O Plano Nacional das Artes já veio “despentear” duas escolas em São Miguel, com a residência da realizadora Cláudia Varejão, e há outras duas escolas da ilha que se preparam para criar projetos no próximo ano.

“É um plano muito precioso, no meu ponto de vista”, confessou a cineasta à Lusa. Parte de um eixo “transdisciplinar e indisciplinar”, que pretende mostrar que “as artes, o património e a cultura não são extracurriculares, mas devem ser pensados como curriculares”, explica o comissário nacional do PNA, Paulo Pires do Vale.

“Interessa-nos perceber como é que podemos desenvolver a escola toda como uma unidade em que já não se pense na fragmentação: os das artes para um lado, os das ciências para outro, os das humanidades para outro… Não. [Interessa] que se pense como é que a cultura nos pode ajudar a ter este olhar transdisciplinar para a vida”, concretiza o professor, ensaísta e curador.

Para tal, a intenção do Plano é levar às escolas artistas que, em residência, servem de mediadores entre a escola e a cultura, promovendo o contacto com o património de proximidade, e ensinando “múltiplas linguagens a que devemos ter acesso”, mas que a escola, muitas vezes, descura, por se focar “numa lógica de ensino muito lógico-verbal”, destaca Pires do Vale.

Nas primeiras duas escolas açorianas a aderir ao plano, a Escola Básica Integrada (EBI) da Maia e a EBI de Rabo de Peixe, ambas no concelho da Ribeira Grande, em São Miguel, essa pessoa será a realizadora Cláudia Varejão.

“No fundo, eu sou uma pedra de toque, um pretexto para desviar, às vezes, o olhar para o lado, quando, muitas vezes, numa escola, estamos a olhar mais numa direção, inevitavelmente, porque há um programa a cumprir. [O Plano] vem um bocado despentear os cortes de cabelo a esta gente toda”, conclui a artista.

Esta iniciativa conjunta dos Ministérios da Educação e da Cultura foi criada em 2019, mas chegou aos Açores há cerca de um ano, em fevereiro de 2020, quando foi celebrado o protocolo entre o Governo da República e o Governo Regional dos Açores, que ligou a região ao Plano Nacional das Artes.

A semente foi lançada através da iniciativa “De Fenais a Fenais”, do Museu Carlos Machado e da Direção Regional da Cultura, que quer levar a cultura às freguesias de Fenais da Luz, Rabo de Peixe, Maia e Fenais da Ajuda, para combater a exclusão social.

Por isso, e porque o Plano parte sempre de “uma manifestação de desejo das escolas”, as primeiras no arquipélago a arrancar com projetos são as da Maia e de Rabo de Peixe.

“O PNA tenta ir ao encontro dos desejos da escola. A ideia é que nada venha de fora, que seja tudo o que pulsa de dentro e vem para fora. Em integração e em relação com todo o tecido exterior”, explica Cláudia Varejão.

O objetivo era que a realizadora, que está em São Miguel para rodar o seu novo filme, Lobo e Cão, iniciasse já a sua residência em ambas as escolas, onde irá “mentorar” o projeto a desenvolver, mas Rabo de Peixe está, pela segunda vez, sob cerca sanitária e tem todas as escolas encerradas.

A artista deu início ao trabalho presencial na Escola da Maia, mas, numa altura em que já reabriram quase todas as escolas da ilha, mantêm-se encerradas as dos concelhos da Ribeira Grande e de Vila Franca do Campo.

Já houve, no entanto, alguns encontros com turmas e com professores. “Vamos trabalhar em torno do tema da água e de alguns fontanários que fazem parte do património dali da zona da Maia”, adiantou.

Depois de encontrado o tema, é preciso “tentar transcendê-lo”, e é isso que Varejão vai ajudar a comunidade escolar daquela unidade orgânica a fazer, privilegiando as ferramentas que domina: “A imagem e a imagem em movimento”.

“Eu diria que estaremos a construir alguma coisa em torno de um filme, de fotografia, com algum trabalho sonoro. Creio que o caminho será nesse sentido, vamos ver onde podemos chegar”, esclarece.

Nesta altura estão duas turmas da escola-sede desta unidade orgânica envolvidas no projeto, mas já há vontade de expandir o alcance desta iniciativa a mais pessoas da comunidade escolar, contou à Lusa a coordenadora do PNA nos Açores, Maria Emanuel Albergaria.

A responsável adianta que, na Escola de Rabo de Peixe, há outras duas turmas interessadas em participar, que o trabalho se “está a concretizar ‘online’” e que “a residência será iniciada mais para a frente, dentro de dois, três meses”.

Em altura de pandemia de covid-19, o PNA apressou-se em disponibilizar recursos educativos no seu website e a desenvolver ações de formação para “professores, educadores, criadores e mediadores culturais”, que podem acontecer também em formato virtual.

Maria Emanuel Albergaria quer “trazer algumas formações” para os Açores, mas destaca que já houve e serão ainda desenvolvidos encontros sobre o património, devidamente acreditados, que chegaram a agentes da região.

A coordenadora adiantou que já há mais duas escolas interessadas em aderir ao Plano Nacional das Artes em São Miguel: a EBI das Capelas, através da comunidade educativa Novas Rotas, e a Escola Secundária Antero de Quental, ambas em Ponta Delgada.

O programa pretende criar uma rede de sinergias com as estruturas que já existem, como aconteceu, aliás, com o projeto “De Fenais a Fenais” e, por isso, chama vários agentes, desde autoridades locais, a associações e instituições culturais, ou empresas, a participar.

Para já, “a Câmara Municipal de Ponta Delgada, através da vereação da cultura, vai apoiar no financiamento de um artista residente”, avançou a responsável.

“Queríamos sobretudo, agora, apresentar, dar a conhecer o Plano, que acho que ainda não é suficientemente conhecido, nomeadamente ao novo Governo e às próprias autarquias”, até porque “o desejo é que o nosso Plano se expanda pelo território regional”.

Texto de Lusa
Fotografia de Svetlana Shemetiuk via Pexels

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