Depois de uma edição de sucesso do Europe in Sync, um projeto europeu financiado pela Europa Criativa através da ação Music Moves Europe, a Associação de Músicos Artistas e Editoras Independentes — AMAEI apresenta Portugal in Sync, um programa que pretende gerar sincronizações entre a música e o vídeo a nível nacional. A ideia é, primeiro, dar ferramentas a profissionais da música e do audiovisual para que melhor percebam questões relacionadas com licenças e gestão, e depois potenciar uma rede de networking. O primeiro workshop é já esta sexta-feira, dia 29 de janeiro, de forma gratuita. 

Europe in Sync surgiu no WestwayLab, em Guimarães, através de uma “necessidade de capacitar mais o setor musical para a questão das sincronizações no cinema, na publicidade e na televisão” detetada nas diversas conferências do evento. Nuno Saraiva, fundador do projeto e diretor da AMEI, conta que o objetivo foi, desde o começo, “ajudar a formar os clientes do setor audiovisual a perceberem melhor o que são os direitos envolvidos, tanto do lado das gravações e fonogramas, como dos direitos de autor”. No decorrer do projeto, sentiram que fazia sentido pensá-lo numa lógica nacional, a Lusitanian Music Publishing propôs a ideia à DGArtes, esta foi aceite e começaram a preparar a implementação do projeto.

A ideia da formação é capacitar profissionais de todas as gerações a saberem o que fazer no momento certo porque “se a casa não estiver arrumada, quando a oportunidade certa surgir, podemos não a conseguir agarrar” — quem o garante é Nuno Saraiva. Descomplicar e abrir caminho são os principais objetivos do programa.  

Embora tivessem “uma ideia de que havia uma ausência de conhecimento” no que toca a licenciamento, direitos de autor e direitos conexos, foi na ação preparatória do Europe in Sync que tiveram essa “revelação”. “Tivemos realizadores que nos disseram ‘isto foi matéria que nunca nos foi ensinada na escola’, e produtoras, um pouco por toda a Europa, a dizer a mesma coisa”, conta Nuno Saraiva. 

A ideia do Europe in Sync surgiu no WestwayLab, em Guimarães

“Além do direito de autor, é preciso licenciar o fonograma, licenciar o disco, a gravação — que, por vezes, pode ser até da mesma entidade, mas muitas vezes não o é. Dependendo da gravação que estamos a usar, pode ser de vários artistas, pode ser de várias editoras. Os supervisores musicais, certas vezes, até se transformam em detetives para irem à procura do direito daquela gravação, porque podem não saber ao certo qual é a editora que detém os direitos. E tudo isso é importante explicar e tornar o mais linear possível para fomentar efetivamente a utilização da nossa música em todas estas possibilidades de sincronizações audiovisuais.” 

Para exemplificar o sucesso das sincronizações, Nuno Saraiva fala de Lisbon Story, filme de Wim Wenders rodado em Lisboa nos anos 90: “foi isso que impulsionou a carreira dos Madredeus a nível internacional, terem aparecido no filme”. E é isso que o Portugal in Sync pretende, “que mais autores, compositores, realizadores, artistas portugueses utilizem as sincronizações de uma forma a dar esse impulso à sua carreira”. 

A voz de Teresa Salgueiro ouviu-se em mais lugares graças ao filme do realizador alemão Wim Wenders

Uma rede de conhecimento(s)

O presidente da AMAEI explica que “a indústria das sincronizações” está “muito ligada ao desenvolvimento do setor do music publishing”. Como, “em Portugal, não temos um histórico de uma indústria muito desenvolvida do music publishing”, a prática da sincronização acaba por também não estar enraizada. “Existem seis ou sete grupos de music publishing em Portugal, muitos deles ligados a multinacionais, que, por vezes, por serem catálogos muito grandes, não têm muito tempo para fomentar a utilização das obras portuguesas. Estou a falar das três majors multinacionais. Há dois ou três publishers portugueses independentes, que têm mais autores nacionais, mas, por serem de uma menor dimensão, também não têm muito tempo para ter a proatividade necessária para facilitar a sincronização das suas obras.Portanto, o trabalho em rede, o conhecer, o universo dos music supervisors, que por vezes são contratados pelas produtoras  de cinema para irem à procura das obras certas e dos licenciamentos certos, tanto para cinema como para publicidade, é um universo um pouco desconhecido em Portugal, ainda.” 

O Portugal in Sync não é uma resposta à pandemia, mas ganha outra dimensão com os entraves e dificuldades que se impõem, neste momento, no setor da cultura, tanto na música como no audiovisual. Os concertos pararam, as rodagens também; apenas o trabalho de pós-produção continuou com alguma normalidade, dentro do possível. Como conta Nuno Saraiva, “isto significou que muitas produtoras de publicidade tiveram que recorrer ainda mais ao conceito de música de biblioteca, que já existe apenas para preencher aquele propósito e que não vai incentivar a carreira deste ou daquele músico”. 

E se em tempos de pandemia a produção artística se modificou, sofrendo consequências, o mesmo aconteceu com os momentos de encontro e reflexão. Mas Nuno garante que tanto o WestwayLab como o Digital Music Days, eventos organizados pela AMAEI que terão uma ligação direta com o Portugal in Sync, irão decorrer — ainda que o WestwayLab, que por norma acontece em Guimarães, tenha de ser online. Em ambos estarão presentes “music supervisors de cidades como Londres, Nova Iorque e Los Angeles”.

“No turbilhão da pandemia e da crise em que estamos mergulhados, é preciso ir ao encontro de momentos de reflexão e pensamento, para imaginarmos um futuro mais sustentável do que tínhamos antes da pandemia. Para mim, não basta que as coisas voltem ao ‘normal’. Isso não vai acontecer, até porque estamos perante uma alteração de paradigma de tal ordem que, sobretudo no digital, as coisas não vão voltar a ser o que eram. Eu espero que haja um futuro mais equilibrado e mais sustentado, que possa combinar as coisas de uma forma diferente casando o espaço físico com o digital”, comenta Nuno Saraiva, que será o formador do Portugal in Sync.

É Nuno Saraiva o responsável pelas formações do Portugal in Sync

Sincronizar para “adotar boas práticas”

No passado dia 14 de janeiro, a ministra da cultura, Graça Fonseca, anunciou um aumento na quota da música portuguesa a passar nas rádios nacionais, para 30%. A medida gerou alguma consternação do lado das rádios, mas contentamento por parte de produtores e músicos. O que a Lei da Rádio previa, até à data, era uma quota entre os 25% e os 40% de música portuguesa para passar nos canais generalistas, e foi a fixação da quota no valor intermédio que gerou contentamento. 

Nuno Saraiva mostra-se “absolutamente chocado” com a posição das rádios, uma vez que “é algo totalmente óbvio e que existe noutros países desenvolvidos”. “Choca-me profundamente, porque sendo a pandemia o que  é, e estando os artistas parados em casa a criar e a promover as suas obras no digital e também nas rádios, é profundamente revoltante que exista contestação por parte das rádios.” 

Mais acrescenta: “nós temos de apoiar a música portuguesa, e passar uma determinada percentagem de música nas rádios, para mim, é absolutamente óbvio. Diria que até podia ser uma fatia mais elevada do que a ministra recomendou; 30%, para mim, é o mínimo que as rádios poderiam fazer. Espero que essa batalha chegue a bom porto, porque a apoio totalmente. Se formos olhar para as boas práticas de outros países, essa está lá.”

Ainda assim, lamenta esta ter sido a única medida anunciada para o setor da música nas declarações da ministra da cultura. 

Quanto à aposta na música portuguesa, no audiovisual, Nuno Saraiva garante que as portas digitais do Portugal in Sync estão abertas a todos e todas os que quiserem saber mais e procurarem criar uma rede de contactos para que “adotar boas práticas” passe a ser mais fácil. 

Podes saber mais sobre o Portugal in Sync, aqui

Texto de Carolina Franco
Fotografias da cortesia de AMAEI

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