“Posso te tirar um oráculo para o dia?” foi uma das primeiras frases ditas por Piny, ou/e Anaísa Lopes – antes para os meios mais formais da arquitetura e hoje para a família e velhos amigos. Piny, que vem de “Piny Pon”, a alcunha dada pelo irmão devido à altura e ao facto de vestir muitas cores, passou a ser o seu nome de identificação. Nasceu em Lisboa e viveu na Póvoa de Santo Adrião, em Odivelas, até aos 20 anos. É filha de pais angolanos – mãe negra e pai branco –, o que considera um traço grande da sua personalidade porque a ajudou a compreender mais sobre si.

“Percebo que sou mesmo aquela filha da colonização pura. O avô e o pai branco que vão trabalhar para Angola e têm filhos com mulheres negras. Um grande clássico. Às vezes falo sobre isso porque acho que na maior parte das pessoas que são miscigenadas, acaba por ser o pai que é branco e a mãe que é negra. Acho que é mais comum que o oposto, pelo menos na minha geração” – partilha Piny.

Em 2006, estudou Arquitetura durante sete anos até entrar para a ordem, tirou um curso de Design na então inaugurada Restart, exerceu Arquitetura durante quatro anos, até que decidiu não ser tão influenciada pela mãe.

Dançava Break nas estações do metro de Lisboa com as amigas – Léo e Lúcia Afonso, com quem construiu, para além de uma grande amizade, o grupo ButterflySoulFlow e mais tarde o coletivo Orchidaceae – , que realizou o evento “My Own Style Jam” considerado “das coisas mais mágicas” que já fez em conjunto com Lúcia Afonso e o Dougie Knight, que reúne bailarinos freestylers que são desafiados e estimulados com jogos e desafios, com a participação da Leo Soulflow como DJ e do Winga Kan com voz e percussão ao vivo. Desde 2005 que se cruzam Krump, Bboying/Bgirling, Hip Hop, Locking, Popping, Vogue, Sapateado, Dança Oriental, Bharata Natyam, Odissi, Twerk, Dancehall, Fusion Bellydance, Bhangra, Bollywood, com bailarinos de mais de 20 países diferentes.

Com 29 anos vistos “como um sítio de início”, a curiosidade que diz ser muito característica do signo gémeos, a busca pelo saber e porque teve um desgosto de amor, foi para a Escola Superior de Dança.

Bailarina, professora, intérprete, Piny dança Hip Hop, Breakdance, House Dance, Waacking, Vogue, Capoeira e muito mais do que parece estar desconectado com a sua profissão atual, mas que se relaciona de alguma forma. O tarô, a sexualidade, o berimbau a espiritualidade e a astrologia.

“Acho que o meu percurso acaba por ser um bocadinho em linha reta, mas às curvas. Há pessoas que têm um objetivo claro de onde querem chegar e eu nunca tive isso. Sempre fui mesmo “Enjoy the ride”. Eu vou consoante as coisas que me entusiasmam e estou no meio delas. Estou só mesmo a aproveitar muito aquilo que está a acontecer e acho que sempre fui assim em tudo”

Com muitas viagens por um mundo sem fronteiras, divagações, pesquisas, fusões orientais e africanas, e questionamentos, Piny permanece no amor e voa como o vento na necessidade de ir, conhecer pessoas e culturas, receber, dar e dançar. Foi por aí que a nossa conversa se guiou – arrastando-se no tempo.

Gerador (G.) Sobre a necessidade de conhecer mais, o que tens aprendido?

Piny (P.) – Acho que o meu trabalho se divide em três campos: o trabalho de intérprete, o trabalho de criação e o trabalho de ensino.  A pesquisa toma-me muito tempo. Trabalho muito sobre a dança, mas eu diria que é mais sobre a cultura, as pessoas e os costumes, mas que vai a um sítio prévio do que é a produção de dança, porque acho que acabo por conectar tudo. Sou muito ligada à natureza e ao estado prévio à civilização – o que é o humano como um ser animal e onde nos perdemos. Quando eu falo, parece que é quase sempre só sobre dança e depois, quando acabo de falar, penso que não é nada só sobre dança, é sobre tudo. Tento não desligar o humano da energia universal e entender o que é este corpo também espiritual, que não cessa de existir. Dentro da instituição, trabalho como intérprete, fora da instituição trabalho muito como criadora e pesquisadora.

Tento estudar muito sobre uma grande paixão minha que é a cultura, as culturas do mundo, as pessoas, a dança, mas sempre a partir de um sítio de “porque é que esta manifestação do corpo existe, porque é que tudo se cruza”, sem limite geográfico. Sempre tive esta coisa de querer saber de onde é que as coisas vêm, como é que as coisas são. Tenho estado super focada no Médio Oriente e no norte de África e pesquisar, e entender, porque é que tantas referências de movimento que se encontram no norte de África, no Mediterrâneo, na Bacia do Mediterrâneo e na Ibéria são similares. Como é que o Império Árabe se construiu – porque é posterior ao que foi o Império Romano, e como essa colonização acabou por acontecer – ligada à religião e depois à questão de gênero, ao patriarcado e como é que isso muda e/ou proíbe a dança. Como isso se transforma, e como é que o Ocidente, atualmente, consegue – porque nós temos essa permissão – dançar e pegar nessas culturas que agora não têm essa permissão de o fazer. Depois, as questões da apropriação cultural.

G. Como lidas com a apropriação cultural?

P. – Esta história toda da apropriação cultural, como artista, assusta-me muito, porque a liberdade que se tinha antes de pensar era tremenda. É um bocadinho perverso porque, de repente, tem-se acesso a tudo sendo Europeu, e eu tenho sempre muito presente esta questão do que é viver neste sítio que geograficamente é tão pequeno – e nós sabemos que o planisfério que usamos na escola está errado. A primeira vez que vi um mapa real e vi o tamanho de África comparado com a Europa, fiquei chocada, porque nem sequer sabia que as proporções tinham sido alteradas. Esta situação toda, em que tudo está disponível, também cria a falsa sensação de que tu sabes as coisas, porque é tudo tão superficial. Chamamos isto de “fusões artísticas da Wikipédia”, que é esta coisa de, em cinco minutos, ir-se à Wikipédia e lê-se muito rápido o que é.

Durante muitos anos, esta questão da apropriação não era uma questão, então havia uma inocência muito grande de quem fazia por prazer. Grande parte do meu percurso a estudar estas danças todas foi essa consciência. Perdida sinto-me sempre, mas se antes havia algum desconforto a estar perdida, neste momento, tenho alguma tranquilidade nisso, porque acho que já atingi qualquer coisa que me permite ter calma na continuidade desta pesquisa; porque nunca vai ter fim. Se não tem fim, eu tenho de fazer dela um caminho, não um objetivo. Como lido com a questão de não apropriar? Eu estudo muito e acabo por entender muito sobre o que é isto de pertencer. O meu sítio de dançar vem de um sítio de muita verdade e eu não aprendi as danças no estúdio, aprendi ou na rua, ou dentro da cena clubbing, porque desde muito cedo trabalhei e comecei a ir a Nova Iorque para entender o que é isto. O que é isto do Breakdance anos 80? Depois descobri o Vogue, o Waacking e o House. Eu cresci sem saber o que era uma comunidade queer e é engraçado como há muito pouco tempo, as definições de tudo mudaram muito. Agora existe uma comunidade que te abraça e protege.

Esta construção de comunidade fora do território tem que ver com isso, porque este acesso a tudo faz com que a comunidade não se construa no tempo, nem numa base de entreajuda ou de crescimento conjunto, mas constrói-se à distância. São as pessoas que me apoiam, que estão comigo e partilham os mesmos valores. Posso dizer que faço parte da comunidade LGBT, da comunidade Hip-Hop, ou faço parte da comunidade da dança contemporânea, da comunidade do tarô.  Tudo se banalizou muito e se calhar nem conheço as pessoas que fazem parte da minha comunidade, porque ela já não está no território. Há uma ilusão muito grande no ar. Há uma falsidade na criação de estruturas humanas tremenda. As pessoas vivem através de sistemas quase numa coisa pós-humana, onde criam estas entidades / avatares como temos no Instagram – numa plataforma que não é real, e o teu corpo físico desmultiplica-se por várias identidades, então tu desconectas do corpo, porque ele já não é necessário para existires. Isso é muito assustador para mim.

G. Pesquisar sobre apropriação cultural ajudou-te a compreender a tua identidade enquanto pessoa miscigenada?

P. – Sempre estive mais fascinada pelo meu lado materno do que pelo meu lado paterno. Primeiro porque nasci em Portugal, então o meu lado materno – das mulheres negras da minha família –, sempre foi um imaginário que tem outros problemas. A minha mãe, avó e bisavó vieram para Portugal para zonas periféricas numa tentativa de integração muito grande,  então eu não fui educada dentro de uma cultura africana. Eu fui ensinada a pertencer, a não sobressair. Acho que só me apercebi que era misturada quando as pessoas se começaram a dirigir a mim. A primeira vez chamaram-me de cabrita, “a Anaisa é cabrita” e eu fiquei “cabrita, o que é isso?”. Nunca me tinham chamado isso e eu nunca tinha ouvido esse termo. Foi um rapaz branco que tinha nascido em Angola e que me disse “cabrita é como nós chamamos aos filhos dos mulatos com os brancos”, e eu de repente senti-me no mercado, e pensei “há um nome?”. Já mulata é péssimo e ainda há um nome, então começaram-se a abrir ramificações. Eu não acredito nas fronteiras, por isso não acredito nos países, nem acredito nas bandeiras. Gosto de ler o território como território. Toda a construção do território é-nos contada de uma forma errada, porque as migrações que temos, muitas vezes, vieram das migrações ciganas da Índia – que se alojaram muito em Espanha – e das migrações do Egipto – que vêm do norte de África e que ocupam a Ibéria. Em Portugal, temos muitas tradições, mais ao sul, desta ligação com o norte de África – nos cantares, nos instrumentos… nós tínhamos danças de transe de mulheres, das quais ficou o adufe, que foram proibidas. Muitas mulheres em Portugal foram queimadas na inquisição como bruxas e as nossas tradições de transe foram incorporadas e sistematizadas no Estado Novo, através do folclore. Nós também fomos colonizados, o território da Ibéria também foi colonizado, e nós perdemos as nossas tradições. E estas são as questões que me ocupam.

Este ano está a ser violento para toda a gente e, para mim, foi um ano de aproximação a outras mulheres negras. Foi até um bocado violento para mim, de me questionar muito se este era o meu lugar. Violento ao ponto de estar nesse meio, e às vezes ter vontade de chorar só de pensar.

Eu não gosto de me definir, eu só sou. Carrego com muito orgulho e amor esta coisa da identidade mista. No meio desta loucura toda, decidi fazer um teste de ADN e foi incrível porque, de repente, vem 0 de Angola; vem do Quénia e do Norte de África. É muito engraçado pensarmos de onde somos realmente, que migrações foram feitas, e acho que a minha maior fragilidade é que os meus pais foram arrancados do seu território. Não tenho casa de família, não conheço sequer os meus avós. A minha família são os meus pais. A minha família era de Luanda e de Ndalatando e não ficou um espaço físico no território, então é como se tu tivesses nascido agora. Mesmo as pessoas que são miscigenadas e que dizem que vão ter com a família a Cabo-verde, Angola e vão estar com os primos e tios, acho que aí é que está a minha dor, porque eu não vou ter com ninguém; eu não tenho primos, não tenho avós… a minha família é o meu pai e a minha mãe. Isso é o quão atrás eu consigo ir, ponto. Isto tem que ver com as raízes e com o sentimento de pertença, e é violento. Eu não tenho essa sensação de pertença de sítio nenhum, esse sítio do desintegrado é muito forte. Tu pertences a ti e vais criando grupos. Eu sinto-me pertencente em movimento, quando estou em descoberta. Acho que crio esta sensação de pertença, comunidade e família nas pessoas. O meu chão, mais do que ser um espaço físico, é um espaço emocional, então eu preservo muito as minhas relações e isso permite-me andar em movimento.

G. Qual é a influência da Arquitetura na tua dança?

P. – Na realidade, eu adoro pensar o espaço urbano e acho que isso influencia muito o corpo – como é que o corpo vive no espaço. Na altura, adorava fazer cromoterapia e os meus projetos eram todos sobre como é que o espaço influencia a tua energia. O que é um espaço apertado, alto, curvo, reto e o que são os ângulos retos para a tua energia, por exemplo. Os meus trabalhos na faculdade eram muito conceptuais. A minha tese chamava-se “Tipologias Habitacionais no Alto da Cova da Moura”, e estive um ano na Cova da Moura a pesquisar como é que cada família, consoante o seu país de origem, constrói a sua habitação – visto que é um bairro auto-construído, segundo a cultura de cada um e as suas necessidades familiares. Eu queria estudar bairros sociais, a auto-construção. Continuam a ser coisas que eu adoro atualmente, e que estou sempre a ler sobre e a estudar, porque acho que o espaço onde habitas também é o teu corpo. Sendo o teu corpo a tua primeira casa, a tua casa é uma segunda pele, e a cidade vai-se expandindo nesse sentido. A forma como constróis e onde habitas influencia muito o teu estado de espírito.

Em primeiro lugar, influencia o interesse pelas danças que se criam na cidade, o que é que se cria no espaço urbano. Acho que essa coisa de treinar na rua, e das danças que se criam na rua, começou um bocadinho por esse interesse, tanto como o graffiti. Fiz graffiti durante dois anos, e a cena do graffiti é a mesma coisa – que manifestações artísticas são potenciadas por um espaço urbano que pode ser inspirador, mas também opressor. A cena do Breakdance e do Krump, também – porque é que essas danças surgem em zonas da cidade que são territórios quase tribais nos conflitos. Não é uma realidade que nós tenhamos cá, mas a situação dos gangues – de não se poder ir para outro território vestido de vermelho porque o vermelho é a cor do inimigo, e eu posso levar um tiro porque vou com a cor errada –, isto é animal. Nós mantemos estes códigos e nem nos apercebemos o quão instintivo isto é, de território.

Outra forma em que a Arquitetura me influencia muito é na geometria. Eu quando crio é como se visse em planta. Muitas vezes, vejo a composição geográfica como se fosse um desenho de cima, como se fossem linhas de força. Acho que há um espaço geométrico de ocupação da área, em que vejo o corpo como se fosse um espaço construído. Também conduzo muito as coisas pelo espaço vazio porque a negação do espaço é o espaço que pode ser vivido. No corpo e no movimento, eu também aplico muito estes conceitos.

G. O teu interesse pela autoconstrução na cidade fez com que te interessasses mais por estilos como o Breakdance , House Dance, Waacking, Krump e Vogue?

P. – Fascina-me muito como é que as pessoas conseguem fazer muito com pouco, então com tudo o que seja criar a partir do nada, eu identifico-me. Como é que tu constróis uma casa quando tu não tens nada? As soluções que surgem daí são incríveis, é completamente diferente de se ir para a academia. Eu tenho um pau e uma bola, o que eu posso fazer com isto? Isto é cru, a honestidade e o poder que isto tem são tremendos. Talvez essa identificação tenha que ver com uma ancestralidade. Como é que tu crias coisas incríveis quando o teu ponto de partida é quase nada? Isto é transversal a muita coisa que me interessa. Eu percebo essa beleza de se aprimorar tanto uma coisa que chega a um sítio quase etéreo, que é mais do que humano, mas para mim este estado de como as danças acontecem é incrível. Porque é que o Vogue existe? Porque é que o Waacking existe? São danças de resistência. Não há o apelo do belo, é cru, vem de uma necessidade física de se ser e  habitar. É uma manifestação de resiliência brutal.

G. Como é que surge a entrada na Escola Superior de Dança?

P. – Eu adoro a academia, adoro estudar. É um lugar de privilégio muito grande poderes-te sentar a pensar sobre as coisas.  A academia é um privilégio porque eu já não estou só a sobreviver, estou a aprender e a refletir sobre as coisas. Esta diferença que eu acho que cada vez se está a esbater mais, porque antes quem estudava as coisas não as fazia, só era uma observador externo; e quem fazia as coisas, ou não lhe interessava, ou não tinha acesso a aprender e a estudar sobre elas. Eu posso ir para academia estudar dança formal académica, mas  posso falar por experiência do que é o resto. São eles a falarem sobre eles. Isto é um poder tremendo. Eu fui para a Escola Superior de Dança porque tive um desgosto de amor, então decidi fazer alguma coisa para superar aquilo. Entrei com 29 anos e nunca tinha feito ballet na vida. Aprendi a fazer ballet, tinha aulas de dança contemporânea, continuava a dançar na rua, por isso, para mim, foi aprendizagem. Ainda vou para a faculdade outra vez.

G. Em 2006 iniciaste com a Lúcia e a Leo uma crew feminina, as ButterflieSoulFlow. O que te trouxe a criação de uma crew?

P. – Sempre fui de criar coletivos. Supostamente, no meu mapa astral eu tenho o meu norte e sul na direção do nós para o eu. Nesta vida, o que eu tenho de conseguir fazer é ir do nós para o eu, porque o que me é natural é criar o nós. Acho muito poderoso quando as pessoas se juntam. Não vejo o coletivo como uma anulação do eu, vejo como uma potência muito grande de força, construção, debate, conversa, então sempre quis construir coletivos. Esta coisa das Butterflysoulflow é maravilhosa porque desde 2006 que eu, a Leo e a Lúcia continuamos a dançar juntas, e isto é incrível. Começámos as três a dançar na rua, a treinar Break Dance no metro, sem saber bem o que fazíamos. Passado 16 anos continuamos juntas. Eu com 40, a Leo com 42 e a Lúcia com 32, a estrear uma peça num palco institucional.

Este ano tenho uma peça apoiada pela DGArtes para estrear no CCB e estamos as três juntas. É um grupo um bocadinho maior porque convidei outras mulheres.

Tenho outro trabalho que é dentro das danças orientais e da fusão oriental. Eram dois universos separados, então pensei que não conseguia não ter as minhas buttlerflys comigo… cheguei ao pé delas e disse que tinha uma ideia meio maluca, que consistia em criar um coletivo onde as danças de rua se misturam com as danças orientais e as danças contemporâneas. Elas disseram-me que nunca iam fazer belly dance e eu comecei a rir-me. O coletivo Orchidaceae surgiu assim. Criei este coletivo com a ideia de perceber como é que um coletivo feminino trabalha estas linguagens, de movimento de anca pélvica ancestral com uma dança masculina como o breakdance. Como é que vou inserir uma dança de afirmação de género como o Vogue ou como o Waacking com uma dança de contemporânea que é altamente europeia e formal. O coletivo pretendia pesquisar sobre essas coisas. Somos oito mulheres, está um bocadinho disperso porque muitas pessoas que fazem parte do coletivo, fazem outras coisas e estão numa fase de pesquisa.

G.  Em 2019 criaste a peça “HIP. a pussy point of view”.

P. – Em 2019 aconteceu ter tido a minha primeira coprodução para fazer a peça “HIP. a pussy point of view”, a primeira vez que alguém me deu dinheiro para fazer um trabalho. Achei que era imenso dinheiro – naquela inocência –, mas depois percebi que não era nada. Nesse trabalho, muitas das questões que me ocupam, estiveram lá. Acho que é um trabalho super provocador, que tem muitos erros, mas acho que os erros fazem parte do trabalho, que me expõem muito a vários níveis – físicos, emocionais. A anca é o foco, através dela vou para as danças do mundo inteiro, fiz uma pesquisa grande sobre danças que me ocupam, o que é que este espaço da anca permite ou proíbe na mulher e no homem, o que é esta sexualidade – que é quase um tabu ou exacerbada, e o que é a sexualidade nestas danças que normalmente são corpos não-brancos que são hipersexualizados ou se hipersexualizam.  A peça atualmente é muito diferente do que foi na estreia porque eu alterei-a muito. Quando estreou, no festival DDD, no Porto, estava incompleta. Foi uma oportunidade incrível, mas foi muito duro para mim, porque era uma semana de programadores, então todas as pessoas que estavam na plateia eram programadores, todos brancos. As referências que trago, são as referências do Hip-hop dos anos 80 e 90 da cultura de Miami base, de danças do norte de África, referências femininas e feministas de culturas não-europeias, não-brancas e que são consideradas não-eruditas. Na peça eu cito os To Live Crew, que têm a música “Pop that pussy”, só que as pessoas que vão ver a peça não têm a referência, ou seja, aqui podemos levantar a questão de quem são os públicos. Eu faço a peça para um público 95% branco e isso já é uma questão. Eu vou fazer a peça num sítio institucional só com referências de Hip-Hop, referências de rua e ninguém que está na plateia as entende, porque viemos de sítios diferentes. É preciso urgentemente trazer outras linguagens artísticas e vocabulários, contextos e histórias para o palco. Foi uma coisa que ficou muito clara para mim. Depois desse trabalho, sinto que há muita falta de criação feminina queer. Acho que a peça reúne uma série de coisas que também são facilmente instrumentalizadas. Há pessoas que dizem que estou a dar-me, ao ocupar espaços que são patriarcais, dominados por homens brancos na sua maioria, e eu não tenho essa visão, acho que devemos ocupar enquanto não tivermos poder, até o transformarmos. Como acho que sou muito bem resolvida, eu fico num sítio de poder, porque quando me apercebo que estou a ser instrumentalizada, eu manipulo isso de forma a ser eu a tirar algum beneficio desse espaço. Como eu não dependo desse espaço porque eu sempre fui muito autoconstruída – lá está a autoconstrução da arquitetura –, eu não necessito obrigatoriamente desse espaço para me validar como artista ou como pessoa. É a carta dois do Tarô, o mago. É ser malabarista. 

Eu ponho-me num sítio de vulnerabilidade tremendo que, por algumas pessoas, é lido como eu estar a submeter-me à hipersexualização. O facto de a peça suscitar estas duas vertentes já diz muito. A questão é que eu tenho como referência danças que são consideradas sexuais. Vou buscar o Twerk, que foi popularizado pela Miley Cyrus, mas é feito dentro da comunidade negra, e antes de ser Twerk vem do bounce de Nova Orleans e, antes disso, tem origens em outras danças do continente africano, como danças de funerais e casamentos. Se eu me ponho no chão com a anca a fazer movimentos pélvicos, tu vais dizer que aquilo é hipersexualização do corpo e são rituais. Há uma dança que se chama mapocu, que é feita na Costa do Marfim, onde as mulheres se juntam só com vestidos e saias e estão ali “uma nádega, outra nádega, uma nádega, outra nádega”, e aquilo é a celebração da fertilidade. Não nos vamos enganar, porque são danças que também contêm esse caráter sexual – e não há problema, porque nós somos um animal sexual. A dança é eminentemente sexual, só que isto tudo tem sido castrado.

Esta peça nova surge depois disto tudo. Um amigo desafia-me a concorrer à DGArtes e eu, cheia de receio, a achar que não conseguia escrever aquilo sozinha  – não porque não tenha capacidade, mas sim porque não gosto.  Já estávamos em confinamento, pensei que tenho sempre um monte de ideias, e decidi fazer. Comecei a escrever há um ano e consegui a bolsa.

Chama-se “.G RITO”. A data de estreia está marcada para meados de dezembro, tenho uma segunda data para o Porto e residências. Estou a entrar num campo que não domino de todo, que é o da música. Vou trabalhar muito sobre a ideia do que é o som e como a música faz parte desse processo cultural da dança. Estou a tentar trabalhar entre uma deformação de instrumentos básicos, como o berimbau. Vou trabalhar muito nas interseções do que são esses espaços antigos, modernos, de ritual e de transe  – ainda que hoje não os vejamos como tal –, e o que é esta coisa do feminino exacerbado, que quase chega a ser uma energia masculina que quase todos temos – entendendo como ying e yang, e não feminino e masculino; esquecendo a questão do género. Estou a trabalhar sobre o pólo receptivo, ativo, a lua e o sol. E o que é essa coisa da música eletrônica, o que a tecnologia nos possibilitou atingir hoje – o que a máquina é para o tambor.

G.  – Porquê o ponto final?

P.  – Porque é o ponto G, eu digo “Grito”, mas na realidade é um ponto G que é um rito, logo um grito.

G.  – Tens dois perfis no Instagram.  O @piny.pon.y e o alter-ego @piny.orchidaceae. Como as diferencias?

P.  – Eu sinto uma multiplicidade gigante de pessoas dentro de mim. Consigo ser uma pessoa muito aberta, mas há um lado meu que é muito reservado. Sou super adaptável. Muito antes de existirem redes sociais, quando trabalhava como arquiteta, usava o meu nome pessoal. Quando começaram a surgir uns vídeos no YouTube a dançar, percebi que tinha de usar outro nome porque a sociedade não está preparada para isso – nem há 15 anos nem agora – de se poder ser arquiteta e ser bailarina, isso tira-te credibilidade. Sendo performer, o meu corpo está sempre exposto e é muito difícil ter outra profissão. As pessoas não têm essa capacidade de entender que os dois universos são em conjunto. Nessa altura, optei por usar o Piny Pon, apareceu como um alter-ego. Anaísa Lopes tornou-se um nome familiar. 

Eu acho que as duas páginas são mesmo muito diferentes. Aquela que diz @piny.pon.y são textos muito curtos, mas de certa forma sou eu a ocupar um espaço que não ocupava há muito tempo, então diz Piny Pony porque quando eu fazia grafitti usava só o Pon. Usava Piny para dançar e Pon para assinar as coisas. Nessa página acho que ponho mais as coisas que eu vejo  – eu encontro beleza ou feiura em muita coisa, por isso é que digo que nunca na minha vida pensei em criar conteúdo. Eu nunca crio nada, eu só partilho aquilo que eu consigo subverter através das palavras ou da imagem, dando-lhe outro significado qualquer. Há uma manipulação da realidade através do meu sentir. E eu gosto de partilhar isso, tal como gosto de partilhar coisas que são potencialmente eróticas, coisas que são potencialmente provocadoras, ou que são muito simples.

 O último post que eu fiz era com umas janelas que têm uns círculos e depois estavam uns muito tortos e eu pensei “isto é a realidade, porque nós somos todos iguais, mas não somos”.

Então, este tipo de coisas é que ocupam essa página. Eu uso as histórias com conteúdo muito mais político; para tudo que seja sobre pessoas, projetos , situações que eu apoio, situações que quero manifestar, a que quero dar visibilidade — e aquilo tem poucos seguidores, não é nada de especial. 

No @piny.orchidaceae existe o pensamento que exponho sobre o que é a dança, o que é o género, cultura, religião e o que é a expressão do corpo. O objetivo dessa página é mais profissional, a outra não tem esse intuito, e eu assumo já um papel de “há pessoas que lêem o que estou a escrever”. Então, tenho o cuidado de assumir esse papel de trabalhar para e com a comunidade. De questionar isso: o que é uma dança feita sobretudo por mulheres e porque é que isso ainda é assim? Há muitas questões de género que me ocupam e como trabalho com danças que são consideradas, muitas, maioritariamente femininas, ou umas exclusivamente negras, estas questões cruzam-se e é muito complexo. Isto é tudo tão complexo que eu não posso ter só uma página minha a dançar. 

G.  – Tem de haver um propósito.

P.  – É um ativismo que eu faço, na realidade. É a minha forma de falar sobre certas questões. Falar sobre o que é que são os corpos trans na dança, por exemplo. O que é isto de as pessoas acharem que há um feminino e um masculino, acharem que as mulheres se hipersexualizam, acharem que o corpo negro foi tão hipersexualizado durante o tempo da escravatura que agora podem não ter o direito de o fazer por elas próprias – ou têm? Então, se eu tenho uma página que chega a alguém e se tenho uma página para comunicar, não vou dizer só “vou dar aula”. Eu não sou isso. Para mim, abrir estas questões todas é manipular aquela rede; tentar usá-la em rede, da melhor maneira possível. Através daquilo, eu já criei grupos de pessoas, e 10% do que ganho em aulas online, dou sempre a instituições ou organizações nacionais. Por exemplo, há uma página que se chama “Diálogos e Reflexões”, que está a ajudar famílias carenciadas,  o Casal da Boba, que tem a Associação Cavaleiros São Brás, ou a Casa T. Através destas redes, consegui criar esta consciência em muitas pessoas e, às vezes, coletivamente, vamos doar a organizações feministas no Médio Oriente. Porque a dança que fazemos é dali. Então é uma forma de criar um alerta  – porque normalmente falo para mulheres brancas –, e depois juntamo-nos e o dinheiro que se faz, ou que alguém tem em excesso, tentamos dar de volta às culturas de onde estamos a retirar algo.

 E é muito difícil teres esta demanda e teres um corpo ativo, seres ativista, lutares e seres mãe. Eu às vezes fico alucinada. Esta vida não me trouxe isso, a maternidade, então eu tento ser mãe e produzir a maternidade de outras maneiras, porque acho que um ventre criativo pode produzir uma vida humana, mas pode produzir muitas outras coisas. E eu acho que o meu caminho é esse, a minha maternidade não se vai materializar num filho, mas vai materializar-se em muitas outras coisas. A verdade é que há este espaço de “a mulher descobre, a mulher estuda a mulher é subjugada, e ainda é a que cuida, a que dá a vida, a que fica 9 meses grávida, a que tem o filho, a que dá de mamar” e, ao mesmo tempo, tudo o resto acontece.

G.  – Para além de artista, feminista e queer, descreveste como animista. Qual a relação que tens com os ancestrais e com a espiritualidade? 

P.  – Eu acho que a nossa conexão vai mudando, tem muito a ver com a idade, com o que estás atenta, com o que sentes. Para mim é muito claro que eu não estou sozinha; para mim, é muito claro que o meu corpo é habitado pela minha mãe, pela minha avó, pela minha bisavó, e nós sentimos a ligação mais forte com os nossos ancestrais femininos porque nós fisicamente estivemos na barriga da nossa avó. A primeira vez que alguém me mostrou isso, foi incrível; as mulheres nascem com os óvulos que vão ter a vida inteira; logo, a tua mãe quando nasce já te tem a vida inteira, logo estiveste na barriga da tua avó. E isto é tremendo, porque quer dizer que as coisas que a minha avó viveu, eu já as senti diretamente. A nível físico, nós carregamos traumas, sonhos, energia de potência e dor que não são só nossos. Para mim isto é claro. Eu tive a vida que tive, e sei de coisas que não são desta vida, não são de agora. Não vou ser acérrima em relação ao que é que existe, porque não sei, ninguém sabe, mas acredito que existe um campo energético brutal, que não é matéria como nós a entendemos; acredito que nós interferimos com a energia uns dos outros, e que tudo tem energia. E daí o animista, porque tudo tem vida, tudo é matéria.

G.  – Já plantaste a lua? Pergunto isto porque é uma prática que também ajuda as mulheres a conectarem-se com a natureza e a entenderem-se parte dela.

P.  – Sim. Para mim foi um processo importante porque eu tenho períodos muito dolorosos e não gostava de menstruar. Ia dançar e estava menstruada, doía-me a barriga e não me mexia da mesma maneira. Aceitar estes ciclos foi incrivelmente importante para mim. Neste momento adoro menstruar, até porque provavelmente, nos próximos 10 anos vou deixar de menstruar, e isto é uma coisa tremenda para uma mulher. Acho que tu nunca pensas isso até chegares próxima disso, então também houve muitas coisas que acordaram em mim e que não estavam presentes – a questão da maternidade foi uma delas, em que tive de decidir se ia ser mãe ou não, porque não quer dizer que tenha de ser o fim, mas estou a chegar aos 40, e se calhar é uma coisa em que tenho de pensar.  Quando comecei a pensar foi brutal, de me questionar o que é ser mulher se não for mãe, o meu corpo permite uma coisa que eu não vou fazer, vou fazer uma vida de um homem porque não vou usar o meu maior dom enquanto mulher. Houve um período que foi bastante violento para mim, até que, com estas coisas todas consegui chegar a um lugar de compreender que sou um corpo cíclico feminino e, independentemente de ficar grávida ou não, sendo eu este corpo que menstrua desde os 14 anos, que as mamas ficam duras no período e dói , que fico mais mole, mais ativa e que sente isto tudo, dá-me energia criativa muito feminina e muito poderosa de luta e criação artística. Foi aí que fiz o shift de “eu estou a gerar filhos,  só não estou a gerar filhos humanos”, então eu estou sempre em incubação e em parto, mas só não é dessa maneira [tradicional]. Eu sou um corpo fértil, mas quando deixar de ser um corpo fértil eu vou continuar a ser um corpo fértil. Eu quero continuar a mostrar o meu corpo, a minha sensualidade, a minha beleza, a minha fertilidade, seja como for, porque eu acho que é um espaço que ainda não está ocupado.

G.  – E qual é sensação que tens quando danças?

P.  – Depende muito do sítio, do contexto. Acho que pelo facto de  virmos de uma dança que não é académica, normalmente encontramos esse estado muitas vezes. Esse sítio é muita motivação. Quando eu treinava Breakdance – um dos estilos que mais me ocupou  –, acho que aí tinha que ver com uma coisa de ego e força, é uma dança de ataque. Neste sítio de quem faz vários estilos diferentes, cada dança proporciona um estado de alma e de corpo muito diferente, sendo que, quando não há nada disso e estou a dançar à solta, há pessoas que às vezes dizem: “olha baixou o santo” [risos]. Há zonas onde o estado de transcendência acontece e aí vêm os ancestrais, também. Por isso é que o transe, muitas vezes, também se consegue atingir através do corpo. Para mim, a dança pode ter várias manifestações, e acho que as danças urbanas de resistência, que normalmente vêm de comunidades negras, têm muito isso. Por isso é que as pessoas ficam muito impressionadas com o poder de uma battle ou de uma saifer porque aquelas pessoas que estão ali, estão a dizer “eu existo”. A cena do Krump e do Vogue, sendo muito diferentes, são idênticas nessa manifestação de resistência pela afirmação do eu.

Quando as danças são aprendidas na academia e no estúdio, mudam o significado, por isso é que quando és professor, a maneira de ensinar é muito passar pela experiência do que é a cena clubbing mesmo não tendo club. Tu não vais ensinar a ninguém o que é a essência dentro de um estúdio. Como professor, mentor ou educador, tens de pôr as pessoas mais próximas à origem para sentirem. A dança proporciona diferentes estados de alma.  A dança é uma potência.

Texto |F| escrito e coreografado por Piny

G.  – Publicaste um vídeo no Instagram em que estavas imóvel e choraste. A imobilidade ainda te faz chorar?

P.  – Não é um sítio de paragem, não é um silêncio cheio, nem um crescimento na ausência de movimento, é a estagnação, que me faz chorar.

G.  – Quais são as próximas manifestações do teu corpo?

P.  – Eu sinto um momento de potência muito grande, acho que neste último ano, que está a ser tremendo, estou a encontrar uma potência num espaço mais suave. É um momento de transição, de mudança e também estou curiosa para saber a resposta a essa pergunta.

Texto por Filipa Bossuet
Fotografia de Rui Palma

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