André Rosinha, o contrabaixista que encontra morada no jazz e é conhecido por integrar múltiplos projetos e pelo seu contrabaixo encabeçado por um leão, prepara-se para lançar o segundo disco de originais, Árvore, no dia 4 de dezembro no Hot Clube de Portugal, às 22h30.

A estreia do contrabaixista como compositor em nome próprio deu-se em 2018 com o lançamento de Pórtico, em que contava com Bruno Pedroso (bateria), João Barradas (acordeão e acordeão midi), Eduardo Cardinho (vibrafone) e Albert Cirera (saxofone tenor e soprano) para o acompanharem. O disco de estreia recebeu, desde logo, elogios pela crítica e preencheu variadas salas nacionais com a proposta musical que Rosinha sentiu ser o momento certo para partilhar com o público. Pelo meio, manteve a sua presença em projetos de músicos como Salvador Sobral, João Barradas, Júlio Resende ou Eduardo Cardinho, sem medo de abraçar estes e outros desafios que com ele se foram cruzando e mantendo aguçada a curiosidade musical que o caracteriza.

Para fechar o ano em beleza, lança agora o seu segundo disco de originais, Árvore, em formato trio. Para se juntar a ele, convidou João Paulo Esteves da Silva (piano) e Marcos Cavaleiro (bateria). No início do ano, apresentou esta formação durante três dias consecutivos de concerto no Hot Clube de Portugal, tendo ido gravar as nove músicas, que compõem o disco, no quarto dia. Dessas noites, ficou a promessa e antecipação por um disco que se demarca linguisticamente do primeiro e que nos conta uma história envolvente e capaz de comunicar com o âmago de quem o ouve. É um disco que reflete uma das linguagens em que se encontrou dentro do jazz, com espaço de sobra para a improvisação e encontro de soluções musicais em tempo real, mas também das influências das viagens que tem feito em nome da música, de traços que o caracterizam, das disciplinas artísticas que o circundam, mas acima de tudo de todas as pessoas que contribuíram para a pessoa que é hoje e, assim, para a música que compõe e nos assalta o coração sem aviso prévio.

Teaser do disco Árvore

Foi num fim de tarde que nos sentamos à conversa com o André para falarmos do seu segundo disco, algumas das suas influências e do caminho que perspetiva para a sua música, antecipando o concerto de dia 4 de dezembro em que o disco será oficialmente apresentado.

G. – Estreaste-te com um álbum em quinteto. O que te levou a continuar o caminho das composições que assinas, em trio?

A.R. – O que me fez fazer este disco em trio foi sempre ter gostado dos vários formatos de trio: saxofone, contrabaixo e bateria; piano, contrabaixo e bateria; ou guitarra, contrabaixo e bateria. Com o passar do tempo, fui gostando cada vez mais desse formato do trio clássico de jazz, que é o piano, contrabaixo e bateria. Fui escrevendo músicas e na minha cabeça fez sentido que estas músicas fossem para esta formação e especialmente para estes dois músicos – o João Paulo e o Marcos Cavaleiro.

G. – Cresceste numa casa onde se ouvia muito jazz, mas não ficaste convencido por este género musical à primeira. Foi quando o teu pai te levou a um concerto do Keith Jarrett (pianista e compositor) no CCB que tudo mudou? Há alguma coisa que tenhas absorvido desse concerto que ainda encontras em ti de cada vez que sobes a palco ou até quando escreves música?

A.R. – Não diria que foi esse o concerto que mudou a minha visão. Lembro-me de que gostei desse concerto e tenho muita pena porque não dei o devido valor àquilo. Foi uma oportunidade única que já não vou ter outra vez, mas na altura gostava doutras coisas. Sempre ouvi jazz. Lembro-me de que andava de skate a ouvir discos de jazz, que neste caso eram cassetes. Não diria que foi aquele momento que mudou a minha vida. Acho que foi mais tarde. Nem sei que idade tinha quando fui a esse concerto, mas não sei se posso dizer que esse foi o momento-chave para a minha conversão ao jazz.

G. – Mas houve um momento?

A.R. – Acho que não houve um momento em que dissesse que ia tocar jazz. Houve um momento em que disse que ia ser músico, mas em relação a tocar jazz não consigo precisar o momento. Talvez tenha sido já depois de tocar. No início, quando tocava baixo elétrico, não dizia que queria ser músico de jazz. Queria tocar reggae, rock e essas coisas. No início, achava que ia tocar baixo elétrico, assim umas coisas mais de fusão. Acho que a cena do jazz ficou mesmo instaurada quando comecei a estudar contrabaixo e quando comecei a estudar no Hot Clube, a ouvir os discos clássicos e a perceber que aquilo era a cena de que gosto.

G. – Primeiro um Pórtico de entrada em que te rodeaste de alguns dos teus amigos mais próximos. Agora, uma Árvore em que escolheste nomes com mais anos de experiência. É assim que vês o florescer da tua carreira? Ou seja, depois de constituída uma base forte que te dá o apoio de que precisas, sentes-te capaz de simplificar na estrutura, mas ramificando-te em projetos em que te rodeias de pessoas que não são da tua geração, mas que te marcaram?

A.R. – A parte da amizade, para mim, é muito importante. Gosto de tocar com amigos. Se calhar, os músicos do Pórtico são mais meus amigos, porque são o pessoal com quem comecei a tocar desde novo. O João Barradas é o gajo com quem, se calhar, toco há mais tempo. O lendário (Bruno Pedroso) é a pessoa com quem já dividi o palco mais vezes. Mas, por exemplo, o Marcos Cavaleiro é um músico por quem tenho uma grande admiração e sempre tive a ambição de tocar com ele. Já o tinha feito várias vezes e considero o Marcos um amigo. Sempre que estamos juntos é alta cena e partilhamos coisas da vida e da música. O João Paulo também é um amigo, não como os outros, porque temos uma diferença de idade muito grande. Ele já está noutra fase da vida. É um gajo histórico e é incrível tocar com ele. Quando escrevi as músicas e quando decidi a malta, escolhi estes dois músicos pela sua identidade musical e não pela cena da amizade. Foi o que aconteceu no Pórtico também – chamei aqueles músicos, porque eram os músicos que admirava e com quem queria tocar e por achar que a minha música fazia sentido ali.

G. – Vamos retroceder àqueles três dias no início do ano em que foste para o Hot Clube experimentar estas músicas, para no quarto dia as gravarem. Que confirmações e que acrescentos levaste dessas noites para o estúdio?

A.R. – As confirmações, tive-as no dia antes do ensaio. Tinha os nove temas e nunca os tinha tocado com eles. Havia ali um ou dois que não tinha a certeza se faziam sentido esteticamente com o resto das músicas. Mas aqueles dois moços (João Paulo Esteves da Silva e Marcos Cavaleiro) percebem muito bem o meu universo e o que queria da música e rapidamente arranjámos ali soluções que funcionavam muito bem. No único ensaio que fizemos para gravar o disco, percebi que os nove temas funcionavam perfeitamente como um todo e como uma história. Fazia todo o sentido. Os três dias foram só para pôr aquilo o mais direitinho possível, mais estruturado e mais na batata, como nós costumamos dizer, para chegarmos ao estúdio e fazermos aquilo acontecer.

Parte do concerto do trio de André Rosinha no Hot Clube de Portugal, em que o músico levou as suas músicas ao público durante três noites antes de as gravar em estúdio.

G. – Houve alguma coisa que mudasse antes de gravarem devido a essa experiência?

A.R. – Houve uma música que teve de mudar de tom, porque enviei o papel em dó para o João Paulo e a música era em si bemol originalmente. Ficou em dó, porque o João Paulo já a sabia nessa tonalidade e para mim era indiferente o tom.

G. – Se compararmos as músicas que integram o teu álbum de estreia com este que vais lançar no dia 4 de dezembro, a linguagem é completamente diferente. Tendo em conta o momento presente que vives na música, o ciclo que inauguras com Árvore tem que ver com a linguagem musical com que mais te identificas atualmente?

A.R. – Sim e não. Acho que como músicos de jazz, ou como músicos no geral, estamos sempre à procura de coisas novas, e, quando gravei este disco e escrevi estas músicas, andava a ouvir coisas parecidas com esta estética musical, com este universo musical. Coisa que agora não ando a fazer muito. Ou seja, também oiço, mas ando mais viciado na cena nova-iorquina recente. Por exemplo, o Harish Raghavan, que lançou agora um disco incrível (Seaminer), o Immanuel Wilkings, o Joel Ross, essa malta que toca jazz supermoderno e mais agressivo. A palavra certa é violento, aquilo é um jazz violento. Agora, se calhar, apetece-me tocar esse tipo de jazz. Isso aconteceu agora com a banda do Eduardo Cardinho (In Search of Light) na Marinha Grande. O que eu andei a ouvir encaixa-se melhor na música dele do que nesta. Ou seja, são vários universos de que gosto bastante e que podem ser mais ou menos compatíveis com as formações diferentes que faço.

G. – Para desenhar a capa, recorreste ao trompetista Ricardo Pinto. A que se deveu esta escolha?

A.R. – Primeiramente, queria mudar. Queria escolher alguém diferente em relação a quem desenhou para o primeiro disco. A música é diferente, por isso achei que fazia sentido a capa ser diferente. O Ricardo é um amigo que tenho há muito tempo e faz capas giras. Já gravei discos com ele, e é ele que faz as suas capas. Achei que podia experimentar. Adoro o resultado final. Sei que ele queria uma coisa mais elaborada, mas adoro o facto de esta capa ser supersimples. As melhores coisas da vida são simples.

G. – Começas com a música que dá nome ao álbum. Porque decidiste chamar-lhe Árvore?

A.R. – Esta música foi escrita há muitos anos para tocar com o Roberto Negro e o Vasco Furtado no Hot. Como todos os temas de jazz, não têm título no início e depois temos de arranjar um título. Tinha um trocadilho muito clássico, porque não gosto de alface, e dizia que “eu não como paisagem”. Dizia isso ao Roberto, que é italiano, mas vive em Paris, e ele disse que como eu estava sempre a dizer “paisagem”, para lhe chamar “paturage”. Por uns tempos ficou, mas nunca gostei muito. Era um título provisório. Uma das coisas que me fez chamar-lhe Árvore foi o facto de eu ser de Sintra e, todos os dias, abria o estore de casa e via árvores. Depois, a escolha dos takes foi sempre feita em Monsanto. Ia para Monsanto com os fones a ouvir os takes, porque gosto bastante de estar no meio das árvores e da natureza. Então, que símbolo melhor do que a árvore para mostrar o meu amor pela natureza?

G. – Uma das músicas que tem sido mais elogiada é o “Ré”. Era algo que já sentias à partida ou essa reação surpreendeu-te?

A.R. – Não, não estava nada à espera disso. Ou seja, quando faço músicas espero que as pessoas gostem.

“Ré” de André Rosinha, tocado em janeiro no Ferroviário

G. – Mas havia alguma que, à partida, sentias que estava mais forte?

A.R. – Sim, se calhar, não era a música que diria que ia ter mais sucesso. Aparentemente as pessoas gostam, se calhar por ser uma coisa tão simples. Era o que estava a dizer há pouco – o simples é melhor.

G. – Qual era a que achavas que se iria destacar?

A.R. – Se calhar, o “Den gamla”, de que gosto bastante. Acho que tem uma melodia bonita. O “Texas” também é gira. Mas não sei. Sou suspeito, fui eu que as fiz.

Videoclipe de “Den gamla”, gravado no estúdio Timbuktu

G. – Uma das músicas chama-se “Tunkhata”. O que significa essa palavra?

A.R. – Não fui eu que inventei, foi a Isabel Allende. É a cidade prometida do livro O Reino do Dragão de Ouro. Nessa música começamos a tocar totalmente livres, e o objetivo da música é chegarmos a uma melodia. Então, achei que era uma boa analogia. Estava a ler esse livro enquanto estava a escolher os takes, essa música não tinha nome e achei que era perfeito. Gosto como soa, e o significado é bom também.

G. – Quando dizes que começam a música totalmente livres, estás a dizer que começam a tocar sem que haja uma estrutura da música combinada previamente para esse início?

A.R. – Sim, começamos livres e sabemos onde temos de ir parar. Por isso, todos os takes são diferentes. A única coisa que é igual é o fim da música porque vamos eventualmente de ter de chegar ali. De resto, não temos uma estrutura harmónica, nenhum compasso obrigatório, não temos um tempo definido. Só é preciso chegarmos, mais ou menos, ao tempo da música, porque aquilo é uma melodia difícil e se ficar muito rápido ninguém a consegue tocar, como aconteceu algumas vezes.

G. – Ao longo do disco integras algumas músicas com nomes em diferentes línguas: sueco, árabe, inglês, português. Porque te decidiste por esta multiculturalidade na designação das tuas composições?

A.R. – Se calhar, porque viajo muito e como arranjar títulos para as músicas, às vezes, é difícil fui tirando coisas das minhas experiências das viagens. Por exemplo, a música “Shukraan” foi a única palavra que aprendi enquanto estive no Egipto e quer dizer “obrigado”. Mais uma vez, não tinha um título para essa música e gostava como soava. A “Ré” é um título português. O “Light” foi escrito inicialmente para uma banda que tinha light no nome, que acabou por não ficar aí, então chamei-lhe só “Light”. “Zafón” é o nome dum escritor catalão de quem gosto muito.

G. – Tal como disseste, há uma música que dedicas ao escritor Carlos Ruiz Zafón. Que contributos é que a sua obra traz para a construção do teu imaginário criativo?

A.R. – Diretamente não sei se consigo dizer que ele tenha contribuído para o meu universo criativo, mas contribuiu para o meu universo pessoal no sentido em que me abriu as portas à leitura. Não lia muito. Se lia dois livros por ano, era muito. Depois de descobrir os livros dele, em que o primeiro foi O Jogo do Anjo, passei a ler muito mais. Agora leio, pelo menos, um livro por mês. Li todos os livros dele, depois conheci outros escritores de quem gosto muito. Fez-me ser uma pessoa melhor, espero eu, porque agora leio livros e ler livros é fixe.

G. – “Texas” é um dos sítios onde gostavas de ir?

A.R. – Não foi por isso. Essa música foi pedindo o seu nome. Escrevi esta música há algum tempo, porque queria uma música que tivesse muitos acordes maiores, uma sonoridade feliz e uma melodia no baixo, que é uma coisa que não costumo fazer. Decidi fazer isso e comecei a fazer sessões para experimentar a música com guitarristas. Houve uma fase em que usavam um pedal trémulo e quando tocávamos aquilo com esse pedal, dava uma sonoridade de música de cowboy. Daí ter ficado “Texas”.

G. – Para que sítios gostavas que a tua música te levasse?

A.R. – Gostava que me levasse para mais longe de Portugal, pelo menos. Mas se for só em Portugal, vou ficar muito feliz na mesma. De norte a sul, há muitos sítios onde tocar. Mas se pudesse escolher um sítio onde pudesse ir agora, adorava fazer uma tour na América do Sul ou no Japão.

G. – Há pouco já explicaste que “Shukraan” significa “obrigado” em árabe. A quem queres agradecer com essa música?

A.R. – Quero agradecer a todas as pessoas que, de boa ou má forma, me ajudaram a tornar na pessoa que sou, no músico que sou, no amigo que sou. Agradecer às pessoas que se atravessaram no meu caminho e me ajudaram a tocar isto.

G. – O que edificas para o teu futuro na música?

A.R. – Se puder continuar igual ao que está agora, fico muito feliz. Toco com as pessoas de quem mais gosto, toco com os meus amigos mais próximos, toco com os músicos que mais admiro e já tive a sorte de tocar com heróis com quem achava que nunca iria ser possível tocar. Se continuar tudo igual, fico feliz. Se melhorar, também vou ficar feliz com certeza. Em nome próprio, gostava de tocar em festivais importantes, em países como França ou Inglaterra. Mas é muito difícil. Aqui, gostava muito de tocar no Funchal Jazz ou no SeixalJazz, por exemplo. Ficava feliz.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de Maria Bicker

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