Tiago Ferreira (Cavalheiro) e Zé Pedro Vinagre

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode ou não atrapalhar? A música exige uma rendição total para as notas entrarem pele  adentro?

TF [Tiago Ferreira] — O lado racional não creio que tenha grande influência.  Para mim, a música é algo muito natural que ocupa a minha cabeça quase em permanência desde que acordo até que me deito. Para mim, a música,  muito antes de ser uma letra, é uma melodia ou uma toada. Só bem depois consigo tentar discernir o que ela diz e creio que muitas vezes falho.

ZPV [Zé Pedro Vinagre] —  Acho que a música é a expressão artística capaz de aceder mais directa e imediatamente a partes da nossa consciência que não controlamos. Nesse sentido, não acho que tenhamos de, conscientemente, “baixar a guarda” ou de, activamente, remover algum filtro de racionalidade para nos deixarmos afectar pela música. Muitas vezes, ela invade sem ter de pedir licença, desde que o façamos de uma maneira descomprometida –  e acho que aí é que muitas vezes está o problema. Parece-me que muita gente (eu incluído, às vezes) ouve música já tendo decidido, de antemão, que a vai detestar ou adorar, por vontade ou necessidade de adesão a determinada corrente de gosto. Aquilo que nos interessa vai sempre arranjar maneira de ter uma ressonância em nós.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer? Aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

TF —  Há de tudo! A última música que, verdadeiramente, me fez mexer por dentro e por fora foi a “Are you lonesome tonight”, do Elvis. Apanhou-me desprevenido, até me emocionei.

ZPV — Isso são duas perguntas muito diferentes. Sem dúvida que o hip-hop é a música que arranca uma reacção física mais rápida, mesmo que seja muito mau. Quanto à segunda pergunta, há música que não consigo ouvir como mero ruído de fundo, que exige a minha total atenção sempre que aparece. Não a consigo definir, só dar alguns exemplos, como a “Take it with me”, do Tom Waits, ou, noutro extremo, a “The Rat”, dos Walkmen.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e transgressora?

TF — Intuitiva sim, transgressora não. Toda a gente gosta de música ou trauteia uma qualquer melodia, a transgressão vem das conceções do que ela tem ou deve ser.

ZPV — Como te dizia ao responder à primeira pergunta, a música pode ser uma coisa muito insidiosa, que aparece e se instala sem ser convidada. Por aí, pode ser uma arma muito prática, seja para que fim for. Não podes obrigar ninguém a ler o que não quer mas, facilmente, obrigas alguém a ouvir o que não quer.

Já te aconteceu pensares numa imagem ou espaço específico enquanto compões?

TF — Componho sempre a pensar em pessoas nunca em espaços.

ZPV — É muito raro, talvez tenha acontecido uma ou outra vez em que tentei compor qualquer coisa mais narrativa, mas sempre sobre sítios imaginados. Normalmente, parto de uma ideia ou uma sensação muito primária e abstracta.

Se pudesses desenhar e pintar a tua  música, como seria e que cores teria?

TF — Sou, profundamente, desprovido de qualquer tipo de talento para as artes plásticas, não obstante, pintá-la-ia de preto, vermelho e azul. Mais do que as cores, as formas teriam de ser simétricas.

ZPV —  É muito difícil e até algo pretensioso eu poder falar da “minha música” quando fiz tão pouca. Provavelmente, seria qualquer coisa como um esboço desenhado a lápis. Talvez, um dia, lhe possamos acrescentar umas pinceladas de cor.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

TF — A música que mais me apela é sempre a música triste. Ouvir coisas bonitas sobre coisas feias, e por aí tem de ser doce, ainda que seja um veneno doce.

ZPV — Acho que tendo para o doce mas tem de haver sempre um travozinho amargo para desenjoar. Normalmente, nas palavras.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que  ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

TF — Quando era miúdo, o meu irmão mostrou-me um tema dos Red House Painters, o “Have you forgotten”, e passei um verão a ouvir aquilo num walkman. Acho que ainda consigo lembrar-me do cheiro da tenda em que passei esse mesmo verão.

ZPV —  O cheiro do cigarro no carro do meu pai enquanto ouvíamos “A tonga da mironga do kabuletê”, O cheiro do cigarro no carro do meu pai enquanto ouvíamos “A tonga da mironga do kabuletê”, do Toquinho e Vinícius.

Vamos, agora, virar o jogo. Porque o silêncio também é importante numa composição, de que forma te ajuda na tua intuição, reflexão e introspecção enquanto artista?

TF — O silêncio é fundamental para tudo na vida, para a música ainda mais. Tal é assim comigo, que em casa nunca ouço música. Tenho uma aparelhagem mas está sempre desligada. É preciso sentir falta da música para criar alguma coisa.

ZPV — No meu caso, é vital. Eu quase não tenho tempo para tocar, portanto,  90% do tempo em que componho, é passado só na minha cabeça, seja a escrever letras ou inventar melodias e arranjos, o que tem de acontecer quando estou em silêncio (habitualmente a conduzir ou quando me vou deitar).

Entrevista por Ana Isabel Fernandes