Pedro Luzindro, ator, humorista, guionista e músico, é formado pela Escola Superior de Teatro e Cinema, já tendo trabalhado com companhias como os Artistas Unidos, a Companhia do Chapitô, a Companhia Teatral do Chiado e a ESTE – Estação Teatral. Faz stand-up desde 2013 e tem uma rubrica semanal no Canal Q, no programa “Inferno”. Integrou o elenco do programa de humor da RTP – Donos Disto Tudo (DDT) – entre 2015 e 2018. Recentemente, fez parte da comédia de improviso “Primeira Vez”, um espetáculo do grupo de humoristas Jokebox do qual é cofundador.


Marcámos encontro, após a hora de almoço, à porta do Canal Q, ou não fosse o Pedro, dali a uma hora, gravar a sua rubrica.

Pedro Luzindro como repórter no programa Inferno no Canal Q, à beira de uma máquina do tempo para falar de violência doméstica ao longo da história

Ao chegar, vejo o Pedro de sorriso no rosto e tranquilo. Como a chuva parecia oferecer tréguas, fomos até ao jardim das Amoreiras, onde escolhemos um banco discreto onde nos pudéssemos sentar a jogar. Enquanto preparava o jogo, fomos falando dos nossos estudos e áreas em que gostamos de trabalhar, assim como possíveis nomes em comum com quem já nos tínhamos cruzado. Tabuleiro montado, expliquei as regras do jogo e, sem mais demoras, lá ingressámos nesta viagem da sorte. O dado rola, e avançamos seis casas. Começamos o jogo com uma Pergunta Rápida, onde temos cartas com perguntas de sim ou não que têm de ser respondidas sem pensar muito.

Pergunta Rápida: Primeiro o leite ou os cereais?

Pedro Luzindro (PL): Cereais.

Andreia Monteiro (AM): Muito bem. Por acaso, ponho primeiro o leite. Como não acho piada aos cereais moles, vou pondo aos poucos numa camadinha fina e assim consigo garantir que os cereais ficam sempre estaladiços.

PL: Fogo! Eu como. Estou-me a borrifar para como estão os cereais.

Com um sentido alimentar bem mais pragmático do que o meu, voltamos a lançar o dado. Seis casas à frente, temos uma pergunta de Carreira, em que as cartas revelam perguntas sobre a vida profissional do artista.

Carreira: O que gostavas de fazer que ainda não tiveste oportunidade de concretizar?

PL: Como ator?

AM: Como quiseres. Fazes muitas coisas, por isso percebo a tua pergunta. Mas escolhe.

PL: Como ator gostava de fazer cinema ou uma novela, não pelos meios em si, mas porque são trabalhos de profundidade. Em audiovisuais, gostava de fazer coisas que fossem a longo prazo, com uma personagem que se prolongasse. Até agora, tenho feito coisas muito rápidas. Em novelas, fiz participações muito especiais e, no Donos Disto Tudo (DDT), eram sketches. Era tudo preparado agora para fazer amanhã e acabou. Não podia fazer uma coisa mais…

AM: Mais contínua.

PL: Sim.

Continuando jogo fora, o dado pede-nos que avancemos quatro casas. Temos uma Pergunta da Sorte, em que posso fazer a pergunta que escolher na altura.

Pergunta da Sorte: Muitas vezes, as pessoas esperam que um humorista esteja sempre bem-disposto, ou a dizer piadas. Sentes que passas metade do teu tempo a tentar encontrar formas de fazer as pessoas rir e outra metade a tentares que te levem a sério?

PL: Levo a vida, no geral, de uma forma séria. Não no sentido sério pesado, mas no sentido sério de ser aquele gajo que gosta de cumprir regras, porque estamos em sociedade, gosto de me melhorar todos os dias. Não estou propriamente à espera de que os outros me levem a sério, ou não. Levo-me a sério, no sentido em que me quero melhorar todos os dias, mas não me levo a sério enquanto pessoa. Não acho que seja um gajo espetacular ou não sei o quê. Sou uma pessoa normal e gosto de me aperfeiçoar diariamente. A cena de fazer os outros rir é quase um instinto pavloviano, sabes? Estou num palco com um microfone, e a minha função não é cortar as unhas às pessoas, nem penteá-las. Não é um cabeleireiro. É stand-up, ou improviso, ou um espetáculo de teatro de comédia. A minha função é fazê-las rir, por isso, aí sim, entro em modo de “bora lá encontrar piadas físicas, verbais, ou de situação”. Aí, sou tenaz. Se for preciso, penduro-me num teto nu, se isso implicar que as pessoas se vão rir. Como humorista, não me levo a sério. Sei que há humoristas que seguem uma linha. Eu tento seguir a minha linha. Se sair uma coisa mais negra, sai uma coisa mais negra, se sai mais física é mais física, se sai uma coisa nonsense é nonsense. Há várias linguagens possíveis, e a minha personalidade é a de tentar encontrar a maior quantidade de linguagens possível. Tenho vários interesses, alguns dos quais não batem a bota com a perdigota. Desde música, a fórmula 1, a astrofísica, a história. Aliás, a rubrica que faço aqui no Canal Q é uma brincadeira com história, porque sigo muitos canais de YouTube de história. A minha lógica é a da ciência. Venho das ciências. Então, olho para os factos, tento analisá-los, vejo o que é mais plausível e ando para a frente. É uma resposta muito complicada para uma pergunta tão simples. (risos)

É quando o Pedro volta a lançar o dado que concluímos que não há respostas simples para nada. Entre conversa, andamos mais duas casas e vamos parar ao número dezoito, onde nada acontece. Voltamos a dar corda ao dado e, seis casas à frente, temos um Sê Criativo, que lança um desafio que o convidado tem de resolver de forma criativa.

Sê Criativo: Pensa no teu maior defeito. Agora desenha-o, e eu adivinho qual é.

PL: Sou péssimo.

AM: Portanto, o desenho não é uma das mil e uma coisas que fazes?

PL: Não, não. Sou, possivelmente, o pior desenhador que já existiu.

AM: Toda a gente me diz isso e depois nunca é bem assim. (risos)

PL: Vais ver!

Vamos ver então! Os próximos minutos são ocupados pela cumplicidade do Pedro com uma caneta azul, que usa para desenhar o seu maior defeito. Começa por desenhar um rapaz com óculos, depois um coração e o número 140.

 Desenho do maior defeito por Pedro Luzindro

AM: 140? Esta é difícil! Os sentimentos atacam-te rapidamente? És uma pessoa que te apaixonas profundamente pelas coisas?

Para dar uma ajuda extra, o Pedro regressa ao desenho e acrescenta uma linha.

AM: Isso é uma linha do batimento cardíaco. És uma pessoa nervosa!

PL: Sim.

AM: Ah, OK! 140 era o ritmo do batimento cardíaco. Faz sentido!

PL: Sou ansioso. Não acredito em defeitos. Uma característica tanto pode ser um defeito como uma vantagem. Para algumas coisas, é muito vantajoso, mas no quotidiano prejudica-me. A ansiedade tem, normalmente, dois tipos de resposta: uma resposta prematura, ou a incapacidade de responder porque ficas bloqueado pela ansiedade. Tenho um bocadinho esta dualidade. Para fora não passa. As pessoas dizem sempre que pareço muito seguro, mas não. Aqui dentro está um ratinho a andar.

AM: Como lidas com isso antes de um espetáculo de stand-up?

PL: Estou na merda. Dois minutos antes de entrar, estou a pensar no que estou a fazer, ou não estou a fazer. Depois, subo, e é aquele tempo entre chamarem-me e entrar que, normalmente, acalma. Como já tenho alguma experiência acumulada e sei que há coisas que funcionam, deixo-me levar por isso e aproveito a ansiedade como ferramenta cénica. Ou seja, tenho um output energético grande e aproveito isso. Não comparando, porque não se pode comparar os talentos, mas estás a ver o stand-up do Robin Williams? É aquela coisa quase esquizofrénica de personagens e de coisas a acontecer. É um bocado isso. O output é muito elevado e vem da ansiedade. Por isso é que gostava de desenvolver trabalho em filme. À medida que vais desenvolvendo o trabalho de uma personagem, vais perdendo a ansiedade e vais-te focando naquilo. Em vez de ser – tens de fazer isto agora! Já fiz, já fiz! Aí não. São dois, três meses, ou um ano em que vais conviver com a personagem e vais encontrando nuances.

Chegada a hora de lançar o dado, avançamos em direção à casa Carreira, duas casas à frente.

Carreira: Qual foi o teu primeiro trabalho?

PL: O meu trabalho foi como monitor numa colónia de férias. Os serviços prisionais tinham uns serviços sociais. Tinha uns dezoito anos, e eu que nunca tinha feito escuteiros nem colónias de férias, fui tomar conta de putos. Eu próprio era um puto com dezoito anos. Foi a minha primeira experiência de responsabilidade fora a escola. Foi é de curta duração. O meu primeiro trabalho a sério foi em call center. Era um call center fixe, na extinta Marconi. Fazia chamadas para fora do país e estive lá quatro anos. Foi um sítio do caraças. Aliás, foi aí que comecei a fazer teatro, porque aquilo tinha um grupo desportivo que tinha teatro, música etnográfica, uma banda e às tantas dei por mim a fazer isso tudo.

AM: Então não sabias que tinhas essa inclinação antes disso?

PL: Não, não sabia o que queria fazer. Com dezoito/dezanove anos, foi a altura em que ia entrar na faculdade e era difícil entrar. As notas tinham de ser elevadíssimas, e eu era superdisperso. Queria ciências, mas tinha descoberto que também gostava de literatura. Pensei ir para jornalismo, mas também não era bem aquilo. Foi graças ao meu primeiro trabalho a sério que encontrei o trabalho que tenho agora. Mas não tem nada uma coisa que ver com a outra.

Sensivelmente a meio do nosso jogo, o Pedro volta a dar voz ao dado, que nos mostra o número quatro. Temos direito a ver respondida uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: “Fazer stand-up para uma instituição católica, não ofender ninguém, e ainda levar um ‘gostei muito’ do padre. Check!” Ora, fala-me lá desta tua experiência.

PL: Colaboro com a Santa Casa da Amadora já há uns anos. Já lá fiz sketches, stand-up. É um desafio muito engraçado. Se vou para um bar, o texto e a linguagem são mais pesadas. De repente, estou ali a fazer um texto com temas católicos, às vezes, e pô-los a rir é muito engraçado. Demonstra que, muitas vezes, a ideia que temos das instituições que não têm sentido de humor não é verdade. Têm. Uma das pessoas responsáveis pela Santa Casa é um tipo que me faz rir às lágrimas e é católico, daqueles que faz peregrinação para Fátima. Ele é hilariante. Muitas vezes, temos uma tendência para engavetar as pessoas nas suas instituições, ou a algo que pertencem, e depois descobres que não é bem assim. Sou um agnóstico assumidíssimo. Não sou ateu. O agnóstico implica o não reconhecimento e o ateísmo é o estar contra. Eu não estou contra. Acho que cada um pode acreditar no que quiser, desde que o faça feliz. Já fiz musicais católicos e uma série de coisas e encontras pessoas nesse ambiente com um sentido de humor fantástico e com uma abertura que, muitas vezes, os humoristas não têm. Os preconceitos muitas vezes são nossos inimigos. Sei que é necessário. O preconceito é um elemento, é uma necessidade que temos. É uma ferramenta que temos para lidar com o mundo. Se formos analisar todos os detalhes do que está à nossa volta, é demasiado complexo. Por isso é que temos preconceitos, engavetamos as coisas e o humor faz isso. Falo por mim, eu brinco com estereótipos. Se estou a fazer piadas sociais, jogo com os estereótipos, mas depois eu pessoalmente não acredito nisso. Vou aos pormenores. Aliás, se há coisa que a física me ensinou é que os pormenores são infinitamente mais complexos do que qualquer história que nos tentem inventar. O meu misticismo vem um bocadinho daí. A partir do momento em que começas a estudar o universo, percebes que é muito mais complexo e interessante do que a ideia de Deus. Deus é uma ínfima parte.

AM: Deixa-me pegar numa coisa que disseste. Nem sempre aquilo que um comediante diz em palco, num texto nas redes sociais ou num sketch é escrito por ele, mas sim uma interpretação de um guião que outro escreveu, e quando o texto é do próprio comediante nem sempre revela a sua opinião, não é?

PL: É um mecanismo para fazer rir, não para fazer pensar. A função do comediante é fazer rir. Claro que podemos levantar questões através do riso, e acho que isso deve ser feito, mas a função primeira é a de fazer rir. Há quem tente chocar através do riso, quem tente provocar o pensamento através do riso, e muitas vezes o que eu digo não é uma opinião. É uma observação. É dizer, olha nós estamos para aqui a tentar ser todos ecológicos, mas ainda estamos todos na base. É como foi aquela coisa da greve dos combustíveis. Os combustíveis fósseis não, mas de repente foi tudo encher-se de gasóleo até às orelhas. Não o fiz, mas se escrevesse um texto sobre isso punha na minha pessoa. Por isso, muitas vezes digo coisas que aconteceram a outros, mas meto-as em mim. Porque…

AM: É mais forte se for assim.

PL: É muito mais forte, claro que sim.

Bem lançados, avançamos mais seis casas. Parece que o dado nos pediu um bis – avistamos uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: És humorista, ator, fazes direção de atores, já chegaste a encenar espetáculos, fazes stand-up comedy, por vezes também és músico. A gestão da tua presença em todas estas áreas é mais difícil de fazer a nível pessoal ou aos olhos do público?

PL: Não giro isso lá muito bem. Tenho uma gestão de carreira muito fraca, porque acho que sou demasiado disperso. Tenho demasiados interesses. Acredito nisto desde miúdo, na lógica renascentista, sabes? O homem renascentista que pode reunir em si várias disciplinas. O que acontece é que, hoje em dia, as disciplinas estão tão aprofundadas que, se eu quiser aprofundar uma delas, tenho de me dedicar exclusivamente a ela. Infelizmente só tenho uma vida, então acabo por aflorar várias coisas. Tento dedicar a maior parte do tempo em que estou acordado a aprender coisas, o que acaba por ser muito complicado na parte da gestão da vida pessoal, porque apercebo-me de que a maior parte das pessoas não tem esta lógica ao longo da vida. Estou com quarenta e dois anos e continuo com o mesmo grau de curiosidade como se tivesse vinte anos, porque, se calhar, também foi tarde que descobri essa minha capacidade. Venho de uma situação familiar muito complexa e difícil, mas acho que isso também me moldou, porque era obrigado a ser pessoas diferentes desde muito miúdo. Tinha territórios domésticos diferentes, porque tinha uma família que se separou. Num sítio era o Deus na Terra, noutro sítio era o gordo inútil, e noutro sítio era a má memória dum casamento. Depois, na escola era outra coisa, para os meus amigos era outra. Como adulto continuo a ser essa pessoa. Sou o comediante esquizofrénico e doido quando estou a fazer stand-up, sou o improvisador verborreico quando estou a improvisar, sou o ator pontual e metódico quando trabalho como ator, sou o guionista preguiçoso quando escrevo, sou o músico frustrado quando tento ser músico. Em mim, coabitam essas coisas todas. É isto, sabes?

AM: És o que és. Parece que é fragmentado, mas se não tivesses esses fragmentos todos ativos, se calhar, não eras tu.

PL: Sim, acho que é isso. Se calhar, ativei os meus fragmentos, mais do que tentar ser só uma identidade. A minha identidade vem de eu ser várias coisas, em várias situações, porque também é isso que me faz feliz. Se tivesse sido rico, possivelmente era piloto, porque é uma paixão doida que tenho por automóveis. Vivemos numa era fantástica em que a informação está acessível e posso perceber imenso de Fórmula 1 e rali, desenvolvimento de automóvel e motas e tudo o que anda para a frente. Ao mesmo tempo, gostava de ser um gajo da astrofísica. Quando falo nessas coisas, as pessoas ficam espantadas por eu ter informação. Sim, tenho informação, porque sou doido por isso! Estou sempre à procura de saber mais. Andamos sempre tão ocupados com o quotidiano que nunca exploramos os nossos limites, sejam físicos, psicológicos ou humanos. Entrei em contacto com tanta gente ao longo da minha vida que me mostrou que podes ser muito mais do que simplesmente uma pecinha. Acabo por querer descobrir as coisas. Há valências que vais buscar numa área que depois se aplicam nas outras todas. A coisa de desenvolver o cérebro, como improvisador, é fulcral. O resto são capacidades físicas, porque se tens informação na cabeça é só desbloqueá-la. Como comediante e guionista também tenho de estar à vontade numa série de temas, como ator também. Anda, mais ou menos, tudo à volta do mesmo. Bom?

AM: Muito bom!

Volta a ser a vez do dado se expressar. Três casas à frente, temos uma Pergunta Rápida.

Pergunta Rápida: Hoje ou amanhã?

PL: Hoje. Amanhã não sei se estou cá.

AM: Pois, era o que te ia dizer.

PL: Amanhã, não sei se apetece.

Mas, por hoje, estamos repletos de vontade de continuar a jogar. Quatro casas à frente, vamos parar ao número 43, onde nada acontece. Voltamos a tentar a nossa sorte e, depois de percorrermos cinco casas, vamos parar a uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Fala-me do livro Breve História do Tempo, de Stephen Hawking, e da forma como te despertou uma curiosidade mórbida acerca do desconhecido.

PL: Li a Breve História do Tempo com dezassete/dezoito anos e não percebi ponta de um corno. Recomecei a lê-lo há pouco tempo, mas nesta era digital tenho muita dificuldade em ler. Tenho uma relação bipolar com o sofá: ou durmo nele, ou passo por ele. Quando estou sentado no sofá, estou a fazer escalas, ou a fazer alongamentos. Agora estou num trabalho em que tenho de dançar, e tenho dois pés esquerdos, então tenho de estar mesmo bem fisicamente para conseguir fazer aquilo. A Breve História do Tempo surgiu na altura em que também li o Cosmos, estava a ler Carl Sagan e esbarrei na ciência. A minha relação com a ciência foi frustrante, porque era péssimo em matemática, porque matemática implica estudar. Era demasiado disperso e física, matemática e química implicam estudar e não tinha a capacidade de marrar. Era um aluno bom, ou muito bom, a todas as disciplinas, menos a físico-química e matemática. Era um badocha de óculos, mas cheguei a ser bom aluno a educação física, dum ano para o outro. Era um ótimo aluno a inglês, a português, porque eram coisas de comunicação a que a minha personalidade dispersa se ajustava. Quanto à físico-química e matemática, criei uma relação de ódio com essas ciências. Mas depois, graças à Breve História do Tempo e ao Carl Sagan, comecei outra vez a desenvolver um interesse pela ciência. Se pensarmos historicamente, o ser humano faz perguntas. É a nossa cena: nós adaptamo-nos e fazemos perguntas, que é o que permite a evolução, dominarmos um planeta, apesar de ser duma forma que está a correr mal. Para responder a essas perguntas, inicialmente encontrámos a religião, passámos para a filosofia e agora estamos na ciência, que é uma evolução da forma de fazer perguntas e encontrar respostas. A única diferença é que a ciência, em vez de encontrar respostas, encontra mais perguntas. As perguntas é que vão sendo cada vez mais interessantes e complexas. A Breve História do Tempo, de repente, dentro de uma linguagem que era acessível começou a despertar o meu interesse por questões como os buracos negros, que agora finalmente tivemos a prova que existem e que são exatamente como a matemática previa. Até há três semanas, todas as imagens que tínhamos de buracos negros eram ideias feitas por artistas gráficos. De repente, há uma fotografia.

Entusiasmado, o Pedro lança o dado que salta do banco de jardim. Mas sem batotas, espreitamos para ver o número escolhido pelo dado: dois. Temos mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Na tua página de Facebook referiste-te ao DDT como sendo um dos projetos mais felizes da tua vida. De que foi feita essa felicidade?

Pedro Luzindro no Donos Disto Tudo na RTP

PL: Primeiro, duma equipa muito boa. Não só atores, mas também os técnicos. Poder trabalhar com uma equipa de caracterização que deve ser do melhor que há cá, trabalhar com guionistas muito bons, ver como é que atores de comédia funcionam de perto. Sempre fui um gajo que esteve a brincar na segunda liga e, de repente, metem-me na champions league a jogar à bola com a malta que está estabelecidíssima no mercado. Foi uma oportunidade para poder ver ao vivo e a cores como é que eles fazem, como trabalham, entrar em contacto com a ética profissional, eu próprio perceber onde estava a nível de ética, de capacidade de trabalhar, de criar rapidamente coisas. Foi feliz nesse aspeto. Pôs-me em contacto com um público que não me conhecia e, de repente, começou a conhecer-me. Ao mesmo tempo, não me prejudicou pessoalmente. Muitas vezes, quando uma pessoa é posta numa posição sem estar preparada para ela, deixa-se afetar. Tanto é importante a ascensão como a queda. O programa acabou e eu voltei à minha vida. Obviamente que me afetou, mas não tanto quanto pensava. A minha vida continua. Fiz parte dum projeto muito bom, um projeto com história que deixou legado e tive a sorte de fazer parte dele. Foi uma dádiva. Apesar de não acreditar em Deus, acredito em pequenos deuses, que são aqueles que nos vão ajudando. Mais do que isso, acho que foi uma prova de meritocracia pura, porque já tinham tido os convidados, já toda a gente tinha por lá passado, até que chamaram um gajo que queriam e que não fosse a RTP, ou as audiências a querer. Vamos chamar um gajo que ninguém conhece, mas que queremos porque já trabalhámos com ele e gostámos muito. De repente, sou convidado e fico no elenco. Foi mesmo aquela coisa.

AM: Correu bem!

PL: Sim!

Cada vez mais perto da reta final, averiguamos se o dado nos reserva alguma gentileza. Ao parar de girar, mostra o número dois, o que nos dá oportunidade de conhecer a casa Pessoal, onde as cartas fazem perguntas sobre a vida pessoal do artista.

Pessoal: Quem é o teu maior ídolo?

PL: Em que área?

AM: Na que quiseres. Se for mais fácil dividires por áreas, estás à vontade.

PL: Acho que não tenho. Tenho gajos que admiro muito, mas não consigo pensar numa pessoa especificamente. Se calhar, na minha infância era o meu avô. É um tipo com uma história de vida superinteressante e era um gajo fora do normal eticamente, como homem de família, profissionalmente, tinha um ótimo sentido de humor, era boa pessoa, veio do nada e, quando tinha a minha idade, era sócio de uma fábrica. É um gajo que fez muito pela vida dele e pelas pessoas que estavam à sua volta, tomou conta de basicamente toda a gente até morrer. Depois, à medida que a vida foi avançando, deixei de ter ídolos porque têm uma tendência para te desiludir, sabes? A idolatria é perigosa. É bom ter objetivos, mas é fixe não ter ídolos. É fixe partilhar os objetivos dos ídolos, mas não mais do que isso, porque são humanos e vão desiludir-nos, quer queiramos, quer não. Há homens e mulheres para quem olho e penso que têm vidas superinteressantes e conseguiram fazer coisas incríveis. Acho que não tenho ídolos. Sei porque não os tenho, mas, de facto, não tenho. Tenho amigos que idolatro no sentido de gostar de ser assim. Se calhar é isso. Venho de vários grupos de amigos que são over achievers dentro das suas áreas. Então, se calhar, são esses os meus ídolos. Os gajos que são os meus pares, que são muito bons no que fazem, fazem várias coisas e são bons nas várias coisas que fazem. Esta coisa de dizerem que és uma pessoa que faz várias coisas, eh, pá…

AM: Todos fazemos.

PL: Todos fazemos. Do meu núcleo de pessoas próximas, tenho um gajo que é um dentista XPTO, ao mesmo tempo que é triatleta. Tenho outro que é produtor teatral, iluminador e é membro de duas bandas e farta-se de tocar. Tenho outro que é um superenfermeiro, ao mesmo tempo que é mega-homem de família e faz mecânica. Tenho outro que é engenheiro informático e faz improviso e stand-up, e instala sistemas do raio que o parta. Conheço gajos que fazem tudo e que fazem tudo bem. Filhos da mãe! (risos) Sacaninhas.

Ainda com esperança de vermos respondida mais uma pergunta, o Pedro volta a lançar o dado, que revela o número dois. Chegamos à Casa Gerador, a casa final do jogo, onde o entrevistado irá responder a uma pergunta do convidado anterior e deixar uma pergunta para o próximo. Ainda se lembram da pergunta do Pedro Segundo: “Vinho branco ou vinho tinto?” Podes rever a pergunta do Pedro aqui. Vê o vídeo em baixo para saberes qual a resposta do Pedro Luzindro e a pergunta que deixou para o próximo convidado da Pergunta da Sorte. Vemo-nos em breve!

Entrevista por Andreia Monteiro

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