Porque é que tudo ou qualquer coisa pode ser um Risco?
Depende da forma como o utilizamos.
Neil, qual é O Risco?

O risco é que nos desconectemos com a natureza. Esse é o maior risco que temos. Já o fazemos há muitos anos.
Cláudia, e para ti, de que se trata O Risco?
Nós estamos num momento particularmente delicado para essa questão. O risco de sermos humanos é uma frase que diz o quão maravilhoso pode ser nós sermos humanos.

Neil Harbisson e Cláudia Galhós, 14 de setembro de 2021

É sobre Risco que o artista e ativista Neil Harbisson e a jornalista Cláudia Galhós pensam. Tendo como pano de fundo o MEXE – Encontro Internacional de Arte e Comunidade, questionar o humanismo e de que forma o mesmo se pode construir a partir de um ser mais ou menos humano é uma reflexão presente com um futuro que bate constantemente à porta.

Hugo Cruz, o diretor artístico, afirmara na apresentação da décima edição, que acontece entre os dias 18 de setembro e 3 de outubro, nas cidades do Porto, Viseu e Lisboa, “quando em 2020, nos espaços de fórum de discussão que nos permitem definir um tema para cada edição, optávamos por – “O Risco” – estávamos longe de saber os múltiplos significados que este ganharia ao longo do desenvolvimento desta proposta. Tem sido, no entanto, nesse risco, e na fragilidade que lhe está associada, que nos temos encontrado – equipa, cidadãos/ãs, comunidades locais, artistas, parceiros/as e entidades promotoras/financiadoras – adaptando-nos e reinventando-nos procurando não perder, no entanto, o sentido ético e estético que nos norteia”.

Numa era em que a tecnologia se afirma cada vez mais nas vidas de todxs os seres humanos, até que ponto a sociedade se pode ou não adaptar e reinventar procurando não perder o seu sentido ético e estético? Neil acredita que “nós” somos e sentimos tecnologia e que, como tal, podemos através dela desenvolver sentidos e “órgãos” que nos permitam criar um mundo melhor. Cláudia, que o entrevistará em “O Risco de sermos humanos”, a conversa de abertura do festival, acredita que as suas convicções e preocupações de sustentabilidade ecológica são “muito pertinentes, atuais e genuínas”, no entanto, podem trazer-nos dúvidas e controvérsias no campo da ética.

E o que nos norteia? Estaremos a pensar não só na difusão tecnológica com a arte, mas também a questionar a nossa identidade? O que significa “ser quem nós quisermos ser”? “Que risco, virtual e real, é este que vivemos no aqui e agora?”
Comecemos pelo que xs move.

Neil Harbisson. Artista contemporâneo de origem britânica e ativista ciborgue, mais propriamente conhecido por ter uma antena implantada no seu crânio e ter sido, oficialmente, reconhecido como ciborgue pelo governo britânico.

Neil Harbisson, fotografia de Lars Norgaard

Recordemos alguns anos da sua existência. O artista nasceu com dificuldades visuais, acromatopsia, assim se designava. Neil apenas conseguia ver as cores preto, branco e alguns tons de cinza, devido a uma disfunção presente nas células que processam a luz e a visão da cor, chamadas de cones. Após implantar a antena, não só lhe foi possível perceber cores visíveis, como também invisíveis, tais como infravermelhos e ultravioletas através de ondas sonoras. Com ligação à Internet, a antena permite-lhe receber ainda cores do espaço, bem como imagens, vídeos, música ou chamadas telefónicas diretamente na sua cabeça através de dispositivos externos, como é o caso dos telemóveis ou satélites.

Identifica-se como ciborgue. A si próprio e ao mundo. Em 2010 co-fundou a Fundação Cyborg com Moon Ribas, uma organização internacional que visa ajudar os seres humanos a tornarem-se ciborgues, defender os direitos ciborgues e promover o ciborguismo como um movimento social e artístico. Já em 2017 fundou a Transpecies Society, um projeto social que surge pelas convicções de Neil juntamente com os artistas ciborgues Moon Ribas e Manel Muñoz.

Criar novos sentidos não se tornou apenas uma forma de ultrapassar a sua dificuldade. Através da fusão da tecnologia e da arte, Neil parte de uma tecnologia de órgãos verdadeiros como movimento artístico. “Tudo pode ser arte. Por isso a tecnologia também pode ser arte. Eu vejo a arte ciborgue como a arte de criar novos órgãos, novos sentidos e penso que é uma nova forma artística que pode abrir muito as nossas mentes, porque através da tecnologia podemos criar novos sentidos, e estes irão permitir-nos expressar-nos artisticamente por meio de formas que não nos eram possíveis anteriormente”, explica.

Desenvolvendo e utilizando uma linguagem que se cria em torno de cores e sons, o artista contemporâneo transforma um quadro numa composição musical. Reconhecendo que, não só nesta medida como também numa ótica universal, a tecnologia pode permitir criar novas formas de comunicação. Neil concorda que esse é igualmente o interesse de fundir a tecnologia com a arte “a cor é utilizada como uma forma comunicar, por vezes inconscientemente, mas a cor é utilizada como código ou código de comunicação, e é utilizada todos os dias, para onde quer que se vá. Portanto, é como uma linguagem. Assim como também a música é uma forma de comunicar, bem como os sons. Desta forma, unir cor e som cria também uma nova forma de comunicação, mas a tecnologia pode permitir-nos criar novas formas de comunicação também, e isso é, penso eu, o interessante de fundir a tecnologia com a arte ou com o corpo”.

"A cor é utilizada como uma forma comunicar, por vezes inconscientemente, mas a cor é utilizada como código ou código de comunicação, e é utilizada todos os dias, para onde quer que se vá.", fotografia de Lars Norgaard

Questionado sobre a importância e desenvolvimento do ciborguismo como um movimento social e artístico, o ativista acredita que assim que as pessoas perderem o medo de se fundirem com a tecnologia, o que na sua opinião já está a acontecer, - uma vez que estas mesmas têm menos medo de se fundirem fisicamente com a tecnologia do que pensam – nessa altura, será possível ver muito mais pessoas com novos órgãos e novos sentidos. Quanto ao agora, “as pessoas que estão a fundir-se com a tecnologia são apenas a minoria e é normalmente por razões artísticas ou também por razões médicas”, diz-nos. E as que o fazem voluntariamente são impulsionadas pelas suas razões e convicções artísticas. Neil acredita ainda que, em breve, será possível verificar esta mesma necessidade em diversos aspetos sociais da vida das pessoas, “penso que isso não está muito longe, porque já nos fundimos psicologicamente com a tecnologia. Muitos de nós usamos a tecnologia diariamente. Temos tecnologia nos nossos bolsos. Por isso, agora não está assim tão longe esta visão da tecnologia no nosso corpo.”

Ainda sobre a influência social e a sua evolução, o artista afirma que as pessoas fazem uma separação entre os humanos e a tecnologia, no entanto, é algo que precisa de ser adaptado: "em breve, precisaremos de leis e adaptação a esta nova realidade onde a tecnologia e os corpos não são algo separado. É algo que está a emergir lentamente”, acrescenta. O primeiro passo é a difusão psicológica e, esse, já está dado. A próxima fase é “fundir-nos fisicamente”.

 A criação artística de Neil é apontada como uma das performances mais controversas de todos os tempos, levantando questões éticas e estéticas que importa refletir. Estas palavras foram também trazidas a conversa através de Cláudia Galhós, jornalista que irá moderar a conversa de abertura do festival com o ativista britânico. Pensar em novas leis, novos regulamentos e novos aspetos sociais, considerando de forma presente que alguns cidadãos serão tecnologia não se resumindo apenas à utilização da mesma, é uma das grandes motivações do artista. Sermos quem quisermos”.

MEXE, um local de partilha(s)

No terreno da criação artística, atuação política, discussão democrática e vivência comunitária, o confronto e a diversidade de cada bagagem que os acompanha são elementos inerentes, tanto quanto o seu risco.         
Pensar nestes alicerces enquanto comunidade é algo que o MEXE permite, uma partilha entre público, artistas, voluntários e todxs aquelxs que fazem o festival acontecer.

Ter este tipo de eventos, especialmente fisicamente, é também importante agora que estamos online há tantos meses, penso que para mim será relevante voltar a conhecer pessoas pessoalmente, porque tem sido um longo tempo de isolamento.” - Neil Harbisson

Não é a primeira vez de Neil em Portugal. No entanto, o artista admite que “é sempre bom conhecer pessoas e partilhar experiências na comunidade, porque depois utilizam-se novas ideias e novos projetos que normalmente surgem ou começam quando estes eventos acontecem. Por isso, é muito importante fazê-lo. Ter este tipo de eventos, especialmente fisicamente, é também importante agora que estamos online há tantos meses, penso que para mim será relevante voltar a conhecer pessoas pessoalmente, porque tem sido um longo tempo de isolamento.”

Voltemos ao Risco. De que se trata falar do Risco?  De mobilização? De cocriação?
Trata-se da fusão de organismos com tecnologia. É um risco. O artista ciborgue explica-nos que há um risco desconhecido quando se funde com algo externo. “Eu vejo esta união entre corpo e tecnologia como uma arte. É uma arte que tem algum risco, porque quando se tem algo implantado no corpo pode rejeitar o implante ou se é um novo sentido, o cérebro pode rejeitar o novo sentido. Portanto, há um risco de rejeição quando se cria arte ciborgue, que é arte em que se criam novos órgãos e novos sentidos”, continua.

Além da transformação intrínseca no corpo humano, há também a venda de acesso aos nossos corpos. Neil explica que a sua antena tem ligação à Internet, assim como qualquer outro artista com ligação à Internet e a outra parte do corpo. Ambos vendem a si próprios o acesso aos seus corpos através da Internet. Isto quer dizer que há o risco de outro artista poder enviar-lhe algo para a sua cabeça e, dessa forma, mudar a sua perceção da realidade.

Numa perspetiva geral, a resposta à pergunta é mais complicada do que parece. “O risco de... Porque é que tudo ou qualquer coisa pode ser um risco? Depende da forma como o utilizamos. É difícil porque, quer dizer, qualquer coisa nova pode ser usada de uma forma que pode realmente tornar-se arriscada. Portanto, estamos constantemente a viver em riscos com tudo, mas acho que esta é a primeira vez que podemos realmente decidir que futuro queremos ter como espécie. E então, neste caso, existe o risco de que possamos tomar um caminho errado para criar algum tipo de espécie que não esteja em contacto com a natureza”, afirma.

O risco é “nos desconectemos com a natureza”. Para Neil este é o maior risco que temos. Já se o pratica há muitos anos. “Há muitos séculos que a nossa espécie se tem vindo a separar da natureza e temos vindo a destruir a natureza. Não é grande, de uma forma extrema. E se continuarmos esta farsa no futuro, penso que esse é o maior risco. Portanto, precisamos de tentar encontrar uma forma de nos reconectarmos com a natureza e a tecnologia pode permitir-nos isso.”

Cláudia Galhós, ‘boa filha a casa torna'

A passagem da Cláudia pelo MEXE não é propriamente uma estreia. A jornalista, crítica e escritora tem vindo acompanhar o trabalho de Hugo Cruz, um nome muito próximo de si, há vários anos. Acompanhando todo o trabalho que o mesmo tem feito em comunidade, dialogando com a arte. Em 2019, juntamente com um grupo de pessoas, deu vida à MEXEZine, um trabalho de reunir conteúdos ao longo do festival, desherarquizado. Nesta que é a décima edição do festival a experiência repete-se. Com textos que são escritos por “qualquer pessoa”, as fotografias fazem-se acompanhar pelxs protagonistas ou interrogam xs mesmxs. Nem só xs artistas ocupam esse lugar. Fala-se de todxs xs que mobilizam e que participam de outras formas no projeto artístico e social.

Cláudia Galhós, jornalista, crítica e escritora

Reconhecendo o MEXE como um festival de multiespécies, multirepresentações, multirepresentatividades, multiplicidade do ser e de outras formas do ser e de outras culturas, é através dessa pluralidade que o encontro com as comunidades, em partilha muito íntima e profunda, permite que tudo faz sentido, “eu acho que este festival questiona a possibilidade de uma sociedade em que estejamos mais próximos de todxs e que seja construído em conjunto. As questões sociais, de diferença, de representatividade, do outro, do não ter recursos tecnológicos e voltarmos um pouco à base, aos bairros, bairros em que a comunicação é feita através da alimentação, por exemplo, tudo isso é um debate constante e, como tal, a tecnologia também está na equação, porque faz parte desta sociedade complexa que nós vivemos”, reflete a jornalista.

É também com o propósito de mobilizar novas criações e novas expressões artísticas que não só o MEXE como o movimento artístico de Neil e de todxs aquelxs que completam a programação fazem-se ouvir mais do que nunca.

Há descobertas. Há partilha. Dá-se uma nova vida a um conceito que se tende a rotular e a prender em mãos específicas, algo que deixou de fazer sentido num local em que todxs os seres, as suas representações e identidades têm direito aos mesmos lugares, determinantes pela diversidade e identidade, seja ela qual for. Cláudia acrescenta ainda que “o Cruz, na sua prática e na sua teoria, procura superar essa ideia que é: nós estamos todxs juntxs com a nossa representatividade e é nesse encontro e na partilha, do que cada um é, que vamos para algum lugar. Portanto, é superar a ideia de inclusão que é uma ideia de alguém que se acha superior a outrx, porque tem legitimidade para incluir outrxs e isso é uma ideia de opressão, de hierarquização, de separação e eu acho que todo o MEXE procura ir mais longe nesse caminho”.

É também nesta ótica de pensar a representatividade que a conversa com Neil surge, “a conversa é até um pouco mais por desafiar as nossas conceções do humano e ter esta coisa quase pelo local da tecnologia defender um humano mais sensível e mais conectado”, elucida-nos a jornalista.

Recordar Neil: o menino que em Barcelona gritou e mostrou-se capaz de impedir que uma árvore fosse cortada

“É certo que ele (Neil), genuinamente, tem preocupações de sustentabilidade ecológica e são preocupações muito pertinentes, atuais e genuínas e que têm que ver com uma outra visão do corpo, mas levanta também algumas dúvidas relacionadas com questões éticas.” – Cláudia

O trabalho artístico de Neil e a sua relação com a tecnologia, são questões que de alguma forma a arte já vem colocando e que, “no caso dele, traz de forma diferente não só na relação com a tecnologia como a relação com o humano e ainda o contexto que se insere no que nós estamos a viver: as alterações climáticas”, explica-nos a escritora.

Recordar Neil: o menino que em Barcelona gritou e mostrou-se capaz de impedir que uma árvore fosse cortada.

Enquanto preparava a entrevista deu por si a viajar até ao Festival Atlântico, que aconteceu em 1997 organizado pela Galeria Zé dos Bois, que ainda existe hoje, com parte do negócio voltado para as artes performativas. Na altura, desenvolveram uma edição do Festival muito focada na questão do pós-humanismo e das novas formulações do corpo humano, nomeadamente, o ciborguismo. Stelarc, artista performativo australiano, foi um dos presentes. A sua teoria encontra-se mais próxima de Harbisson, “na verdade ele pensava que o corpo deveria ter extensões e aí eram tecnologias, como é o exemplo de um terceiro braço, mas isto é tudo visto como próteses. Ele continua a trabalhar, aliás, tem um percurso muito interessante e que se desenvolveu para muitos caminhos, mas de alguma forma ele ainda pensava nesta relação com a tecnologia como extensões”, elucida-nos Cláudia.

Já o Neil, tende a colocar uma questão diferente para além da questão da nacionalidade, como mencionado anteriormente: “ele afirma-se como uma entidade, uma outra espécie do humano e tem um bilhete de identidade que o reconhece enquanto ciborgue. Isso, levanta toda uma outra questão e problemas que eu considero muito importante, mas ele diz que a relação com a tecnologia no corpo, na verdade não é um acrescento, mas sim órgãos, ou seja, são órgãos que desenvolvem os sentidos do corpo, os sentidos do humano. Portanto, ele coloca o discurso noutro lugar. Eu acho que, por um lado é muito interessante porque ele tem preocupações climáticas”, refere.

Em miúdo, Barcelona sentiu a sua presença, por causa de uma árvore que ia ser cortada. O jovem ficou lá dias e dias a proibir que o corte da mesma se prosseguisse. “É certo que ele, genuinamente,  tem preocupações de sustentabilidade ecológica e para além do eyeborg que tem, pretende  explorar órgãos, ou seja, tecnologias que permitam o homem ver no escuro, o que proporciona um menor uso de eletricidade e recursos energéticos, como também tem em ideia explorar um órgão, ou seja, tecnologia interna, que fosse equilibrando as temperaturas do corpo humano. Isto, novamente, permitiria que não houvesse tanto o uso de energias exteriores e consumo de energia do planeta, porque era o próprio corpo que se regularia em termos de temperatura”, continua.

As preocupações do ativista, segundo Cláudia, “são muito pertinentes, atuais e genuínas e têm que ver com uma outra visão do corpo, diferente do Stelarc, por exemplo.” No entanto, as suas convicções e ideias poderão levantar outros problemas como: “ele diz que assim está mais próximo da natureza e que assim não temos que mexer ou alterar o planeta, porque mexemos no corpo, mas isto interfere também na nossa intimidade enquanto corpo, porque nós estamos a discutir a liberdade da mulher decidir sobre o seu corpo, se quer abortar ou se não quer abortar.  Ele coloca aqui um problema ético que é, se isto se torna o discurso de imposição e interferir com a nossa liberdade sobre o meu corpo”, explica a jornalista.

Nesta perspetiva, se isto se tornar um discurso vigente, a realidade perante a liberdade de autonomia em relação ao nosso corpo obriga-nos a ter um implante no mesmo, por exemplo, para ver no escuro e para poupar energia do planeta. Cláudia admite que é complexo, no entanto, acredita que Neil tem boas intenções, até porque ele defende uma liberdade na existência da diversidade e da pluralidade da identidade humana, “ele criou a Fundação do Cyborg e fundou a Sociedade Transpécies, em 2017. Na verdade, eu acho que é uma evolução do pensamento que está em conexão com os nossos tempos, em que as pessoas, a sua identidade. É uma construção social. Ser masculino ou feminino, há uma dimensão biológica, mas depois há uma construção social e eu posso querer não ser feminino nem masculino, ou posso querer ser outra coisa. Ou posso nascer com sexo feminino, mas quer transformar e ele leva isso para uma outra esfera ainda que é eu posso ser quem eu quiser. Eu posso ser a espécie que quiser. Portanto, eu tenho a certeza de que ele é muito sensível às questões de ética que eu estava a falar antes e que vou ver com ele, em conversa”, conclui.

Já no campo da literacia, numa realidade em que a tecnologia já se difunde com a arte, a Cláudia admite que é também um ponto de vista que ainda não tinha ponderado, mas que se revela pertinente. “Nós somos pessoas diferentes e temos potencialidades diversas com estas tecnologias que estão ao nosso dispor. Por um lado, há toda uma esfera da sociedade que não tem acesso a ela. Nós temos coisas muito elementares. Com a pandemia as escolas fecharam, houve uma desigualdade no acesso a ferramentas básicas como ter um computador A iliteracia dos elementos básicos foi imensa, sendo que é quase como aprender a escrever ou falar outras línguas. A esse nível é básico. Depois, eu acredito que a tecnologia tem uma série de utilidades, artísticas como o próprio Neil fala, do corpo como uma escultura. Mas da mesma forma como se ensina Cidadania, para termos o respeito pelo outro, se calhar esta profusão de recursos à tecnologia e o que se pode fazer com ela começa a ter aqui questões éticas e dilemas para onde queremos ir enquanto sociedade, enquanto seres humanos que se calhar tem que se pensar muito a sério, isto é, como é que se ensina a tecnologia e de que forma é que para além de ser uma linguagem e ser um recurso pode ter aspetos positivos e negativos”.

Cláudia, e para ti, de que se trata O Risco?

Acreditando que estamos num momento “particularmente delicado para essa questão”, Cláudia reforça a importância da consciência social e humanitária, “eu acho que ficamos todxs muito mais conscientes da delicadeza e do quanto temos a perder se continuarmos nesta euforia de que o que nos move é o dinheiro, são as trocas comerciais, é um progresso desenfreado à custa de quem fica pelo caminho. E, portanto, o risco de sermos humanos se calhar é nós aceitarmos a vulnerabilidade, é aceitarmos que podemos perder muita coisa, mas perder no sentido de ganhar se conseguirmos redistribuir de uma forma mais igualitária. Estamos a assistir e o crescimento das desigualdades e o risco de vir aí uma extrema-direita que nos vai limitar as nossas liberdades de ação. Portanto, o risco de sermos humanos é uma frase que diz o quão maravilhoso pode ser nós sermos humanos.”

Assim se apresenta “O Risco”, no MEXE. 

Texto por Patrícia Silva
Fotografia de Lars Norgaard

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