Para o que é cansador, caçador, causa-dor

Em continuação de “O silêncio não é um modo/ de repouso ou suspensão/ mas de resistência” e “A biografia não é o currículo”.

“O Funcionário Cansado”, O Grito Claro (1958), de António Ramos Rosa


Pensei deixar esta página em branco, intitulá-la de “Cansaço”.

O vazio da página seria para descansarmos, uma espécie de intervalo. Uma reserva de ar e de nada. Gostaria muito de que nos dessem(os) uma página assim, como uma voz que diz, em segredo, “não te preocupes, descansa”. Essas páginas têm um poder imenso, porque interrompem, como quando uma mulher é chamada a meio da noite, levanta-se e diz aos fantasmas, “aqui não entram” e a criança pode adormecer.

O vazio da página poderia ser também para nos espreguiçarmos e fazermos dele o que quiséssemos. Um exercício de liberdade. Cada um com a sua própria página. Queria dar-nos um lugar para existir, e não para estarmos existidos. Poderíamos dar a forma que quiséssemos ao branco, rasgá-lo, pintá-lo, mordê-lo, soprá-lo, perdê-lo…

O vazio da página também poderia ser a imagem do terror, do atropelamento das musas, dentro de casa, pela velocidade. A parede que se ergue quando o corpo não responde a ordens. O embate com o opaco. A impossibilidade de escrever e a não pacificação com isso. Atrás da página, há um chicote “tens de a preencher, tens de a preencher, tens de a preencher…” mas, passado um tempo, já é só som. E não há branco. E a página que ficou prenhe, não por amor, mas por uma violação.

O cansaço é caminho para o que esgota, o que acaba. O cansaço não é ecológico, mas o “ecológico” parece estar na agenda. Quando o cansaço não é a interrupção de um estado, não é pontual, mas o permanente, tido, por isso, como “natural”, cuja quebra é tão residual, o que sobra, umas férias, para quem tem reconhecido direito a elas, um fim-de-semana, para quem teve a possibilidade de não arrastar os dias “úteis”, devemos pensar a relação com o tempo, o que, por sua vez, nos permite responder, realmente, se estamos no nosso habitat. E se considerarmos o tempo como habitat? O ser humano é o grande destruidor de habitats, passamos a vida a dizer, ao mesmo tempo que os gere como a uma empresa. Talvez porque ainda não se compreendeu com os outros. Talvez porque vivamos o tempo da separação. Talvez porque não vivamos o tempo. Não é uma ordem exterior. Ainda para mais, num tempo que se diz sem deus(es). É a ordem que interessa a quem a faz. O filósofo André Barata, numa entrevista ao É Apenas Fumaça, intitulada “A maior transformação que podemos produzir é começar a desacelerar”, reflecte sobre a forma como a industrialização vai chegando a todos os domínios da vida e todos os domínios da vida estão no tempo. Referindo-se à forma como a industrialização do tempo nos acontece, diz:

“Há questões que têm de ser colocadas porque, muitas vezes, passam como se fossem normais, naturais, e não houvesse um ingrediente de escolha, uma alternativa.”

O autor pergunta-nos: de quem é a autoria do nosso tempo?

Estava a escrever o primeiro parágrafo e o telefone do meu pai tocou. Calculo que, do outro lado, alguém perguntou como ele estava. Respondeu: “estou bem, estou cansado”. Olhamos para o cansado/a como alguém trabalhador/a. Contudo, se diz que não consegue fazer mais, porque está muito cansado/a, é um(a) preguiçoso/a, não dá o seu melhor, não quer superar-se. O meu pai é operário numa fábrica e, agora, está na secção de embalamento. Para além das consequências físicas que o trabalho lhe vai deixando, porque realiza-o em câmaras frigoríficas, carrega grandes pesos e pratica movimentos repetitivos, há as emocionais, das quais as primeiras são inseparáveis. Para além de não ser um trabalho que o realize, também contamina a relação consigo mesmo. É dos seres mais criativos que conheço. Como a sua atenção está no que, muitas pessoas, não reparam, dizem que é distraído. A sua frustração vem da comparação. Não consegue trabalhar ao mesmo ritmo que os outros. Está sempre em luta. Sente-se menor porque não cumpriu com os “objectivos”. Chega a casa e só quer ver um pouco de televisão, enquanto janta, e ir deitar-se. Perdeu o desejo de pintar, de escrever contos, de trabalhar o barro até se tornar uma figura, cuidar do jardim… Deixou de comprar livros. Sempre demorou muito tempo no que fazia, porque o valor está no detalhe. Tem uma obsessão com a perfeição, que até é angustiante. A criação é um envolvimento amoroso com a matéria e com o universo, ao continuarmos o seu gesto. E nada se cria numa linha de montagem, num tempo pré-definido, que é para todos/as, isto é, para ninguém. Para criar é precisa a energia que, desde as 6h00, ao levantar, lhe foi tirada.

Em quantas fábricas, mais ou menos invisíveis, estamos? Ou aliás, não estamos. Apenas de corpo presente, e, mesmo assim, é arriscado dizê-lo, porque cairíamos no erro cartesiano.

Parece-me ridículo e, aliás, vergonhoso, mais, escandaloso, intitularem-nos tudo de “urgente”. É o nome preferido de quem vive numa bolha sem transparência. Se não vivesse, conseguiria olhar em volta e escolher discernir as prioridades. Urgente é responder ao sofrimento do mundo. Poderia procurar e derramar nomes urgentes sobre a página, mas é urgente que entregue a crónica dentro de umas horas.

Se nos entendêssemos como comunidade, o que procuraríamos era o alívio uns dos outros e umas das outras, que seria o nosso, e não enfiaríamos um relógio pela garganta abaixo, mesmo antes de se estar recém-nascido/a. Podemos até pensar em quantos partos são marcados por questões que não têm nada que ver com a saúde da mãe ou do bebé. Nem a primeira escolha permitimos a tantas pessoas, a do tempo de nascer.

O cansaço é muito conveniente para que o sistema se mantenha. Não estamos acordados, alerta, ficamos mais frágeis, mais manipuláveis. Abre-se a lógica da sobrevivência, que, facilmente, chama o egoísmo e, consequentemente, a competitividade. Depois, ficamos cansados, mas felizes. Fizemos muito em pouco tempo. O filósofo descreve este tempo como um “tempo sem fissuras”, isto é, que não permite uma quebra, numa acumulação constante, onde nada se perde. Segundo o mesmo, este é o motivo de se ter desenhado uma “sociedade de endividados”.

A quantidade pesa. É uma forma de prisão. Passamos nas avenidas, ao lado de outros prisioneiros, e não temos medo. Tememos, sim, aqueles que fogem das cadeias.

“O mais revolucionário que podemos fazer é começar a parar. E a pergunta revolucionária é ‘Porque continuamos a sobreviver?’”, desafia Barata.

Porque somos dependentes do cansaço. Dá-nos comida, mastigando-nos e, a muitos, aplausos, no caso dos cansados felizes. É importante notar que o cansaço de que falo aqui é o provocado, dentro do âmbito do trabalho assalariado. Não falo do trabalho de realização, que permite à pessoa viver-se, enquanto tal, florescer, cumprir-se. Esse cansaço é o do nascimento, regeneração, do chamamento. Muitas vezes, quando esta vocação é vivida no primeiro tipo de trabalho, e se este não for uma excepção, fica numa posição doente, onde, de certa forma, trairar-se-á, ocorrendo um luto. O filósofo André Barata chama a atenção para a falta de inocência no facto destas duas dimensões terem o mesmo nome, “trabalho”. Desta “coincidência” resulta aquela frase mítica: “faz o que gostas e não terás de trabalhar”.

“Não temos garantidas condições de desenvolvimento socioeconómico para sobrevivermos um pouco menos, ter tempo para vaguear, pensar, não ser produtivo?”

– Mas eu só sei crescer – é-lhe respondido.

O sistema acredita numa espécie de imortalidade, numa coisa do género “o céu é que é o limite”, mas, simultaneamente “não há céu”. Podes sempre ser melhor, isto é, podes sempre fazer mais. Por favor, informem-nos, então, onde podemos deixar o corpo, é que, até agora, dizem que é mortal. É este “crescimento” que está a matar a Vida, aqui. Esgotámos espécies. Matámos a casa para a comer. Que se tivessem adaptado com mais velocidade, ao ritmo da evolução…



Não cumpri nenhuma das três opções que desejei.

“A sociedade desenvolve-se no sentido do consumo e as pessoas estão expostas, obrigadas a consumir. Há aqui uma espécie de engrenagem circular, em que as pessoas são colocadas numa dependência de terem rendimento e, por isso, aceitam qualquer trabalho para consumir, senão não são aceites socialmente. É todo um dispositivo em que, no fundo, as pessoas ficam completamente dominadas pelo próprio dispositivo,constata o filósofo.



Em cada exausto/a, nem sabemos o que perdemos. A página branca que nos faltava….

*Porque a entrevista citada é audiovisual, o texto foi pontuado pela autora da crónica.

**Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Raquel Botelho Rodrigues-

Para a Raquel, a biografia não é o curriculum. A escrita da vida é algo que ainda procura ler e tem a certeza de que este “ainda” será para sempre. Por motivos de força maior, porque nos temos de estar sempre a definir, diz-nos que trabalha na equipa editorial do Gerador.

Texto de Raquel Botelho Rodrigues
Fotografia de David Cachopo
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