O terceiro retrato Moda Lisboa foi escolhido no corrupio do backstage. Faltava pouco tempo para o desfile de IMAUVE, sob a criação criativa da designer de moda Inês de Oliveira. Dentro do cubículo do meio, encobrido por uma cortina branca, estavam as manequins vestidas, a Inês a compor uma ou outra peça e Pedro Aparício a percorrer o espaço com atenção aos últimos detalhes. Findo o desfile, as manequins regressam à sua sala, assim como Pedro e Inês, todos com um sorriso no rosto. É então que Pedro aparece de novo, fora do cubículo. Foi o stylist escolhido pela Inês para este desfile, e o Gerador decidiu conversar com ele.

Começou por trabalhar na Moda Lisboa como voluntário, passando posteriormente pela experiência de trabalhar em backstage. Essa foi a função que lhe abriu a oportunidade de fazer o styling da apresentação oficial, que nos conta continuar a fazer até hoje, somando cerca de um ou dois anos com essa responsabilidade. Nesta edição da Moda Lisboa, surgiu, então, o convite da Inês da IMAUVE para fazer o styling do desfile.

Mas afinal o que faz um stylist? Pedro diz-nos que tudo depende do projeto e trabalho proposto, pois todos têm coisas diferentes que precisam de ser feitas. “Neste caso do desfile, o que aconteceu foi ter uma reunião com a Inês, fui ao ateliê dela, vi a coleção toda ainda em desenho, fizemos algumas alterações ainda em desenho e depois foi acrescentar acessórios.” Conta que o conceito do desfile tinha por base os quadrados do suprematismo, o movimento artístico iniciado pelo pintor Kazimir Malevich em que a pintura é feita com base nas formas geométricas planas. “Por isso, convidei uma colega minha, que é joalheira, para fazer as joias com as formas dos quadros do suprematismo. Ou seja, para tentar integrar na coleção, as peças têm de estar ligadas com esse tema. Não pode ser uma coisa só porque é gira, ou porque me apetece fazer. Tem de haver uma ligação com a coleção.” Conta ainda que Inês queria uma relação com um visual mais desportivo, pelo que optaram por inserir ténis da Fila e, quando as modelos usavam saltos altos, por introduzirem meias. Portanto, o stylist acaba por ser o responsável por juntar as várias peças que compõem um visual final, tendo sempre em conta o conceito da criação por parte do designer.

Pedro Aparício, stylist do desfile IMAUVE da Modal Lisboa 2019

Pedro descreve-nos os seus afazeres desde o momento em que chegou a este terceiro dia da Moda Lisboa. Começou por fazer a prova. Já tinha definido quais as manequins que iam e quando. “Também faço essa parte, ou seja, saber qual é a que vai abrir o desfile e qual é que o fecha, assim como a ordem em que todas as outras entram. Muitas vezes também há trocas de roupa e quando as há também tenho de definir quais são essas trocas.” Porém, revela que quando chegaram ao backstage já tinham tudo definido, restando distribuir a roupa pelas manequins e começar a fazer as provas de roupa. “Também só introduzi os brincos aqui. Optei por só decidir aqui como resultava. Trouxe vários modelos diferentes, com cores diferentes, e aqui fui conjugando consoante os looks. As cores também foram sendo introduzidas nos brincos. Começámos pelo vermelho e na maquilhagem também o fizemos, porque esta tem uma transição. Há azul, amarelo e vermelho. Fui combinando isso também com as transições. Quando fazes a transição dos manequins e da sua roupa, também fazes uma sequência por alguma lógica. Começou mais branco, depois a cor, depois acaba outra vez mais sóbrio.”

Ainda a respirar fundo por ter visto a coleção a deslizar pela passerelle e com sentido de missão cumprida, conta-nos que neste mesmo desfile aconteceu uma história engraçada, “um sapato abriu a meio da passerelle.”

Vê a Moda Lisboa como um evento de extrema importância, “porque é um dos eventos que faz com que, desde stylists, cabeleireiros, ou designers, consigam mostrar o seu lado mais criativo. No mercado de trabalho, existem trabalhos que são muito comerciais e em que não consegues realmente mostrar aquilo que és criativamente. A Moda Lisboa também é muito importante para isso: permitir que a criatividade esteja muito presente, que possas fazer o que quiseres e para os outros também verem o que acontece a partir daí.”

O terceiro dia da Moda Lisboa foi o que expandiu o mapa das passerelles pela cidade de Lisboa. A tarde começou com o de Constança Entrudo no jardim da Mustik Warehouse. Uma hora depois sucederam-se os desfiles de João Magalhães, IMAUVE, David Ferreira, Carlos Gil, Away Tomars, Kolovrat e Luís de Carvalho no Pavilhão Carlos Lopes. A fechar a noite, Ernest W. Baker invadiu a TEM-PLATE. Partimos para o último dia da Moda Lisboa, hoje, dia 10 de março, que promete preencher o Pavilhão Carlos Lopes de criatividade. Começa às 14h30 com o desfile de Nuno Gama e termina com o desfile de Dino Alves, às 22h.

 

Texto de Andreia Monteiro
Fotografias de Matilde Cunha
O Gerador é parceiro da Moda Lisboa

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