O queijo produzido por Célia Silva tem um paladar difícil de descrever. Esta iguaria característica da serra da Estrela possui uma textura de tal forma cremosa e aveludada que derrama sabor imediatamente após o corte.

Provamo-lo barrado no pão, num espaço de natureza, aberto e descampado em Celorico da Beira. Aqui, Célia Silva fundou a Casa Agrícola dos Arais, local onde produz o tradicional Queijo Serra da Estrela DOP (Denominação de Origem Protegida). Este é um queijo “que só pode ser fabricado com leite de ovelha de raça churra mondegueira, que está em vias de extinção” e que requer o cumprimento de vários procedimentos para ser digno desta classificação, de acordo com Célia Silva.

A proprietária deste negócio familiar possui 250 ovelhas cujo leite utiliza para produção de queijo. Além deste, ainda compra leite a outros produtores, pois necessita de cerca de cinco litros para cada quilo de queijo.

Ao Gerador explica que é “difícil comercializar o queijo DOP”, já que, frequentemente, depende de parcerias com restaurantes e lojas gourmet para escoar o produto. A dificuldade aumentou ainda mais durante a pandemia, que obrigou ao fecho prolongado dos pontos de venda de que dependia. Célia Silva viu-se obrigada a recorrer a canais alternativos e acabou por valorizar ainda mais as potencialidades trazidas pelos meios digitais.

“Tentamos sempre, também, fazer parcerias e [integrar] projetos porque é uma maneira de estarmos atualizados e nos sentirmos estimulados para melhorar. Acho que as oportunidades são poucas e há que aproveitá-las sempre”, explica a proprietária.

Quando fala de “projetos” e “oportunidades”, Célia Silva refere-se a iniciativas de colaboração e empreendedorismo que são promovidas para apoiar os pequenos empresários e produtores. Neste caso concreto, relata algumas vantagens do CRECEER.

Este projeto transfronteiriço, financiado por fundos europeus, foi desenvolvido ao longo dos últimos quatro anos, e teve como principal objetivo aproximar as empresas turísticas e agroalimentares da zona da raia, de forma a estimular colaborações que possam trazer vantagens a todos os intervenientes.

A ideia-base do CRECEER era melhorar a competitividade das pequenas e médias empresas das regiões da Beira Baixa, Beiras e Serra da Estrela, e da região espanhola de Castilha e Leão através da colaboração entre elas. Desta forma seria possível criar “sinergias” e valorizar a produção local e regional. A iniciativa envolveu diversas entidades, que procuraram auscultar as empresas e definir planos de ação que as pudessem beneficiar. Além disso, procurou-se ainda fornecer as ferramentas necessárias para pôr em prática, nos negócios, as alterações definidas nos planos estratégicos.

As estratégias definidas e os resultados alcançados foram apresentados no passado dia 21 de junho, numa sessão realizada no Teatro Municipal da Guarda (TMG).

Ali foi possível perceber que o projeto funcionou em diferentes núcleos, segmentados consoante as áreas de atuação de cada entidade envolvida. A título de exemplo: enquanto a Universidade da Beira Interior realizou o diagnóstico do tecido empresarial da região e definiu as linhas de ação a seguir, o NERGA – Núcleo Empresarial da Região da Guarda desenvolveu o trabalho diretamente com as empresas associadas. O mesmo aconteceu com a InovCluster – Associação do Cluster Agroindustrial do Centro e a Associação Artesãos da Serra da Estrela, que trabalharam diretamente com os empresários da sua área de intervenção para valorizar os recursos existentes e usá-los para promover os produtos e serviços numa lógica conjunta.

Além destas entidades, o projeto envolveu ainda a Junta de Castela e Leão, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Centro (CCDRC) e as Comunidades Intermunicipais das Beiras e Serra da Estrela e da Beira Baixa. Na base de tudo esteve o Turismo do Centro de Portugal, que promoveu e dinamizou a iniciativa.

“Não podemos promover produtos turísticos se eles não existirem e o CRECEER possibilitou a criação de novos produtos”, disse Filomena Pinheiro durante a sessão de apresentação no TMG. A diretora do Departamento de Estratégia e Operações do Turismo do Centro de Portugal descreveu a iniciativa como uma “oportunidade” de envolvimento com o território e as pessoas, e sublinhou que o trabalho “tem de continuar". “Chegámos ao final do projeto com resultados que podem ser aproveitados para uma nova fase de programação”, afirmou.

Este pedido de continuidade foi comum a todos os intervenientes na sessão, que fizeram por afirmar a importância de valorizar o território raiano através das suas empresas e produtos endógenos. “Este projeto veio no timing certo e aproximou os territórios, mas tem de ganhar escala e de envolver mais empresas. Tem de crescer e ganhar dimensão", disse Alexandra Rodrigues diretora de serviços de Desenvolvimento Regional da CCDRC.

Do lado das empresas o balanço é igualmente positivo, mas também é sublinhado o caminho que ainda está por percorrer. Tal como Célia Silva, da Casa Agrícola dos Arais, também no Colmeal Countryside Hotel se afirma a vontade de evoluir e continuar a dinamizar o negócio.

Neste complexo turístico de edifícios de pedra, aglomerados num vale onde “se diz que poderá ter nascido Pedro Álvares Cabral”, Gabriela Castro Fernandes, explica ao Gerador que a participação no CRECEER acabou por ser feita “informalmente”. A diretora operacional desta unidade hoteleira em Figueira de Castelo Rodrigo explica que o espaço foi fundado há cinco anos, sendo que ela própria veio assumir o cargo há cerca de dois, quando o projeto já estava em andamento. “Quando nós viemos para cá, tentámos ter a perspetiva de algumas parcerias com [os negócios] locais. A partir dessa altura, apesar de não estarem formalizadas reforçámos alguns laços.”

A responsável faz um balanço positivo das atividades desenvolvidas no âmbito do CRECEER, mas ressalva que “há algumas coisas que ainda estão em fase de consolidação, sobretudo no que diz respeito ao nosso objetivo principal, que é trazer pessoas” ao hotel, que se situa num local afastado da povoação.

Ao percorrer as serpenteantes estradas da Beira, atravessando montes e vales, descobre-se que há mais petiscos para além dos tradicionais enchidos e queijos. Em Castelo Branco, fazem-se conservas a partir de peixe do rio como forma de recuperar a “arte piscatória fluvial de pequenas populações ribeirinhas”. Achigã, lucioperca, carpa, sável e barbo são alguns dos peixes incluídos no cardápio do projeto Bem Amanhado.

Sediado no Centro de Empresas Inovadoras de Castelo Branco, o negócio de Leonel Barata foi mais um dos que integraram o CRECEER. “Para mim é sempre mais fácil quando estes projetos aparecem, pois, como Castelo Branco tem uma série de estruturas de apoio, torna-se muito fácil ter acesso [a apoios e colaborações] sem ter de sair deste território”, diz o responsável que sublinha a importância de existirem este tipo de apoios em regiões do interior do país.

De acordo com Leonel Barata, os projetos de dinamização de pequenas e médias empresas são relevantes principalmente nos dois primeiros anos de negócio, já que possibilitam estabelecer parcerias estratégicas que acabam por culminar na divulgação e promoção dos produtos. “Graças a projetos como esse é que o nosso [negócio] ainda se mantém de pé”, afirma. Tal como Célia Silva e Gabriela Castro, também Leonel Barata vê com bons olhos a continuidade do trabalho desenvolvido até aqui. Apesar disso é perentório ao afirmar que o trabalho não se limita a este tipo de ações. “Os projetos existem para alavancar e depois, a determinado momento, somos nós que temos de fazer pela vida.”

*O Gerador viajou a convite do Turismo do Centro de Portugal.


Texto por Sofia Craveiro
Fotografias de Pedro Cerqueira

Se queres ler mais reportagens clica aqui.