Na passada semana, surgiram notícias sobre aquele que terá sido o primeiro concerto com medidas apertadas de distanciamento a realizar-se, neste caso, no estado norte-americano do Arkansas. Organizado pela Live Nation, o espetáculo de Travis McCready teve apenas uma lotação de 229 pessoas, numa sala com capacidade para 1100. Por cá, e enquanto as medidas de segurança não começam a ser testadas, experimentam-se outros modelos de concertos, em formato drive-in a título de exemplo, como aquele que Pedro Abrunhosa deu em Ansião, no distrito de Leiria, no passado sábado, dia 24 de maio.

A situação de total anomalia, causada pela pandemia da covid-19, veio pôr em causa a realização de eventos culturais e artísticos, numa conjuntura sem precedentes que afeta todos por igual, sem diferenciação de escala. No dia 7 de maio, o Governo português tomou a decisão de proibir festivais de música “e espetáculos de natureza análoga” até 30 de setembro de 2020. A esta decisão seguiram-se comunicados dos diferentes promotores que, desde logo, adiaram os seus festivais para 2021, com a premissa de tentarem manter muitos dos artistas que já constavam nos cartazes deste ano. De resto, a situação nacional acompanha a este respeito aquilo que se tem passado um pouco por toda a Europa, onde diversos festivais de música, que acabam por partilhar entre si artistas em digressões planeadas com grande antecedência, foram também cancelados.

No concerto de Pedro Abrunhosa estava Rita Carmo, fotojornalista, que, pela primeira vez em meses, pôde voltar a fotografar um evento musical ao vivo, numa experiência, acima de tudo, singular pelas regras impostas: os espectadores tinham de estar no interior das suas viaturas, os pedidos de comida ou bebida foram feitos através de uma app de telemóvel e as buzinadelas funcionavam como aplausos. Ao Gerador conta que daqui por algumas semanas estaria no NOS Primavera Sound, no Porto, onde arrancava com o seu já tradicional verão de trabalho a fotografar concertos.

“Estes eventos estão marcados com antecedência, com datas que já são mais ou menos previsíveis, por isso toda a minha vida profissional e até familiar é feita em função dos festivais. Este ano vai ser certamente diferente” realça, acrescentando que a presente situação tem, no seu caso, um impacto financeiro notório, uma vez que impede a realização de outros trabalhos que lhe preenchem a agenda, nomeadamente formações na área da fotografia do espetáculo, que deverão ser adaptadas ao digital.

A situação relatada por Rita é, aliás, extensível a muitos profissionais que, de forma mais direta, têm nos festivais de música uma fonte de rendimentos, como é o caso dos técnicos, rostos muitas vezes invisíveis de um setor em situação de fragilidade. Sobre este aspeto, Rita faz um paralelismo com o número crescente de fotógrafos de concertos que se observa nos últimos anos, mas que em virtude da atual conjuntura, pode vir a diminuir. “Muitos colegas fotografam à noite em concertos, mas durante o dia têm outra profissão, portanto no fundo o sustento deles não advém do facto de fotografarem”, uma situação que, devido à falta de meios, “acaba por impedir uma maior profissionalização da área”.

“Como disse há dois meses, a única certeza que tenho é a incerteza”

A questão laboral realçada por Rita é partilhada por João Carvalho, organizador e promotor do festival Vodafone Paredes de Coura, que teria lugar de 19 a 22 de agosto. Face à decisão tomada pelo Governo, as suas preocupações centram-se agora nos “muitos empregos” que se podem perder e no “manter uma empresa de pé como a Ritmos e como a Pic-Nic”, esta última responsável pela organização do NOS Primavera Sound, da qual faz também parte. “Neste momento enquanto esperamos todos que haja bom senso, a minha preocupação imediata é com as pessoas que não se podem deixar cair, por uma questão de solidariedade, mas também porque no próximo ano estas mesmas pessoas, se não tiverem trabalho, vão procurar outras profissões”, o que pode originar uma “perda de mão de obra qualificada” num setor que tanto depende deste know-how.

Após 27 edições consecutivas, este será o primeiro ano em que o anfiteatro natural do Taboão não irá acolher o festival, que se realiza desde 1993. “Como disse há dois meses, a única certeza que tenho é a incerteza”, relata João que declara ainda que gostava que houvessem ilações positivas a tirar da atual situação de pandemia que se vive. “As empresas vão estar tempo suficiente paradas para pensarem e criarem soluções. Que os festivais se tornem, por exemplo, mais limpos, até visualmente de patrocinadores, porque há festivais que hoje em dia permitem qualquer tipo de patrocinador e nós sempre tivemos esse cuidado”, advoga.

Por outro lado, o responsável considera que, a par da rápida decisão dos promotores em adiar os festivais, também o Ministério da Cultura tem de ser rápido neste momento a tomar medidas. “É urgente, porque há demasiadas pessoas que dependem dessas regras a ter em prática tanto para salas como para espectáculos ao ar livre. Os artistas e os técnicos estão impedidos de trabalhar num setor que quando se trata de solidariedade é sempre o primeiro a ser chamado. Agora convinha que também se olhasse para ele”, salienta.

O interregno na abertura de um novo ciclo

Tal como o Paredes de Coura, o mês de agosto seria também pontuado pela realização do Bons Sons, festival que acontece na aldeia de Cem Soldos, no concelho de Tomar e que, depois de dez edições, iria entrar num novo ciclo, marcado pela mudança do seu diretor artístico. No ano que seria de estreia para Miguel Atalaia, veio a inevitável decisão de ter de se adiar a edição de 2020, o que, de acordo com a organização, representa uma quebra de 3,5 milhões de euros para a região onde se insere.

Em declarações ao Gerador, Miguel afirma que a decisão do Governo foi “compreensível”, tendo sido aceite com naturalidade. “Da minha parte, claro que, como era a minha estreia como diretor artístico, era mais desejável, mas apesar de tudo há um sentido nisto que é o facto de simplesmente estar a encabeçar uma equipa que já é muito experiente, que teve este contratempo em conjunto e que nem por isso olha para isto como uma derrota”, conta.

Não obstante, salienta, é preciso não esquecer o lado “mais dramático” relacionado “com questões financeiras e com o impacto quer nos negócios locais, porque o Bons Sons representa uma lufada de ar fresco enorme nos mesmos, quer na associação que o organiza, porque tinha uma perspetiva e um enquadramento financeiro desenhado para o festival”, acrescenta. 

Depois de um primeiro ciclo de edições bianuais, seguido de um ciclo que se fechou em 2019, a organização partia para a nova edição mais consciente da aprendizagem das edições passadas e com um manifesto “construído e pensado pela forma de como a aldeia se posiciona perante o território, perante outros festivais e perante a própria sociedade, trazendo uma série de linhas orientadoras que já vinham sendo postas em prática”, destaca. Com o mote de se voltar a “habitar a rua”, que se mantém para 2021, pretendem continuar a montar o festival numa lógica comunitária, o que, em certa medida, ganha um outro peso depois deste período de pandemia.

“Perante esta situação, acho que pode haver uma viragem. Não tem tanto que ver com as contingências e com os formatos mas tem muito mais que ver com algo que nós, pessoalmente e coletivamente, sentimos e que é o facto de durante muitos meses não termos o mesmo exercício da cultura que tínhamos anteriormente. Acho que isso pode levar a reflexões muito interessantes sobre a forma como nós olhamos para a cultura. E espero igualmente que os agentes políticos olhem para a cultura e para as pessoas, que neste momento sentem uma ausência da mesma, com um olhar mais comprometido”, finaliza.

Uma conjuntura com consequências na circulação dos artistas

A atual situação, para além do impacto mais notório na interrupção dos eventos ligados à indústria musical, tem igualmente impacto na circulação de artistas, muitos dos quais que, por esta altura, já tinham diversos concertos planeados até setembro. Uma das bandas afetadas pelo cancelamento dos festivais de música são os Throes + The Shine, que, nas datas inicialmente previstas, iriam subir a um dos palcos do NOS Primavera Sound já no início do próximo mês de junho.

Ao Gerador, Marco Castro, membro da banda, conta que ao longo dos próximos meses tinham já agendadas diversas atuações em festivais portugueses mas também estrangeiros. “Nos últimos meses cancelámos grande parte da nossa agenda. Começou logo em março. Estivemos no Festival da Canção no início do ano pelo que, naqueles meses, foi a nossa principal preocupação. Optamos por recomeçar com os concertos logo na segunda quinzena de março e já tínhamos aí concertos que foram todos cancelados, um deles em Paris, por exemplo. Dois terços eram fora do país o que torna a situação mais complexa de gerir, porque a circulação está altamente limitada e é uma nuance a considerar”, sintetiza.

A par disso, o músico acredita que a atual situação pode ter também um impacto negativo na sustentabilidade de diversos projetos musicais. “Uma banda mais jovem tem menos capacidade de aguentar um interregno destes, não tem os mesmos rendimentos, não tem, se calhar, a mesma quantidade de obras para receber direitos de autor, esse tipo de elementos que vão mantendo a flutuar, e isso é preocupante”, sublinha, acrescentando que o mesmo pode acontecer com festivais de médio e pequeno porte, que “poderão não voltar a acontecer”.

Embora muitos artistas tenham optado nos últimos meses por adaptarem formatos de concerto ao online, Marco refere que, ao invés dessa escolha, a banda tem aproveitado o tempo de confinamento para contribuir “o máximo possível” para aquele que será o próximo álbum e que deverá ser lançado no próximo ano. “Estamos a apostar bastante na criação desse disco que vai ser especial, porque no próximo ano fazemos 10 anos e queremos celebrar dessa forma”, conclui.

Os Throes + The Shine estão focados na criação do novo álbum © Natasha Cabral

A problemática da sustentabilidade em projetos musicais e festivais mais pequenos levantada por Marco é também notada por Hugo Ferreira, fundador e responsável pela Omnichord Records, editora  de Leiria que representa vários músicos nacionais, como os First Breath After Coma, Surma e Whales. O responsável considera que o problema da circulação de artistas pelos festivais pode estender-se até, pelo menos, ao próximo ano, uma vez que “a maioria dos cartazes estavam fechados e no próximo vai-se apenas repor o que já estava previsto”.

Partindo deste pressuposto, Hugo admite, porém, que o momento que se vive pode ser interessante para os artistas que tinham novos lançamentos na calha. “Tudo o que temos previsto de gravações e edições estamos a tentar manter, porque adiar para uma altura em que possa haver concertos e digressões vai fazer com que, se toda a gente adiar, não haja depois o mesmo espaço mediático para cada um”. Não obstante, essa dimensão pode não ser suficiente, uma vez que impede a “promoção ao vivo”, provacando um efeito dominó que afeta a estrutura no seu todo.

“Esta situação está a paralisar praticamente um setor. Tendo em conta que a grande maioria dos projetos editoriais não vivem só da edição, porque tratam do agenciamento, da comunicação, entre outras dimensões, vivem muito do espectro dos concertos ao vivo e ainda da componente de produção. Portanto, isto acaba por não ser só mau para os artistas agenciados, mas também para as próprias estruturas que deixam de ter uma forma de os capitalizar”, sumariza. 

Do teste de novos modelos ao debate sobre a profissionalização do setor

Ao longo do último mês, vários formatos de concertos – em sala ou ao ar livre – têm sido idealizados mediante as condicionantes de segurança e higiene que se impõem. No entanto, permanece a incerteza sobre a rentabilidade dos mesmos, quer para os artistas quer para os promotores. 

No que a esta problemática diz respeito, Hugo Ferreira acredita que, embora os novos modelos – testados num lógica de “tentativa-erro” – até se possam adequar a alguns artistas, dificilmente poderão ser rentáveis. Por outro lado, poderão abrir espaço a uma maior utilização das salas, com concertos a diferentes horas do dia. “Se calhar com meia casa podemos fazer duas sessões e a outras horas do dia, sem que aconteçam só à noite”, sublinha, destacando que isso pode distribuir mais público, que “nesta situação pode estar mais disposto a esse tipo de experiência”.

A impossibilidade de se realizarem festivais nos próximos meses gera incerteza face ao futuro de muitas estruturas, associações e empresas que muitas das vezes dependem do sucesso de cada edição para poderem regressar no ano seguinte. Ricardo Bramão, presidente da Aporfest – Associação Portuguesa de Festivais de Música, explica ao Gerador que ainda é cedo para ter “dados concretos” sobre o impacto que a situação de pandemia pode ter no panorama dos festivais e espetáculos de música em Portugal, mas que já é possível tirar algumas conclusões. 

O momento atual é de grande incerteza para os promotores de festivais © Hugo Lima

A partir de um inquérito que têm vindo a realizar, o responsável refere que os dados recolhidos até agora apontam para o “encerrar de muitas empresas”, sendo que diversos “festivais já não irão voltar a existir, mesmo que esta questão terminasse no dia de hoje”. “ Só iremos fechar o inquérito quando algumas destas medidas anunciadas para a abertura de salas começarem a ser aplicadas, mas os resultados intermédios sustentam que quase todos os associados se viram obrigados a despedir gente ou a não continuar com a contratação de prestação de serviços”, sintetiza, acrescentando que o impacto desta conjuntura terá “consequências ao longo deste ano, em 2021 e também em 2022”. 

Em virtude da pandemia, a Aporfest decidiu não cobrar quotas aos seus associados até dia 15 de junho, prestando ainda um serviço jurídico gratuito de forma a esclarecer dúvidas que possam surgir neste contexto. “Isto obviamente que tem graves consequências para a área, há muito menos gente a trabalhar na mesma, não há apoios e os que existem são muito débeis, mas isto também foi uma aprendizagem. Nós, neste momento, estamos a lançar sementes para esta área se tornar mais profissional. Haver um fundo que proteja os promotores, os técnicos, os artistas, os prestadores de serviços, os próprios media e também o regulamentar destas profissões que gravitam à volta dos festivais e que não estão regulamentadas. Para o caso de existir novamente uma situação como esta que tenha muito menos incómodo e prejuízo como aquele que está a provocar”, declara.

Hugo Ferreira sublinha igualmente a problemática da profissionalização do setor não apenas dos festivais, mas da cultura em geral, que se vê “a ficar para último”. “Para além de estarmos a pôr em causa milhares de empregos, há pouca profissionalização a nível de estruturas e, com uma situação destas, isso pode provocar o definhar de todo um setor”, afirma. Ricardo Bramão corrobora a perspectiva, realçando que essa é “uma aprendizagem que se tira daqui”. “Basta olharmos para a crise de 2008/09 em que a área dos festivais não era tão proeminente como é hoje e, ainda assim, continuou a crescer ao longo dos anos, portanto acreditamos que quem conseguir subsistir nesta fase vai criar ferramentas e métodos de trabalho para se tornar mais forte e mais eficiente de futuro”, conclui.

Num ano marcado pela impossibilidade de voltarmos aos festivais de música que, para muitos, já fazem parte de uma tradição de verão, seja de lazer ou de ofício, o silêncio substitui este ano a paisagem sonora já reconhecida dos meses que se seguiam. E embora a situação atual possa causar uma total incerteza face ao futuro, em especial para aqueles que depositam muitos dos seus esforços na materialização destes eventos, reside também a ideia de que estamos perante um momento para se repensar modelos, planear futuras edições mas também de exigir um olhar renovado sobre um setor que tanto nos marca pelos momentos que proporciona.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Vera Marmelo

Se queres ler mais notícias sobre a cultura em Portugal, clica aqui.