É o género teatral mais facilmente reconhecido pelo público português. Os elementos que o caracterizam — seja a crítica, a sátira ou o humor — servem de base a criações que funcionam como espelhos da realidade do país, associando-se ao género uma função social e política permanente. Falamos do Teatro de Revista, género que não sendo originalmente português, está hoje bem enraizado na nossa cultura. Mas afinal onde começa esta história?

O teatro de revista, também conhecido como revue, surge em França no século XVIII – primeiro nas romarias e depois nas salas –, sendo que um século mais tarde foi evoluindo para outros géneros teatrais, como o Vaudeville. Em simultâneo, a revista irradiou para quase todos os países do continente europeu e americano. Portugal não foi exceção.

Em 1851, o desaparecido Teatro do Ginásio recebe a peça Lisboa em 1850, de Francisco Palha e Latino Coelho. Para Eugénia Vasques, este momento marca o início de uma primeira fase com o modelo de revista a estabilizar-se em Portugal. “É um género desde o seu início muito popular, voltado para a crítica social e sempre para a paródia. Diria mesmo que isso faz parte do ADN deste género onde através da carnavalização da linguagem se dá a possibilidade ao povo de poder pôr o mundo às avessas, de pôr os pobres vestidos de reis e os reis vestidos de bobos”, explica.

Para a antiga professora e crítica de teatro, que se encontra a preparar um volume com os três primeiros textos do género em português recentemente descobertos, “a revista, em função do seu aparecimento em França, é filha da imprensa, isto é, aparece como extensão da própria atividade jornalística”, uma vez que era nos corredores dos jornais que se sabiam as histórias mais polémicas. A revista tornava-se assim num “meio essencial de informação”, sustenta.

Nas restantes décadas do século XIX, a revista ganhou novas salas, novos autores, e sedimentou o seu papel crítico face à sociedade onde já se batia com a censura imposta pela monarquia, numa altura de incremento dos ideais republicanos. Nesse período, cativou a produção literária de figuras como António de Sousa Bastos, Eduardo Schwalbach ou Guerra Junqueiro, tornando-se num género bastante focado no texto ao contrário do que se passou em França, onde espraiou no musical e no burlesco.

Para o encenador Jorge Silva Melo, este é um dos aspetos a destacar quando se fala do teatro de revista português. “Em Portugal, como não havia tantos meios, desenvolve-se para o lado dos textos. É por isso que a revista portuguesa se muniu de grandes atores, com capacidade de criar empatia com o espetador”, sintetiza.

Da 1.ª República até ao Estado Novo

Na viragem de século, a revista «adere sem reservas», de acordo com o teatrólogo Vítor Pavão dos Santos, à República, num período marcado pela chamada Parceria, que juntou os autores Ernesto Rodrigues, Félix Bermudes e João Bastos. Neste período, o género migra de forma mais massificada para as diversas salas de teatro existentes, sendo, a partir de 1921, com a fundação do Parque Mayer que se fixa “de forma inequívoca” no panorama cultural português.

Através da Sociedade Avenida Parque, Lisboa viria a ganhar quatro novas salas, que se tornariam numa escola fundacional para alguns dos melhores intérpretes portugueses do século. Com a inauguração da Maria Vitória, em 1922, do Variedades, em 1926, do Capitólio, em 1931, e do ABC, em 1956, a revista torna-se parte da própria cultura acompanhando, no entanto, “o marasmo em que caiu a vida portuguesa”, devido à ditadura, nota Pavão dos Santos, no seu livro Revista à Portuguesa. “Só nos pequenos palcos do Parque Mayer e arredores, embora veladamente, o espetador pode ouvir falar do seu quotidiano, das suas alegrias e pressões, daquilo que verdadeiramente lhe dizia respeito”, pode ler-se.

Efectivamente, durante o Estado Novo, a revista ganha outro peso, em especial pelo seu papel de crítica política e social face à ditadura. No entanto, essa dimensão – como lugar ou não de resistência – não acolhe consenso. Embora Vítor Pavão dos Santos considere que a revista era “o único género de teatro em que a censura deixava dizer coisas sobre a vida quotidiana”, Eugénia Vasques contrapõe referindo que “a revista serviu mais o Estado Novo do que o combateu”. Para a autora, embora tenha existido um papel de resistência no decurso dos anos 70, é preciso diferenciar-se «resistência de driblar a censura». No mesmo sentido, Jorge Silva Melo entende que existiam “graçolas subentendidas em torno do poder político”, mas que o “género foi sempre apologético ao regime”.

Mais ou menos arregimentada, Pavão dos Santos acrescenta, no seu livro Revista à Portuguesa, que o género mantém a sua importância devido, em grande parte, “ao conjunto excepcional de artistas que conseguiram tornar os espetáculos vivos e comunicativos, numa época em que a censura tanto sufocava”. Já com a subida ao poder de Marcello Caetano, observa-se um período de abertura, motivada por uma nova geração de actores como Nicolau Breyner, e autores como César de Oliveira. “Assiste-se, fugazmente, a uma reaparição do comentário político”, refere Vítor Pavão dos Santos.

A revista em liberdade

Com o 25 de Abril de 1974 e o princípio da democracia, a revista parece “perder a sua utilidade”, realça Eugénia Vasques, acolhendo as diferentes tendências políticas. Ainda durante o Processo Revolucionário em Curso (PREC), os diferentes autores espelhavam as “ambiguidades do processo político”. Trata-se, de acordo com Vítor Pavão dos Santos, de um período de cisão para o género “desorientado pela liberdade”. A polarização política da sociedade portuguesa reflecte aliás, o caminho escolhido por diferentes autores: ainda em 1974, é fundada a Companhia Teatral Ádóque - Cooperativa de Trabalhadores de Teatro, apresentando um conjunto de revistas mais orientadas à esquerda; por outro lado, no Parque Mayer, como nota Pavão dos Santos, as revistas encenadas “oscilam entre uma difícil e duvidosa neutralidade e uma viragem radical à direita”. Só no anos 80 é que a motivação política das peças abrandaria, mas nesse período já a crise do género se fazia sentir.

Passados 168 anos desde o seu aparecimento em Portugal, certo é que a revista se afirmou na história do teatro português, constituindo-se como uma verdadeira escola de atores, alguns deles eternizados pelas personagens que levaram a palco. Embora o 25 de abril e as épocas posteriores tenham colocado um ponto final na época dourada do género, a revista representa uma das mais constantes expressões do teatro português. O género continua, aliás, a servir de base para muitas companhias amadoras que lhe reconhecem o legado irrefutável. Mais do que isso, da “Revista à Portuguesa” saltam à memória alguns dos grandes temas da música ligeira portuguesa e do fado que ali nasceram, assim como nomes de grande atores que ali se estrearam.  O género espera agora por uma maior valorização, em especial a nível estatal, embora se mantenha vivo nalgumas peças que ainda se apresentam no Teatro Maria Vitória, o único sobrevivente do Parque Mayer.

Este é o primeiro artigo da Semana da Teatro de Revista do Gerador, durante a qual vais podes ler ainda uma entrevista ao produtor do Teatro Maria Vitória, Hélder Freire Costa e um artigo onde se reúnem vozes de vários atores portugueses sobre a importância deste género teatral. A Semana do Teatro de Revista, sobre a qual podes saber mais aqui, parte da reportagem “Teatro de revista: o diálogo ainda vivo entre o passado e o presente do país” integrada na Revista Gerador 28.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves

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