“A cultura e as artes permitem envolver, confrontar e interpelar as pessoas e intensificar a tomada de consciência sobre os problemas, gerando um contexto de empoderamento propício à modificação dos comportamentos, nomeadamente daqueles associados à gestão do fogo e aos incêndios florestais”, afirma António Patrão, chefe do núcleo Sub-Regional de Coimbra da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF).

O Engenheiro justifica assim a importância do projeto lançado no passado mês de junho pelo Ministério da Cultura e pela Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais. “Não Brinques com o Fogo” visa, através das artes, sensibilizar as populações das regiões mais afetadas para a alteração de comportamentos de risco com vista a promover a valorização e proteção dos territórios, ambiente e património. O investimento da AGIF ronda os 185 mil euros, destinado à produção de espetáculos multidisciplinares e ações de capacitação junto das populações, e foi distribuído por três freguesias da Região Norte, oito freguesias da Região Centro e um freguesia nas Regiões do Alentejo e do Algarve.

Não Brinques com o Fogo

O Ministério da Cultura e Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) lançaram o projeto “Não Brinques com o Fogo”, que visa, através das artes, sensibilizar as populações para alterar comportamentos de risco face aos incêndios rurais e promover a valorização e proteção dos seus territórios.O investimento da AGIF, no valor de 185 mil euros, destinou-se à produção de espetáculos multidisciplinares ao ar livre e ações de capacitação das populações.Os espetáculos ao ar livre serão apresentados em setembro e outubro de 2020 nos concelhos considerados prioritários pela AGIF, nomeadamente Vila Nova de Poiares, Coimbra, Penacova, Ourém, Paredes, Gondomar, Gavião e São Brás de Alportel. Consulte o vídeo promocional da campanha “Não Brinques com o Fogo”.+ info: https://bit.ly/32PihaS#cultura #apoios

Publicado por GEPAC em Terça-feira, 22 de setembro de 2020

A implementação deste projeto piloto é uma colaboração entre a AGIF e as Direções Regionais da Cultura (DRC) do Norte, Centro, Algarve e Alentejo, que assumem o papel de entidades operadoras, durante o período máximo de um ano. Neste âmbito, cada uma das DRC lançou dois avisos: AVISO#1 Artes Performativas – Ações de Capacitação das Comunidades, referente à criação de projetos artísticos de capacitação e ativação de mensagens nas comunidades; e um AVISO #2 Artes Performativas – Espetáculo ao ar livre, destinado à criação de um espetáculo multidisciplinar capaz de sensibilizar as populações para a valorização e proteção do seu território. As estruturas artísticas de cada região foram convidadas a apresentar candidaturas entre 23 de junho e 14 de julho, com propostas sujeitas a temáticas como queimadas, limpeza de terrenos, comportamentos de risco, lançamento de foguetes ou uso de maquinaria agrícola em condições de segurança.

Um projeto que surge como “ferramenta inovadora e poderosa para envolver as comunidades na gestão de fogo”

“A negligencia humana é a principal causa dos incêndios rurais em Portugal e por isso urge, num cenário agravado pelas alterações climáticas, modificar comportamentos. Trata-se de um processo adaptativo em que é necessário (re)educar as pessoas para uma relação diferente com o fogo, que necessita convocar toda a sociedade e apela ao uso de métodos educativos e de colaboração diversificados”, afirma António Patrão. O estudo dos métodos educativos e de colaboração a que se refere foram iniciados em 2018 pela AGIF, após os incêndios que abalaram Portugal em 2017. A AGIF surge assim numa altura em que Portugal enfrentava um problema estrutural de ordenamento do território, passando a ser competência deste instituto público a análise integrada, o planeamento, a avaliação e a coordenação estratégica do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR). 

Logo após a sua criação, a AGIF denotou “um distanciamento, ou desajuste, entre a mensagem difundida e a diversidade dos territórios abrangidos”, aquando de campanhas de sensibilização para a prevenção dos incêndios. Nessa altura compreenderam a “necessidade de adotar uma forma de comunicação mais customizada”. Questionado sobre como surgiu esta metodologia de intervenção ligada à cultura e às artes performativas, António Patrão não hesita em afirmar que “a cultura e as artes têm sido ao longo do tempo usadas como uma ferramenta de consciencialização e empoderamento das comunidades, por exemplo nos trabalhos de Augusto Boal, como o teatro do oprimido, associados à pedagogia de Paulo Freire”. Esclarece que “é esse mesmo dom que queremos utilizar como ferramenta inovadora e poderosa para envolver as comunidades na gestão de fogo”, à qual acresce ainda “uma dimensão de entretenimento e valorização da cultura local, que são igualmente valiosas”.

As estruturas artísticas das regiões selecionadas pela Agência para integrar o projeto “Não Brinques com o Fogo” compreenderam a urgência da temática e o papel preponderante que podem assumir na passagem da mensagem. Ao todo foram rececionadas 6 candidaturas ao AVISO #1 e 15 candidaturas ao AVISO #2. O número de participações não excede as expectativas, contudo, é a qualidade artística das propostas que é destacada por António Patrão. “A entrega e entusiasmo subjacentes à construção artística demonstram ainda, para além da capacidade intelectual e artística existente, um sentir de contributo para uma causa tão importante como é a dos incêndios rurais e sustentabilidade do planeta.” 

Suzana Menezes, Diretora Regional da Cultura do Centro, partilha da opinião apresentada por António Patrão. “Muito para além dos números, o que do nosso ponto de vista é, de facto, muito relevante é a grande qualidade artística e estética da maioria das propostas e das redes e consórcios artísticos desenvolvidos e o significativo potencial de sensibilização destas propostas para a problemática dos incêndios, que evidenciou, se dúvidas houvesse, e não havia da nossa parte, a elevada capacidade e qualidade de trabalho, de criação e de produção das estruturas culturais e artísticas do nosso país”, afirma.

No caso da Região Centro, a região com o maior número de freguesias identificadas pela AGIF para explorar esta metodologia de trabalho, foram apresentadas cinco candidaturas ao AVISO #1 e oito ao AVISO #2. De acordo com a Diretora Regional da Cultura do Centro, o desafio lançado pela AGIF aos agentes culturais mostra-se estratégico na medida em que “os artistas têm a sensibilidade para identificar esses temas e para os proporem sob a forma de espetáculos, performances, workshops ou quaisquer outras intervenções artísticas, levando o seu público ao confronto ou, pelo menos à inquietação e ao questionamento”.

As propostas vencedoras já subiram a palco

À semelhança da Direção Regional da Cultura do Centro, onde foram aprovados os projetos “Eu sou a minha terra” da autoria do grupo Partículas Soltas – Associação Juvenil, de Penacova (AVISO #1), e “Sob a terra” da Associação Leirena de Cultura, Leirena Teatro, de Leiria (AVISO #2), também as outras três DRC envolvidas tiveram projetos aprovados. Assim, do Centro subimos até ao Norte com o projeto da Associação Astro Fingido. 

Fernando Moreira e Angela Marques são os diretores artísticos do equipamento cultural que viu a sua proposta aprovada no âmbito do AVISO #2, nas freguesias de Gondomar e Paredes. As candidaturas a este aviso exigiam um consórcio, tendo a Astro Fingido cooperado com a Mandrágora Teatro e Marionetas, a academia de dança InDance, com a Jangada Teatro e com o Bando das Gaitas, com quem haviam colaborado noutros projetos profissionais. 

Banner “Terra Queimada”

O espetáculo “Terra Queimada” estreou no dia 26 de setembro, tendo-se repetido nos dias 27 de setembro e 3 de outubro. De acordo com a direção artística da Associação, “pela reação do público presente, assim como das entidades responsáveis, ficamos cientes de que esta abordagem colhe maior impacto sobre a população a que se dirige, menos disponível para sessões de esclarecimento ou para a leitura da legislação aplicável, ainda que simplificada”. Falam em ativismo artístico como a chave para questões como os fogos florestais, alterações climáticas ou património: “Acreditamos que a mudança de comportamentos e mentalidades é um trabalho hercúleo que deve ser feito em parceria: arte e educação”. O grupo de mais de 30 artistas envolvidos na concepção e apresentação do espetáculo gostavam agora de “circular com “Terra Queimada” pelo país, levando este alerta sobre as precauções com o fogo a outros concelhos/freguesias onde ele é necessário”, afirmam Fernando Moreira e Angela Marques.

Apesar de até ao momento não estarem previstas outras apresentações da Astro Fingido no âmbito do projeto, noutros pontos do país, a iniciativa foi também bem recebida mais a Sul. No Algarve, a ARCA – Associação Recreativa e Cultural do Algarve, em consórcio com a ACREMS – Associação Cultural e Recreativa Escola de Música Sambrazense, a Junta de Freguesia de São Brás de Alportel e Município de São Brás de Alportel, foi a vencedora do AVISO #2. “O Homem do Fogo” foi o espetáculo multidisciplinar apresentado, que se distinguiu pela “integração de jovens músicos locais, o conhecimento do território onde iríamos intervir, a utilização da animação de areia, uma forma artística pouco comum entre nós e a forma como a mensagem seria transmitida: a utilização de contos tradicionais”, bem como pela narração oral, “uma arte ancestral através da qual sempre se conseguiu chegar ao coração das pessoas e compreender o mundo que nos rodeia de uma forma lúdica”, explica Fernando Guerreiro, o narrador e responsável pelo projeto.

Fotografia de Jorge Gomes – Click Time Photo

Para Fernando Guerreiro, “o frenesim dos dias de hoje faz com que sejamos bombardeados com todo o tipo de informação que não temos capacidade para processar, digerir e refletir”, sendo cada vez mais raro tempo e espaço para reflexão. Assim, acredita que “estarmos presentes em frente a uma obra de arte faz com que fique sempre algo connosco”. Para além do tempo de reflexão partilhado junto do público, que esgotou a estreia do espetáculo, o responsável pelo projeto aprovado na Região do Algarve, acredita que esta “foi também uma oportunidade de mostrar que São Brás de Alportel não se resume apenas a formas de expressão artística mais tradicionais, que o público está com vontade em descobrir novas formas de arte e que é possível a partir de territórios mais periféricos criar uma produção cultural de qualidade, atrair novos públicos e passar de ser apenas um território importador para o papel exportador de arte”.

Os espetáculos “Eu sou a minha Terra”, “Terra Queimada” e “O Homem do Fogo” foram os três aprovados no âmbito do AVISO #2, pelas Direções Regionais da Cultura do Centro, Norte e Algarve, respetivamente. Já no Alentejo, foi a Associação Cultural Panóplia quem viu o seu projeto aprovado, desta feita no âmbito do AVISO #1, destinado a Ações de Capacitação das Comunidades por via das artes performativas. “Cantares e Saberes” foi o tema da apresentação levada a cabo no passado dia 29 de agosto, no Gavião. A responsável pela candidatura Beatriz Cristóvão considera “interessante procurarem por novos projetos que dinamizem estas mensagens de sensibilização”, ao mesmo tempo que se explora “arte e cultura de forma educativa”. Revela que este foi “o primeiro contacto da Panóplia com a DRCAlentejo”, tendo sido igualmente o primeiro contacto da Associação com entidades públicas, o que revelou “uma boa forma de entender como funcionava o trabalho nesse ramo”.

Fotografia cedida pela Panóplia

Nas atividades levadas a cabo, a Panóplia procurou “imortalizar a mensagem de prevenção, não só pela imagem resultante do workshop, que hoje alegra uma parede de Gavião, mas também através de uma boa experiência e vivência para os participantes, que fizeram parte do processo artístico”.

A monitorização e continuidade do projeto estão em cima da mesa

As apresentações dos projetos continuam até dia 18 de outubro de 2020, pelo menos na Região Centro. Até ao momento, e de acordo com António Patrão, “criou-se uma sinergia positiva entre os parceiros envolvidos”, pelo que poderá estar em cima da mesa a continuidade do projeto: “parece clara a vontade de dar continuidade ao projeto podendo mesmo alargar-se o seu alcance a outras entidades, como as câmaras municipais”, afirma.

A possibilidade de continuidade passa antes de mais pela monitorização do impacto na modificação dos comportamentos de risco associados aos incêndios rurais, bem como numa monitorização científica, que, segundo do técnico da AGIF “decorre de uma abordagem mista, que envolve métodos de análise qualitativos e quantitativos e integra ainda a elaboração de uma dissertação de mestrado e uma tese de doutoramento”.

No contexto das Direções Regionais da Cultura, Suzana Menezes esclarece que “foi preparado, entre as Direções Regionais de Cultura e a AGIF, um questionário que é realizado no final de cada ação, através do qual se pretende perceber o modo como a mensagem foi veiculada e percecionada pelo público”. A partir dos resultados e da respetiva análise poderão “perceber a eficácia desta metodologia experimental e, bem assim, identificarmos ajustamentos futuros”, afirma. No que respeita à Direção Regional da Cultura do Centro, “esta é, sem dúvida, uma área da maior importância social para a Região Centro pelo que nos mantemos totalmente empenhados em dar continuidade a este projeto e, se possível, a aprofundá-lo”, explica Suzana Menezes. Quanto aos agentes culturais que apresentaram candidatura mas que não viram as suas propostas aprovadas, a Diretora Regional garante que o o Gabinete de Apoio aos Agentes Culturais (GAAC), criado no presente ano, tem mapeados todos os projetos e estruturas artísticas e que estes “integram já a nossa rede de trabalho no âmbito do GAAC e de quaisquer projetos que possam vir a ser desenvolvidos”.

“É fundamental repensar a forma como os apoios, sempre escassos, são distribuídos e garantir que existe um crescimento homogéneo por todo o território e assim ajudar a florescer todas as ideias que existem espalhadas pelo país. É cada vez mais notório o estado assimétrico com que o nosso país cresce ao nível do sector cultural. Há que encontrar formas de levar a arte às pessoas que se encontram longe dos grandes centros urbanos e que estas tenham a possibilidade de assistir a novas linguagens artísticas que não sejam apenas a que nos chega através da televisão ou, cada vez mais, da Internet”, remata Fernando Guerreiro da associação ARCA. Segundo Beatriz Cristóvão, “este tipo de iniciativas é muito importante para as estruturas artísticas locais porque desafiam a apostar em áreas que, provavelmente, muitas não tinham considerado”. É o caso da Astro Fingido para quem “abordar a temática dos fogos florestais foi novidade”, ainda que “há muito que refletimos sobre temas que mereciam mais desenvolvimento artístico, como a indigência, a violência no namoro ou o abandono na velhice”.

Os representantes das organizações são unânimes ao considerar que este foi um projeto bem sucedido. Nas palavras de António Patrão, a construção de comunidades mais preparadas e conscientes desta problemática “será alcançável pela exigência e comprometimento dos atores, pela a proatividade e participação das comunidades e pelo estabelecimento de relações de confiança entre pessoas e entidades, o que não se consegue sem a coerência dos programas e sua continuidade no tempo”.


“Arde a vida morre e cai ao chão, 
Sobram cinzas cheira a solidão,
Escreve o mundo assim, a cada verão
Negro destino a cor de carvão

Perdi tudo aquilo que ergui,
Foi no mesmo dia que morri
E os abraços que, ficaram por dar
Não há agua que o possa apagar

Mas juntos vamos vencer este mal
Lutar pelo património florestal
Atento à prevenção, planto por minha mão
E o verde vai voltar a ser postal.

Quero ver o meu filho crescer
Sem medo de ver o mundo arder
Mas só com união, trabalho e formação
Podemos esta terra proteger.

Mas juntos vamos vencer este mal
Lutar pelo património florestal
Atento à prevenção, planto por minha mão
E o verde vai voltar a ser postal.”

Original de Pedro Vicente, apresentado durante a performance “Cantares e Saberes” da Associação Cultural Panóplia

Fotografia de “Cantares e Saberes” cedida por Panóplia
Texto de Bárbara Dixe Ramos