“A cerâmica é uma das manifestações do engenho humano que mais têm prendido a atenção do homem. Todo o mundo civilizado tem por essa opulenta arte da forma e da cor o culto que é devido às obras [verdadeiramente significativas, capazes de atingir alta beleza.] Desde o príncipe até à criatura mais humilde, quem lhe não tem dedicado interesse e até amor?”

As palavras com que José Queirós inicia o primeiro capítulo de “Cerâmica Portuguesa e Outros Estudos”, uma das mais relevantes monografias no estudo da cerâmica portuguesa, cuja primeira edição saiu em 1907 editada pelo próprio autor, resumem bem aquilo que a cerâmica representa no nosso país desde o seu aparecimento: é uma arte de todos.

No primeiro capítulo da sua monografia, Queirós sublinha que “na cerâmica se reflete o caráter do povo que a produz: nas suas formas está a poesia de cada nacionalidade, na cor os diferentes aspetos de cada país, pois nos dá ao mesmo tempo conta da policromia dos campos, da intensidade da luz que os ilumina, da alegria ou tristeza dos seus cultivadores. O bem ou o mal-estar do artista, quando trabalha, reflete-se na sua obra, e esse estado de espírito é, quase sempre, produzido pelo meio em que o artista vive”. Remata dizendo que “é assim que uma peça de louça nos sugere toda a influência do meio em que foi fabricada; e o prazer ligado a essa impressão é ainda mais intenso e completo, se o produto alia uma bela forma à arte decorativa”.

De muitos momentos, modas, inovações e mãos se fez a história da cerâmica. Falar sobre toda a sua evolução em Portugal seria uma tarefa hercúlea e digna de uma dissertação mas, para bem iniciar a Semana da Cerâmica, damos-te uma noção breve desta história tão rica.

As formas romanas e a olaria árabe como ponto de partida

 Sobre a origem da cerâmica, José Queirós diz que “a pasta em que foram moldados os primeiros vasos deve ter sido achada casualmente, depois que o homem edificou as primeiras habitações para se abrigar e [depois] que, para as tornar mais confortáveis, se serviu da terra amassada como o indispensável elemento, a água, que a natureza lhe proporcionou e forneceu. Foi, segundo o mesmo autor, no século VIII “que os árabes trouxeram para a Península, onde habitaram mais de seiscentos, a indústria da faiança colorida e translucidamente esmaltada”, que já tinha como inspiração a arte bizantina e persa. Essa influência atravessou séculos de história e continua presente até aos dias de hoje.

As “formas do vasilhame grego e do vasilhame romano” foram também introduzidas “na Península” antes até “da civilização muçulmana”, mantendo-se como influência direta nas criações a que ainda hoje assistimos.  Destas formas “os oleiros peninsulares” partiram para criar as suas, “segundo as exigências da vida doméstica, segundo o progresso produtivo de geração para geração” — partilha no mesmo livro José Queirós.

Para o autor, “a ânfora romana” é “a mãe da esbelta forma de grande número de espéciemes cerâmicos portugueses, cujo porte elegante deleita a vista do esteta”. Quanto à produção de cerâmica, o autor não se admira que esta tenha sido “tão exuberante, em todos os tempos, em Portugal”, “visto o nosso solo ser tão argiloso e abundante de água.”

Século XVIII – o século das fábricas

Já desde a Idade Média que a cerâmica portuguesa se vinha a distinguir; facto que se intensificou no século XV com uma “fase de mais segura fabricação” e no século XVI, não só a faiança mas também o azulejo artístico foram progredindo na técnica e na apreciação. O século XVIII é, no entanto, destacado por José Queirós “não só pelo lado técnico que as faianças e os azulejos desde século” impõem à atenção, mas também “pelas histórias interessantes que então se ligavam à olaria nacional” — “as referências políticas, as alusões patrióticas, as recordações da vida monástica, os versos, as frases amorosas, os dichotes, as galanterias, as palavras e frases relacionadas com o destino da peça, os enigmas”.

Foi também no século XVIII que o papel das fábricas se começou a acentuar. Na sua monografia, José Queirós destaca a Real Fábrica do Rato (Lisboa), a Real Fábrica da Bica do Sapato (Lisboa), a Fábrica Real (Porto), a Real Fábrica do Cavaquinho (Porto), a Rocha Soares Irmãos (Porto), a Brioso (Coimbra), a Real Fábrica de Custódio Ferreira (Braga), a Fábrica Darque (Viana do Castelo), a Fábrica da Viúva Antunes (Estremoz), a Fábrica do Cojo (Aveiro) e a Fábrica do Juncal (Alcobaça).

As fábricas — a que dedicamos amanhã um artigo — reuniam mestres capazes de trabalhar e ensinar às gerações seguintes as artes da olaria, da faiança e do azulejo, sendo capazes de produzir quantidades maiores.

Mesmo com a produção nas fábricas, a produção autónoma não caiu em desuso e foi, com o tempo, ganhando um caracter cada vez mais autoral. De norte a sul do país, a cerâmica ganhou uma importância proporcional, distinguindo-se sobretudo pelos desenhos que lhe aplicava.

No livro “Água Fresca (apontamentos sobre a olaria nacional)”, Emanuel Ribeiro frisa que “cada província tem as suas formas populares” e que “o sul não usa o mesmo processo de decoração que o norte”; além disso, “o homem da planície não podia ter a mesma emotividade do homem da montanha”.

O mestre como autor

De facto, a cerâmica, à semelhança de outros ofícios em Portugal, viveu da passagem de conhecimento intergeracional, muitas vezes dentro da própria família, na base de uma relação entre mestre e aprendiz. Não se sabe, ao certo, quem o começou a praticar; esta ideia é refutada por Luis Chaves n’”Os Barristas Portugueses”, livro publicado pela Universidade de Coimbra em 1925, que inicia com a seguinte frase:

“Quem teria iniciado a arte do barro em Portugal e quando ela foi iniciada como arte autónoma, é coisa que ao certo se não saberá nunca.” 

Ainda que sem uma conotação autoral, começaram a surgir em Portugal figuras em barro associadas a rituais religiosos ou, quase por oposição, que se prendiam a questões políticas e eram extremamente irónicos. Das figuras do presépio ao Zé Povinho, tão bem retratado por Bordalo Pinheiro, as figuras em barro tiveram também uma representação crescente, ainda que atualmente já não se encontrem nas casas portuguesas com tanta frequência, sobretudo nas novas gerações.

Falar do ceramista autor é uma tarefa não muito fácil sobretudo quando se pretende fazer um breve resumo da cerâmica em Portugal. Por esse motivo, optámos por falar um pouco mais sobre uma mulher cujo trabalho rasgou cânones e influenciou novos ceramistas da sua existência em diante: Rosa Ramalho.

Rosa Ramalho, mais do que uma simples ceramista

Natural de S. Martinho de Galegos, Rosa Ramalho nasceu a 14 de agosto 1888 e herdou dos pais o gosto e o jeito pelas artes manuais, sendo a sua mãe tecedeira e o seu pai sapateiro. Rosa rendeu-se ao barro na casa de uma vizinha, ainda em tenra idade.

De acordo com o catálogo da exposição Geração Ramalho, que decorreu no Museu da Olaria, em Barcelos, no ano de 2016, “Ti Rosa” — como os mais próximos lhe chamavam — vendia as figuras de barro que fazia nas feiras, “ao mesmo tempo que entregava as fornadas de milho que o seu marido António transformava nas azenhas do Cávado”.

Apesar de nem sempre concederem ao seu trabalho o nível de excelência que mais tarde viria a ser concedido, foi na Feira de S. João das Fontainhas, no Porto, que o seu fado mudou, após conhecer o professor António Quadros, tinha Rosa 68 anos. Daí em diante começou a receber em sua casa estudantes de Belas Artes “atraídos pela motivação do seu mestre e pela peculiaridade da sua obra”.

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O programa Visita Guiada, da RTP, dedicou a Rosa Ramalho um dos seus episódios

Começa a assinar as suas peças com RR, conferindo-lhes um grau mais autoral e reconhecido em qualquer parte do mundo. Integra mostras e exposições em Portugal e no estrangeiro e atinge um reconhecimento que durante anos não esperava. Segundo o mesmo catálogo, o Estado Novo chega a “apropriar-se do seu nome, da sua imagem e apresenta Rosa como modelo da mulher portuguesa”, “mas a arte de Rosa não se deixa arregimentar”.

Rosa Ramalho passou o seu testemunho a Júlia Ramalho, sua neta, que não só deu continuidade a um legado ceramista na família como foi lutando por manter a memória de sua avó, falecida em setembro de 1977, viva. Seguiram-se a Júlia nesta jornada António e Teresa, seus filhos.

Aquando da publicação do catálogo da exposição que reuniu obras da família Ramalho esperava-se que a casa de Rosa Ramalho se tornasse numa Casa Museu, o que, até à data, não aconteceu.

Para a história da cerâmica em Portugal ficaram as peças de Rosa Ramalho e as estórias que estas contam. Rosa representa a persistência de que se faz a cerâmica, uma arte de tentativa erro e onde a resiliência é uma característica necessária — sobretudo quando se move num ofício maioritariamente executado por homens.

 

Inicia-se hoje a Semana da Cerâmica do Gerador, durante a qual vais podes ler um artigo dedicado a este ofício secular por dia em gerador.eu. A semana da cerâmica, sobre a qual podes saber mais aqui, parte da reportagem “Cerâmica: mais do que um ofício secular, a metáfora perfeita para a vida” integrada na Revista Gerador 27.

Texto de Carolina Franco
Fotografia de Juliet Furst disponível via Unsplash

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