Assim que entramos no Bang Bang Tattoo, o estúdio de tatuagens e piercings que Eduardo e Nazaré Pinela partilham, ouvimos as agulhas a desenhar na pele de alguém uma memória eterna. Do lado de lá do vidro Eduardo tatua esse alguém e Nazaré  dança ao som de uma música de fundo que provavelmente escolheu, do lado de cá há um mundo de elementos que nos deixam entre os tempos dos Capitão Fantasma, banda de Rock’n’Roll que partilharam no final dos anos 80, e que imaginaríamos na sua casa. “Eu adoro este cantinho, faz-me lembrar a minha casa”, confirma Nazaré depois de sair da sala de tatuagens.

A visita ao estúdio que Eduardo e Nazaré partilham em Sintra foi marcada a propósito da reportagem “Para sempre (não) é muito tempo — o corpo como tela da cultura portuguesa”. Sabíamos que para escrever sobre tatuagens tínhamos de conversar com a Nazaré, que não só falou já várias vezes sobre o assunto como se tornou a prova viva de que ter tatuagens não é uma ideia louca da juventude.

Nazaré começou a tatuar-se quando se mudou para Inglaterra, numa altura em que não havia estúdios de tatuagem estabelecidos em Portugal. “Agora as pessoas têm aquela perspetiva de que todo o rockeiro tem tatuagens, mas a realidade era outra. Em Inglaterra havia uma tradição já mais antiga, e por exemplo os condutores de autocarros tinham todos tatuagens, assim como os Teddy Boys. Mas a nível do rockabilly e até mesmo dos punks, não havia grande tradição. Em Portugal não existia mesmo”, conta Nazaré enquanto arranja a saia colorida.

Na altura dos Capitão Fantasma, conta, “ninguém tinha tatuagens e eu tinha porque vinha de Londres. Havia outras pessoas que tinham tatuagens, mas tinham sempre ido fazê-las fora.” Quem não tinha oportunidade de as fazer num lugar seguro, fazia-as em casa “com agulhas e tinta da china”. “Na minha geração há imensos de nós que ou já tapamos ou ainda não, mas que fazíamos essas tatuagens para experimentar e ver se ficava ou não. E ficava, claro”, diz a rir.

É provável que hoje Nazaré Pinela seja um exemplo para quem quer eternizar no corpo as suas histórias, mas na altura em que começou a desenhar no seu corpo não havia grandes referências. “Lembro-me de no Natal os soldados e marinheiros aparecerem com tatuagens, antes do 25 de abril. Se calhar apaixonei-me por alguma dessas pessoas e foi aí que me ficou”, brinca Nazaré.

A pele dos soldados da Guerra Colonial não deixa esconder o que nos acabava de dizer. Hoje os temas e os contextos são diferentes, o acesso a estúdios democratizou-se e uma pele tatuada não é tão associada ao crime como noutros países (ou como foi em tempos em Portugal). “De amor há imensas histórias, e até posso falar de casos que eu conheço. Amores bons e amores maus, e desgostos. Costumo dizer que nós curamos imensas feridas e perpetuamos dores e alegrias.”

Na hora de tatuar pode nem sempre ser evidente que por detrás de um símbolo aparentemente inocente pode estar um significado que seja reconhecível por outras pessoas. “Nunca se deve copiar ou fazer essas tatuagens copiando, porque essas coisas não são brincadeira. E de repente podes deparar-te com uma situação constrangedora e perigosa até. Temos de fazer as nossas próprias tatuagens, mesmo que sejam inspiradas nesses filmes e nessas histórias”, refere.

A baixista dos Capitão Fantasma tem tatuadas “recordações de muitos tatuadores”, de sítios para onde viajou, “dos amores”: “a minha mãe, os meus filhos, o Rock’n’Roll”. Conta-nos abertamente que vê sentido em tatuar momentos que façam parte da sua vida e que a sua última tatuagem, à data do nosso encontro, tinha sido dedicada ao Daniel Johnston, cantor recentemente falecido.

Tal como contou ao Gerador, muitas pessoas lhe contam porque é que se tatuam. “Isto mudou quando começou aquele programa do Miami Ink. Antes ninguém dizia porque é que ia fazer tatuagens. Eu há 30 anos que trabalho em tatuagens e ninguém contava a história. Depois daquele programa comecei a ouvir as histórias — e não me aborrece, porque isto funciona também como psicologia e muitas pessoas vêm aqui como eu disse para curar certas coisas, umas com grandes alegrias e outras com grandes desgostos”.

A programas como o Miami Ink, Nazaré consegue apontar prós e contras. “Esses programas a nível de abertura e aceitação funcionaram bem para o nosso lado, mas por outro lado popularizaram e banalizaram a tatuagem de uma maneira que não era. E como era um programa de televisão criavam histórias que muitas vezes eram feitas. Eu faço algumas tatuagens só porque me apetece, porque na verdade é uma decoração. Porque é que eu tenho cerejas? Porque gosto de cerejas. Não é preciso ter uma razão profunda”, desmistifica.

Com a democratização do acesso veio uma nova vaga de tatuadores e uma valorização do trabalho e do traço de cada um — “e ainda bem”. “Eu acho isso fantástico porque de facto podemos escolher. Se a pessoa sabe que quer fazer uma tatuagem deve pensar que estilo de tatuagem quer fazer e quem é o tatuador que melhor fará esse tipo de tatuagem que se deseja.”

“Antes havia tatuadores, ponto”, explica. Hoje há mais vertentes, mas também surge a ideia de tatuar “para o desenrasque”. Para Nazaré Pinela, há duas vertentes na nova vaga de tatuadores: “a do faz em casa, do tatuador, e da pessoa que desesperadamente quer ter tatuagens, o tatuado. Já me deparei com miúdos que tinham tatuagens terríveis e que quando lhes perguntei porque é que concederam que assim fosse, me responderam “não tem mal, eu não paguei”. Isso para mim não faz sentido nenhum.

Em oposição à ideia de desenrasque surge a necessidade de dar formação e o rigor que lhe deve estar associado. “Não podes nunca dar formação a uma pessoa que à partida não tem aptidão absolutamente nenhuma. Para já tem de se ter um dom, de saber desenhar e a formação é a experiência e estar num estúdio a ver os processos. Já temos aprendizes aqui e mais do que um que ficou, mas até eles agarrarem numa máquina demora mais de dois anos”, explica. “Porque antes de agarrar numa máquina vais ter de fazer mil folhas de desenhos, de apresentar vários estilos ou criar o teu próprio, de saber esterilizar material, montar bancas e máquinas, limpar a loja; saber fazer de tudo. Acaba por ser um teste muito prolongado e há sempre desistentes”, conta Nazaré enquanto ao fundo se continua a ouvir o som da máquina de tatuar de Pinela.

Ainda que exista um rigor que nem sempre se associa a uma atividade que até há bem pouco tempo era vista como marginal, Nazaré explica que o preconceito continua a existir. ”As pessoas às vezes olham para nós como uns malucos que estão a fazer umas tatuagens — e se calhar até somos, mas trabalhamos, temos horários e uma profissão de alta responsabilidade e alto risco que não é brincadeira nenhuma. E não é essa ideia que o povo em geral tem de nós”, lamenta.

Deixamos a segunda casa de Nazaré e Eduardo Pinela contagiados pela simpatia que tanto os caracteriza e eternizámos no papel esta conversa e outras que se lhe seguiram na reportagem “Para sempre (não) é muito tempo — o corpo como tela da cultura portuguesa”, que podes ler na íntegra na Revista Gerador 28.

A entrevista a Nazaré Pinela é o primeiro artigo da Semana das Tatuagens, que começa hoje e termina na sexta-feira. Na quarta-feira damos-te a conhecer o projeto Portugal na Pele, que se junta à conversa com Catarina Pombo Nabais, investigadora e curadora da exposição O mais profundo é a pele, e João Cabral Pinto, autor do livro Guerra na Pele, na Central Gerador às 19h30. No terceiro e último artigo, que será publicado na sexta-feira exploramos a arte de tatuar no nosso país através de alguns dos grandes nomes da nova geração de tatuadores portugueses, de Lisboa a Cabeceiras de Basto.

Podes acompanhar a Nazaré Pinela aqui, e a vida do Bang Bang Tattoo aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografias de Bárbara Monteiro

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