Com o coração repartido entre dois países, Portugal e Moçambique, Selma Uamusse prepara-se agora para regressar aos palcos após uma pausa drástica dos concertos ao vivo provocada pela chegada da pandemia a Portugal.

O reencontro entre a tradição moçambicana e o público português acontece já amanhã no ciclo TERRA, no Centro Internacional de Artes José, em Guimarães, pelas 19h00. O objetivo do festival passa por viajar na terra através das artes, cruzando concertos de artistas femininas do Brasil, Moçambique e China. Assim sendo, para a artista este festival simboliza um concretizar de um sonho de “trazer a minha casa a todos que vão ouvir”, já que pode fazer a sua arte de uma forma natural, sem dar “muitas explicações”.

O Gerador esteve à conversa com Selma Uamusse para descobrir mais sobre este regresso às origens. Ao longo desta, a artista “moçambicana” procurou refletir sobre o seu estilo musical, e os seus projetos, e a importância da aposta, no ciclo na programação feminina.

Gerador (G.) – Em 2021, o ciclo TERRA decorre de maio a outubro, cruzando concertos de músicos do Brasil, Moçambique e China. O objetivo é viajar na terra através das artes. Neste caso, és a artista responsável por trazer as raízes moçambicanas até ao Centro Internacional de Artes José, em Guimarães, já, amanhã. Como recebeste este convite? Sentes que este espetáculo representa para ti um regresso a casa, às tuas origens?

Selma Uamusse (S. U.) – É sempre com grande alegria que recebo um convite para fazer um concerto. Neste contexto do Ciclo Terra, acho que ainda é mais especial porque, efetivamente, aquilo que procuro fazer através da minha música, sem esquecer as influências que tem tido o meu percurso em Portugal, tem tido como principal objetivo conhecer a cultura moçambicana. O património cultural moçambicano através dos instrumentos tradicionais que utilizo, através das línguas nativas de Moçambique. Então, sinto-me muito confortável neste ciclo porque se às vezes tenho de explicar o porquê da minha música, neste contexto sinto que é uma oportunidade para me sentir completamente em casa. Não necessariamente por ser um regresso a casa, às minhas origens, que é, mas porque o posso fazer de uma forma natural e sem dar muitas explicações… A arte não tem de ser explicada, mas às vezes como artistas sentimos essa necessidade. Eu principalmente sinto isso por viver em Portugal há muito tempo e por falar em português, ainda assim a maior parte das minhas canções não são em português.

Mas, é uma grande alegria, é uma sensação de estar em casa e ir para casa, e de trazer a minha casa a todos que vão ouvir.

Fotografia disponível via facebook Selma Uamusse

 G. – O ciclo tem, ainda, a particularidade de apresentar uma programação exclusivamente feminina. O que representa para ti esta aposta? Dada a desigualdade de género que tanto se fala, nos dias de hoje, sentes que é mais do que prioritário demonstrar o poder feminino?

S. U. – Acho que esta programação focada no feminino dá sempre uma maior visibilidade a artistas femininas. Acho que é muito importante até porque há muitos músicos no feminino, e sente-se que esses músicos femininos têm menos espaço nas apostas de programação. Fico muito contente com esta aposta e acho que é relevante no sentido de dar a conhecer outras perspetivas no feminino. Não só no poder feminino, que o temos, mas acima de tudo de arte no feminino e tem estado muito em voga a palavra empoderamento e empoderamento feminino. Acho que esse empoderamento deve ser feito em todas as áreas que não têm tido essa oportunidade de mostrar o seu poder. Estou contente por fazer parte desta programação feminina, mas quero fazer parte de várias programações onde há lugar para todos. Essa é a chave.

G. – Refletindo um pouco sobre o início da tua carreira, apesar de já seres artista profissional desde a adolescência só em 2018 é que apresentaste o teu álbum de estreia Mati. Queres nos falar um bocadinho sobre o Mati e sobre o que representa para ti?

S. U. – O meu álbum de estreia custou muito a sair. Comecei a dar concertos em nome próprio já com esta característica de cantar a língua de Moçambique, de utilizar instrumentos tradicionais e de se fazer música de fusão, em 2014, 2015. Portanto, o álbum sai quatro anos depois de dar início a uma sonoridade e a uma forma de fazer música que já estava mais ó menos definida.

O Mati representa para mim um culminar de um trabalho muito bonito, de uma equipa dedicada a fazer corresponder o que vai no meu coração. O Mati é um trabalho de grupo, não é um trabalho individual, centrado no que é a minha visão musical. É um trabalho em que consegui canalizar tudo o que fiz em palco e é uma alegria poder tocar muito o Mati antes de este ser lançado. É um trabalho de uma banda, de uma editora, de uma agência, de um trabalho de um designer, do Ricardo Castro, o homem do saco, enquanto pessoa que fez a capa do disco. É um trabalho de equipa que revela muito sobre mim. Sou uma pessoa de equipa que acredita que a união faz a força. É a representação daquilo que eu creio que pode ser deus em mim e deus nas outras pessoas. Uma forma de nos aproximarmos mais um dos outros através da música. Mati significa água em Xangai, uma ilha do sul de Maputo, e é um prémio de muitos anos de trabalho e de esforço.

G. – O álbum oferece-nos um cruzamento entre a tradição moçambicana e a contemporaneidade. Sentiste que a aposta por este estilo musical foi desde logo bem aceite pelo povo português?

S. U. – Efetivamente oferece um cruzamento entre a tradição moçambicana e a contemporaneidade que era aquilo que eu queria fazer. Eu, sendo ainda muito nova, gosto de vários géneros musicais. Venho de uma história musical muito marcada por várias influências, do gospel ao pop, do soul ao jazz. Então queria ser honesta e trazer toda essa minha influência moçambicana, mas também toda a bagagem da música que fazia, fosse com o Rodrigo Leão ou com o Samuel Úria. 

O que senti em relação à recetividade é que havia muita curiosidade sobre o que ia fazer… Como eu já tinha feito tantas coisas, acho que houve muito a interrogação do que iria fazer enquanto artista a solo. Não sei se houve alguma boa recetividade… Se calhar, em geral, as pessoas preferiam que tivesse feito outras coisas, mas no geral fui muito abraçada pelos programadores, senti que as pessoas ficaram muito surpreendidas em concertos, com o resultado final, mas não havia uma ligação direta. O que fui sentido, sim, é que tive vários contextos diferentes que me ajudaram a chegar ao público. Senti-me muito abraçada, não necessariamente pelas pessoas que me escutam só na rádio, mas pelas pessoas que viam os meus concertos ao vivo e entendiam este abraço meu.

G. – Após dois anos, em 2020, lançaste, ainda, um novo álbum intitulado de Liwoningo que significa luz em chope, língua tradicional de Moçambique. Sendo que 2020 foi o ano da chegada da covid a Portugal sentes que este álbum trouxe uma esperança extra a quem o escutou ou escuta?

S. U. – Lancei no último ano, no meio da pandemia, o Liwoningo e o que senti é que tinha um trabalho feito e esse trabalho precisava de sair porque tinha sido feito com uma sensação de urgência em relação aquilo que era a necessidade das pessoas… Neste caso, de uma esperança, de uma luz nos nossos caminhos. As questões ambientais, guerras de continuam a acontecer, muitos sintomas de indiferença fizeram-me pensar que seria um tempo, de luz, de esperança, de olharmos uns para os outros. Por isso, quando lancei foi mesmo com este intuito de dar esta luz a quem o ouvisse. E, eu acredito que sim! Não tivemos muitos concertos, mas foi um álbum muito bem recebido, com boas críticas, foi um álbum muito cuidado em produção. Acho mesmo que este álbum chegou para trazer esperança, mas ainda tem muito para dar.

G. – Já, agora por curiosidade sei que és natural de Moçambique, mas cresceste em Portugal desde os 6 anos. Neste caso estabeleceste carreira musical em Portugal, ainda assim se te fosse dada a oportunidade de recomeçares do zero voltarias a escolher este país para iniciar o teu percurso musical?

S. U. – Eu não escolhi Portugal para ser o meu país quando tinha 6 anos, mas sim escolhi Portugal para ser o país onde ia ficar aos 14 anos. Eu vim para Portugal com os meus pais aos 6 anos, e eles, entretanto, foram para Moçambique. Nessa altura, pedi para ficar cá, comecei a viver sozinha muito cedo, com 14 anos, e nessa altura escolhi Portugal porque sabia que era o lugar onde iria concretizar os meus sonhos e onde tinha as minhas pessoas. Portanto, acho que se recomeçasse do zero voltaria a escolher Portugal, não só pela questão da proximidade da língua, mas pela porta, que eu acredito que Portugal é para um avivar de nações. Para um chegar à Europa, à América... Acho que Portugal tem imensas coisas boas.

Fotografia disponível via facebook Selma Uamusse

G. – Relativamente ao ciclo Terra o que as pessoas podem esperar do teu concerto?

S. U. – Estou um bocado nervosa porque há muito tempo que nós não fazemos concertos. O último que fizemos foi no Theatro Circo, em Braga, em novembro de 2020. Estou nervosa porque nunca estive tanto tempo sem dar concertos ao vivo. Fizemos algumas gravações e filmagens, mas é completamente diferente de fazer concertos com pessoas. Mas, damos sempre o nosso melhor… Mesmo com distanciamento vai haver calor humano, vai haver uma mensagem social para tocar os corações. Acho que é isso que podem esperar... Alegria, esperança, momentos de intimismo e as expectativas de que todos possamos sair iluminados e com vontade de fazer algo mais e melhor.

Nós já temos uns quantos concertos marcados, e acho que estamos todos ávidos de cultura, desta troca de amor. Gostava muito que viessem ao concerto, gostava muito que se pudessem envolver com este ciclo, comigo enquanto mulher, enquanto mãe, enquanto crente, enquanto imigrante, tantas coisas....

Nesta diversidade, que também implica individualidade, que também possamos acrescentar uns aos outros e que possamos apoiar a cultura, e que possamos fazer diferença na nossa sociedade no nosso curto espaço que andamos por aqui.

Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível via facebook Selma Uamusse