Retomei na semana que passou uma atividade que havia interrompido há, sensivelmente, meia década: dar aulas.

Embora nunca tenha sido a minha atividade principal desde que iniciei o meu percurso profissional, lecionar é, para mim, uma atividade que não é supletiva, mas complementar.  Primeiro, porque representa um espaço de reflexão que raramente conseguimos quando exercemos funções executivas; segundo, porque me permite entrar em contacto com novas gerações de futuros profissionais, quando, já o tenho afirmado diversas vezes, existe em Portugal uma necessidade crescente de quadros qualificados com uma formação sólida nesta área.

Por isso, enfrentei a nova tarefa com entusiasmo, preparando e planificando progressivamente as minhas intervenções ao longo de um semestre.

Mas as responsabilidades da tarefa, nestes tempos excecionais, são apenas uma parte  do que há a enfrentar quando queremos transmitir conhecimento.

Cheguei ao campus numa segunda feira de manhã e esperava-me um silêncio inusitado. O ritual e as regras alastraram pelo espaço onde outrora assistíamos a explosões de liberdade, que regeneravam e alternavam com os períodos formais exigidos nos necesários momentos em que se busca o entendimento e a escuta.

Hoje vivemos mais e mais num espaço normalizado, acético, onde os corpos se autoencalusuram e as vozes perdem projeção, contorno e vida.

Tudo parece flutuar num cenário, em que o real é adiado em nome de um virtual que não é presente, nem representa futuro. Um não lugar, um não tempo! Godot ronda perto!

Finalmente a sala de aula, a identidade restrita ao olhar. Falar, estruturar um discurso, respirar é difícil quando tentamos em três horas interessar e interessarmo-nos, quando lutamos para não desistir, quando voz e discurso já não coincidem.

O silêncio triste e acabrunhado tomou lugar preponderante. O diálogo é difícil, o alheamento ou a divagação são caminhos compreensíveis e legítimos.

Atuo de pé. Noutros tempos falar, refletir, estruturar eram indissociáveis de uma deslocação pela sala, tentando envolver, aproximar, entusiasmar. Era essa a performance hoje impensável; somos átomos equidistantes mantidos nos seus eternos trilhos pela força magnética do medo.

Pretendo quebrar o gelo, iniciar o jogo da cumplicidade, alternar ironia e humor, seriedade e expectativa. Como fazê-lo numa relação sem rosto, numa comunidade sem rostos?

Tenho a nostalgia de ruído e inquietude, procuro a irreverência e encontro irrelevância no que faço, no que pretendo representar, no que sou naquele momento.

Desesperado pela ausência de relevo, por encontrar a rugosidade, a irregularidade das coisas reais, viro-me para o quadro, tento inscrever, gravar, eternizar! A superfície é branca e a ponta de feltro devolve-me irrealidade.

Bruscamente, assalta-me a saudade do quadro negro, onde outrora rasgávamos em branco pensamento, ideias, evocações, citações, afirmadas no jogo do contraste. Ardósia e giz, fricção de dois minerais desafiando a reflexão e a memória.

Ensurdecido de silêncio, uma vez mais, duvido, volto-me, abafo…. e decido fazer o intervalo!

Nota: Na última crónica que publiquei há 15 dias, afirmava que o número 17 da Revista Sinais de Cena, onde foi originalmente o meu texto “Testemunho de uma Vida Invulgar”, teria a data de 22/08/2020 quando efetivamente a data correta da edição é 22/08/2012. Pelo lapso, apresento aqui as minhas sinceras desculpas.

-Sobre Miguel Honrado-

Licenciado em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Curadoria e Organização de Exposições pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa/ Fundação Calouste Gulbenkian, exerce, desde 1989, a sua atividade nos domínios da produção e gestão cultural. O seu percurso profissional passou, nomeadamente, pela direção artística do Teatro Viriato (2003-2006), por ser membro do Conselho Consultivo do Programa Gulbenkian Educação para a Cultura e Ciência – Descobrir (2012), pela presidência do Conselho de Administração da EGEAC (2007-2014), ou a presidência do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II (2014-2016). De 2016 a 2018 foi Secretário de Estado da Cultura. Posteriormente, foi nomeado vogal do Conselho de Administração do Centro Cultural de Belém. Hoje, é o diretor executivo da Associação Música, Educação e Cultura (AMEC), que tutela a Orquestra Metropolitana de Lisboa e três escolas de música.

Texto de Miguel Honrado
Fotografia de Estelle Valente
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