Capicua, nome artístico de Ana Matos Fernandes, é natural do Porto, tem formação em Sociologia e considera-se uma rapper militante conhecida pela sua escrita politicamente vincada, sem deixar de parte variadas emoções. Apologista da espontaneidade e cultivando uma atitude feminista, tem acumulado colaborações com vários artistas, bem como diversas conferências, workshops e projetos sociais. No dia 18 de junho, a Capicua irá também ser uma das convidadas do festival online Oeiras Ignição Gerador, através da participação na conversa “Como está a cultura hoje”, que decorrerá pelas 11h30. Tem vindo a traçar também um percurso como letrista para variados artistas. Comandante da Guerrilha Cor-de-Rosa, muito se tem dedicado a estimular outras mulheres a construir carreiras longevas e ativas no panorama do hip hop nacional, provando consistentemente que MC quer dizer Maria Capaz. Conta com uma vasta discografia, tendo o último álbum, Madrepérola, sido lançado em 2020.


Foi no dia 25 de fevereiro que me encontrei com a Capicua na Fundação Calouste Gulbenkian. Deparadas com um café encerrado, embarcamos numa deambulação por aquela zona lisboeta à procura de um lugar onde nos pudéssemos sentar sem que a conversa fosse invadida pela chuva que as nuvens ameaçavam. Finalmente, encontrámos uma geladaria nas imediações, que nos acolheu.

O seu último álbum, Madrepérola, havia sido lançado há pouco. Com um título intimamente ligado à temática da maternidade, por ter sido um álbum gravado durante e depois da gravidez da artista, os temas contam ainda com referências que vão de Sophia de Mello Breyner Andresen a Rainer Maria Rilke. Para além disso, a rapper contou ainda com a participação de Camané, Catarina Salinas, Pedro Lamares, Karol Conká, Mallu Magalhães, Ricardo Ribeiro, Lena d’Água, Emicida, Rincon Sapiência e Rael. Mais recentemente, Capicua disponibilizou no seu canal de YouTube o vídeo “Track by Track”, inicialmente transmitido no Observador, em que discorre sobre as várias inspirações que motivaram este seu último álbum.

Foi com esse alento que partimos para o início de mais um jogo. Já com o tabuleiro montado, expliquei as regras do jogo para, sem mais demoras, ingressarmos nesta viagem da sorte. O dado rola, e avançamos seis casas, indo parar à casa da Pergunta Rápida, em que temos cartas com perguntas que têm de ser respondidas sem pensar muito. 

Pergunta Rápida: Rir ou sorrir?

Capicua (C): Rir.

A Capicua volta a lançar o dado, que revela o número seis. Viajamos até à casa da Carreira, em que as cartas revelam perguntas sobre a vida profissional da artista.

Carreira: Qual foi a maior peripécia que te aconteceu num dia de trabalho? 

C: Acho que foi uma vez num concerto em Paris. Nós usamos enguias, que são aqueles fones, durante o concerto, que servem para nos ouvir-nos e em que o som de cada um é diferente. Cada músico faz o som específico para se ouvir bem. Tínhamos feito o ensaio de som e estava tudo bem. Foram mais bandas tocar antes de nós e, quando entramos para fazer o concerto, eles tinham trocado as vias todas. Ou seja, nós estamos a ouvir a escuta trocada uns dos outros. Eu tinha a escuta da Marta, o baterista tinha a escuta do teclista, estava tudo trocado. Nós estávamos desesperados, porque não ouvíamos o que estávamos a fazer, a fazer sinais para o técnico de som e ele sem perceber nada do que estava a acontecer, até que se apercebeu de que estávamos trocados nos canais da mesa, mas tivemos ali duas músicas em que ninguém ouvia nada e foi um caos total. (risos)

Com a distância suficiente do acontecimento de forma a se poder rir da situação, a Capicua volta a lançar o dado. Três casas à frente, voltamos a encontrar uma Pergunta Rápida.

Pergunta Rápida: Responder ou perguntar?

C: Perguntar. Sou aquela pessoa que está sempre a perguntar coisas aos outros.

Andreia Monteiro (AM): Por isso, hoje estás bem! (risos)

Reservando para mim as perguntas, por hoje, a Capicua volta a dar corda ao dado e, uma casa à frente, chegamos à casa da Pergunta da Sorte, em que posso fazer a pergunta que me apetecer na altura.

Pergunta da Sorte: Que forma tens vindo a encontrar em ti para, ao invés de reagir por impulso, conseguir encontrar nos incómodos da vida uma resposta que assenta na sublimação em arte e amor?

C: Não quer dizer que, às vezes, não aja por impulso. Mas acho que, de facto, as coisas mais dolorosas e difíceis digiro-as através da escrita e da minha música e, pelo menos, tento criar algo positivo a partir delas, desses incómodos. Por isso, acho que, no fundo, é uma espécie de terapia e acho que quando faço uma coisa bonita a partir de uma coisa triste, de certa forma, valeu a pena só por ter servido de matéria prima para a criação.

“Gaudí”, música que integra o último disco de Capicua – Madrepérola

AM: Então achas que é sempre possível, mesmo que seja uma situação dolorosa para nós, olhar para essa situação e conseguir ver beleza nela?

C: Se calhar, num primeiro momento, não. Mas se a transformamos em arte, nesse sentido, encontramos beleza numa situação, mas naquilo que conseguimos criar a partir dela. Mas há vezes em que a situação é mesmo dolorosa e não tem nada de positivo, mas depois conseguimos transformar essa experiência em matéria prima para a criação e, se calhar, nessa outra coisa encontramos beleza ou também no próprio processo de transformação. Nessa alquimia, não propriamente na experiência, mas na alquimia.

Podemos seguir caminho! Desta vez, vemos o número quatro espelhado no dado, introduzindo-nos à casa do Sê Criativo, que lança um desafio que o convidado tem de resolver de forma criativa.

 Sê Criativo: Muahahah, hora do desafio!

Por sorte, tinha no meu saco um livro muito especial que andava a ler: Cartas a Jovens Poetas, de Rainer Maria Rilke e Virginia Woolf, uma edição da Relógio D’Água. Passei-o à Capicua.

C: É igual à minha edição!

AM: É?

C: Igualzinha!

AM: Gostava que escolhesses uma parte da primeira carta escrita por Rilke e que a lesses.

A Capicua folheou o livro, olhando atentamente para o que lá encontrava inscrito de forma a escolher o excerto que queria ler. Página encontrada! Podes ouvir a leitura da Capicua no áudio em baixo.

Leitura de excerto da primeira carta de Rainer Maria Rilke, em Cartas a Jovens Poetas, de Rainer Maria Rilke e Virginia Woolf, uma edição da Relógio D’Água

AM: Muito obrigada por esta leitura! Já que leste esse excerto, aproveito para te perguntar: qual é a tua razão para criar?

C: Acho que tenho necessidade de me exprimir. É essa a questão. Escrevo para me cumprir. Tenho uma visão e quero que ela se concretize em música ou texto. É uma necessidade de expressão profunda.

AM: Sentes-te mais concretizada ao escrever e a música surge como consequência, ou é no ponto em que o que escreves está musicado que sentes essa concretização pessoal?

C: Normalmente, escrevo com uma base musical. Às vezes, escrevo crónicas, como por exemplo para a Visão, mas qualquer que seja o meio, o que me concretiza é a escrita. É o processo de criação. Claro que depois quando chego às pessoas também gosto que ouçam e de tocar ao vivo, mas o momento da escrita é o que me realiza. Sentir que era mesmo aquela palavra, que caiu no momento certo, aquela busca por concretizar a ideia que tenho. É esse processo de escrita que me concretiza e me motiva.

Num dia em que estávamos a exercer mais a tradição oral do que a escrita, damos continuidade ao jogo e avançamos uma casa, encontrando uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Há uns anos via um espetáculo do Filipe La Féria que muito me marcou. Ainda hoje guardo uma das deixas, tal o impacto que teve em mim: “Morta por dentro, mas de pé, de pé como as árvores!”. Era uma deixa dita por uma mulher. Em Madrepérola recordei-me uma vez mais deste momento quanto te ouvi enunciar “se caio, caio de pé”. Achas que este é um traço marcadamente feminino? Ou seja, existe uma força que historicamente vamos assumindo como necessária, porque se não cairmos de pé, já temos mil e um estereótipos incumbidos pelos contos de fadas?

C: Acho que o cair de pé é uma marca de resiliência, da resistência e acho que as pessoas que passam por desafios na vida, para sobreviver têm de cair de pé, ou então, cair e levantar-se a seguir. Não sei se é uma marca feminina, mas acho que é uma marca de resistência e, nesse sentido, as mulheres têm uma longa história de resistência.

AM: Achas que ainda hoje há um certo auto boicote permanente das mulheres, culturalmente?

C: Acho que é mais difícil manter uma autoestima sendo mulher nesta sociedade e isso acaba por criar um processo de permanente insegurança que, às vezes, nos leva ao auto boicote. Não acho que seja uma característica nossa. É quase como se a nossa cultura nos minasse permanentemente e nos levasse a uma espécie de insegurança que nos impede, ou trava, de fazer algumas coisas. Agora, acho que esse processo coletivo e individual de contrariar esse condicionamento e essa sabotagem e tornarmo-nos mais seguras de nós próprias, criarmos uma autoestima mais sólida, é uma coisa que até chega a ser subversiva, porque realmente é difícil manter uma autoestima numa cultura que permanentemente nos põe à prova e que nos diz que temos de ser três vezes mais competentes. Há a exigência de que, não só sejamos boas profissionais, como boas mães, ter sucesso em todas as esferas, da vida afetiva à profissional, que ainda tenhamos tempo para ir ao ginásio, que sejamos decorativas. Há um role de exigências que é muito mais extenso, pesado, do que para os homens. Nesse sentido, é para nós, por vezes, neste contexto, difícil sentirmo-nos seguras de nós e com a autoestima certa para mostrar o nosso trabalho e para desenvolver o nosso talento. Nesse sentido, é preciso resistir e superar.

Sensivelmente a meio do jogo, mantemo-nos resistentes e a Capicua volta a lançar o dado. Uma casa à frente, encontramos o número 22, em que nada acontece. Repetimos o gesto e vamos parar à casa Pessoal, em que as cartas fazem perguntas sobre a vida pessoal da artista.

Pessoal: O que mais repudias numa pessoa e o que mais gostas?

C: O que mais gosto é de espontaneidade. Pessoas que tentam ser o mais fiéis a si próprias e o mais livres possível. O que mais repudio são pessoas desonestas, no geral, pessoas tóxicas. Tento evitar o mais possível.

Dando espaço ao dado para ser livre, avançamos cinco casas e deparamo-nos com o número 28, em que, mais uma vez, nada acontece. Duas casas mais tarde, sou compensada com a paragem para uma Pergunta da Sorte. 

Pergunta da Sorte: Cantar. A ação que reside entre a primitiva necessidade e o altruísmo. Tendo essa dualidade como base, e olhando para os vícios da indústria musical, como te tens vindo a posicionar para melhor gerir todas as expetativas e tentativas de moldagem que se geram em torno do teu trabalho? 

C: Depende das alturas. Quando são mais fortes, estou-me a marimbar. Quando estou um bocadinho mais frágil, se calhar, fico um bocadinho triste com o embate mais desagradável do ofício. Mas é como resumi no “Passiflora”. Há coisas que têm que ver com a expetativa das pessoas que me seguem e isso é inevitável. As pessoas gostam do meu trabalho e acabam por criar uma expectativa e isso é bom, por um lado, mas pode ser pesado, por outro, se não nos soubermos libertar disso no momento da criação. Depois, há as questões dos media, da indústria, que são um bocadinho menos românticas, mas que são inevitáveis se quisermos trabalhar um bocadinho com isto. Por isso, em cada momento vou tentando contornar os obstáculos, superar as dificuldades, mantendo, o mais possível, o romantismo. Faço isto, porque me realiza e se começar a ver isto como o copo meio vazio, em que a parte chata e pesada do trabalho é maior do que aquilo que me faz feliz, que é escrever, se calhar, vou pôr tudo em questão. Portanto, tento que essas coisas menos boas não me minem o romantismo com que encaro a escrita, o rap, a música e acho que até agora tenho conseguido ver o copo meio cheio, mas, às vezes, tenho uma necessidade de desabafar, como é o caso da “Passiflora”.

“Passiflora”, com Camané

AM: É por isso que também demoras muitos meses até mostrares uma letra que escreveste? Para garantires que estás a fazer o que queres e não algo que te sentes condicionada a fazer?

C: É, porque assim estou menos vulnerável às opiniões alheias que também podem criar um certo questionamento. Se uma pessoa faz um comentário, depois posso ficar a pensar mais nesse comentário e desviar-me da minha visão, então, normalmente só mostro as músicas quando estão prontas, a não ser ao produtor que trabalha comigo, ou ao gajo do estúdio que me grava e aos meus músicos. Mas é mesmo muito raro mostrar a outras pessoas e gosto desse processo solitário, porque, lá está, faço isto para cumprir uma visão autoral e artística que é, às vezes, é muito difícil de explicar e que eu persigo tentando concretizá-la em letras, música, etc. E é uma visão minha, não a de outras pessoas, então para que ela não tenha essas infiltrações é bom eu estar distante durante o processo criativo.

Revisitamos o dado que nos leva a avançar duas casas. Vemos o número 32, em que nada acontece. Três casas à frente, encontramos poiso na casa da Carreira, em que as cartas revelam perguntas sobre a vida profissional da artista.

Carreira: O que menos gostas de fazer na tua profissão?

C: Ensaios de som e ser fotografada e filmada.

AM: Ui, OK! Vamos terminar dessa forma. (risos)

Fugindo ao sofrimento por antecipação, damos continuidade ao jogo. Uma casa à frente, tenho ainda tempo de ver respondida mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: “Ostra feliz não faz pérola”. É este o mote que nos lanças, numa frase de Rubem Alves. Que grão ou grãos de areia, neste momento, mais te incomodam?

C: O mundo, em geral, está cheio de grãos de areia. Depois, outras coisas mais existenciais, como a ideia da morte e da morte das pessoas que me são próximas, a passagem do tempo ser tão rápida. Vivemos num mundo tão desigual e injusto e com memória tão curta, com tanta intolerância, e agora também com tantos problemas ecológicos.

Tentando não nos deixar carregar em excesso por estas preocupações, neste momento, a Capicua dá corda ao dado, que nos mostra o número quatro. Siga mais uma pergunta Pessoal!

Pessoal: Qual é o teu talento escondido?

C: Enrolar cigarros. Não fumo, mas enrolo cigarros muito bem e rápido. Pergunta aos meus amigos! (risos)

AM: OK!

Com uma reposta que me apanhou desprevenida e ainda entregue ao riso, vejo a ficha do jogo avançar duas casas. Voltamos a falar de questões de Pessoais. 

Pessoal: Qual foi a última pessoa a quem disseste “obrigado” e porquê?

C: Acho que foi ao senhor do Uber, que me trouxe.

AM: Porque te trouxe.

C: Porque me trouxe e está a trabalhar.

Pergunta respondida, veremos se temos ainda tempo para mais uma. O dado exibe o número dois, que nos leva a mais um Sê Criativo. 

Sê Criativo: Pensa no teu maior defeito. Agora desenha-o e eu adivinho qual é.

Vou novamente ao meu saco, de onde tiro um conjunto de canetas e um papel, que entrego à Capicua. Não se demora a pôr mãos à obra. Enquanto vai esboçando alguns traços, dá-me a indicação de que “esta sou eu”. Descobre o desenho da Capicua, em baixo:

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Desenho do maior defeito, por Capicua

Chegou a altura de tentar adivinhar o defeito desenhado.

AM: Tens mil e uma coisas a acontecer na tua vida e na tua cabeça e isso acaba por te deixar deprimida?

C: É o cansaço e não me conseguir desligar. Sou workaholic e estou sempre preocupada com alguma coisa.

AM: Mas temos aqui um belo desenho! Acho que o próximo disco tem de ser ilustrado por ti! (risos)

De volta ao dado, vemos o número quatro, que nos faz chegar ao nosso destino – a Casa Gerador, a casa final do jogo, em que a entrevistada irá responder a uma pergunta do convidado anterior e deixar uma pergunta para o próximo. Ainda se lembram da pergunta do André Viamonte? “Se tivesses a possibilidade de reencontrar a tua criança dos cinco anos, o que lhe perguntarias?” Podes rever a pergunta do André, aqui. Vê o vídeo em baixo para saberes qual a resposta da Capicua e a pergunta que deixou para o próximo convidado da Pergunta da Sorte. Vemo-nos em breve, espero!

Entrevista por Andreia Monteiro
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