A proposta era simples: realizar um projeto cultural que pudesse valorizar a paisagem da Beira Baixa. A partir deste desafio — lançado inicialmente pela Direção Regional de Cultura do Centro e financiado pela Direção-Geral das Artes — nasceu uma ideia complexa, que se converteu num manifesto pela defesa do Pinhal Interior.

O desafio foi feito a Marta Aguiar, Mariana Costa e Sofia Marques Aguiar, em 2018. Marta e Mariana tinham experiência na conceção e elaboração de obras pensadas para enriquecer lugares, estando há muito ligadas a projetos de arquitetura e urbanismo. Sofia é artista plástica e fundadora da Fábrica Arte Cubano, que desenvolve atividades criativas com equipas interdisciplinares e aposta na integração social e comunitária.

A residir e trabalhar no Porto, pouco sabiam acerca dos concelhos da Sertã, Proença-a-Nova e Oleiros, onde iriam trabalhar. O desenvolvimento do projeto envolveu, por isso, várias idas às vilas e aldeias, onde se integraram na cultura e tradição locais.

“Demorámos bastante tempo a desenvolver a proposta”, explica Marta Aguiar. “Procurámos quais eram os pontos fortes da região e, claramente, [vimos que] a questão do turismo de paisagem parecia ser um movimento de mudança a que nos queríamos agarrar, até porque tudo mais ligado ao ecoturismo e ao turismo mais radical, de escalada e até ultramaratonistas, tem algum impacto”, diz a arquiteta portuense.

Aos poucos, observaram que a interação da população com o próprio território era quase uma cultura em si mesma, já que muitos contos e lendas tinham origem nas memórias de quem ali reside. “E a água. Tudo o que tem que ver com as praias fluviais – talvez seja uma verdade que, em qualquer paisagem, quando há água tudo muda – mas na Beira Baixa o impacto é bastante impressionante. E, então, quisemos agarrar isto e as pessoas que o habitam”, explica Marta Aguiar.

A partir daqui, houve ações participadas e outras promovidas onde o coletivo se envolveu. Gradualmente, o contacto com a comunidade local deu lugar a interpretações da história e cultura, que se traduziram em obras instaladas em lugares estratégicos. Nasceu assim o Experimenta Paisagem — Roteiro de Arte na Paisagem do Pinhal Interior.

Véu, Sertã

O percurso, desenvolvido pelo trio em cocriação, é composto por três obras que pretendem “intensificar” a experiência de cada lugar, segundo as suas diferentes especificidades: num espaço público foi colocado o Véu (Sertã), numa paisagem singular, junto à água, o Moongate (Oleiros) e na montanha foi colocado o Farol dos Ventos (Proença-a-Nova).

Mariana Costa diz que em todas as obras há uma preocupação com a harmonia em relação à localização, assim como à reflexão sobre histórias das comunidades. No caso do Farol dos ventos (a primeira obra a ser colocada) na Serra das Talhadas, a ideia “foi mesmo de contrariar a fragmentação [da rocha] e criar ali um movimento que fosse um sinal, mas que desse alguma leveza e fosse buscar os tons ferrosos”.

“As pessoas que estavam habituadas a viver perto da montanha, a vê-la da janela, parecia que estavam a vê-la pela primeira vez, de uma forma completamente diferente”, diz Mariana Costa, referindo-se ao impacto que a obra teve aquando da sua apresentação à comunidade.

Farol dos Ventos, Proença-a-Nova

João Lobo, o presidente da autarquia de Proença-a-Nova, diz que o Roteiro de Arte é algo que já tinha vindo a ser desenvolvido no concelho, com diversas peças de arte pública “dispersas por vários pontos, nomeadamente nas vilas de Proença-a-Nova e Sobreira Formosa, em São Pedro do Esteval, Maljoga e, mais recentemente, na Serra das Talhadas com a obra Farol dos Ventos”. O autarca afirma que as obras, no seu conjunto, “integram-se numa estratégia municipal que vê a cultura como fator preponderante da sociedade” e destaca o impacto “positivo” desta iniciativa, que diz ter envolvido a comunidade local.

Já em Oleiros, o presidente do município diz que a peça Moongate veio, não apenas “valorizar artística e culturalmente a paisagem” como permitiu “revitalizar aquele corredor verde, permitindo a reaproximação da comunidade à zona ribeirinha da Vila de Oleiros”. Fernando Jorge diz que esta iniciativa cultural é de “extrema importância” para estes territórios e, por ser algo em rede, “traz ganhos em termos de escala e benefícios para todos de forma integrada, podendo combater a sazonalidade da oferta turística e prolongar a estadia de quem nos visita”. “É importante afirmarmo-nos pela diferenciação e pela positiva, para sermos atrativos. Só assim marcamos uma posição a nível nacional e internacional”, acrescenta.

O Gerador contactou ainda a autarquia da Sertã e a Direção-Geral de Cultura do Centro, mas não foi possível obter uma resposta em tempo útil.

Moongate, Oleiros
Roteiro de Arte como pretexto para eventos e melhorias

Em paralelo ao Roteiro de Arte, foi organizado o Cortiçada Art Fest, um festival cultural, em agosto de 2020, que além da dinamização das peças de arte, integrou palestras, workshops, oficinas criativas e atuações musicais nos três concelhos. O objetivo era captar a atenção para a importância da valorização do Pinhal Interior e mostrar como este pode ser usado para combater a desertificação e atrair visitantes.

Após o envolvimento do coletivo de artistas na comunidade – que dizem ter-se tornado permanente – a meta foi alcançada e, aos poucos, têm vindo a ser feitos progressos.  “Ao fazermos estas obras, nos sítios, com as pessoas, provocamos um bocadinho [as entidades] e vemos o que é necessário para fazer melhorias para além do nosso trabalho específico”, explica Sofia Marques Aguiar.

Assim, à boleia da colocação das obras, já foram criados trilhos, renovados caminhos, e recuperados espaços de lazer, nomeadamente em torno de nascentes e cursos de água. “O que está a acontecer é que nós agora é que estamos a ser envolvidas nos projetos locais. Agora a coisa inverteu-se”, diz ainda Marta Aguiar.

O sucesso do projeto — especialmente em torno da população local — levou à projeção de um novo roteiro, desta feita em torno das linhas de água. Neste momento, estão em execução duas novas obras, que serão colocadas nas localidades de Sobral Fernando e Cunqueiros, ambas no concelho de Proença-a-Nova.

Para a freguesia de Sobral Fernando, foi idealizada a “Menina dos Medos”, que reflete as histórias contadas pela população, em torno, precisamente, dos medos, e será colocada num penedo junto às Portas de Almorão. “Achámos que fazia sentido, depois de muitos debates em coletivo, fazer uma figura menina, delicada, encaixada naquele sítio, naquela rocha, meditativa”, explica Sofia Marques Aguiar.

Já ‘Magma Cellar’, a peça desenhada para a aldeia de Cunqueiros, será uma “obra cónica de dois metros de altura revestida com peças de xisto piro-expandido e apoiada na ponte, lugar simbólico de encontro de casas e quelhas em xisto”.

“Com esta intervenção de arte contemporânea, quisemos, em todas as peças, intensificar a experiência da paisagem. Há a paisagem humana e a paisagem mais ampla, do espaço, do território”, diz ao Gerador Sofia Marques Aguiar.

Após esta nova fase, que se prevê estar concluída a 22 de maio, é ainda incerto se o projeto poderá ter continuidade. “É algo que está a ser estudado com os municípios e sobretudo com a [Direção Regional de] Cultura do Centro”, explica Marta Aguiar.

“Seria interessantíssimo que esta região fosse um destino de arte na paisagem, mas para isso o projeto tem de alavancar e, portanto, aqui, o que nos interessou foi lançarmos uma perspetiva. Agora é preciso que o projeto ganhe escala, mas já de outra forma”.

Por agora, o caminho está traçado, mas ainda sem destino certo. O novo quadro financeiro plurianual e apoios comunitários irão ditar se este percurso se prolonga.

Texto por Sofia Craveiro
Fotografias de João Morgado

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