Estética, artistas emergentes, diferentes formatos de edição e a necessidade inimputável de liberdade artística: estes são, desde logo, elementos fundamentais que caracterizam atualmente as editoras de música independentes em Portugal. E muito embora o fenómeno não seja propriamente novo — com um rastilho que começa ainda na década de 80 — a verdade é que nos últimos anos são estes projetos que nos têm apresentado novos artistas, introduzindo-nos igualmente a géneros musicais que não estavam, aparentemente, tão presentes nos ouvidos nacionais.

Por outro lado, outro dos aspectos que importa salientar na caracterização deste panorama é o facto destas novas editoras terem conseguido manter um equilíbrio entre a tendência do digital — nomeadamente na utilização de plataformas de streaming — e as edições físicas que editam. Aqui deve destacar-se, por exemplo, o vinil, que parece ter ganho uma nova vida, mas também as cassetes (noutra forma de revivalismo), o CD-Rom, assim como outros formatos como o USB, que hoje entram na mesma dimensão de resistência que marcam estas editoras,  como forma de irem ao encontro dos interesses comerciais que o mercado exige.

No fecho desta Semana Temática em torno das editoras de música independentes, partindo da reportagem “No universo das editoras independentes, a resistência faz-se pela edição”, publicada na Revista Gerador 32, destacamos, então, algumas das editoras com quem fomos conversar, neste caso a Capital Decay, a Discos de Platão, a Monster Jinx e a ZABRA.

Capital Decay, Lisboa
A Capital Decay arrancou em 2019 com os seus primeiros lançamentos, dos produtores Hangloser e Kara Konchar, tendo este ano marcado o seu terceiro lançamento com o longa-duração Scorpio Rising, de VOLSK. A jovem editora lisboeta tem dedicado o seu catálogo à edição de música eletrónica experimental, não sendo caso único por aquilo que se tem visto nos últimos anos.

Para além de disponibilizarem os seus lançamentos através do Bandcamp, a Capital Decay tem apostado igualmente na edição física em que, até agora, o CD foi o formato privilegiado por ser o mais acessível financeiramente, permitindo não só uma primeira edição como “financiar as restantes de forma sustentável”. “Este formato é-nos querido desde miúdos e ainda hoje é muito usado por nós, em contextos tão simples como ouvir discos em night rides no carro”, explicam, acrescentando que, em relação à imagética, a mesma encontra inspiração “na cena urbana, suja e perversa de Lisboa”, que se interliga com um tom humorístico sempre presente.

Optando por edições com um número reduzido de cópias, os responsáveis olham para o atual panorama de forma positiva, uma vez “que se vai renovando ao longo do tempo, ganhando novas formas, explorando outros géneros e trabalhando com diferentes mediums”. Por outro lado, defendem, é preciso manter uma postura relativa aos limites que definem estes projetos editoriais: “é suposto que o underground se apoie mutuamente e a ideia da sua total mercantilização é algo de que nos queremos afastar. A reinvenção é intrínseca ao passar do tempo e preferimos acreditar que não é motivada pelo capital”, sustentam.

Discos de Platão, Guimarães
No conjunto destas editoras, a Discos de Platão é a mais recente. A editora de Guimarães surgiu este ano e logo com o lançamento de trabalhos de Dada Garbeck e Unsafe Space Garden. Mais do que uma estética, sublinham, as edições não estão tão subordinadas a um formato em específico, mas ao valor de verdade que certo projeto musical possa emanar.

“Procuramos que um dado projeto emane um valor de verdade que nos seja percetível. Se nós possuímos algum direito de presumir o que a verdade seja, provavelmente não, mas trabalhamos sempre um lado que subjaz a edição, que nos permite, pelo menos, encontrar pontos em comum com aquela tal coisa indescritível, mas minimamente articulável presente em certos artistas”, realçam.

Quanto ao fenómeno de aparecimento de novas editoras, acreditam que o mesmo surge, em parte, “como resposta ao rápido crescimento da música em Portugal, assim como à facilidade de aceder a meios que possibilitem o registo de ideias musicais/canções”, sendo que cada projeto deve estar atento a estas mutações. “A melhor forma de nos reinventarmos e encontrar formas de dizer exatamente a mesma coisa, mudando o meio, que é a mensagem, descobrir porque é que a tal coisa nunca se esgota, e de que mais maneiras a podemos compreender e partilhar com o mundo”, realçam.

Monster Jinx, Porto
Em 2018, celebraram dez anos e nem por isso se demoveram do caminho traçado. Facto é que a editora do Porto tem feito crescer o seu catálogo, ao qual este ano já se juntaram duas bandas, os Don Pie Pie e os Mazarin, assim como o produtor Vasco Completo. De qualquer das formas, a “turmas roxa” — como também são conhecidos — dispensa apresentações, colecionando edições de artistas como SlimCutz, Maria, J-K, M.A.F., E.A.R.L.

Embora o percurso da Monster Jinx siga um padrão diferente, uma vez que no início decidiram avançar apenas no digital. No entanto, e devido a um indissociável grau de identificação, rapidamente chegaram ao vinil e às cassetes, mas com espaço para irem mais longe. “Temos tentado navegar nos formatos que, apesar de estarem associados à música, não têm de conter música. Por exemplo, o álbum do J-K, Contos de Espadas, foi editado em conjunto com um livro de poesia, que, não contendo as letras das músicas, continha aliterações e pequenas alterações às mesmas”, sustenta o produtor Darksunn.

O produtor sente que muito do panorama que se observa atualmente está relacionado não só com a maior facilidade de se produzir música, mas também pelos estilos que eram de nicho em Portugal e que passaram a ser consumidos por um público mainstream, nomeadamente o hip hop. Ainda assim, e mesmo entrando neste domínio, há vantagens em ser-se “indie” face às majors, desde logo pela flexibilidade. “Consegues seguir uma nova plataforma de distribuição, fazer uma tiragem pequena de algum produto físico/merch, tens muito menos intermediários, tens uma possibilidade de seres equitativo com os teus artistas. Isso e editares música em que acreditas. Este último ponto é o mais fulcral de todos”, sublinha.

ZABRA, Lisboa
No caso da ZABRA,  label dedicada à música eletrónica e experimental, os formatos mais convencionais não são um fim, muito menos um meio. Desde o princípio que a editora manteve a proposta de abordagem visual: que ganhasse novas formas de materalização.  

“A performance e os visuais foram logo à partida uma marca da editora, desde a questão do negro ser a base presente na imagética como todas as questões e envolvências conceptuais estarem ligada às artes, não respirar exclusivamente da música”, explica João Pedro Fonseca, produtor e artista visual que dá como exemplo a edição em vinil do "Depósito de uma Natureza Activa", que nasceu de uma exposição sua.

Para além do vinil, a ZABRA tem igualmente apostado no formato de cassete, mas também no formato USB case, utilizado para um dos lançamentos mais recentes, Daphne X ZABRA11. “Basicamente, é uma caixa com uma pen drive onde se encontram as músicas, o artwork e os vídeos lá dentro. Todo o objecto tem a capa e contracapa do projecto. É uma abordagem que penso adoptar para a label, pois é bastante interessante para um certo colecionismo — que é a isso que se resume maioritariamente as edições em K7”. 

Tendo em conta estas premissas, João Pedro Fonseca salienta que a “ZABRA procura sobretudo uma constante reinvenção de si mesma, tentar superar-se e distanciar-se do formato convencional de uma editora para dar lugar a uma label experimental e multidisciplinar onde a performance e os visuais são ferramentas para elevar a capacidade criativa a outros níveis”. 

“Estou mais atento a pensar que género de abordagem e conceito vou trabalhar no novo projeto a lançar. Todos eles são especiais e têm uma enorme dedicação. Talvez seja esta a questão que distinga os caminhos independentes dos ditos major: procurar ser o melhor abrigo para determinadas ideias e a criações. Não entrar numa bolha auto-concentrada, mas sim expansiva”, sintetiza.

Um panorama em constante expansão
A Capital Decay, a Discos de Platão, a Monster Jinx e a ZABRA são apenas exemplos de editoras nacionais que ajudam a compor um panorama em constante expansão. Por isso mesmo, importa salientar a ideia de que num mercado tão complexo como o da música, impactado por mudanças incessantes, a reinvenção é, certamente, uma abordagem que cada um deste projetos defende. 

Em todas estas editoras respira-se um ar de permanente busca pela novidade, sendo que o maior desafio é o de não se perder essa curiosidade, tanto no encontro de novo artistas como de novas abordagens para se continuar a editar música.

Ao longo desta semana, falámos-te um pouco mais sobre editoras de música independente, tendo como ponto de partida a reportagem “No universo das editoras independentes, a resistência faz-se pela edição”, publicada na Revista Gerador 32. Sabe mais sobre a Semana Temática das editoras de música independentes, aqui.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves

Se queres ler mais notícias sobre a cultura em Portugal, clica aqui.