– O Encerrar

Com a chegada da Covid-19, e o posterior confinamento, a Portugal, o mundo da cultura ficou em stand by. De acordo com os dados da associação de Gestão dos Direitos dos Artistas (GDA), até 31 de março foram cancelados 4.287 espetáculos. Em média, por espectáculo, ficaram sem rendimento 18 artistas envolvidos, para além de cerca de 2 profissionais de produção e 3 técnicos. 

Durante três meses, o setor estagnou. Recintos de espetáculos, cinemas, museus, salas de exposições, galerias, programas culturais ao ar livre, serviços educativos, cursos superiores. As portas fecharam.

Fotografia via Pixabay

– O Recomeçar

A partir do dia 1 de junho de 2020, voltou a existir a possibilidade de serem reabertos os equipamentos culturais que estavam encerrados, no âmbito do confinamento provocado pela Covid-19. Teatros, salas de espetáculos, cinemas, e iniciativas culturais ao ar livre voltam a receber espectadores.

Para tal, o Ministério da Cultura, juntamente com a Direção Geral da Saúde (DGS), promulgou um conjunto de medidas obrigatórias para a abertura: uso obrigatório de máscara, lugares marcados, definição de vias de entrada e de saída, limpeza e desinfeção das instalações e recintos.

Este é um momento em que o setor cultural se vê obrigado a reinventar espaços de atuação e a adaptar estratégias para enfrentar esta crise pandémica.

Samuel Úria é um dos artistas que se prepara agora para regressar aos palcos para a apresentação do seu novo disco — Canções do Pós-Guerra. Confessa que se sente estranho. “Ambientar-me àquilo com que visualmente me vou deparar durante o espetáculo, que são lugares vazios e pessoas de máscaras, é uma coisa que não é possível habituar-me.”

Após três meses de stand by do disco e da carreira musical, o artista revela que o processo de cair na realidade está longe de acontecer. “Até porque passado este tempo todo ainda estou a viver uma incerteza. São tantas incertezas que isto vai parecer muito preguiçoso ou quase infantil, mas são tantas que eu de alguma forma tive de evitar pensar nelas”, reforça.

Fotografia da cortesia da Valentim Carvalho

Ainda assim, para Samuel, a maior incerteza não recai sobre ele, mas sim sobre os profissionais de espetáculos e da cultura. “Os músicos vão continuar a passar dificuldades, mas continuam a receber direitos de autor, têm a possibilidade de continuar a lançar discos mesmo que isso não tenha uma repercussão financeira imediata. Agora, os profissionais de espetáculos e da cultura ficaram sem chão, porque necessitam de eventos ao vivo”, recorda.

Segundo os dados do Inquérito ao Emprego, em 2018, estavam empregadas nas atividades culturais e criativas 132 mil pessoas, o que representa cerca de 3% da população empregada portuguesa.

Face à pandemia, Sandra Faria, Presidente da APEFE, Associação de Promotores de Espetáculos Festivais e Eventos, salienta que a quebra na associação foi significativa. “Posso dizer que foi superior a 90% e, desde que há a reabertura, se calhar até é superior a 95%.”  

Segundo a presidente, apenas cerca de 5% dos promotores voltaram ao ativo. “Há muitos artistas, muitos técnicos que são empresas unipessoais que já não trabalham a recibos verdes, mas abriram a sua empresa e não têm qualquer tipo de apoio. Não estão candidatos a nenhuma das linhas de apoio que saíram, são pessoas que estão a passar grandes dificuldades”, justifica.

Fotografia via Força de Produção

Um promotor, normalmente, é um empresário proativo, que “arrisca e investe para a criação do evento cultural e que tem o seu retorno a partir da bilheteira e que faz mexer uma cadeia de valor muito importante”, explica a presidente. O problema surge a partir do momento em que um promotor pára. A partir disso, toda a cadeia pára. Cadeia essa que envolve artistas, técnicos, criativos, entre outros.

De forma a ajudar toda a cadeia envolvente, surge o projeto da União Audiovisual. De acordo com Ricardo Queluz, um dos fundadores da União Audiovisual, “o grupo surgiu logo passado um mês de estarmos na pandemia. Começamos a perceber que sem concertos havia colegas que estavam em dificuldade, então decidimos reunir e ajudá-los.”

Fotografia disponível via facebook Ricardo Queluz

De momento, o movimento conta com 50 pessoas, sendo as ajudas direcionadas exclusivamente para os trabalhadores do audiovisual, através da entrega de bens alimentares.

Ricardo recorda que, no início da pandemia, pela capital, já distribuíam para cerca de 40 pessoas, 15 cabazes por semana. Com o regressar aos palcos, o número de ajudas disparou. “Principalmente em finais de julho ainda tivemos mais gente a pedir e gente nova, aliás esperamos um aumento no final deste mês e no próximo”, salienta.

Fotografia disponível via Unsplash

Para a recolha dos alimentos, o fundador explica que realizam recolhas em lojas físicas e que, com a abertura dos palcos, a União Audiovisual passou a realizar concertos solidários. “Começamos a fazer recolhas nos concertos, isto porque voltou a haver concertos, peças de teatro e as pessoas têm vindo a aderir à nossa causa.”

Ainda assim, Ricardo Queluz realça que as ajudas têm caído, “não sei se será pelas pessoas terem ido de férias ou para a escola, ou por as pessoas já não quererem ajudar.”

Mas, a que se deverá esta falta de auxílio? Para Ricardo Queluz um dos principais motivos é a desvalorização da cultura em Portugal. “Não sinto que as pessoas liguem muito à cultura, as pessoas gostam muito de ver espetáculos sem pagar”, reflete. Para este, o que funciona são as coisas “mainstream”.

Já para Sandra Faria este é um problema, igualmente, originado pelos meios de comunicação social. “Nós sofremos muito na pele um problema de comunicação/ruído seja nos órgãos de comunicação social, seja nas redes sociais, onde tanto é o ruído que não sabemos onde está a verdade e fica incontrolável esta fonte de informação”, realça.

Para a presidente o essencial é apelar à segurança dos eventos e não há desinformação, no regresso.

Fotografia via Unsplash

Sandra deixa, ainda, para reflexão a ideia de que é necessário trabalhar a ligação entre a “economia, turismo, educação e cultura, porque só trabalhando estas partes todas é que vamos conseguir chegar a bom porto.”

A verdade é que “há aqui alguma coisa que falhou e temos de, urgentemente, investir na cultura, porque a cultura é muito importante para a identidade, para a saúde mental, para a vivência da sociedade. Tudo é cultura”, destaca a presidente.

Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível via Unsplash