Por entre o público, permanecemos um rosto escondido por uma máquina fotográfica. Cruzámos vozes, perspetivas e melodias com o objetivo de traçar um retrato do jazz que, tal como uma fotografia, é irrepetível. Fica a pergunta: se o clique de uma fotografia registasse o jazz em Portugal, hoje, o que mostraria?

*Este texto foi publicado na Revista Gerador de setembro de 2019

Estávamos em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, quando um professor na Universidade de Direito de Coimbra decidiu comprar um rádio para ouvir as notícias da guerra. Nessa casa, vivia um menino que gostava de brincar aos cowboys e de jogar futebol, não tendo «grande tendência para a música». Foi com a chegada do rádio a sua casa que, aos sábados de manhã, começou a procurar «umas coisas esquisitas.» Esse menino é hoje o engenheiro Bernardo Moreira, mais conhecido por Binau, que nos conta ter sido aí que começou: «todas as semanas, às 11h horas, estava agarrado ao rádio para ouvir aquela coisa que me deixava fascinado. Só vim a saber que se chamava jazz uma data de anos mais tarde.»

Ao ingressar na Universidade de Coimbra, encontrou um grupo de jovens que tocava standards da Broadway. «Aderi a esse grupo, não como músico, mas como seu amigo. Comecei a meter-me nisso e é claro que, ao fim de meia dúzia de semanas, estava a tentar tocar.» Sem terem formação musical, tocavam de ouvido. Conta-nos que havia um jovem no Porto que aos fins de semana ia até Coimbra e levava o seu disco de 33 rotações. «Só havia um disco e ouvíamo-lo horas seguidas, para ver como aquilo se fazia.» O grupo de estudantes costumava tocar em quinteto e, no dia em que Nuno Sena Fernandes, o então contrabaixista, voltou para Macau, Moreira subiu ao palco pela primeira vez. «Tocava contrabaixo há quatro dias e não sabia fazê-lo. Este grupinho disse que tinha de tocar numa festa de estudantes na sexta-feira seguinte, porque ficaram sem contrabaixista. Só tocar uma música. Decorei aquilo numa tarde e foi assim que comecei a tocar contrabaixo.»

Ainda durante a Primeira Guerra Mundial, chegaram a Portugal os primeiros ecos do jazz, mas só em 1919 surgiu na imprensa portuguesa, em A Capital, um texto sobre as origens deste género musical, em que se empregou, pela primeira vez, o termo jazz. Finda a Grande Guerra, o género musical é recebido com alguma hostilidade em Portugal, principalmente pela elite jornalística e literária. «Nos anos 20, há textos demolidores sobre o jazz. A sociedade, na época, era muito racista. Havia o medo das elites brancas, intelectuais, que os negros ao fazerem cultura diluíssem as diferenças civilizacionais», esclarece o investigador João Moreira dos Santos. Em 1934, foi publicada uma sátira ao jazz, em que na letra do Jazz-Band Infernal, uma peça de teatro, se dizia: «Veio dos pretos esta moda / Onde não há fá nem dó / Tudo canta, pula e berra / Txim, txim, txim, pó, pó, pó.» O emprego das onomatopeias tem que ver com o que era feito nos anos 20: «era um jazz com instrumentos estranhos – um serrote, buzinas, campainhas – muito estridente, e isso incomodava muitas pessoas», acrescenta João.

Porém, principalmente com o surgimento do swing, existiam também críticas positivas, feitas por António Ferro, Francine Benoît e Kix, que viam no jazz a banda sonora dos tempos modernos. É nos anos 40 que o jazz chega à rádio portuguesa, nomeadamente com o primeiro programa de jazz da rádio em Portugal, Hot Clube, com texto e seleção musical de Luiz Villas-Boas, estreado no programa da manhã da Emissora Nacional. Nos anos 50, Villas-Boas introduz o jazz na televisão com intervenções pontuais e, em 1962, surge, através de Manuel Jorge Veloso, o TV Jazz e o Jazz no Estúdio A. Assim, politicamente, a Primeira República e o Estado Novo mantiveram uma postura neutral em relação ao jazz. «Objetivamente, o Estado Novo não perseguiu o jazz. Perseguia a sociedade, o que é muito mais completo. O público português é que odiava o jazz, não era o Estado Novo. Tem que ver com o nível cultural da sociedade e não com o regime político», partilha Bernardo Moreira.

Um dos principais marcos da afirmação do jazz em Portugal é o aparecimento do Hot Clube. «É um fenómeno que nasce em França nos anos 30. Aqui (Portugal), vai ser fundado em 1948 pelo Villas-Boas. Hoje em dia, podemos dizer que será um dos clubes mais antigos a nível europeu», esclarece o investigador. Com os estatutos aprovados em 1950, o Hot, em Lisboa, tem vindo a receber nomes nacionais e internacionais do jazz.

Mini cronologia do jazz em Portugal

O jazz ensina-se?

Outro dos grandes passos para o crescimento do jazz em Portugal foi dado pelo contrabaixista Zé Eduardo ao fundar a escola do Hot Clube, em 1979. Numa altura em que não chegavam manuais de jazz a Portugal, começou a encomendá-los para estudar. «Criei o sistema educativo do jazz em Portugal e em Espanha. Era uma aplicação do programa americano, altamente sofisticado e tecnicista, e pus aquilo duma maneira simples.». Quanto à evolução do jazz dum género praticado por autodidatas ou músicos profissionais que se apoiavam na tradição oral, para a existência de escolas e ensino superior na área, Zé admite a existência de duas consequências. Se, por um lado, a existência de cursos se «assemelha a uma fábrica, em que em 200 formados, se calhar, só um será artista», por outro, «agora toda a gente tem acesso ao jazz e os talentos saem cá para fora».

Desde escolas de música, escolas profissionais, conservatórios, aulas privadas ou ensino superior, a partilha de conhecimento duma forma estruturada está mais próxima. Se com o aparecimento das licenciaturas a procura por parte de músicos profissionais foi muito elevada, hoje, regra geral, as escolas de jazz têm assistido a uma manutenção ou crescimento constante na procura dos seus cursos por parte de alunos mais jovens e, embora a maioria dos alunos continue a ser do sexo masculino, já se começa a ver mais mulheres a estudar jazz.

Observando o aumento da procura e da oferta de cursos existente em Portugal, o Gerador conversou com a escola do Hot Clube (HCP), a Escola Artística do Conservatório de Música de Coimbra (CMC), o Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira (CEPAM), a Escola de Artes da Universidade de Évora (EAUE), a Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto (ESMAE), a Escola Superior de Música de Lisboa (ESML) e a recente escola da Fábrica do Braço de Prata (FBP).

Entre elas há pontos que convergem. Bruno Santos, diretor pedagógico do HCP, explica que «o que distingue o jazz de outros estilos musicais é a sua componente forte na improvisação e na personalidade forte de cada músico.» Também Paulo Barbosa, responsável pela CEPAM e diretor artístico do Funchal Jazz, evidencia que «o jazz aposta na interação na atuação.»

Aquando da definição de um programa de estudos, salienta-se a importância da manutenção do espírito do autodidatismo, da tradição oral, do enfoque na improvisação, da técnica do instrumento, do conhecimento da história e de acrescentar bases académicas, sem que se perca a personalidade de cada músico envolvido. «Deve ser ensinado por pessoas que o fazem, praticam e tocam», aponta Ricardo Pinto, professor responsável pela FBP. Eduardo Lopes, professor associado da EAUE, destaca a preocupação na atualização dos programas: «sabemos que as tecnologias são o futuro da música e temos de prever o que vai ser um músico de jazz daqui a 20 anos para que os nossos alunos estejam preparados para isso.» Existe a preocupação de criar oportunidades para os alunos tocarem ao vivo, através de jam sessions, e de organizar masterclasses com músicos internacionais, assim como intercâmbios.

As ambições dos alunos variam. No caso do ensino superior, existem os alunos que visam ser músicos profissionais e os que visam a obtenção dum diploma para dar aulas. «O ensino é uma forma de estarmos na corrida, ativos, e também é uma satisfação profissional», afirma António Augusto Aguiar, presidente da ESMAE. No caso das escolas, encontra-se quem ambicione ser músico de jazz, mas também quem queira apenas aprender música ou até ser músico doutro género musical, mas que vê no jazz uma forma de adquirir conhecimentos, pela sua permeabilidade, combatendo a ideia de que se tem de começar pelo ensino da música clássica, ou pelas bandas filarmónicas.

De tendências observadas nos alunos, os entrevistados salientam a procura por cruzar o jazz com outros estilos, nomeadamente o rock, pop e eletrónica. Ricardo Pinto nota ainda «uma capacidade de invenção muito maior», ou segundo João Moreira, coordenador da licenciatura em jazz na ESML, uma «atitude de exploração». Pensamento complementado por Eduardo Lopes ao dizer que «cada um dos músicos procura mais rapidamente a sua identidade, que vai para além da fusão. É uma fusão tão grande que acaba por ser uma individualidade.» Porém, Paulo Barbosa nota que os alunos tendem a conhecer mais músicos contemporâneos do que os nomes fundamentais da história do jazz. Também Rui Lúcio, coordenador do curso de jazz da CMC, identifica esta tendência e vê na academia uma forma de levar os alunos ao conhecimento dos grandes mestres. António Augusto Aguiar e João Moreira destacam a qualidade musical com que os alunos já chegam ao ensino superior.

Pelos caminhos de Portugal se ouve jazz

Alguns dos festivais de jazz em portugal

Ao programar um festival de jazz, são várias as preocupações e temas que se levantam. Como critérios de seleção de projetos salientam-se a qualidade, relevância, novidade, diversidade, o equilíbrio entre o que o público espera e como provocá-lo e, no caso específico de Serralves, garantir uma programação exclusiva com a encomenda de projetos inéditos ou estreias. Nos grandes festivais existe uma menor percentagem de projetos portugueses, embora alguns programadores procurem contrariar isso. Porém, a discrepância de cachês de músicos portugueses para estrangeiros continua a ser acentuada. «O de um grupo americano ronda os 15/20 mil euros, e para um português tentam sempre pagar 2 a 3 mil euros», afirma Carlos Martins. Em relação à percentagem de mulheres que integram a programação, continua a ser inferior, embora não seja uma disparidade intencional por parte dos músicos e programadores, mas sim uma prática que está enraizada e que começa a ver rasgos de melhoria.

Outro dos grandes debates na programação dos festivais é se devem ser de entrada livre ou não. Se, por um lado, a gratuitidade pode ser vista como um incentivo à captação de novos públicos, por outro, é uma prática que muitos programadores e músicos discordam, defendendo que «deve ser o mais acessível possível, mas pago, porque os profissionais da cultura têm de viver. O fenómeno de gratuitidade dos festivais tem que ver com estratégias políticas, e a cultura tem de estar completamente apartada disso», afirma Rui.

A maioria tem a perceção de que o público de jazz aumentou em Portugal, nos últimos anos, apesar de continuar muito concentrado em Lisboa, Porto e Coimbra. Ainda que existam muitos festivais de jazz que o levam ao interior do país, pecam pela sazonalidade.

A programação regular é mais frequente em zonas onde existam escolas, universidades, ou projetos como a Orquestra de Matosinhos. Com «festivais a mais e sítios onde se toque a menos» (Binau), podemos encontrar concertos de jazz todos os dias em Lisboa, e com uma programação regular na sala do Porta-Jazz, o Hot Five, o Lomo, ou a jam da ESMAE, no Porto; o Quebra, Café Santa Cruz, ou Liquidâmbar, em Coimbra; o Molhóbico, ou Imaginário, em Évora; ou o SCAT, no Funchal. Embora subsistam alguns espaços, os músicos não consideram que exista um circuito de jazz estabelecido.

Retratos: mais de 40 anos a viver o jazz em Portugal

Da sorte de crescer numa casa onde se ouvia jazz, como o contrabaixista Carlos Barretto, ao contacto com programas como o TV Jazz, no caso do pianista João Paulo Esteves da Silva, a cruzamentos improváveis com a palavra jazz num álbum dos Queen, para o baterista Bruno Pedroso, ou à curiosidade para ir ao festival de jazz de Cascais descobrir do que se tratava, como a cantora Maria João, se constroem narrativas acerca do primeiro contacto com o jazz,que desde logo fascinou os músicos que nasceram antes do 25 de Abril e que fazem parte da vaga de primeiros músicos profissionais de jazz em Portugal.

Olhando para uma geração mais nova, a principal diferença que identificam é a quantidade de ferramentas disponíveis: a disponibilidade de materiais na Internet, inclusive no YouTube, a possibilidade de ter aulas por Skype, a facilidade em comprar discos ou ouvir música online e o ensino da música disseminado. Por outro lado, com o aumento do número de músicos, tende a haver uma maior pró-atividade para arranjar sítios onde tocar e conquistar o seu espaço. A possibilidade de dar aulas vem conferir uma maior segurança em ser músico.

Na hora de tocar jazz, todas as idades convivem. Nessa partilha, Carlos Barretto afirma «ter ganhado muita coisa, eles trazem uma frescura para a música. É uma riqueza espiritual que se partilha.» Maria João descobriu a eletrónica nesta convivência, dando-lhes de volta a «música pura e dura.» João Paulo ganha «o prazer de fazer música e um estímulo para continuar a fazê-la.» Bruno Pedroso partilha que as grandes evoluções que sentiu, nos últimos tempos, enquanto músico, se deveram a ter sido «exposto a muitas coisas que estavam fora da minha zona de conforto que me foram apresentadas por músicos com metade da minha idade.»

Se o seu início não foi fácil, valendo-se muitas vezes da ajuda da família, e tratando-se ainda hoje de uma profissão difícil de gerir, Maria João assegura que é algo que vale a pena. «Exige tudo de nós – toda a nossa lealdade, tempo e amor, mas de volta dá-nos o mundo inteiro.»

Da viagem para um festival, passando pelas salas do Porto, até aos cruzamentos em Lisboa

O ponto de encontro era na Volta da Pedra. O destino era o festival Tass Jazz. Os protagonistas? O quinteto do pianista Luís Barrigas, composto por Moisés Fernandes (trompete), Desidério Lázaro (saxofones), Mário Franco (contrabaixo) e Alexandre Alves (bateria). Entre contas de três simples para dividir os gastos de combustível e atrasos, que se revelaram ser apenas desencontros, o quinteto dividiu-se em dois carros. Ao entrar num deles, ouve-se o GPS dizer: «A iniciar rota para Odemira». As horas seguintes são ocupadas por boa disposição e conversas que vão desde questões de manutenção dos instrumentos às condições oferecidas em concertos.

Na chegada assiste-se ao encontro com o septeto de Susana China, que terminava o teste de som. Sempre com uma postura descontraída e sorriso hospitaleiro, os músicos, com o cair da noite, ocupam o palco. O público mais jovem sentava-se nos degraus de pedra, mas encontrávamos pessoas de todas as idades que soltavam um «oh, yeah» a cada solo e um pintor que deixava o seu traço ser guiado pelo ritmo do jazz. «É usual estar cheio. Há pessoas que vivem nos sítios mais escondidos e que na altura do Tass Jazz aparecem e vêm ver os concertos», partilha Joaquim Silva. Já de madrugada, o regresso a Lisboa é pautado pelo bom humor e partilha de episódios caricatos, que ajudam a combater o sono.

A viagem para um segundo festival, Jazz no Parque, levou-nos até ao Porto, mas pelo caminho fomos recebidos por vários músicos do Norte e ainda visitámos a sala do Porta-Jazz, onde reunimos alguns deles para uma fotografia. Quem nos abriu a porta foi João Pedro Brandão, um dos fundadores desta associação, que «surgiu numa altura em que o Porto estava um bocadinho adormecido em termos culturais», procurando quebrar a centralização da cultura na capital. Hoje em dia, para além de fazerem o festival Porta-Jazz, têm a sala com programação regular e disponível para ensaios, tentam promover circuitos nos bares e residências artísticas, nomeadamente em colaboração com outros polos artísticos como teatros, e têm uma editora que já lançou cerca de 60 discos de jazz, sempre com uma base relacionada com a região. O objetivo é «fortalecer a dinâmica desta comunidade e, desde que temos apoio, tentamos ter programação quer de estrangeiros, quer de músicos doutras partes do país.»

Músicos de jazz do Porto, na sala do Porta-Jazz © Rafael Farias

Em pé, da esquerda para a direita: André Araújo; Nuno Trocado; José Valente; Pedro Neves; Guilherme Costa; Filipe Monteiro; António Pedro Neves; Ricardo Coelho; Filipe Teixeira; Eduardo Cardinho; Miguel Sampaio; Hugo Raro; Eurico Costa. Sentados, da esquerda para a direita: João Pedro Brandão; Hugo Ciríaco; Paulino Garcia; Rui Teixeira.

De regresso a Lisboa, a memória viaja até ao passado dia 15 de janeiro, em que o Hot Clube recebia o trio de André Rosinha. Em três noites de concerto sucessivas, o contrabaixista propôs-se a experimentar composições para um segundo disco de originais, com público, em modo de ensaio geral. No quarto dia estaria a gravar o disco, com João Paulo e Marcos Cavaleiro (bateria). Esta é uma prática que acontece no meio jazzístico: ir aos clubes rodar as músicas, ver como o público reage, para depois as gravar. «Não digo que seja o habitual, mas é recomendável. Vai-se para estúdio com uma certa rodagem. Um disco é uma fotografia do antigamente. O André tentou contrariar isso e foi boa ideia», afirma João Paulo.

Destaca-se a importância dos clubes para a prática do jazz, onde existe um som mais puro dos instrumentos e uma maior proximidade com o público. «O jazz é uma música acústica, pelo que tem de ser tocada como tal. É uma música com muita energia, que nestes sítios se faz sentir. É um processo diário ires a um clube, mas não a uma sala», defende o saxofonista Ricardo Toscano.

Porém, o jazz começa a chegar a grandes salas e festivais, principalmente no estrangeiro. «Não acho que o jazz mundialmente esteja confinado ao clube e circuito pequeno. É importante manter os dois e perceber que o jazz tem a mesma qualidade para estar em salas maiores e é capaz de vender 1200 lugares», partilha a cantora Maria Mendes.

Jam sessions: da má onda à timidez e confronto

Conhecidas como a alma do jazz, são uma das práticas mais características dos clubes. «Os grandes nomes do jazz eram os gajos que tocavam todas as noites nos clubes. O jazz não é feito em festivais, é feito nas jam sessions. Aí é que se cria, como resultado de horas e horas de treino», defende Binau.

A participação nas jams requer um determinado tipo de conduta. Quando o palco é ocupado por músicos mais experientes, é de bom-tom apenas subir a convite. No entanto, por vezes, veem-se músicos mais novos subirem a palco sem estarem preparados, prejudicando a qualidade da sessão – aquilo a que os músicos chamam de má onda. Apesar da génese da jam estar associada à luta de poder e egos, hoje podemos assistir a jams para todos os gostos, desde as que estão vocacionadas para músicos mais experientes, às em que há abertura para qualquer pessoa tocar, ou até aquelas em que a subida a palco é sorteada.

Existe um jazz português?

De um lado está quem pense que o jazz é um género americano apenas tocado por portugueses. Mas do outro está quem não tenha dúvidas que exista uma sonoridade portuguesa bem definida.

«Existe um jazz português, não apenas porque é tocado por portugueses, mas porque deriva de uma identidade portuguesa, ou de uma maneira portuguesa de o entender e tocar», declara Rui Eduardo Paes. Para os que identificam esta portugalidade, o primeiro nome que surge como exemplo é João Paulo, que nos diz tratar-se de uma aceitação de ser português. Desafiado para definir o seu trabalho neste âmbito, partilha que «tem que ver com uma relação muito próxima entre a música e a própria língua portuguesa. Nas melodias, mesmo quando não têm palavras, aparecem acentuações ou ritmos que são típicos do português. Descobri uma ponte entre a língua e a música, e talvez isso lhe dê um toque português.»

Ser músico de jazz

Maria Mendes avança que «ser músico também é aceitar um estilo de vida específico, em que tens muita irregularidade de vencimento mensal, e há uma série de músicos que têm muitos projetos e depois não conseguem ter a plataforma para os apresentar.» A verdade é que, embora seja possível viver da música, muitos têm de abraçar projetos fora da área do jazz ou dar aulas.

«O músico de jazz tende a ser um idealista, porque o que ele quer é tocar. Continuas a tocar à borla, ou mal pago e em más condições porque gostas de tocar aquela música. O pessoal vai-se safando a fazer pequenos gigs. Mas uma coisa é verdade, se fores competente, vais conseguir safar-te», João Moreira

A circulação internacional dos músicos portugueses é dificultada porque Portugal é um país periférico. Muitos não sentem a necessidade de irem para o estrangeiro para ter uma carreira internacional, como é o caso do acordeonista João Barradas que continua a residir em Portugal e se tem vindo a afirmar no panorama internacional. No entanto, Maria Mendes revela que decidiu mudar a sua residência para a Holanda por sentir que «havia mais liberdade criativa». Já a trompetista Susana Santos Silva, que vive na Suécia, fala num maior número de apoios oferecidos aos músicos lá fora.

O que é o jazz?

«Não há fronteiras definidas, o jazz é aquilo que um músico de jazz faz.», Paulo Perfeito

Não é fácil defini-lo ou traçar-lhe uma rota clara, principalmente quando se fala do jazz em Portugal. Ao contrário da música clássica, que tem séculos de história, a do jazz é recente, deixando bastantes pontas soltas, episódios por contar e tramas por revelar.

Embora seja inegável o crescimento nacional a nível de projetos apresentados – tome-se como exemplo a Conferência Europeia de Jazz de 2018, em Portugal, que recebeu quase 100 candidaturas de projetos portugueses – existe discórdia quando à sua singularidade relativamente ao resto do mundo. Rui Eduardo Paes defende que «o boom que houve em Portugal nos últimos anos é um fenómeno particular e essa particularidade é que chamou a atenção da crítica lá fora e dos editores.» No entanto, muitos defendem que é um crescimento que se observa a nível europeu e outros não são tão otimistas na identificação desse desenvolvimento.

Uma das problemáticas que se demarca em Portugal é a falta de apoios. Ricardo Pinto afirma que «a GDA apoia, mas não todos. É preciso abrirem-se mais portas.» Já Carlos Martins aponta a falta de mobilidade que existe na capital: «não há incentivo à mobilidade nos jovens. Embora haja agora transportes mais baratos, é para alguém que vá sem um instrumento.» Também os teatros deixaram de ter um orçamento para uma programação, o que faz com que se tenha de alugar as salas por risco próprio e, assim, «os jovens músicos acabados de formar não têm acesso aos teatros e isso é um problema», aponta João Moreira.

Na hora de responder à pergunta – O que é o jazz? – raros são os músicos que não se debatem para encontrar uma resposta. Fica a ideia de que é um género vivo e em permanente mutação, que oferece uma liberdade e fluidez para sermos o que quisermos. Cada música tocada é como uma fotografia colorida com os músicos que ocupam o palco, o público que se funde com o improviso em tempo real e os universos pessoais que cada momento nos oferece. Com morada na irrepetibilidade desta maneira de ser, na missão de definir o jazz não existem respostas certas.

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*Os fotografados na fotografia de capa, de cima para baixo, da esquerda para a direita: Francisco Brito; Óscar Graça; António Quintino; João Sousa; Zé Maria Gonçalves Pereira; João Hasselberg; Tiago Pires; Beatriz Nunes; Miguel Moreira; Beatriz Pessoa; André Silva Campos; Daniel Neto; Guilherme Melo; Ricardo Toscano; Filipe Melo; Diogo Alexandre; Pedro Felgar; Gonçalo Leonardo; Tomás Marques; Gonçalo Sousa; Daniela Melo; João Pedro Coelho; Daniel Bernardes; Pedro Branco; André Santos; João Espadinha; André Rosinha; Afonso Pais de Sousa; Joel Silva; Luís Barrigas; Pedro Melo Alves.
© Diana Mendes

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de capa de Diana Mendes
Ilustrações de Hugo Henriques e Carla Rosado
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