Querida avó e querido neto. Assim se saúdam Alice Vieira e Nelson Mateus, autores de Diário de Uma Avó de um Neto. Conhecedores de si mesmos, há cerca de seis anos cruzaram-se e desde então são extensões vivas de personalidades divididas por uns tantos – talvez poucos – anos de vida. Na verdade, não são avó e neto. Ou melhor, são-no, mas de outras avós e de outros netos. 

Ambxs partilham histórias e gostam de as contar. É partindo desse mote que unem as suas palavras para pensar o(s) passado(s) e trazer ao presente as memórias e acontecimentos que não só marcaram a sua vida como a de todxs nós. As experiências de Alice e Nelson não deram só voz a um livro, ou melhor, publicamente, será um volume, mas dentro da gaveta ainda estão muitos textos para se compilar e muitas crónicas para trazer à luz do dia. E a isto alia-se a “Retratos Contados de Alice Vieira”, uma exposição que se dedica a refletir a vida de Alice na Ericeira, naquela que é “a sua pátria” e que estará em exibição até dia 5 de setembro. Momentos pensados em lugares e dias diferentes que, de alguma forma, abraçam a Alice e a celebração da sua vida e memória. 

Contavam-se os minutos para a chamada se iniciar. Alice aceitou o nosso pedido, diretamente de sua casa, na Ericeira. Rapidamente a conversa nos envolveu. Esperávamos por Nelson e, nesses cerca de dez minutos, Alice refletia sobre a exposição e algumas das visitas que se destacavam pelas palavras de pessoas que passavam na Casa da Cultura de Jaime Lobos e Silva, na Ericeira “alguns e algumas surpreendem-se porque (re)descobrem algumas coisas que não conheciam ou se lembram à cerca da minha pessoa. É interessante porque, na verdade, eu sou um livro aberto”. É neste contexto intimista, que ultrapassa a literatura e o jornalismo como profissão, que a exposição caminha. A “amigodependente”, que cumpre todxs os cuidados necessários, vive rodeada de amigxs e família. Partiu de Lisboa e lá ficou. Xs amigxs foram, outros encontraram-se; o filho comprou casa na Ericeira; os netos partem de Chicago diretamente para a Ericeira. Esta é a sua casa e, sem mais demoras, o Nelson juntou-se a nós. 

Alice Vieira comemora 40 anos de escrita do livro Rosa, Minha Irmã Rosa .

A Ericeira. Observar a exposição dedicada a Alice Vieira é “abrir uma janela e respirar a vila”. Já pensada há um ano e uns meses, “na altura que o livro Rosa, Minha Irmã Rosa comemorava os seus quarenta anos”. A história continua e Nelson partilha ainda que os primeiros passos foram dados, no entanto, a realidade pandémica que se aproximava não deu margem para mais, coisa que não foi propriamente o “fim” de uma comemoração. “Como a Alice gosta de comemorar tudo e mais alguma coisa e, este ano, acaba por coincidir com um acontecimento que não poderia passar em branco, os sessenta anos de jornalista, que é aquilo que a Alice nunca deixa de ser, decidimos prosseguir com uma exposição que fosse a fusão dos seus quarenta anos como escritora e sessenta anos como jornalista”. “Tinha de ser na Ericeira.” Era um desejo de Alice, “pois é a sua terra, mas será algo itinerante que pretendemos expandir pelo país”. 

A exposição retrata grande parte da vida e obra de Alice Vieira. Parte de fotografias da sua infância, passa pelos seus longos anos no jornalismo, o momento em que deu os primeiros autógrafos do livro Rosa, Minha Irmã Rosa e chega à capa do seu livro mais recente. Às fotografias de família junta-se ainda uma linha cronológica com os mais de 100 livros que a escritora escreveu. 

Linha cronológica com os mais de 100 livros que a escritora escreveu presente na exposição.

“A Alice é uma mulher de afetos” e, no fundo, é isto que a exposição acaba por mostrar também, não é só a nível profissional, mas sim a mulher que tem sido ao longo da vida e isso, também se faz acompanhar com uma biografia que é distribuída aos visitantes gratuitamente, completa por fotografias e textos que Alice redigiu de propósito para a biografia, que contam a sua história desde a infância até aos dias de hoje”, acrescenta Nelson que além do “neto” é o comissário da exposição do Centro Cultural. 

A Alice. Nasceu em 1943, em Lisboa. Desde 1979 tem vindo a publicar regularmente mais de uma centena de livros. Em 1979, recebeu o Prémio de Literatura Infantil Ano Internacional da Criança com Rosa, Minha Irmã Rosa; em 1994, o Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra. Foi indicada, por duas vezes, como candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen (o mais importante prémio internacional no campo da literatura para crianças e jovens). Alice de sobrenome Vieira é uma das mais importantes escritoras portuguesas para crianças e jovens, tendo ganho grande projeção nacional e internacional. Foi igualmente apresentada por duas vezes, como candidata ao ALMA (Astrid Lindgren Memorial Award). 
Publicou ainda mais de 8 dezenas de livros. Jornalista de profissão, começou neste universo com 18 anos. Esteve no Diário de Lisboa, no Diário Popular (estes dois jornais já não existem) e os últimos 20 anos no Diário de Notícias, além das suas participações assíduas no Semanário SOL, Visão, o Jornal de Mafra e na revista juvenil Audácia, dos Missionários Combonianos.

Jornalista de profissão, começou neste universo com 18 anos.

De Paris partiu para a Ericeira, no final dos anos 60. “Eu e o meu marido não encontrávamos casa em lado nenhum e, como eu já tinha cá estado quando era pequena, questionei: porque não a Ericeira? Já vivi em muitos sítios, conheço isto muito bem”, explica-nos Alice. 
Não estranhou, apenas entranhou. A jornalista, o marido e o filho mais velho que também lá nasceu. Foi então que a palavra “comunidade” lhe fez sentido mais do que nunca, “aqui, toda a gente me conhece e isso é muito bom. O carteiro passa e diz ‘olhe menina Alice, hoje não tenho nada para si.’ Outras vezes tem e deixa lá no bar, porque sabe que lá vou quase todos os dias.” Esta é também uma caraterística que está presente na exposição. A sala que antecede a sala principal é um núcleo introdutório dedicado à Ericeira, completo com fotografias e textos que retratavam a tia que não deixava ir Alice para o Ouriço – que, segundo o que a autora partilha connosco, era uma discoteca que tinha “muita má fama” – mas deixava-a sair com alguém de confiança (que obviamente iam para a tal discoteca). Estes textos não vão acompanhar a exposição pelo país porque têm uma maior proximidade da vila, em particular, sendo doados à câmara municipal. 

Uma Ericeira de Alice. Uma Ericeira de todxs.

Partir em busca de conhecer mais e melhor Alice foi e é um destino aclamado. “Alguns amigos e amigas meus de Lisboa, que me conhecem desde pequena e parte da família veio diretamente de lá para ver a exposição.” Mas Alice admite ainda que “o que eu quero mesmo é que toda a gente que vive aqui (Ericeira) conheça e visite a exposição.”

“É engraçado este efeito que a Alice tem nas pessoas”. Diz-nos Nelson. Há uns anos fizeram umas tertúlias no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e enquanto lá estavam a Alice admitiu que algumas daquelas pessoas vieram diretamente de Castelo Branco. “Não é um lugar propriamente próximo e é curioso como as pessoas partem e veem para conhecer.”

“É engraçado este efeito que a Alice tem nas pessoas”. - Nelson Mateus, fotografia de Sandra Ventura

Por entre as palavras que contavam as histórias de Alice nas escolas em que trabalhava, e a que ainda hoje se dedica, os emails não cobrem os postais que todxs xs que a acompanhavam esperam. “Agradeciam o email, mas diziam-me que continuavam à espera do postal", admite. Mas a literatura e história de Alice quebra fronteiras e, como tal, tornou-se “quase” universal. “Uma vez, conheci uma senhora que vivia na ilha de Reunion que me escrevia. Ela gostava muito de mim e fomos trocando cartas. Eu mandava-lhe livros e conversávamos muito. Entretanto, o marido dela faleceu e ela foi para um lar. Continuamos em contacto. Até que um dia recebo um email do lar a informarem-me que a senhora tinha falecido durante o sono, tranquilamente. Contaram-me ainda que ela tinha ensinado português a muitos senhores e senhoras que lá estavam para que pudessem ler os meus livros. Dada a situação, pediram-me se podiam ficar com os livros pois queriam formar uma biblioteca, lá”, partilha a escritora connosco. 

Além de memórias, as suas histórias também mudam vidas, foi o caso de uma leitora alemã que depois de ler Flor de Mel agradeceu à escritora por se ter identificado com a história, sendo também um contributo enorme para a mudança. “Eu costumo dizer que a Alice é aquilo que hoje chamam de influencer.” Afirma o curador que rapidamente é interrompido pela jornalista que odeia a palavra, assim como muitos outros adjetivos desnecessários. 

Falar do seu contributo é também passar pela sua influência e reconhecimento nas diferentes gerações. Os títulos dos seus livros não são de todo desconhecidos da avó, da mãe, da filha e da neta, ou do avô, do pai, do filho e do neto. É uma linguagem de todxs para todxs. Até os nomes das personagens que são pessoas reais lhe pertencem.

 

Da costura dos naprons às tecnologias do atual

“Hoje não se tem tempo para nada e naquela altura tinha-se tempo para tudo.” Alice reconhece que com o avanço das tecnologias a importância do trabalho tornou-se cada vez mais imperativa. Além de “passear pelo Louvre através de casa torna-se um paradoxo quando da boa experiência que se retira em presença, vemos os quadros em vida real e estamos distraídos com o telemóvel”, continua Nelson.

“É importante que as pessoas tenham contacto umas com as outras.” E este foi também o mote para que as Filipinas e as suas tertúlias de formassem. É assim que se intitula o grupo de tertúlias composto por amigas de liceu de Alice. Ainda assim, a escritora reconhece que este avanço das videoconferências lhe trouxe experiências inesquecíveis, como é o caso da sua participação numa conferência, numa escola em Nova Iorque. “É claro que isso não substitui a presença das crianças, mas é sempre bom chegar até elas”, reconhece. 

É sobre tempo que também se fala. Assídua com as suas palavras em seis meios de comunicação, Alice acredita que há sempre tempo para fazermos tudo aquilo que realmente queremos e pretendemos. “É no meio de caos que as pessoas se organizam.”

“Antes, ligava-se para as avós para saber como deixar a roupa mais branca. Hoje fazemos uma pesquisa no Google, mas as avós ainda estão lá”, palavras de Nelson que recordam a importância da partilha e dos meios humanos. Trata-se de valorizar e refletir. É esse o propósito do livro que escreveram. 

Diário de Uma Avó de um Neto

Capa do livro

Nasceram crónicas que viajam pelas memórias de Portugal e abordam a valorização dos mais velhos. Por elas se encontram experiências pelo qual Alice passou. Os netos dizem-lhe que conhece muita gente e, por essa mesma razão, as experiências não acabam: “Enquanto jornalista que sou, passei por muitos locais. Antes tínhamos de ir em busca das informações, pois não havia tantos meios como hoje em dia. Estive no Maio de 78, na queda do Muro de Berlim, em Timor... então também tenho muitos amigos e amigas dessas alturas.” 

Este é também um livro pensado para fazer apresentações nas escolas, onde xs mais jovens viajam a um passado não tão distante. O caso de emigrantes retornarem ao seu país, por exemplo, é um tema que Nelson explica, “os emigrantes de hoje, não eram os emigrantes de antigamente que partiam a pé de mala de cartão”. Alice acrescenta ainda que eram denominados como clandestinos, “alguns deles batiam à minha porta, em Lisboa, para me pedirem para dormir lá em casa. Pela manhã, o meu filho costumava-me perguntar se tínhamos hóspedes”.

A importância das cartas e do compromisso, que muitas vezes era combinado numa conversa ou numa chamada que acontecia de semana em semana no café da esquina, é um dos objetivos que ambxs pretendem trazer a palco. 

Não tendo uma relação com a exposição, as coincidências aconteceram. Distantes em tema, o livro e a exposição cruzam-se na importância da memória.     

Um livro que nasceu como um grito de Alice, complementou-se com as histórias que partilhavam e que partiam de situações do presente e se cruzavam com acontecimentos do passado no seu dia-a-dia. Com textos datados, Alice e Nelson escreviam um ao outro. Não existe nada que seja ficcionado. Foi então que as suas crónicas já se faziam ouvir na Visão e no semanário SOL.

A Literatura, agora

Fizemos uma viagem entre as crises, os valores e a importância da literatura nos últimos dois anos, além das últimas décadas. É unânime. Para Alice e Nelson, contar histórias sobre uma pandemia para os mais jovens, não fará sentido, neste momento, porque “todos estamos cansados de ouvir o mesmo”. É altura de escrever mais, sim, de ler mais e de não ausentar a realidade nas personagens, que podem ou não estar relacionadas com os tempos que vivemos, agora. 

Por entre recordações, chegou à memória de Alice um momento de (re)descoberta de um dos seus livros que, agora, voltará a reescrever. 
Já Nelson recorda-nos que é sobre partilha que se fala. Sobre contar histórias. Sobre ouvir e voltar a escrever. 


Texto por Patrícia Silva
Fotografia de Sandra Ventura

Se queres ler mais entrevistas, clica aqui.