Os podcasts não são uma novidade, mas são uma tendência que ganhou força com a pandemia. Seja para aproximar o público dos equipamentos culturais, reforçar programações ou desenvolver novos espaços de criação e apresentação artísticos, vários teatros portugueses têm apostado também neste formato. 

No Teatro do Bairro Alto, as primeiras estreias aconteceram no podcast “Dito e Feito”, com peças encomendadas a Lígia Soares, Diana Policarpo e João Abreu, João Estevens e Mafalda Jacinto. O podcast, com periodicidade e formato irregular, surgiu da vontade do TBA de, enquanto novo teatro municipal, “começar várias vezes”. “Começar online – no início de 2019, com sons e palavras, fotos e vídeos; começar na cidade – com vários pequenos espetáculos íntimos no bairro, em junho de 2019; começar no teatro – depois das obras no edifício, com uma programação regular a partir de outubro de 2019”, conta o diretor artístico Francisco Frazão.

“O ‘Dito e Feito’ foi concebido desde o início como um espaço que, tanto poderia acompanhar o programa presencial no teatro, como ter criações próprias, pensadas de propósito para um meio de comunicação que se tem desenvolvido extraordinariamente nos últimos anos, e que tem limitações e potencialidades que nos interessa explorar”, esclarece. “Na introdução de cada episódio, costumamos explicar que este, como o nome indica, é um podcast onde falar é uma maneira de fazer e vice-versa: o discurso é performativo e os objetos artísticos produzem discurso.” Assim, o espaço funciona, quer como suplemento da programação e ferramenta de divulgação, quer como um espaço autónomo de programação e apresentação: “Tanto pode ter conversas com artistas – Federico León, Florentina Holzinger e Isabel Brison, entre outros – como novas peças sonoras – de Clara Amaral, Miguel Castro Caldas, vacuum cleaner ou Joana da Conceição.”

Um novo espaço de programação

Antes de assumir a direção artística do Teatro Viriato, Patrícia Portela fazia a crónica semanal “Fio da meada”, na Antena 1, que terminou “inesperadamente” na última semana de fevereiro de 2020. “Eu entrei para a direção do Teatro Viriato na primeira semana de março e, mesmo antes da pandemia, e em diálogo com a comunicação, surgiu de imediato a vontade de construir uma rubrica semanal que cruzasse atualidade e a programação do Viriato”, elucida a diretora artística daquele espaço situado na cidade de Viseu. 

O “Boca a Boca” foi, assim, um dos primeiros projetos lançados no Teatro Viriato, sob a nova direção artística, e funciona como podcast independente, sendo transmitido nas plataformas digitais do teatro, mas também, todas as semanas, na Rádio Jornal do Centro, como magazine radiofónico. 

Segundo a responsável, o projeto anuncia o que se passa naquele equipamento cultural, ao nível de estreias, criações e residências, e interage com a atualidade, “produzindo um discurso vivo e em estreita relação com a sociedade e o público” que se desloca para assistir aos espetáculos. “Além disso, tem sido também palco de apresentação de alguns objetos artísticos que, devido à situação pandémica, tiveram de se reinventar e encontrar novas formas de chegar ao público.”   

Já o “TEATRA”, criado em setembro de 2019, nasceu da vontade de trazer mais espaço para o pensamento e para conversas sobre cultura, teatro e as pessoas que o fazem, como conta Tiago Rodrigues, diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII): “Sentimos que era importante o D. Maria II ter um espaço dedicado a conversas longas, informais e com substância, protagonizadas por pessoas ligadas ao setor cultural. Atores, encenadores, mas também músicos, artistas visuais, escritores, técnicos, pensadores, entre outros. Pessoas que, de alguma forma, têm uma relação com o universo do teatro, da arte e da cultura em Portugal, e com o D. Maria II em particular.”

Integrando na missão que o TNDMII persegue em toda a estratégia de programação, a iniciativa procura promover a democratização do acesso à cultura e à atividade teatral. “Queremos, através destas entrevistas, conversar e refletir sobre a cultura, a arte e os seus criadores, dando lugar ao pensamento e ao debate. Ao mesmo tempo, por ser um podcast que está disponível online, em várias plataformas, e de acesso totalmente gratuito, o ‘TEATRA’ é uma oportunidade para chegarmos a um público mais abrangente, quer espacialmente, quer em termos de faixas etárias. E também de mantermos uma relação regular com esse público, sempre numa lógica de democratização e descentralização do acesso à cultura”, clarifica.

Embora a sua criação tenha sido prévia ao surgimento da pandemia, o primeiro confinamento, em março de 2020, trouxe mais ouvintes ao podcast, o que levou à decisão de aumentar a periodicidade do mesmo. “Em abril de 2020, o ‘TEATRA’ teve um crescimento de audições em todas as plataformas, que se manteve ao longo do ano. A consolidação do público do podcast e o interesse que as pessoas têm demonstrado neste projeto foi um dos motivos que nos levou a passar o ‘TEATRA’ de mensal para quinzenal, dobrando a frequência das entrevistas. Desde janeiro deste ano que o podcast tem uma periodicidade quinzenal, que continuará depois do confinamento e da reabertura do D. Maria II”, garante Tiago Rodrigues. 

Uma resposta à pandemia

O “(IN)EQUÍVOCO” surgiu da necessidade de adequar a estratégia de comunicação do Teatro da Trindade à atual situação que vivemos, “em que os meios online se tornaram uma ferramenta imprescindível para a comunicação, ao mesmo tempo que pretende acompanhar uma tendência, cada vez mais comum entre os outros teatros, na forma como se comunica esta arte”, explica a coordenadora de comunicação Raquel Guimarães, sobre a iniciativa lançada em outubro do ano passado e que terá continuidade num período pós-pandémico.

Neste podcast mensal, que utiliza a componente vídeo, a escritora Margarida Pinto Correia desafia os atores que fazem parte da programação, a participarem numa conversa livre, de cerca de 30 minutos. Anunciado como “um espaço de partilha, onde se desfazem quaisquer dúvidas ou equívocos”, o “(IN)EQUÍVOCO” permite ao público conhecer os projetos programados para o Trindade de uma perspetiva diferente, bem como as pessoas que os fazem acontecer”, afirma a responsável. 

No Teatro Nacional de São Carlos (TNSC), a suspensão da atividade, há cerca de um ano, e a necessidade de confinamento geral foram as razões que levaram à criação do “#SaoCarlosEmSuaCasa”. “O podcast é uma ferramenta de comunicação que, no momento em que foi criado, cumpriu a dupla tarefa de nos permitir manter contacto com o nosso público, que estava em casa, privado de assistir aos nossos espetáculos; e, por outro lado, dar a conhecer melhor a nossa casa, a casa da Ópera em Portugal: o Teatro Nacional de São Carlos, a Orquestra Sinfónica Portuguesa, o Coro do Teatro Nacional de São Carlos e todos os seus profissionais, através da música e de estórias e momentos inesquecíveis”, expõe Raquel Maló Almeida, coordenadora de comunicação e marketing do TNSC.

“Da ideia à implementação passaram poucos dias, fruto da nossa capacidade técnica para trabalhar e apresentar os conteúdos, mas, fundamentalmente, devido aos extensos e ricos arquivos do teatro e à memória, arquivo pessoal e singular habilidade do Jorge Rodrigues de contar estórias que vão ao encontro da curiosidade e do interesse da maioria das pessoas”, revela.

A temporada do “#SaoCarlosEmSuaCasa” – ainda disponível online – concluiu-se em junho de 2020, com o regresso à atividade e à apresentação de espetáculos com público, mas, de acordo com Raquel Maló Almeida, há interesse em, futuramente, dar continuidade ao projeto.

Mais que suplementar, um meio alternativo

Para o CRETA – que, apesar de acontecer em Viseu, “não tem um espaço concreto” – o podcast “funciona como uma âncora”. É nas plataformas digitais que as pessoas conseguem encontrar o mapa deste projecto, um laboratório de criação teatral, do Teatro da Cidade, cuja missão se prende com a criação de espetáculos ou exercícios que permitam a experimentação e a promoção de atividades que estimulem uma reflexão sobre o exercício teatral.

Os podcasts são três. As “Cartas de CRETA” começaram como uma newsletter mensal escrita e enviada por email. “Na transição da primeira para a segunda edição do projecto CRETA, e por um interesse pessoal na exploração do formato podcast, começámos a experimentar a gravação destas cartas. Ao mesmo tempo que dávamos os primeiros passos no formato, encontrámos nestes podcasts uma oportunidade para tornar o conteúdo mais apelativo e acessível, e procurar um outro género de relação com o público”, refere Guilherme Gomes, coordenador do projeto.

Já “O Lugar de Onde se Ouve” é “uma tentativa de povoar com a imaginação lugares reais na cidade de Viseu”. Criadores são convidados a escrever histórias que se ouvem em lugares que o público pode visitar. “A expectativa que temos em relação a estes podcasts é que o público se possa colocar na posição de estar no lugar onde se passa a ação e imaginar tudo o que está a ouvir”, afirma. Começou por ser um convite dirigido a uma companhia sediada em Viseu para a criação de um conjunto de três episódios escritos para um lugar na Mata do Fontelo, mas, com a evolução da pandemia, o projecto ganhou novos contornos, e o convite foi estendido a outros criadores. 

Por último, “O Princípio de um Espectáculo” são conversas que o CRETA promove com criadores de teatro sobre – como o nome indica – o que está na origem de criações teatrais: como surge uma ideia, como se desenvolve, que preocupações aparecem, ou que métodos se utilizam. “Em 2020, ao mesmo tempo que tínhamos as conversas presencialmente, em Viseu, gravámos um conjunto de episódios para um podcast com o mesmo nome. Começámos a lançar estes episódios em 2021 e, em abril, começámos a gravar uma nova temporada”, revela o coordenador. 

Texto por Flávia Brito
Fotografia via Pexels

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