Duas mulheres

Sentiríamos as mãos dadas senão fosse real
Despedíamo-nos das memórias dos primos e casados
Solenemente jurávamos cumprimentos entre animais
Afogaríamos a alma dos jovens insolentes
Passaríamos fome com pais indispostos de nós
Matar-nos-iam por não vivermos como eles desejam
Arriscamos a vida na igreja
Desejamos o mar, a terra, o céu como os tais
Não seria mais fácil?
Como fazem sexo perguntaram-me
O que é isso se o amor não couber
Desejo momentâneo que nos libertam o sabor
O que comemos é liberdade de pintar paredes com sorrisos furiosos
Não me rendo ao ódio de outros
Ao desprezo e infortuno de colocar no papel do anémico
Todo o animal nasce forte
E todos o querem matar

Raquel Batista, “Duas Mulheres” em Moça Limpa, Matéria Suja, 2020

Raquel Batista, a autora, a jornalista e a aficionada pela literatura. As letras sempre a acompanharam.
Depois de passar pela Universidade Lusófona do Porto, a jovem fez uma Pós-Graduação em Relações Internacionais e teve o seu primeiro contacto com o Jornalismo no Diário de Notícias, onde estagiou durante cerca de um ano.

Hoje, escreve críticas literárias para a revista Intro, de forma não assídua mas dedicada, e a Ciência Política, área em que está a realizar o seu Mestrado, também a acompanha.

Crente na necessidade de pensar o mundo, as suas fragilidades e desigualdades, a jovem esteve à conversa com o Gerador, onde nos falou sobre a reflexão de uma mulher que crê “na subjeção e nas críticas que vangloriam a sujidade da matéria universal onde todos temos o direito de sonhar.”

Gerador (G.) – O Moça Limpa, Matéria Suja, lançado em novembro do ano passado, é o teu primeiro livro. É através deste conjunto de textos, em jeito de poema difundido com a prosa, que nos revelas o teu olhar sobre o mundo. De que forma é que nasce esta necessidade de falar sobre ele, sobre ti e a escrita?

Raquel Batista (R.B.) – A necessidade de falar sobre o mundo da forma como o vi para este livro nasceu duma fonte de sentimentos que queriam mostrar um largo desconforto com o mundo, mas que estavam de alguma forma disfarçados. Há em mim, enquanto jovem, uma espécie de necessidade de libertar e acordar o mundo para algo que não é aceitável, que é a despreocupação pelo outro. A escrita é um caminho que decidi seguir para falar sobre algumas preocupações, mas esta é a principal.

(G.) – Na apresentação do livro referes que “A escrita para além do movimento corporal que me dá substância para alma se nutrir serve de exploração entre mares que só passam de elos entre fronteiras que no meu livro nunca existiram”. Sentes que as palavras te permitem sonhar e, através da sua pluralidade, te concretizam?

(R.B.) – Sim, dou por mim a perder-me no meio de desconstruções de palavras, e a refletir como qual será o impacto de uma palavra para alguém, isso já é sonhar e concretizar o pensamento. Mas muitas vezes utilizá-las é insuficiente, os livros, como em muitas situações do mundo tem consequências assustadoras. Por muitas trocas de palavras que se possam fazer, há palavras que não têm definições corretas.

(G.) – O processo entre a ideia de escrever o livro e passá-lo para o papel foi algo imediato?

(R.B.) – Não, nunca foi. Escrevia muito escondida ao longo dos anos, guardava cadernos e blocos em sítios remotos do meu quarto por medo que um dedo mais curioso fosse lá espreitar. Acho que sempre tive muito medo de mostrar as minhas ideias por causa de opiniões já formadas. Com o passar dos anos e somei a necessidade de desprezar esse sentimento que ocupa o tempo de tanta gente e pensei que aquilo que escrevia podia ser útil para alguém em algum momento. O que está no livro foi selecionado no meio de muita matéria e contam uma história de página a página.

(G.) – Ao longo do livro abordas questões como a fragilidade, a autodescoberta, emoções e realidades. Estes temas foram também uma autodescoberta para ti?

(R.B.) – Claro, sem dúvida, foram aliás um alicerce para apaziguar algumas ideias difusas na minha mente. A autodescoberta traz consigo a fragilidade e isso é desconcertante. Por isso é que sinto uma estranheza muito grande quando vejo vidas muito felizes e apaziguadoras. Perante a nossa realidade e realidades vizinhas chega a ser muito injusto ser-se muito feliz.

Raquel Batista, autora do livro

(G.) – Tendo em conta a tua arte de escrever, acreditas que é também um meio pelo qual pretendes consciencializar quem lê os teus textos, pelo menos no que toca à exploração das suas fragilidades, de falar sobre elas assim como falam sobre memórias?

(R.B.) – As memórias são o ingrediente chave para compreender o agora. O processo de ir procurá-las pode ser muito reconfortante, outras vezes nem tanto, penso que seja algo muito importante de se fazer. E expor fragilidades é cada vez menos comum porque o mundo vive numa ingenuidade global de que é possível escondê-las atrás dos meios a que temos acesso, mas num momento qualquer a realidade vem à superfície.

(G.) – Durante o livro falas sobre a vida e a sua perda. No último texto que escreves abordas a morte e a solitude. Interessante é também perceber a forma como a relacionas com o “doar-te” às flores, à ciência e ao “deixem de mim em cada parte”. Esta relação está também ligada à presença e à importância da vitalidade de cada um de nós, ao viver em sociedade, quase como uma cura?

(R.B.) – Por mais que possa parecer que não estamos em toda a parte, acredito que estejamos. Por que vivemos e tudo tem impacto em nós, mas quase nunca temos grande consciência. As flores mais do que um ser são um símbolo de amor. O corpo também o é e a última página resume a ligação de todas as coisas, de todos os seres. E a união disso, de alguma forma, pode ser uma cura em grandes dimensões.

(G.) – Este livro poderá ser também um livro de memórias com a cura que tu procuravas?

(R.B.) – Não creio que haja cura para as desigualdades se as pessoas não tiverem dispostas a acabar com elas. O livro não fala de outra coisa se não de relações desiguais sobre muitos ângulos.

(G.) – Curiosamente, sempre estiveste ligada à Comunicação e à Literatura. Manténs algumas referências literárias desde o momento em que a tua relação com a escrita nasceu? Em que momento te ligaste a elas?

(R.B.) – Sim, mantenho uma ligação muito íntima e viva com Florbella Espanca desde muito cedo, ela viveu em Matosinhos, onde eu cresci, e ao longo da minha educação o trabalho dela sempre esteve muito presente. Lembro-me muito bem depois de uma semana de leituras intensivas dos seus poemas de fazer uma visita de estudo à última casa onde viveu e do que senti naquele lugar. Há um ano regressei lá e a casa estava à venda, é uma pena. Mas para além dela servem-me de referências Ary dos Santos, Eugénio de Andrade, Natália Correia, Hilda Hilst, Mario Vargas Llosa.

(G.) – Olhando a longo prazo, acreditas que a Literatura poderá ser o refúgio, a educação e a liberdade que as sociedades recusam adquirir de outras formas?

(R.B.) – Acredito que a Literatura possa ser uma maravilhosa forma de cuidar o mundo. Agora, há pessoas dentro de sociedades que nunca tiveram a oportunidade de olhar para a literatura. E isso é terrível e eu sinto-me impotente no que toca a isso.

(G.) – Quais são os próximos passos a dar com a Raquel, a “mulher, ocidental, desbocada e pouco formal” que crê “na subjeção e nas críticas que vangloriam a sujidade da matéria universal onde todos temos o direito de sonhar”?

(R.B.) – O próximo passo é continuar a ler o mundo sobre a poesia e a prosa. O jornalismo e a escrita aparecem por si.

Texto de Patrícia Silva
Fotografias da cortesia de Raquel Batista

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