sendo que uma barra sempre custou 1,50 euros”.  Aos clientes habituais juntaram-se novos clientes. “Senti que os meus clientes me compraram muitos sabonetes, mas os clientes novos compraram-me um bocadinho de tudo, as pessoas não tinham medo de experimentar coisas novas”.

Fotografia disponível via instagram LuadiaTerapias

Ainda assim, o panorama inverteu-se. Com a regresso das pessoas à rua, com a abertura das lojas, e com a chegada do verão, as pessoas “esqueceram-se dos sabonetes, dos desodorizantes, esqueceram-se tudo”, salienta Cláudia. “Agora, parece-me que as coisas estão a voltar, e as pessoas não têm noção, mas há muita gente a viver disto.”

Para a artista, um dos principais culpados são os órgãos de comunicação social pela falta de programas educativos relativamente a esta área. Para a artesã, e dado o panorama atual, as notícias “estão a tentar dominar o mundo através do medo”.

Contudo, Cláudia, com um sorriso no rosto, destaca que não se vai deixar dominar pelo medo, mas sim pelo amor.

No centro da cidade de Lisboa, habita Catarina Alves, ceramista de profissão há dez anos. Nunca sai de casa sem o seu papel e o seu lápis. Confessa que desde “muito pequenina” que sente uma ligação especial com a cultura, muito por influência do pai. Apesar da Covid-19, manteve um horário fixo de trabalho. “Levanto-me às sete da manhã, lavo a cara, tomo o meu duche, o pequeno almoço, e vou para o atelier. Faço a minha rotina como se fosse um trabalho.”

Fotografia da cortesia de Catarina Alves

Ainda assim, desde o confinamento, o atelier começou a ser via casa. Catarina esclarece que, ao contrário do que seria esperado, as vendas aumentaram de uma forma drástica. Confessa, tal como Cláudia, que o online apesar de lhe ter “custado” a adaptação, foi uma mais valia, principalmente através da criação do Instagram. “As pessoas viraram-se todas para as redes sociais, é fascinante”, destaca.

No que toca à área do artesanato, sente igualmente que não é valorizada. “O que eu acho é que, às vezes, as pessoas podem achar graça, mas é um nicho de pequenas pessoas que compram uma peça para ter em casa, porque gostaram mesmo da peça. A maioria compra porque sim.”

Face a esta realidade, deixa um apelo à sociedade: “Façam mais, deixem a malta expor. A malta precisa é de publicidade.”

Ainda dentro desta região encontra-se Rita Faia, profissional na área da ilustração. Ao contrário de Cláudia e Catarina não consegue exercer a atividade do artesanato a tempo inteiro. “Eu tenho um trabalho a part-time, e faço ilustração no resto do tempo livre. Infelizmente não consigo que seja uma coisa independente, porque não tenho trabalho para me poder dedicar exclusivamente à ilustração.”

Fotografia da cortesia de Rita Faia

Admite que com a chegada da pandemia não sofreu uma quebra drástica em vendas, até porque o trabalho já era “intermitente”. No entanto, realça que deveria ter aproveitado mais o recurso do online. Ainda assim, não se sentia capaz de desenhar.

Em desabafo confessa, ainda, que, às vezes, se sente na obrigação de fazer o papel de publicitária para as pessoas investirem no seu trabalho. “Isto pode soar mesmo um bocado arrogante, mas parece mesmo que estou constantemente a vender-me, e não era suposto ser assim, nem eu me sinto bem assim”.

Culpabiliza o poder económico do país de não ter uma cultura “de contratar ilustradores, de fazer trabalhos, investir dinheiro num bom pacote de design, seja o que for.” Como tal, a profissional admite faltar um trabalho de educação da cultura. Para Rita Faia, mais do que nunca, o futuro do artesanato depende da sociedade jovem e futura. “É necessário motivá-los”, esclarece.

Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível via Unsplash