Braga é a cidade que o abraça e a rua exata foi denominada como Rua do Raio. Conhecido como Palácio do Raio, o edifício considerado "um dos mais emblemáticos da cidade" é desde 2015 a casa do Centro Interpretativo das
Memórias da Misericórdia de Braga. Dedicando-se à história e às memórias, este local abraça a evolução, a investigação e o conhecimento de todxs aquelxs que contribuíram para o desenvolvimento da história das Misericórdias, em Portugal.

As vicissitudes pelo qual o edifício passou transportam em si uma herança que percorre as mais diversas áreas. Inicialmente acolheu uma família, posteriormente, muitas outras pessoas que precisavam de cuidados médicos - também podendo ser denominado de lar para quem necessitava de lá ficar por largos meses. Hoje, é mais do que um repositório de memórias e motivações para a investigação médica, distinguindo-se em Portugal.

As vicissitudes pelo qual o edifício passou transportam em si uma herança que percorre as mais diversas áreas.

Manuela Machado, diretora do Museu do Centro Interpretativo das Memórias da Misericórdia de Braga, ajudou-nos a viajar no tempo e a percorrer os largos séculos que acompanham a evolução do edifício. Construído para ser uma casa nobre, foi entre 1752 e 1754 que o palácio se edificou. Encomendado ao famoso artista André Soares, por João Duarte de Faria e Silva, e habitada posteriormente pelos seus descendentes, transformou-se num ícone do Barroco e do Rococó, "estes elementos são visíveis na sua magnífica fachada, com que todos se identificam e param para apreciar, ainda que desconheçam o que está por trás das belas portas azuis", explica Manuela.

Sofrendo algumas intervenções, posteriormente, já na metade do século XIX, foram aplicados azulejos semi industrializados por um proprietário que não seria descendente de João Duarte Faria, Miguel José Raio, que voltou à sua terra natal vindo do Brasil, da região de Belém (Pará). "Aqui fez um conjunto de ações de benemerência, motivos pelos quais acabou por ser instituído o primeiro visconde São Lázaro e, portanto, Miguel José Raio, após comprar a casa fez-lhe também um conjunto de alterações influenciado pelo gosto artístico da época. Foi então que mandou colocar os azulejos azuis na fachada; no interior, voltou a pintar os tetos e fez uma nova claraboia. Portanto, podemos dizer que este é um conjunto de alterações que, de facto deram, outra visibilidade ao espaço", detalha a diretora do museu.

Miguel José Raio, após comprar a casa fez-lhe também um conjunto de alterações influenciado pelo gosto artístico da época.

Assumindo um traçado arquitetónico muito singular, Miguel José Raio habitou cerca de duas décadas na casa, antes de falecer. Após a sua morte, a família de Miguel José Raio ficou com graves dificuldades financeiras, isto porque "conta-se que a sua morte tenha sido influenciada pelas más notícias, recebidas pelo furto a que o sócio do visconde o terá submetido", e é então que o Palácio do Raio é entregue ao Banco do Minho para pagar dívidas, entretanto contraídas.

É. assim, que a Santa Casa da Misericórdia de Braga, que administrava o Hospital de São Marcos desde 1559, viu neste espaço - situado ao lado do Hospital - um bom local para aumentar as instalações hospitalares, entre 1872 e 1884. A diretora reconhece que, na altura, era importante porque "era um hospital procurado por muitos doentes do norte, da região do Minho sobretudo, e oferecia tratamentos muito específicos que não se encontravam noutras unidades hospitalares".

Em 1883/84, o Palácio do Raio é comprado pela Misericórdia de Braga, ao Banco do Minho, "por dez contos de réis à época" . É então a altura em que se instalam aqui uma série de ferramentas e estruturas hospitalares.
Nos dias de hoje, vários são xs visitantes que passaram pelo Palácio do Raio enquanto Unidade Hospital, sendo pacientes ou profissionais, "há uma memória coletiva muito presente daquilo que era o Hospital de São Marcos, até 2011", explica Manuela.

Restaurado em 2015, o Palácio deixa de ficar "devoluto." É então que a Santa Casa de Misericórdia de Braga submete uma candidatura para recalcular e intervir no espaço, dado aos níveis de degradação, deterioração e de muitos dos seus elementos artísticos, arquitetos e técnicos. A instituição parte deste mote de requalificação do espaço e desenvolve, assim, um local dedicado à cidade "um espaço que, no fundo, era de todos e que foi frequentado por muitos bracarenses durante longos tempos". Tal como Manuela menciona, nasce assim, o Centro de Memórias.

A Santa Casa da Misericórdia de Braga, que administrava o Hospital de São Marcos desde 1559, viu neste espaço - situado ao lado do Hospital - um bom local para aumentar as instalações hospitalares, entre 1872 e 1884.

Com os objetivos de contar a história da instituição quinhentista e divulgar o património da Santa Casa, nasce um Centro Interpretativo que, "para além do próprio edifício arquitetónico e da beleza arquitetónica em si, explora também a história da cidade", explica Manuela nesta viagem temporal que conta com 300 anos de história.

Contando com uma exposição permanente diversificada, os visitantes podem encontrar diferentes realidades artísticas e arquitetónicas, passando pelo Barroco, a atividade da confraria, a pintura, a escultura, a Arte Sacra e ainda dá a conhecer uma sala dedicada aos benfeitores e aos provedores da Santa Casa.

Propondo-se a contextualizar e interpretar, o Centro Interpretativo das Memórias da Misericórdia de Braga é mais do que um repositório de peças, factos e acontecimentos. Envolve-se em diferentes núcleos temáticos que foram pensados para contar uma história, composta por várias, e que permite interligar os seus diferentes elementos, " a ideia é também transmitir e mais do que mostrar um edifício, é também mostrar uma memória que está por trás da história do mesmo", acrescenta a diretora.

O Centro Interpretativo das Memórias da Misericórdia de Braga é mais do que um repositório de peças, factos e acontecimentos.

Manuela refere ainda que há um grande interesse da comunidade científica no espaço, " um recente estudo da obra de investigação de Luís Ferreira, que foi premiada pela Academia Portuguesa da História, é um dos exemplos do incentivo que a Santa Casa dá aos jovens investigadores. Há também jovens doutorandos que, no fundo, estão a aprofundar o seu conhecimento não só sobre a Misericórdia de Braga, mas sobre a cidade e sobre este espaço.

Reconhecendo que a nível histórico e social o Centro permite contemplar a evolução da cidade e o desenvolvimento artístico ao longo dos vários séculos, são diversas as iniciativas que se vão também construindo em torno do mesmo, como é o caso do Festival de Órgão, que promove em espaços como o Palácio um contacto com diferentes artes, passando também pela história religiosa que tem uma conotação naturalmente forte nestes locais.

Acompanhando uma "belíssima fachada", o Centro Interpretativo das Memórias da Misericórdia de Braga, guarda em si heranças, memórias e um património imóvel pronto a ser descoberto.

* A entrevista surge a propósito da parceria entre o Gerador e a Braga´ 27 (Capital Europeia da Cultura).

Texto por Patrícia Silva
Fotografias da cortesia do Centro do Palácio do Raio - Centro Interpretativo das Memórias da Misericórdia de Braga

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