O teatro de revista surgiu em França, mas rapidamente irradiou para outros países do continente europeu e americano. Em Portugal, o género foi apresentado ao grande público em 1851, com a peça Lisboa em 1850, de Francisco Palha e Latino Coelho. Desde aí que a revista passou a fazer parte do panorama do teatro e da cultura portuguesa. O género tornou-se a escola de muitos atores portugueses, criando um legado que hoje parece estar em decadência.

É neste sentido que se impõe a questão: que futuro existe afinal para o teatro de revista em Portugal? Atores, produtores e especialistas em teatro parecem concordar. É necessário que haja uma valorização do género, que este seja defendido pelo Estado como património cultural.

Em entrevista ao Gerador, Hélder Freire Costa, empresário e o rosto por detrás do Teatro Maria Vitória, em Lisboa, explica que “a revista portuguesa, como uma forma teatral admirada pelos portugueses  deve ser estimada pelo Estado e ser tornada de património cultural”. O responsável tem sido responsável por produzir diversos espetáculos de revista nas últimas décadas, tem também ajudado a lançar novos autores, capazes de acrescentar novas ideias ao género. Hélder Freire Costa mantém a esperança nas novas gerações.

“Sempre apostei na malta nova, e isso deu fruto, porque quando os outros foram desaparecendo surgiu essa nova geração do teatro de revista. Essa gente jovem que anda aí passou quase toda pela minha mão, porque demos lugar para eles singrarem e aprenderem com as primeiras figuras para um dia virem a ser eles”, sustenta.

O ator e encenador Flávio Gil é uma das apostas de Hélder Freire Costa. Nos últimos anos, tem sido responsável pelos textos (juntamente com Miguel Dias e Renato Pina) e encenação das revistas que passaram no Maria Vitória, nomeadamente a que se encontra atualmente em cena chamada Pare, Escute e… Ria. 

Para o ator de apenas 29 anos, a revista é sinónimo de um verdadeiro “género multidisciplinar” que esteve à frente do seu tempo na forma de fazer crítica social e política. “O que acho extraordinário na revista é que nunca fala de coisas que já não saibamos, quando se trata de crítica política e social, mas consegue divertir. Esse é o desafio atual dos autores, porque no fundo estamos a ouvir e ver coisas que já todos sabemos”.

Na sua óptica, o teatro de revista “já devia ter sido valorizado enquanto património imaterial da cultura portuguesa porque não deixa de assumir uma importância fundamental numa parte histórica do país, enquanto agente de difusão, de aculturação e de resistência”. Por outro lado, Flávio Gil destaca, por exemplo, a influência que o género continua a ter no teatro amador, sendo o “mais adaptado e mais querido do grande público”.

Embora tenha passado mais de um século e meio desde o sue aparecimento em Portugal, certo que a revista se fundiu de forma bastante evidente com a tradição teatral portuguesa, tendo se constituindo como uma verdadeira escola de atores, alguns deles eternizados pelas personagens que levaram a palco. É o caso de Marina Mota, icónica atriz e encenadora portuguesa.

Marina, que tantas vezes pisou o palco do Maria Vitória ou do Teatro Politeama com revista à portuguesa, defende que o legado deste género no teatro português “sobrevive sem apoios privados ou estatais com uma única entidade investidora que é o público”. Por outro lado, como género multidisciplinar é aquele que melhor prepara os atores. “Acho que todos os grandes actores têm a escola da revista porque ele nos prepara muito bem. Nós temos que ter a capacidade de convencer e fazer o público acreditar naquela personagem numa história que tem uma duração de alguns minutos. É diferente de eu fazer uma personagem que é a mesma durante duas horas”.

Mesmo numa época em que o género parece moribundo e, para alguns, em vias de extinção, Marina Mota considera que a revista devia ser valorizada e passar por um processo semelhante ao que se fez com o fado. “A revista sempre foi vista como parente pobre das artes teatrais à semelhança do que aconteceu com o fado na música. Foram precisos anos para se acreditar na importância do fado; acredito que a revista pode passar por esse processo”, conclui.

Esta entrevista integra-se na Semana da Teatro de Revista do Gerador, sobre a qual podes saber mais aqui, que parte da reportagem “Teatro de revista: o diálogo ainda vivo entre o passado e o presente do país” integrada na Revista Gerador 28.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves

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