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Patrícia Moreira

Descobre a obra literária de Patrícia Moreira, originalmente publicada na Revista Gerador 38.

Texto de Gerador

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Patrícia Moreira é luso-cabo-verdiana, nasceu e cresceu em Lisboa. Licenciada em Ciências da Linguagem, na Université d’Aix-Marseille, tirou o mestrado em Português Língua não Materna, na Universidade do Minho. É a autora do livro As Novas Identidades Portuguesas e participou na antologia Quarentena – Memórias de um país confinado. Na Revista Gerador 38 publicou a obra Fidjo fêmea, que podes ler na íntegra em baixo.

Fidjo fêmea*


O barulho do soalho a ranger denunciava a chegada da Zulmira. Deitada na cama, Helena chamou pelo nome da filha.

- Zulmira, minha filha, chegaste?

- Sim, mãe. – Respondeu, abrindo a porta do quarto.

Zulmira ajoelhou-se ao pé da cama da mãe, passou a mão pela testa da progenitora e acariciou o seu rosto pálido. O estado da mãe denunciava a chegada do fim. Zulmira já se habituara à cor da mãe, não à palidez, isso significaria que estava preparada para a perder, e não estava, nunca se está. Habituara-se àquele tom de pele mais claro que o seu, à cor branca que denunciava que ela não era filha dos seus pais. A diferença de cor entre ela e os progenitores sempre fora um detalhe de pouca importância, até os outros apontarem esse flagrante. Coitada, de tão tenra idade já se debruçava sobre as questões dos genes. Não escondeu o seu espanto quando descobriu que não era fruto das entranhas da Helena, também não fora a cegonha que a pusera à porta de casa da Helena e do António. Era filha de uma mulher qualquer que a abandonara à nascença, filha de um homem que lhe dera a mesma importância que a sua mãe biológica. 

- Abre a última gaveta da cómoda e tira um saco que está debaixo de toda a roupa. – Disse Helena.

Zulmira seguiu as instruções da mãe.

- Abre o saco, essas cartas são para ti. – Acrescentou Helena.

Zulmira abriu o saco, em silêncio, e o seu rosto foi de imediato afastado pelo cheiro a mofo que exalava do interior. Tirou as cartas do saco branco do supermercado com que a mãe ia tantas vezes às compras, a deterioração denunciava a ancianidade de todas aquelas correspondências. Pelos selos, soube o local de partida de todas elas, Cabo Verde. Os seus olhos recusaram-se a ler o nome de quem as enviara.  

- De quem são? – Perguntou Zulmira com uma mistura de receio e anseio pela resposta.

- Da tua mãe, Filomena.

Era a primeira vez que ouvia esse nome, até então, desconhecia o nome da pessoa que a pusera no mundo. 

- Tu és a minha mãe. – Retorquiu com a garganta trancada.

- Espero que me perdoes. Tanto a mim como ao teu falecido pai, o teu pai de sangue. – Pediu Helena antes de sucumbir no último suspiro. 

“Zulmira sabe a verdade? Conhece a história dela? Ela sabe de mim?” “Levei longos meses para superar o trauma daquela manhã. “Estou pronta para recebê-la na minha vida.” “Hoje, vivo com dor e arrependimento.” “Não peço que ma devolvam, tragam-na apenas para que eu possa conhecê-la.” “Respondam às minhas cartas, por tudo que é mais sagrado. Não quero conhecer o meu túmulo sem antes conhecer a minha filha.” Zulmira desceu do avião com a imagem daquelas letras tremidas da carta a vaguearem pela sua mente, com perguntas a atormentarem a sua cabeça. Quem era Filomena?  De que verdade ela falava? Que trauma era esse que a fizera rejeitar a própria filha? Por que razão Helena lhe pedira perdão? Como assim António era o seu pai de sangue? Filomena era a única pessoa, em vida, que poderia dar respostas às suas perguntas. 

Estava em Cabo Verde, pela primeira vez, pisava a terra que testemunhara o seu nascimento e abandono ao mesmo tempo. Sabia pelas vozes da Helena e do António que a mulher que a pusera no mundo a renegara logo à nascença. O casal compadeceu-se com o choro daquela bebé que a mãe recusava alimentar. E foi assim que ela entrou na vida da Helena e do António. Como podia uma mãe rejeitar uma filha, uma bênção de Deus? Perguntava-se sempre embora exteriorizasse indiferença e desprezo por aquela que a parira. Havia o rebuliço de muita mágoa camuflada dentro de si. Estava em Cabo Verde, pela primeira vez, a sacudir-se dentro de um táxi, que percorria as estradas de terra batida, a caminho do endereço daquelas cartas. 

O táxi parou diante de uma casa pintada de azul que denunciava os anos de uso.  Zulmira desceu do veículo e sentiu as suas pernas fraquejarem. Foi invadida por uma forte vontade de entrar no carro e regressar ao aeroporto, mas o motorista foi mais rápido que o seu pensamento. Teve apenas tempo de ver o rastro do pó da terra levantar-se com a partida do táxi. Respirou fundo e aproximou-se, lentamente, da porta de entrada, que se encontrava aberta, e gritou - Boa tarde! - com a voz trémula. Viu uma sombra aproximar-se por detrás da cortina de missangas. 

- Quem é? – Perguntou uma voz feminina. 

Zulmira sentiu a voz presa, incapaz de emitir um único som. A mulher afastou a cortina, os seus olhos encontraram-se. Ficaram paradas, imóveis, uma observando a outra. Zulmira reparou que tinha os olhos redondos e grandes como os daquela mulher, assim como o nariz largo. Viu ternura naquele par de olhos que a examinava. 

- És tu, Zulmira? – Perguntou-lhe. Avançou para acariciar o rosto da jovem, mas esta última evitou o contacto. 

- Há anos que aguardo pela tua chegada, minha filha. 

Os olhos da Zulmira encheram-se de lágrimas. No fundo do seu íntimo, também sempre aguardou por esse momento. Conhecer o rosto da sua progenitora, a sua voz, ouvir as razões que a levaram a fazer o que fez. 

- Aguardei todos estes anos pela tua chegada. Rezei todos os dias, roguei todas as manhãs para que fosse o dia. Nunca perdi a fé de te rever, mesmo nos dias em que a esperança faltava. – Filomena tentou acariciar a filha uma vez mais, foi afastada mais uma vez. – O que te falaram de mim? O que sabes sobre mim?

Zulmira calada estava, em silêncio manteve-se.

- O teu silêncio rompe-me por dentro. Não o julgo.

- Como poderias condenar-me, julgar-me por que razão fosse se foste tu que me renegaste! – Retorquiu indignada.

Filomena baixou a cabeça, evitando os olhos da filha – Não imaginas o quanto me arrependo. Até hoje, oiço o teu choro zumbir no meu ouvido. Oiço-o agora. Como choravas, Zulmira. Racionalmente, eu sabia que não tinhas culpa de nada, mas não fui capaz. Tu eras apenas uma bebé que queria o peito, o calor, o carinho da sua mãe, mas eu não consegui. Não senti amor, não quis ver o teu rosto, não te aconcheguei nos meus braços, não alimentei a tua fome. Senti apenas desprezo e repugnância quando a parteira te trouxe diante de mim.  – Levantou a cara do chão e fitou os olhos da filha cheios de lágrimas, assim como os seus. – Eu espero que me compreendas e que consigas perdoar-me. A forma como surgiste na minha vida foi... cruel, atroz, abusiva, humilhante. Eu não soube lidar com os meus sentimentos.

- Esperas que eu compreenda, que eu te perdoe, depois de tudo o que acabaste de confessar? Eu não quero ouvir mais nada, já ouvi o suficiente. Quero apenas que me respondas se eras amante do meu pai. Eu sou fruto da traição do meu pai?   A minha mãe aceitou-me na sua vida e criou-me como se fosse fruto das suas entranhas depois de me rejeitares, foi isso que aconteceu? Ela foi capaz de ser racional e de ver que eu não tinha culpa? Que eu era apenas uma bebé que queria o peito, o calor, o carinho da sua mãe? 

- Zulmira, tu não és fruto de uma traição. És fruto de uma violência que foi exercida sobre mim.

- Como assim? – Questionou, espantada.

- Eu trabalhava como doméstica na casa da Helena e do António. Os olhares dele sobre mim nunca me passaram despercebidos. Incomodavam-me bastante, causavam-me desconforto, mas eu optei por fingir que não os via, precisava daquele emprego. Eu não me cruzava frequentemente com ele. Ele passava a maior parte do tempo na administração ultramarina a exercer as suas funções, facto que me confortava imensamente. Um dia, a Helena ausentou-se por longas horas e deixou-me sozinha em casa. Como me lembro desse dia. Sinto o mesmo pavor, a mesma angústia, a mesma náusea.  Eu limpava o quarto deles, como fazia todos as manhãs, quando o António entrou em casa, em silêncio. Só me apercebi da sua presença no momento em que a porta do quarto se fechou. Quando os meus olhos encontraram os dele, percebi logo a sua malícia. Lutei o quanto pude, até aquele punho fechado no meu rosto derrubar-me. Estendida no chão, zonza e com o nariz a sangrar, senti o seu corpo pesado sobre o meu e a dor profunda que penetrou dentro de mim. Naquele tempo, existia uma impunidade total perante a justiça. Os colonos não eram punidos nem presos pela violência exercida sobre nós, os da terra. Ele negou todas as minhas acusações. Eu é que era sangue quente, promíscua, rameira e todos os nomes e adjetivos que possas imaginar. Tu és fruto dessa violação. – Confessou em lágrimas.  

Zulmira ficou estupefacta com tudo o que acabara de ouvir, não duvidou daquelas palavras. O pedido de perdão da Helena era a prova da atrocidade cometida. Como o pai fora capaz? Porque Helena aceitara e encobertara o marido?

- Eles não tinham filhos, a Helena não podia ter filhos. Quando souberam que eu te rejeitara, decidiram ficar contigo. 

- Como me descobriste?

- Foi a Rosa, a funcionária do supermercado que a Helena ia tantas vezes às compras, quem me deu o teu paradeiro e enviou-me uma foto tua. Ela também morou cá. Eles partiram todos após a conquista da independência. Logo depois de saber onde estavas, tratei de aprender a escrever, na esperança de que as minhas palavras te trouxessem até mim.

- Foi a melhor viagem de toda a minha vida, mãe.
*A Filha

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