Não cabe à linguagem – per se –  uma função de justiça, ainda que a sua utilização possa evidenciar-se como forma implícita de a repor. O uso quotidiano da linguagem demonstra muitas vezes como certas palavras e expressões, utilizadas nos diferentes contextos – especialmente nos informais – pode conter traços de um preconceito enraizado que o tempo ajuda a perpetuar. Foi a partir deste pressuposto que nasceu Sem Ofensa, livro que tem como objetivo a desconstrução do discurso preconceituoso que existe em Portugal, e em “bom português”, no qual o prefixo (que aqui lhe dá título) funciona muitas vezes como inibidor de culpa ou até mesmo de normalização. Mas tal como escreve o seu autor, “nunca é tarde para mudar”.

“Até tenho amigos que são”, “nem parece que és africano”, “dou-me bem com todos eles”: mais do que uma vez, estas mesmas expressões ecoam nos diversos lugares, tão escorreitas pelo tempo, que chegam a parecer inofensivas a quem as usa. Voltamos ao princípio: a utilização da linguagem pode repor justiça? Foi justamente o pensar nesta questão que levou Ângelo Delgado a escrever sobre algo que “experienciou na pele”, partindo desse ponto de vista pessoal, onde rapidamente se percebe que o problema é mais abrangente, levando-nos até ao passado colonial do país, bem como ao momento político e social que se vive hoje.

Por outro lado, como forma de expor esse lado negacionista e de conferir uma imagem ainda mais vívida às frases feitas, o autor desafiou a designer Sofia Ayuso a criar ilustrações para o efeito, um “complemento importante que obriga o leitor a rever-se nas suas interações raciais diárias”, explicam.

Ângelo Delgado e Sofia Ayuso

O racismo que começa na oralidade 
O problema do racismo no país não é de agora, muito embora a desconstrução da narrativa colonial portuguesa tenha vindo a ganhar vozes mais diversas nos últimos anos. O seu tratamento tem se dado nas diferentes esferas, sobretudo na académica, mas subsistem problemas que começam, desde logo, nos contextos informais, nomeadamente na oralidade. Neste sentido, motivado pela vontade e necessidade de contribuir para um “debate mais aceso e profundo sobre o assunto”, Ângelo começou a compilar expressões carregadas de preconceito racial na sociedade portuguesa e tantas vezes negadas por quem as verbaliza.

“Não leves a mal, eu até gosto de pretos”, “Para preto, até falas bem!”, “Tu para mim não és preto!” ou “Não sou racista, mas…”: através de um conjunto vasto de expressões, o autor propôs-se ao exercício de tentar demonstrar o porquê das mesmas serem sintomáticas de um problema que é coletivo e bastante mais complexo. “Não querendo ser inovador e nem me querendo comparar a outros autores, quis agarrar em algum diferente, que está presente no quotidiano, na espuma dos dias. Andamos na rua e aquilo que o negro ou a negra ouvem não é discutido. Essas expressões que por um lado são agressivas e racistas mas que por outro são desculpabilizadas por um ‘sem ofensa’ no fim”. 

Para Ângelo, trata-se de um fenómeno que sucede “muitas vezes sem nos darmos conta que está a suceder, em que até se pode não pensar dessa forma ou ter esse mindset, mas que se verbaliza”. Ainda assim, a maldade surge como efeito consequente, havendo ou não essa intenção. “É um conjunto de equívocos que levam à construção e utilização destas expressões”, realça, acrescentando que a maior parte das vezes são sinónimo de ignorância. Por outro lado, evidencia por parte de quem as escuta e nada faz um problema de passividade, que o próprio admite ser também um problema que não lhe é alheio.

“Eu fui muitas vezes passivo e falo a partir do momento em que tenho algum poder de argumentação face à ofensa que me está a ser dirigida, mas considero que essa capacidade de não dar resposta é muitas vezes derivada do facto de estares isolado perante todo um cenário que te remete à inferioridade”, sublinha.

Ainda assim, explica, para se rebater essa mesma passividade, é necessário que o problema seja visto e debatido por todos. “Percebemos que esta é uma questão que está colocada na sociedade, podendo funcionar como um alerta em que todos somos todos veículos de mudança. Este combate faz-se não só partindo dos negros, mas também com os brancos. Tem que haver um trabalho recíproco porque o racismo é uma luta de todos e tem que haver noção que estas expressões existem e que há que as recriminar quando são ouvidas”.

A ilustração como mote para um debate sobre representatividade
No meio deste caminho de reflexão, Ângelo decide lançar o desafio a Sofia para que ilustrasse o livro que dali iria nascer. O objetivo, explica a designer e ilustradora, era o de “ajudar a passar a mensagem”, tendo em conta que o seu conteúdo teria, forçosamente, um certo peso. Numa das suas muitas ilustrações, Sofia retrata um Camões negro a segurar Os Lusíadas, que de forma singela vai ao encontro do prefixo que acompanha o diálogo entre os dois criadores, isto é… sem ofensa.

“Dada a natureza do livro, estas ilustrações servem também para ajudar a tornar a coisa um pouco mais leve. Apesar dos seus textos não serem pesados, o tema em si é e o facto de ter uma ilustração dá-lhe um toque de ironia e de humor”, explica. Mais do que isso, entende, a ilustração no caso do livro acaba por funcionar como forma de dessacralizar o assunto, cujo contexto onde surge é muitas das vezes o da “conversa de esplanada” e das anedotas. 

No caso de Sem Ofensa, a componente visual pode também servir de mote para um debate sobre representatividade – ou falta dela – e que muitas vezes acaba por ajudar a perpetuar o estigma. Sobre este aspeto, Ângelo reflete sobre o aparecimento recente de um pivô negro num canal de televisão nacional e o “alarido” que esse acontecimento provocou. “Esse episódio demonstra o problema que ainda temos, num país que se defende como um dos menos racistas ou como tendo sido um bom colonizador”, sustenta.

As ilustrações de Sofia acompanham os textos de Ângelo ao longo do livro

Do passado colonial ao presente: a necessidade de (re)educação
Tanto para Ângelo como para Sofia a utilização destas expressões é determinada pelo seu uso informal que começa, na maioria das vezes, dentro de casa e no seio familiar. Contudo, são também sintomáticas de um passado colonial que ainda mantém traços na sociedade portuguesa.

“Tens um problema na linguagem que está impregnada porque veio com uma carapaça racista. Tudo isto vem da história portuguesa e do seu passado colonial. Este tipo de expressões colam muito com esse momento onde há claramente uma supremacia e um domínio de poder do branco em relação ao negro, sendo depois cozinhadas na rua e em casa, passando de geração em geração. O problema é que continuam a ter o mesmo significado. Quando nós dizemos «para casar, não!»,  a expressão tem o mesmo significado em 1967, em Lourenço Marques, como tem em 2020, num subúrbio de Lisboa. Isto mostra-nos que tem havido uma negação do racismo ou uma obstrução para o resolver”, sintetiza Ângelo.

Embora não exista uma resposta definitiva para a resolução do problema, ambos acreditam que é na educação informal, mas também formal, que deve residir esse intuito. “Vivemos tempos mais estranhos, em que sinto que se perdeu alguma vergonha que estava, de alguma forma, escondida. Houve momento em que existia ofensa de forma muito direta. Depois essa ofensa deixou de existir tão veemente e  está agora a surgir novamente. Há uma polarização muito grande que já se viu nos Estados Unidos, que se está a ver no Brasil e que está agora a chegar cá, portanto temos aí um combate que vai ser longo e que vai ser duro”, considera o autor.

Por outro lado, Sofia Ayuso salienta que cada um deve entender o seu papel junto desta temática, que não deve ser imparcial. “Não basta que uma pessoa abdique da utilização destas expressões para fazer aquilo que é mais ético. Se isso implica da minha parte ter que repensar o discurso e ter que pôr a mão na consciência então é esse o papel da reeducação ou de desaprendizagem de termos e de frases que estão no nosso vocabulário”, sintetiza.

Em Sem Ofensa, lançado no passado dia 28 de novembro, com chancela da editora Alma Letra, evidencia-se a necessidade de se combater a perpetuação de certas expressões, motivando o seu contínuo desuso. Por outro lado, o livro acompanha igualmente o trabalho que se está a fazer em termos da desconstrução da narrativa colonial, reenquadrando a própria história. Em todo o caso, defendem os autores, é preciso que todos se aliem à causa e sejam verdadeiros “atores de mudança”. Talvez desta forma se possa repor justiça, a começar pela forma como utilizamos a linguagem.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias da cortesia de Ângelo Delgado e Sofia Ayuso

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