Começou a estudar bateria, com apenas oito anos. Por volta dos 15, decidiu que queria dedicar-se à música profissionalmente – mas não só como instrumentista. Perto de completar 30 anos, Pedro Melo Alves é um jovem compositor e percussionista portuense, que se tem vindo a afirmar no panorama do jazz contemporâneo, "na interseção entre a música contemporânea escrita e a música improvisada”.

Em setembro último, editou, com o selo Clean Feed, o disco Lumina, onde apresenta música escrita e arranjada, para o "Omniae Large Ensemble" (um ensemble de 22 músicos). Captado ao vivo, no ano passado, por encomenda do Guimarães Jazz, o registo – que cruza estéticas tradicionais e procuras contemporâneas ligadas à música improvisada e eletrónica – expande o seu "Omniae Ensemble" (originalmente, um septeto), galardoado com prémio de composição Bernardo Sassetti, em 2016.

Mas não se ficou por aqui, nem isso lhe seria “orgânico”. No espaço de poucos meses, Pedro Melo Alves editou também o novo disco de The Rite of Trio (que partilha com André B. Silva e Filipe Louro), Free Development of Delirium; o álbum de estreia do Luís Vicente Trio, Chanting In The Name Of, o trabalho em duo com Pedro Carneiro, Bad Company; e ainda Mountains, do guitarrista argentino Javier Subatin.

Depois de apresentar Lumuina na Culturgest de Lisboa e na Casa da Música do Porto, e de vários outros concertos, o músico prepara-se agora para o último espetáculo deste ano. Trata-se de uma encomenda do Teatro do Bairro Alto, em que, ao duo com o percussionista João Pais Filipe, se junta Jonathan Saldanha e o coletivo de artes plásticas berru. O resultado, que promete ter repercussões em 2022, é apresentado a 22 de dezembro, naquele espaço.

G. – Quando é que percebeste que querias, efetivamente, seguir música?

P. M. A. – Às vezes, não há uma resposta certa para isso, mas, por acaso, no meu caso, há. E é uma história que já descrevi várias vezes, porque acaba por fazer um círculo completo. Esse momento acontece na 6.ª Festa do Jazz, em 2008. Estava na Escola de Música da Valentim de Carvalho, e a Festa do Jazz, todos os anos, tem um encontro de escolas, o que significa que, além da programação do festival, há uma sala, em paralelo, onde as escolas apresentam grupos de alunos novos, a tocar reportório jazz. Esta 6.ª Festa do Jazz foi quando fui pela primeira vez e, de certa forma, quando tive um contacto também mais sério com o universo do jazz. Na altura, aquilo deslumbrou-me. Já estava a estudar bateria, há uns anos, ali desde 98, 99. E, a partir desse momento, a música começou a aparecer como uma possibilidade mais séria e mais entusiasmante, no sentido em que também era mais diversificada. De repente, as possibilidades, que percebi que a música podia ter, através do contacto com a música jazz, tornaram-se muito mais estimulantes. Então, isso tornou-se uma vontade de estudo mais profunda e tive vontade de encarar isso como uma carreira e como um estilo de vida. Há mesmo este clique, que, depois, tem repercussões concretas nos anos seguintes. Isto terá sido próximo da entrada para o ensino secundário. Fiz o ensino normal, pela área científico-tecnológica, mas, a meio, tomei mesmo a decisão: vou seguir musica. E dura até hoje.

Pedro Melo Alves foi distinguido como músico do ano, em 2017, pela jazz.pt e com o Prémio Internazionale Giorgio Gaslini, em 2019. Fotografia de Renato Cruz Santos

G. – Ser apenas baterista não fazia sentido para ti?

P. M. A. – Aí, estava a ser baterista, mas como hobby, como muitas pessoas aprendem um instrumento e o tocam. Decidi que queria ser músico, além da bateria, e a prova disso é que, depois, entro no curso de bateria jazz da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo, mas não concluo. Abandono o curso no segundo ano, precisamente, porque quero estudar outras valências da música, a tempo inteiro, e não só a bateria. É por isso que, depois, fico a estudar só piano. Nessa altura, entro em dois anos de formação só de piano clássico e piano jazz e, quando me mudo para Lisboa em 2015, é que entro, finalmente, no curso de composição [na Escola Superior de Música, em Lisboa]. Aí, sim, já não estava a estudar propriamente bateria, embora a concretização profissional dos meus projetos artísticos acabe por passar muito pela bateria. Mas, no trabalho em background, está muito daquilo que é mais a minha relação com a música e que passa, sobretudo, pela questão da composição, do arranjo, do trabalho, da música ao piano.

G. – Deambulas entre vários estilos musicais: jazz, eletrónica, música contemporânea, experimental, improvisada. O teu trabalho marcado por esta exploração e pelo cruzamento destes diferentes circuitos estéticos. As caixinhas fazem sentido para ti, ou isto vai-se confluindo naquilo que fazes musicalmente?

P. M. A. – Acho que as caixinhas são necessárias, porque o universo, a realidade e a existência são demasiado infinitamente complexos para uma pessoa não sentir a necessidade de os categorizar, de os compartimentar, só para simplificar um bocado a abordagem. Acho que as caixinhas, os rótulos, os géneros, se forem vistos desta forma, como uma ferramenta de facilitação das primeiras abordagens, são importantes. O problema é quando olhamos para as caixinhas como uma definição mais nuclear, mais estrutural do que as coisas são. Aí, sim, temos um problema porque estamos a simplificar, estamos a reduzir o que as coisas são.

Especificamente na música, o que sinto é que: mais importante, para mim, do que propriamente estas caixinhas, é o espírito, é a atitude que está por trás. E há uma atitude que tenho nos meus projetos, da qual não consigo fugir, que é uma atitude de experimentação, de exploração não convencional. Ou seja, é uma coisa que me é orgânica. Não o faço como nenhuma espécie de statement. Mas sei que tendo mais para experimentar do que, propriamente, para conservar cânones tradicionais conservadores, embora vá lá beber também. Isso faz com que haja, sobretudo, uma atitude de exploração, que é bastante livre nos meus projetos. E faz com que qualquer projeto que venha a seguir mantenha sempre esta atitude, que acaba por cruzar géneros, mas que pode ter a forma de qualquer um. Na verdade, até aqui tem sido através do jazz e da música erudita, a cruzar-se bastante com uma musicalidade eletrónica, mas nada garante que, nos projetos dos próximos anos, a coisa não entre noutros géneros totalmente diferentes, até mesmo nos mais populares, nos mais mainstream, e que não mantenha exatamente o mesmo espírito. Essa é a verdadeira chave nuclear do trabalho artístico que procuro. E que, enquanto ouvinte, também procuro. Tem mais que ver com essa atitude, mais arrojada, de não querer ficar pelos limites já muito bem estabelecidos, ao longo do tempo, e de tentar agitar um bocado as águas e perceber o que acontece quando começamos a questionar essas paredes.

"Preciso de estar a fazer coisas que são a minha zona de conforto, para as aprofundar ainda mais, mas preciso de estar numa série de outras coisas que me desafiem e que sejam novas"

G. – Como é que te vais explorando e alimentando enquanto artista? Falavas agora de querer beber de coisas diferentes.

P. M. A. – Ao longo dos anos, vão sendo coisas diferentes. A verdade é essa. Lembro-me, por exemplo, de que a minha fase de estudante era muito diferente da minha fase atual de vida, nesse sentido de “beber”. Tenho bastantes saudades disso, porque, enquanto estudante, tinha mais tempo, mais rotina. O próprio facto de estar a frequentar um ensino superior artístico também me punha em contacto com muitas fontes, com muita origem de matéria nova. E, nessa altura, via muitos espetáculos, partilhava com muitos colegas e professores novas ideias, novas referências, novos artistas. Hoje em dia, sinto que a minha própria atividade, enquanto músico que faz concertos e participa em eventos, atividade à qual juntei recentemente uma dinâmica de organização de eventos – tenho uma associação e um espaço no Porto onde programo um ciclo... –, tudo isso acaba por fazer com que me cruze muito com novas fontes de estímulo artístico, às vezes, em cena, em palco. Porque organizo coisas e vejo concertos que organizo. Ou porque vou tocar, e isso faz-me ir às salas de espetáculo, ver músicos e contactar com eles.

Mas, obviamente, mantém-se um pouco daquilo que era a minha atitude de procura, embora não tendo tanto tempo como dantes. Ouço muita musica, estou constantemente em contacto com pessoas que também são ávidas de novas referências, sempre que tenho tempo livre para escuta ativa, faço-o, com muita necessidade, e ainda vou vendo alguns espetáculos ao vivo. Mas acho que a grande fonte continua a ser as pessoas, o circuito de pessoas à volta, sendo que privilegio muito sair da bolha da música. Sempre trabalhei com teatro e dança, por exemplo, mesmo através da música. Aprecio muito ter estímulos completamente fora da musica, até porque, depois, inevitavelmente, a minha cabeça vai sempre fazer pontes, que vão ser mais ricas, por não serem da música, mas que vão enriquecê-la. Ou seja, tudo à volta me faz pesquisar mais. Felizmente, por muito ocupado que tenha estado nos últimos anos, essa vontade de conhecer, nos espacinhos pequeninos que existam, mantêm-se viva.

O músico já colaborou com figuras como Mark Dresser, Théo Ceccaldi, Jacqueline Kerrod e Eve Risser e apresentou projectos em eventos como o 12 Points Festival (Irlanda), Jazzahead (Alemanha), Suoni Per Il Popolo (Canadá) ou Südtirol Jazz Festival (Itália). Fotografia de Renato Cruz Santos

G. – 2021 foi um ano de ativa e rica produção discográfica para ti. Para além do Lumina, editaste, no espaço de alguns meses, vários outros discos, com diferentes músicos: Free Development of DeliriumChanting In The Name Of, Bad Company e Mountains. Como surgem estes diferentes projetos, e como foi o processo de concretização dos mesmos? Consegues ter a plasticidade de estar a trabalhar em diferentes coisas, ao mesmo tempo? Ou focas-te num projeto de cada vez? 

P. M. A. – Esse processo é um grande caos, como deves imaginar. Desses projetos todos que mencionas, há alguns que são relações artísticas e pessoais novas, outros que são longas histórias que já vêm de trás, como é o caso de The Rite of Trio. Já temos quase dez anos de banda e mais ainda como colegas e amigos. O início de The Rite of Trio, mais uma vez, correspondia à fase de vida em que havia mais tempo livre. Ensaiávamos três vezes por semana, estávamos completamente absorvidos. Fazer o disco de estreia desse projeto, na altura, significou, praticamente, só estarmos a fazer aquilo. Por muito que houvesse outras atividades, outras bandas ou outros projetos – também estávamos a tirar o curso, na altura –, sabia bem poder estar 100 % entregue a um só projeto. Até porque daí vem uma série de outras riquezas que, só dessa forma, se conquistam.

Hoje em dia, acho que vivo um bocado com esse tipo de utopia em mente, no sentido em que ainda me dedico aos projetos, como se fosse possível só estar num projeto de cada vez. Mas, infelizmente, o tempo livre é praticamente nenhum. Estou distribuído entre vários projetos, alguns internacionais, outros sempre no Porto, outros em Lisboa. Passo muito tempo em viagens, e o trabalho de produção, para manter esses projetos todos em andamento, ocupa todo o restante tempo livre, que não é aquele tempo em que se está efetivamente a estudar, a compor, a ensaiar ou a tocar. Então, acaba por ser tudo ao mesmo tempo. Esta semana está a ser exemplo disso. Ontem estava a gravar, no Porto, com The Rite of Trio, gravámos uma live session em vídeo. Hoje estou, em Lisboa, para gravar com o Rodrigo Brandão, que é um projeto de música improvisada com spoken word. Amanhã já estou outra vez, no Porto, a tocar com o João Pais Filipe e, no domingo, estou outra vez, em Lisboa, para tocar com o Rodrigo Brandão, no Music Box. A viagem é constante, mas, quando estou num projeto, tenho de estar 100 % nele. Portanto, ontem, se estava em The Rite of Trio, estava em The Rito of Trio. Não dá para estar distribuído, porque senão é dispersante, e a energia perde-se, acaba por ser um reforço inglório.

Esses projetos todos que mencionas acabam por ter histórias diferentes e, durante a caixinha de cada um, foram um mundo. Por exemplo, com o Pedro Carneiro, conhecemo-nos artisticamente o ano passado. Ele é o maestro do “Omniae Large Ensemble”, portanto, do disco Lumina, mas também é um percussionista de renome mundial, que todos no circuito musical de Portugal conhecem e admiram. Por termos colaborado no ano passado, na posição de compositor e de maestro, ficou a vontade de nos cruzarmos este ano, porque ele também é um músico percussionista improvisador. Então, o início do ano foi pautado pelo disco do Pedro Carneiro e pelo disco do Luís Vicente, que foi gravado na mesma altura.

O disco de The Rite of Trio foi um acaso. Pegámos numa composição que vinha de 2014 e decidimos que, este ano, com a paragem forçada, era a altura para pegar nesse projeto que estava em stand-by – o Free Development of Delirium – e expandir para uma suíte em três partes. Fizemos uma live session para o Cheltenham Jazz Fest, um festival onde éramos para ter tocado, no ano passado, na Inglaterra, e isso lançou as cartas para pegarmos no resto da composição e irmos a estúdio no verão. E assim foi.

O “Omniae Large Ensemble”, portanto, o Lumina, aconteceu no ano passado, foi uma encomenda do Guimarães Jazz, que foi gravada ao vivo. O disco é o concerto de estreia, e o único concerto até à data [de lançamento do álbum]. É um projeto que já vem de 2017, quando venci o prémio de Composição Bernardo Sassetti, e o “Omniae Ensemble” é uma expansão de um projeto que também já vem de trás.

Dentro disso, depois, há espaço para colaborações totalmente inéditas, como foi o caso de Pedro Carneiro, que já descrevi, e como é o caso de Javier Subatin. Já tínhamos colaborado antes, mas agora ele convidou-me para participar neste disco. Gravámos em abril e saiu nesta segunda metade do ano. E há ainda um CD que também saiu, na última semana de novembro, que é o Dog Star, com um coletivo de luxo de músicos de improvisação livre (com o Gonçalo Almeida, o Yedo Gibson, o Vasco Trilla e o Luís Vicente). Estamos a falar de um encontro muito espontâneo que aconteceu, no início do ano, e que nada tem a ver com estas histórias longas dos outros projetos. Portanto, vai sendo um esforço de agregação que só acontece, e vai acontecendo assim tão bem, porque há mesmo muita vontade e gosto por isto que estou a fazer, porque, de resto, é um grande caos.

G. – Dizias numa entrevista que já houve tempos, nomeadamente, no período académico, em que tinhas que acalmar essa "necessidade tão diversa, porque se tornava contraproducente". Agora não sentes isso?

P. M. A. – Não. O que tenho vindo a descobrir, entretanto, é que essa vontade – que disparava para todos os lados e que, na altura, se calhar, condenava, porque sentia que não me focava numa coisa só e não a aprofundava o suficiente – é a minha verdadeira forma de estar e ser. O desafio dos últimos anos tem vindo a ser perceber como tornar isso profundo e construtivo.

Hoje em dia, sinto que estou a entrar numa nova fase, mais madura, quer do meu percurso, quer do meu processo de operação artística, que, na verdade, abraça essa forma de ser que dispara para todos os lados. Porque tenho vindo a conseguir descobrir como fazê-lo bem feito e como fazê-lo de forma construtiva. Até porque o contrário seria estar, de alguma forma, a limitar aquilo que sou organicamente. Ou seja, sei perfeitamente que, se tivesse o ano inteiro, como muitos artistas estão, dedicado a um só projeto – grandes produções, cinema, grandes sinfonias, uma ópera, por exemplo, aquelas grandes produções que, efetivamente, te obrigam a estar só nelas durante, às vezes, mais do que um ano –, para mim, seria um belo desafio e até tinha alguma curiosidade em saber como é que corresponderia a isso, mas tenho quase a certeza absoluta de que me sentiria bastante miserável. Porque a minha forma de ser precisa de diversidade, preciso de estar a fazer coisas que são a minha zona de conforto, para as aprofundar ainda mais, mas preciso de estar numa série de outras coisas que me desafiem e que sejam novas, que sejam estímulos novos e, nas quais, ainda não saiba corresponder, para precisamente aprender a corresponder. Houve uma altura em que isto aconteceu muito acidentalmente, porque recebi muitas felicitações, mas, hoje em dia, digo que é uma nova fase de maturidade, porque reconheço todas estas categorias de ação como vitais e já as organizo, já vou à procura delas. Se tenho dois ou três projetos grandes, vou à procura de uma série de outros projetos complementares para estimular tudo, para, na verdade, fazer esta grande cadeia de eventos.

Texto por Flávia Brito
Fotografia de Renato Cruz Santos

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