O homem tem duas maneiras de se compreender: a partir do mundo das coisas com base no que pode fazer; ou a partir do que pode ser, com base em si próprio. Digamos que a primeira é o vector da existência inautêntica e que a segunda é a bússola da autêntica existência.

Ernesto Sampaio in Sal Vertido (1988)

Vivemos tempos de uma profunda e longa agonia e não, não estou a falar da situação pandémica que atravessamos. Mais do que nunca, somos coagidos a habitar na ressaca de um sistema que facilmente reconhecemos que já não vive os seus melhores dias. Podemos chamar-lhe capitalismo tardio – aquele que “sobra depois de as crenças ruírem ao nível da elaboração ritual ou simbólica” –, onde passamos a ser, acima de tudo, consumidores-espectadores de um cenário sem grandes horizontes para além daqueles que nos parecem minimamente concebíveis. Somos os eternos mutilados.

De 1989 em diante, após a queda do muro de Berlim, o capitalismo instalou-se sem precedentes nos modos de viver e de experienciar, deixando muito pouco espaço – ou praticamente nenhum – para imaginarmos alternativas que não se coadunem com a própria burocracia que o mantém vivo. Por estes dias, leio Realismo Capitalista – Não Haverá Alternativa? [1], obra seminal do britânico Mark Fisher, recentemente traduzida em Portugal. No livro, publicado originalmente em 2009, o escritor e filósofo, introduz-nos ao seu conceito de realismo capitalista, como um “ambiente generalizado que condiciona não só a produção de cultura, como também a regulação do trabalho e da educação, actuando com uma espécie de barreira invisível que constrange o pensamento e acção”.

Nessa “estrutura impessoal hiperabstracta” que não vive sem a nossa cooperação, somos consumidos por uma sensação prolongada de “mal-estar” e de “não haver nada de novo”. No seguimento desta introdução, Fisher debruça-se sobre o flagelo da saúde mental, e da “privatização do stresse”, provando como o aparente sistema social que funciona é intrinsecamente disfuncional, tendo um custo para as novas gerações. Regresso à sua mesma pergunta: “como é que se tornou aceitável que tanta gente, e sobretudo tantos jovens, esteja doente?”.

Centro-me também na problemáitca das novas gerações, onde me situo, por reconhecer igualmente que a resposta à sua questão não está apenas nos contextos individuais de cada um, mas na remonta mais abrangente do tempo e modo em que vivemos. Fisher realça como este fenómeno de patologização e consequente privatização desses problemas tem descartado a hipótese de “causação sistémica social”. A situação é particularmente gritante quando vemos a pressão desmedida que é colocada sobre jovens estudantes, encalhados entre o seu antigo papel de objetos de instituições disciplinares e o seu novo estatuto de consumidores de serviços e, já agora, de trabalhadores ao abrigo de uma precariedade doméstica e consentida pelas esferas de poder.

Não é preciso irmos mais longe para além daquilo que Fisher nos diz, confirmando os medos que também me acompanham: “O trabalho e a vida tornam-se inseparáveis. O capital segue-nos quando sonhamos. O tempo deixa de ser linear, torna-se caótico, esboroando-se em divisões punctiformes. À medida que a produção e a distribuição são reestruturadas o mesmo acontece com os sistemas nervosos. Para se funcionar de forma eficaz enquanto elemento de uma produção em cima do prazo, há que desenvolver uma capacidade para reagir aos acontecimentos imprevistos, há que aprender a viver em condições de total instabilidade (…). Os períodos de trabalho vão sendo alternados com períodos de desemprego. Tipicamente, damos por nós empregados numa sequência de trabalhos de curto prazo, incapazes de planear o futuro”.

Como nos escreve Raquel Botelho Rodrigues, numa crónica aqui publicada, intitulada Tempo é Dinheiro, o fenómeno em que vivemos remete-nos ao cansaço e dessa forma ao silêncio: “Não estamos acordados, alerta, ficamos mais frágeis, mais manipuláveis. Abre-se a lógica da sobrevivência, que, facilmente, chama o egoísmo e, consequentemente, a competitividade. Depois, ficamos cansados, mas felizes. Fizemos muito em pouco tempo”.

Quantos de nós, jovens ou não, já imaginamos coletivamente como será o futuro de cada um. À medida que os anos passam o exercício parece-nos ainda mais ridículo. A sensação de impotência reflexiva – como lhe chama Fisher – coaduna-se muito bem com a falsa virtude de esperarmos por mais “empregos de merda”, parafraseando David Graeber, que nos entreguem uma só que seja perspetiva de futuro. Anselm Jappe [2], filósofo alemão, dir-nos-ia que vivemos para uma ideia de transição. Não uma transição que se reduz a uma simples redistribuição, a uma justiça social maior, nem a uma defesa dos salários e das reformas, face às restruturações neoliberais que nos colocam neste permanente estado de sítio.

Torna-se urgente irmos mais longe. “Trata-se antes de ter em conta que é necessário «transitar» para um outro modelo de vida em sociedade e sair da ideologia do «progresso» e do «crescimento»”, escreve Jappe. Trata-se também, como escreve Fisher, de descobrir “a saída para o binário motivação/desmotivação, para que a desintificação em relação ao programa de controlo seja sentida como outra coisa que não uma apatia desalentada”.

Nesta crónica recorro ao título do romance kafkiano de Hermann Ungar (1893-1929), Os Mutilados, um intenso retrato dos abismos da condição humana, cujas personagens servem de alegoria para uma herança de traumas e de aspetos do foro psicológico que persistem nas suas vidas, mutilando-os. Acredito que há muito de kafkiano no tempo que vivemos, e que também nós, gerações pós-queda do muro, sofremos da ambiência traumática de um sistema que nos é apresentado como domesticado e necessário. Talvez não exista, de facto, grande espaço para alternativas que se principiem de um novo paradigma de pensamento, mas entenda-se pelo menos como a imobilização nos condena a essa mutilação. No final de contas, ainda é através do combate que nos iremos salvar.

[1] Fisher, Mark (2020) Realismo Capitalista – Não Haverá Alternativa?, Lisboa, VS. Vasco Santos Editor
[2] Jappe, Anselm (2013) Conferências de Lisboa, Lisboa, Antígona

-Sobre Ricardo Ramos Gonçalves-

Ricardo Ramos Gonçalves nasceu em Castelo Branco, em 1995, mas é em Lisboa que reside e trabalha atualmente como jornalista no Gerador, plataforma de comunicação na área da cultura que lhe permite estar envolvido em projetos artísticos que escapam às próprias fronteiras do universo da comunicação. É licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e mestre em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE. Ao longo deste tempo de itinerância entre áreas de estudo – que lhe permitiu viver e estudar por um breve período em Pádua, em Itália –, tem-se dedicado e envolvido sobretudo em iniciativas de âmbito cultural, em especial nos campos da literatura, do cinema e das artes visuais.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Andreia Mayer
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