As portas do festival abriram uma hora antes de se dar início à programação, permitindo que aqueles que gostam de ser os primeiros a desfrutar do recinto de um festival pudessem fazer as honras do espaço virtual. Durante esse tempo, foi possível explorar a página da Oeiras Ignição Gerador e os vários espaços que poderíamos habitar durante estes três dias. Carregando no play do Palco Oeiras, ouvimos o canto dos pássaros que ansiava pelo começo do festival. A um minuto do início vemos a tela tingir-se de tons alaranjados e lemos que Isaltino Morais, presidente da câmara municipal de Oeiras, está prestes a subir a palco para a abertura do festival. À hora certa, 9h30, a promessa é cumprida e somos recebidos pelo presidente num discurso de aproximadamente cinco minutos. 

Findo este primeiro momento, somos convidados a consultar a programação para descobrir o conteúdo que se segue. Eis que vemos o palco ser tingido pelo tom lilás que caracteriza o festival onde se vão seguindo uma série de projeções de alunos da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e da ESAD Caldas da Rainha. Às 10h horas, dá-se o início de um dos momentos mais esperados do festival – a apresentação de um resumo dos resultados do Barómetro Gerador Qmetrics 2020, o estudo anual sobre a perceção da cultura em Portugal, por Tiago Sigorelho, presidente do Gerador. Lançado mote para a discussão cultural, deu-se início a uma série de conversas para debater as questões prementes do setor. 

11h30: Conversa “Como está a cultura hoje?” 

Depois de apresentados os principais resultados do estudo, abre-se o fórum de discussão aqui personificado por uma série de conversas com artistas e pensadores da área da cultura. Na primeira conversa era lançada esta pergunta-desafio: “Como está a cultura hoje?”. Para lhe dar voz, vimos surgirem, cada um nos seus retângulos digitais, quatro convidados: a rapper Ana Matos Fernandes, mais conhecida por Capicua, Jorge Barreto Xavier, diretor municipal de Educação, Desenvolvimento Social e Cultural da Câmara Municipal de Oeiras, Alexandre Farto, artista visual mais conhecido por Vhils, e Rui Horta, coreógrafo e fundador do Espaço do Tempo. 

A conversa arranca com a lembrança de um dos dados do Barómetro Gerador Qmetrics: 57% dos portugueses critica as medidas do Estado em relação à cultura como resposta à pandemia. Alargando este dado à perceção dos convidados, Rui Horta começa a sua intervenção com a partilha de que na Alemanha, logo na primeira semana de confinamento, “os artistas receberam um cheque”, porém deixa logo a ressalva de que este país não deve ser uma referência para o nosso por uma questão de contexto. Foi uma medida que surgiu em relação direta com a riqueza do país, fator que deve ser tido em conta. Se no imediato notou, em Portugal, o avanço de medidas por parte de algumas entidades, com o passar do tempo observou que o processo se foi tornando mais lento. Defende que nos falta “medidas de mitigação”, “medidas estruturais” e “medidas administrativas” de carácter mais prático. Ademais, afirma que o setor da cultura é o de maior risco de precariedade, neste momento, sendo preciso pensar simultaneamente em medidas de curto e longo prazo para a cultura. 

Jorge Barreto Xavier concorda com Rui no ponto em que se observa uma resposta lenta face às consequências provocadas pela covid-19, quando se fala na questão da cultura. Partilha que, no passado dia 26 de março, escreveu um artigo, publicado no jornal Público, em que enumera uma série de “propostas de ação na área da cultura”. “Gostava que algumas dessas propostas tivessem tido algum seguimento prático”, declara, nomeadamente gerar “encomendas do estado” ou a criação de “um fundo, que teria de ter há volta de 30 milhões de euros, para apoiar a questão remuneratória para artistas, técnicos, produtores, programadores” e todo o “conjunto vasto de agentes culturais que, em Portugal, representam cerca de 130 mil empregos”.  

No que diz respeito às condições de trabalho dos profissionais do setor cultural, Ana destaca como essencial o estatuto de intermitente, tal como acontecia em França já antes da pandemia. Em relação às medidas de emergência, adjetiva-as de “nitidamente insuficientes”. “O orçamento da cultura já é escasso e agora também não foi muito generoso. Depois, foi um concurso. Ou seja, o estado disponibilizou uma verba que, já de si, era tímida e obrigou os artistas a fazerem propostas de inventar coisas novas. Nós não estamos na fase de inventar coisas novas, nós temos projetos que estavam em curso. Não temos de justificar uma ajuda. É uma coisa quase insultuosa”, defende. Acrescenta ainda que, relativamente às outras medidas de apoio, houve muita gente a ficar desprotegida e com apoios “muito escassos, de valores com os quais não dá para sobreviver”, criando uma “crise de sobrevivência”. Frisa ainda que a cultura não é um luxo, mas sim um direito presente na Constituição Portuguesa, pelo que “o estado não faz mais do que a sua obrigação em pagar e investir em cultura”, embora sinta a existência de uma perceção geral de que “o nosso trabalho não é essencial e, portanto, em situações de crise qualquer desculpa é boa para cortar orçamentos”. 

A esta reflexão Alexandre acrescenta que o “setor da cultura foi o primeiro a entrar em crise e será o último a sair”, gerando consequências preocupantes para “pessoas que estavam na linha da frente da cultura”, o que, a longo prazo, pode ter um “resultado perverso na cultura” – “conheço muitos casos de pessoas que já não fazem, já não praticam, e já estão a ter outros trabalhos noutros setores da economia para se conseguirem sustentar e isso, para mim, é das coisas mais graves, porque vamos perder diversidade e pessoas que têm um talento e que nos últimos anos deram alguma pulsão a toda a cultura”. Aponta a força de uma nova geração que tem contribuído para a cultura nos últimos anos e que, neste momento, “está em risco”. À semelhança de Rui, considera que os grandes problemas que existem na cultura são estruturais, havendo a necessidade, desde logo, de definição de quem são os trabalhadores da cultura, mas também dos agentes culturais. Salienta ainda a preocupação em “não se perder a massa crítica que conseguimos nos últimos anos”. 

Depois de cada uma destas intervenções o ritmo do debate aqueceu. Barreto Xavier introduziu uma reflexão acerca das narrativas usadas, a discussão sobre o que tem sido a política cultural em Portugal, chegando ainda a partilhar que o projeto “Cultura para todos” foi feito por si há cinco anos, apesar de só agora ter sido aplicado, o que, na sua ótica, é um exemplo do role de medidas tomadas pelo governo que nunca chegam a ser postas em prática no setor cultural. 

Olhando para o outro lado da moeda, Rui observa que, dentro do setor, “juntamo-nos quando somos reativos e não quando somos produtivos”. Aponta ainda a existência de 150 teatros em território nacional, um número muito superior ao comum noutros países e que precisam de ter programação, propondo a criação de uma rede de cineteatros. “É preciso circular, porque entupimos sempre os mesmos locais nas cidades”, ao passo que é também necessário não “deixar desaparecer uma geração dos criadores independentes mais frágeis”. Uma das razões para as fragilidades no setor que identifica é a falta de discussão entre o estado e o país relativamente ao modelo de desenvolvimento do mesmo, com a criação clara de um objetivo comum. Se não “foi discutido qual o papel da cultura”, esta “não existe como desígnio neste país”. 

Ainda em relação aos teatros, Ana aponta que a maioria se concretiza em salas vazias sem programação por falta de fundos, apesar de investirem na construção das infraestruturas. “Precisamos de orçamento e massa crítica”, defende. Também Alexandre nota um certo abandono na cultura e partilha que, por detrás do chavão de falta de união e organização dentro do próprio setor cultural, existe um orçamento que “não chega a quase ninguém”, o que faz com que “também não haja um ímpeto para as pessoas se unirem e trabalharem”. “Há uma união quando vale a pena porque nos vai chegar alguma coisa, fora isso, as pessoas estão preocupadas com a sua sobrevivência.”

Nesse sentido, Rui aponta que o setor não é bom em juntar-se “quando a casa não está a arder”. “E não nos juntamos ou não somos colaborativos, porque temos de competir por recursos que são parcos. Vem tudo do mesmo ponto – não há dinheiro”. No entanto, e como apontou também Barreto Xavier no início da conversa, “a cultura gera muitos empregos, mais do que noutro setor”, para além de constituir um “apoio indireto” para a projeção e aposta no nosso país, como acrescenta Alexandre. Nesse sentido, Barreto Xavier adianta notar que a capacidade de gerar riqueza a nível nacional continua a ser “muito baixa”. 

Ainda nos últimos minutos da conversa, fala-se na necessidade de reconhecimento político relativamente à  importância da cultura, que  só se concretiza se se mobilizar para gerar medidas com aplicação na prática no dia a dia. Debate-se ainda o tema da educação para as artes e da iliteracia existente nas mesmas, inclusive na governação do país, confluindo na ausência de “um pensamento de cultura abrangente”, como refere Rui. Capicua partilha também notar que o espírito crítico, assim como a criatividade, de uma forma geral, não é cultivado em Portugal, inclusive nas escolas, o que levanta também o debate acerca da definição de espaço público, onde se deve atentar nas narrativas que nele surgem. 

Foi assim que, num debate aceso e saudável, se levantaram várias pontas das fragilidades do setor cultural espelhando o estado da nossa cultura aos olhos de quem a pratica e pensa. Fica, então, lançado o mote para, depois de uma pausa para o almoço com os sabores da EatTasty, na companhia da Joana Barrios e de uma cerveja Musa criada para este festival, continuar o debate em torno da cultura. 

Ao início da tarde, o Mapa das Ideias abre-se no Pavilhão das Artes, onde um conjunto de agentes do mundo da cultura, do jornalismo e do ensino em Portugal tem o microfone na mão e a liberdade para criar encontros diários, sob diversas formas. No Mapa das Ideias os caminhos da cultura, do património e da cidadania vão dar à mesma estrada. Desenharam “um círculo de conversas sem arestas nem moderadores”, apenas oito convidados com o tema “O Valor da Cultura” nas mãos. Seguiu-se a companhia de teatro transdisciplinar e artes visuais, Custom Circus, fundada pelo trio Daniela Sousa (Daniella Vol), Michel Alex (Michel Gigolo) e Rui Gago (Dr.Apokalipse), 

Excerto da conversa “Como está a cultura hoje?”

15h: Conversa “Pode a pandemia fazer-nos repensar as fronteiras da cultura?”

A conversa “Pode a pandemia fazer-nos repensar as fronteiras da cultura?”, que contou com a partilha de Joana Gomes Cardoso, Presidente do Conselho de Administração da Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), João Teixeira Lopes, sociólogo e presidente da Associação Portuguesa de Sociologia, e Paulo Pires do Vale, professor universitário, mestre em filosofia, ensaísta, curador e comissário do Plano Nacional das Artes, abriu a programação do palco Oeiras no período da tarde. “A pandemia trouxe o tempo da intermitência, d’um certo silêncio, mas possivelmente também da reflexão e do debate sobre os vários conceitos que operacionalizamos nas nossas vidas. Assistimos, igualmente, a uma resposta pragmática dos artistas que, na impossibilidade de manterem as suas habituais abordagens de espetáculo, derrubaram fronteiras e levaram as diferentes expressões artísticas para outras plataformas, que antes eram um mero recurso de promoção e comunicação.” 

Começou por se questionar o conceito de cultura que, com a entrada no digital, com vista à partilha online, acabou por aumentar o esbatimento entre as várias expressões artísticas. Joana considera que, mais do que requacionar a fronteira entre as artes, há que pensar aquela que se estabelece entre o físico e o virtual, que é, no fundo, um questionamento do próprio meio. Os riscos da transição do físico para o virtual, que, na verdade, constitui uma perda do objeto, que dá lugar a outro, têm que ver com a experiência comunitária. “Como podemos continuar a fruir da experiência coletiva?” Com a facilidade de um acesso solitário, a partir de casa, a essência da cultura, a comunhão, podem ficar em risco. Joana sublinhou, assim, a importância da deslocação para aceder à cultura. Para isso, vai ser necessário “trabalhar e desdramatizar”.

João Teixeira Lopes também não está confiante no online, no que diz respeito à transição, quase predominante, da cultura para este, precisamente pelo mesmo aspeto – o comunitário. “No conceito mais profundo de cultura nada se alterou. A cultura é aquilo que nos permite dar sentido às relações sociais. Dá sentido à nossa própria realidade”. Recordando Max Weber, acrescenta que “a cultura é a porção finita de realidade a que damos sentido.” Atentando na “era da performance” e do “espectador ativo”, questiona-se sobre a adaptação desta ao online e a sua receção. “Os modos de relação com as obras geralmente implicam uma copresença física, uma comunhão”. Esta afirmação não se trata de uma opinião subjetiva, mas baseada em dados recolhidos. “Temos concluído que a cultura está ligada a uma forma de sociabilidade. As pessoas recorrem à cultura para encontrar pessoas, desenvolver relações.” Porém a fratura digital, antes de chegar a estes tópicos, passa pelo acesso a este lugar não-lugar. João questiona a própria acessibilidade. Recentemente, a dependência do digital aumentou e reduziu drasticamente outras possibilidades de encontro, revolucionando mesmo a forma que damos à existência, assim como acentuou as desigualdades, objetivas, como o acesso aos equipamentos e à Internet, por exemplo, mas também a outras, como as do plano simbólico, entre as quais “a capacidade para descodificar”. Para além do simulacro da presença dos/as outros/as, a percepção de si também é afetada, ocorrendo aquilo a que Paulo Pires do Vale designa como “desmaterialização do corpo”, recorrendo à imagem “de sermos apenas uma cabeça que é transportada” pelo primeiro. 

Este problema da receção estende-se, ainda a outros níveis, que não têm que ver com o online, nem com o contexto específico da pandemia. João Teixeira Lopes considera que, apesar da procura de um crescente encontro “omnívoro” com os objectos artísticos, isto é, com o desaparecimento de uma fragmentação de públicos, consoante a expressão artística, este apenas se aplica às “classes médias altas, escolarizadas, com uma vivência urbana e cosmopolita”, que, por exemplo, escutam ópera enquanto praticam jogging. Desta maneira, a hibridação entre as áreas deve, na opinião do sociólogo, estender-se ao seu acolhimento igualitário, por parte da sociedade. “A hibridação não é mera mistura, é cruzar e interagir para que o novo surja e não está, de maneira nenhuma, disseminada pelas franjas da população.” Considera que este contexto é agravado pela atitude da arte contemporânea, que tem vindo a desenvolver uma “linguagem autofágica”. “Não sei até que ponto a arte contemporânea, tão preocupada com a reflexividade e os limites de si mesma, não perdeu a relação com a vida quotidiana, com o chão comum das pessoas.”

Joana dilata este problema à questão das faixas etárias e às suas características específicas, dando o exemplo da importância da impressão em papel, bem como de transportes públicos em determinados horários e locais, fundamentais para o acesso de alguns públicos. Estes não devem ser tomados como uma massa. “Se queremos ir ter com determinadas faixas de público, temos que ter em conta esses aspectos, para que alguns segmentos da população tenham possibilidade” de usufruir da experiência cultural.

Os muros devem cair na relação da cultura com os demais setores, nomeadamente a educação, que pode ser transformada na relação com a primeira, se esta última for tomada “como jogo, como prazer”. “Se pensarmos que a cultura é educação, então, aí, julgo que estamos completamente alinhados nessa reforma de não podermos pensar a educação sem uma valorização de uma sensibilidade estética, mas também do pensamento crítico. Não consigo pensar numa educação completa sem o acesso a múltiplas linguagens e, aí a educação será inclusiva, não pensaremos a escola como processo só lógico-verbal, que infelizmente tem sido a única linguagem que temos valorizado.” Paulo Pires do Vale considera que este será o caminho para a criação de cidadãos e cidadãs com mais espírito crítico, que lhes permitirá maior autonomia e a concretização de uma “democracia cultural

no sentido, não apenas da democratização, de um paternalismo em que vamos levar ao país a cultura, mas de que já existe cultura em todo o território e vamos contar com esse manancial e vamos colmatar o que falta.” Neste sentido, a cultura não é uma imposição, algo que se levanta do exterior e se pretende introduzir. Já existe. O problema reside na partilha. A abordagem de João foca-o, igualmente. A cultura deve ser tomada “como conjunto de recursos espalhados pelo território.” Para a vivificar, há que realizar um “trabalho de envolvimento mais difuso das populações.” Caso contrário, permanecemos num “viés legitimista”, como chama. Nos inquéritos sobre as práticas de cultura, os inquiridos respondem que a importância desta é muito elevada, mas, quando as perguntas se especificam, conclui-se que esta opinião não tem uma correspondência com os seus hábitos culturais. Há um “medo de não se ser culto”, uma “culpa permanente”. 

Este projeto imenso implica a ligação do que têm sido fragmentos. Percebemos, então, que não se trata apenas de uma atenção exclusiva à escola, pois “o que interessa é quebrar o muro e chegar a outros agentes culturais,” refere Paulo Pires do Vale. 

Só haverá um progresso, uma melhoria da vida, se a inclusão for a paisagem onde construímos a ação. 

16h: Conversa “O que muda no consumo da cultura?” 

“A definição do que é um espaço cultural não muda há muito tempo. Achas que esta pandemia veio provocar uma reflexão acerca do que pode ser este espaço e até, quem sabe, no futuro conduzir a uma reformulação desta definição?” foi a pergunta lançada a Grada Kilomba, artista interdisciplinar, para iniciar o debate. A artista desconstruiu-a e começou por dizer que acha mais “importante e urgente definir quem é que entra nos espaços da cultura”, mais do que definir o que é o espaço da cultura. A pandemia revela quem é que entra e quem é que tem acesso aos espaços, e revela a estrutura colonial que existe há já 500 anos. Acredita que esta é uma altura para mudar os espaços culturais e quem os habita, questionando narrativas e as perspetivas que perpetuam. 

Sérgio Machado Letria, diretor da Fundação José Saramago, desconstrói a ideia de que “estamos todos juntos nisto”, referindo-se à pandemia e às mensagens positivas e de união que foram propagadas desde o começo. “Não entrámos todos juntos, não vamos sair todos juntos disto, nem vamos sair melhor. Ou, pelo menos, alguns não vão sair melhor porque não estavam bem quando entraram.” Sérgio sublinha a ideia de que é obrigação dos espaços culturais pensar a questão da inclusão, de que forma é que se posicionam perante fatores de discriminação e estar atentos às questões de quem tem dificuldade no acesso, seja por via de uma deficiência ou outra qualquer. 

O músico Salvador Sobral juntou aos pontos levantados por Grada e Sérgio que “a pandemia veio levantar o véu a todas as desigualdades” que já cá estavam. “A pandemia pode ser uma oportunidade de mudança. Eu acredito que sim”. Sobre o regresso aos espetáculos, partilha o desconforto para quem está a fruir ao ter de se manter com uma máscara durante um espetáculo ou um filme de duas horas. 

“Acredito que esta sustentabilidade e a maneira como nós olhamos para o futuro e como nós nos pomos a programar o futuro, tem de aproveitar este levantar de véu para pôr as coisas ao espelho com outra luz. E quando eu digo outra luz é começarmos todos a chamar as mesmas coisas pelos mesmos nomes”, diz Margarida Pinto Correio no início da sua intervenção. A ex-jornalista que integra a direção de Relações Institucionais e Stakeholders da EDP, como Salvador, vê nesta altura o pretexto para a mudança. Relembra que os “milhares de pessoas que nunca foram a um museu ou nunca viram um concerto não fazem ideia do que não têm, mas eventualmente têm a noção de que lhes falta qualquer coisa”. 

O acesso à Internet é um dos campos da desigualdade, e Margarida parte daí para relembrar que a possibilidade de levantar o véu existe “para quem pode”. Olha para a cultura como algo “identitário” e que une um povo, mas também como “um canal de comunicação”, um “canal social”, e, neste momento específico, “um canal de apoio à doença mental”. “Estamos muito longe de voltar a um normal que se assemelhe com o passado”, refere quando fala das novas plataformas de ação da cultura e do “valor que atribuímos às coisas”. 

Sérgio Machado Letria relembra que o trabalho na cultura, inclusive as respostas dadas por artistas no período de confinamento, “nunca é visto como trabalho” efetivamente. “É importante fazer com que as pessoas percebam que a cultura é trabalho, é resultado de trabalho. E não é, como muita gente continua a pensar, um fator de criação de despesa. É um fator de criação de riqueza. Aquela que não se vê, mas que se sente no dia a dia”, continua. 

Grada Kilomba vira a questão da riqueza para o questionamento das estruturas de poder e relembra a importância de as utilizar para as subverter. “Eu acho que são estes pequenos processos que nós, como artistas, como pensadores, como diretoras e curadoras e etc., podemos fazer: usar parte do nosso reconhecimento financeiro para financiar outras atividades e de alimentar outras comunidades. Eu acho que essa é uma das coisas individuais que nós podemos fazer”. A artista interdisciplinar trouxe ainda para cima da mesa “as estruturas que estão acima de nós”, as políticas, que precisam de repensar os corpos que nelas cabem e que por si são representados. Reflete que, como Martin Luther King disse já nos anos 60, as grandes crises mundiais têm como base o colonialismo e que a pandemia “mostra que temos de pensar em formas muito mais globais”, menos segmentadas, “e que temos de pensar numa forma de aliança, de trabalhar com diferentes artistas, em diferentes espaços geograficamente; porque é uma questão global”. 

“Acho que temos de transgredir estas regras e disciplinas que nos foram dadas, e que têm uma herança muito colonial e patriarcal. É mais do que tempo de nos despedirmos destas hierarquias”, resume Grada Kilomba. Sérgio Machado Letria completa dizendo que “há outra coisa que precisamos de combater: o medo”. A poucos minutos do fim, Salvador Sobral remeteu para a importância do Estado tomar uma posição e Grada completou a ideia sublinhando a urgência de pensar a cultura como algo central num país, inclusive na educação. “Nós temos de mudar as estruturas e configurações de poder para poder mudar as instituições e quem tem acesso, quem é que narra e quem é que conta. Esse é um dever estatal e também nosso individual”, concluiu. 

Pensar o consumo da cultura implica (re)pensar todos os fatores que lhe estão associados e refletir sobre todos eles em 55 minutos seria sempre um exercício impossível de alcançar. Ainda assim, fica marcada a ideia de que antes de tudo é urgente repensar quem está nesse consumo, quem cabe na produção e quais são as estruturas de poder que precisam de ser viradas do avesso. 

Excerto da conversa “O que muda no consumo da cultura?”

17h: Conversa “Por onde passa o futuro da cultura?”

Abrindo espaço para as gerações mais novas no universo da cultura, a última conversa do primeiro dia da Oeiras Ignição Gerador, contou com a participação da ilustradora Clara Não, da designer de moda Constança Entrudo e do artista plástico José Taborda, aos quais se lançava a pergunta de mote: “Por onde passa o futuro da cultura?”.

Em plena pandemia, a disrupção que a mesma provocou no quotidiano motivou, desde logo, uma resposta transversal por parte do meio artístico e cultural, através da produção de novas obras, utilização de novas plataformas e a união de vozes em torno de temáticas e causas. Questionados sobre a possibilidade deste período poder impactar o trabalho que desenvolvem, Clara Não acredita que não será possível fugir à mesma. “Acredito que durante a fase em que estávamos mesmo confinados fosse mais provável tratar esse mesmo confinamento mas agora, que já conseguimos ver as consequências, é possível trabalhar por aí, não necessariamente a pandemia mas as suas consequências. Seria estranho se não fosse dessa forma, se não tivesse influência”, explica.

De forma mais ou menos direta, a verdade é que a arte sempre trabalhou questões relacionadas com o mundo e aquilo que nele acontece. José Taborda concorda com a visão, mas salienta que isso pode depender de pessoa para pessoa, uma vez que para algumas isso “pode não ter qualquer impacto”, sendo preciso perceber, “a longo prazo”, os possíveis ecos que possa ter nas obras produzidas. Por sua vez, Constança Entrudo salienta que, mais do que a influência que este período pode ter na arte, será os métodos de trabalho que serão diferentes. 

“Percebendo ou não, todos nós mudámos e vamos começar a abordar não só o tema da pandemia, mas também o que nos faltou nesse período. Tudo o que acontecia no nosso quotidiano passou a ser vivido um pouco mais sozinho, essas coisas mudaram e houve um grande processo de reflexão”, realça.

Esse trabalhar das consequências, daquilo que a pandemia mudou, provoca um exercício de introspeção que levanta novas questões.Tendo em conta esse aspeto, Clara sente que o período de pandemia trouxe um sentimento de impotência em relação aos diferentes acontecimentos. A resposta a essa conjuntura pode estar no trabalho dos artistas que deve ajudar a “criar comunidades através da arte”, criando mais união e desconstruindo as hierarquias que, tantas vezes, existem nas diferentes áreas, inclusive na da cultura.

E o digital, que papel pode desempenhar nesta altura? Muito embora a utilização de diferentes plataformas consiga ultrapassar fronteiras físicas e levar o trabalho dos artistas mais longe, Constança receia que o mesmo possa não contribuir verdadeiramente para a partilha. “O digital já era uma realidade bem antes da pandemia, mas acho que o que esta pandemia trouxe, mesmo com o intercâmbio, foi o facto de termos tido tempo para refletir sobre como comunicar no digital. Se vai trazer uma maior aproximação, espero que sim, agora o online é muito perigoso porque muitas das vezes só nos queremos ouvir a nós próprios, portanto é preciso esperar por um maior intercâmbio de ideias”, sumariza. 

Recorrendo a dados do recém lançado Barómetro Gerador Qmetrics, a conversa orientou-se para os hábitos de consumo da cultura da população e de que forma é que tal facto pode ter impactado o relacionamento das pessoas com os objetos artísticos. Habituado aos momentos de exposição física das suas peças, José Taborda sublinha que há, neste período, uma “perda total, ou quase total, da visualização e experiência da arte”, que é “uma coisa para ser vista”, algo que não é “fazível no meio digital”. Em sentido contrário, e realçando a forma como muitas vezes a área da moda é tida como “superficial”, Constança Entrudo admite que essa quebra da experiência real pode revelar melhor o aspeto conceptual do seu trabalho e não apenas a visão material. “Pode ser uma boa oportunidade para que o meu objeto seja repensado e entendido da forma como sempre quis que fosse”, defende. 

Num tempo de novos desafios, surgem também novas oportunidades, nomeadamente para jovens artistas que agora podem chegar, através do digital, a locais onde nunca estiveram fisicamente. É esse o caso destacado por José Taborda que irá participar nos próximos meses em exposições, organizadas em diferentes países, devido ao contacto que a Internet proporciona. Por seu lado, e já na antecipação de uma possível crise, Constança espera que este tempo constitua uma oportunidade para “repensarmos os portefólios”, ainda que venha, muito provavelmente, a contribuir para uma maior precariedade de certas áreas. 

Clara Não, relembrando a potência agregadora da cultura, acredita que, no futuro, tudo passa “pela adaptação” do digital, mas também do repensar do espaço público, para a realização de eventos ao ar livre. “Esse é o desafio, como se adaptar para ganhar”, acrescenta. Até esse regresso ao normal poderá haver uma maior abertura ao digital “que incentive as pessoas a terem mais curiosidade”, mas isso não pode impedir que voltemos a olhar para a experiência da presença e do contacto.

Luís Severo em palco perante uma audiência virtual

Muito se tem escrito ao longo dos últimos meses sobre a forma como os músicos podem voltar a subir aos palcos e de que forma é que a experiência sem público se pode traduzir num momento igualmente marcante. Neste primeiro dia de Oeiras Ignição Gerador, perante uma sala vazia, apenas rodeado por câmaras que possibilitaram a transmissão em direto do concerto, essa missão foi entregue a Luís Severo. 

Luís Severo na Oeiras Ignição Gerador

Sozinho em palco, apenas de guitarra nos braços, o músico lisboeta  inicia o concerto com uma versão de “Já Não Vou Sair” de Filipe Sambado. Com três discos de originais na algibeira, o concerto foi de revisitação para Severo. A esse primeiro momento seguiu-se “Ainda é Cedo” do primeiro disco Cara D’ Anjo, que rematou com “Rapaz” – em versão acapela – do seu mais recente O Sol Voltou, culminando com “Olho de Lince” do seu segundo disco, o homónimo Luís Severo

Depois deste segmento mais intimista, o músico recebe em palco Tomás Wallenstein, vocalista dos Capitão Fausto, para um diálogo artístico que já no passado deu para outras combinações. A partilha é recíproca: Tomás oferece a sua versão de “Amor e Verdade”, canção de Severo, a que este responde com a sua interpretação de “Final”, do disco A Invenção do Dia Claro, da banda portuguesa.

Tomás Wallenstein na Oeiras Ignição Gerador

De novo sozinho em palco, Luís Severo prossegue com Panda do seu álbum ao vivo “Guitarrinha”, seguido de Boa Companhia, do seu segundo disco, antes de se rodear da sua banda. “Tínhamos muita vontade de vir tocar isto”, conta Severo, enquanto os membros se preparam para trazer duas versões de canções suas, “Domingo” e “Escola”. 

Luís Severo na Oeiras Ignição Gerador

Numa altura de pandemia, as canções de Luís Severo soam a liberdade, por oposição ao confinamento e parecem encaixar na perfeição no mote deste festival que se propõe a repensar o papel da cultura para o futuro. Os versos de “Hoje o sol voltou” da canção “Maio”, parecem ganhar novo significado, depois de um período mais escuro para o país, que tenta regressar à sua normalidade possível. O tema é seguido de outros do mesmo disco, como “Quem Me Espera”, “Acácia” e “Primavera”, em que o verso “Agora canta liberdade” tem agora um impacto acrescido. Para a grande maioria dos músicos, este tempo de pandemia foi de paragem, de confinamento, mas há em Severo essa sempre curiosa procura de algo mais, afinal, como diz no seu último tema do concerto, “Planície (Tudo Igual)”, a “A tempestade já vai longe”, por isso viremos a página, que outros dias se seguem.

Durante os próximos dias, continuaremos esta trilogia de reportagens sobre a primeira edição da Oeiras Ignição Gerador. Fica atento para descobrires o que aconteceu nos dias 19 e 20 de junho, no festival.

Texto de Andreia Monteiro, Carolina Franco, Raquel Botelho Rodrigues e Ricardo Ramos Gonçalves 
Fotografias de Álvaro Ponte
gerador-oeiras-ignicao-gerador