O racismo estrutural como fator determinante na construção da identidade de duas mulheres negras portuguesas. É este o ponto nevrálgico do espetáculo Sempre que acordo, de Lara Mesquita, que será apresentado no Centro de Artes de Lisboa (CAL), de 10 a 13 de junho, dando visibilidade a um quotidiano de discriminações vividas na primeira pessoa.

Porque me sinto inferior relativamente a quaisquer pessoas brancas? Serei racista? Porque tenho mais amigos brancos do que negros? O que significa eu gostar, quando criança, que os meus amigos dissessem que eu era branca? Que poder teve o meu pai sobre a minha mãe, sendo ele um homem branco e ela uma mulher negra? Porque só tive relações amorosas com homens brancos? Ser negro de pele clara é diferente de ser negro de pele escura? Como? Porque só agora sinto necessidade de defender a minha negritude?

São várias as interrogações com que Lara Mesquita, autora do texto, encenadora e cointerprete, e Cirila Bossuet se debatem em palco, “dando corpo à tentativa de resolução das mesmas”. Partindo da biografia de ambas, Sempre que acordo apresenta uma narrativa estabelecida entre o passado e o presente, evidenciando alguns “pontos-chave da condição particular de ser negra em Portugal”, através de episódios que “servem de catalisadores para o reconhecimento e compreensão” dessa vivência.

“Trocámos muitas experiências, de coisas que nos disseram, que nos fizeram, situações que aconteceram, como é que reagimos, ou não reagimos. Falámos muito sobre o cansaço, sobre o silêncio e sobre o desgaste. Falámos sobre questões como o colorismo, sobre onde nos encontramos e onde nos separamos nesta questão – a mais escura, a mais clara –, o que isso significa, o que representa. Trocámos experiências das relações que tivemos com homens brancos, porque, tanto eu, como a Cirila, só tivemos relações amorosas com homens brancos. Tentámos perceber porquê. Falámos sobre as nossas mães”, partilha Lara Mesquita, que, com este espetáculo, pretende informar e consciencializar as pessoas para comportamentos racistas, mesmo que involuntários ou inconscientes, demonstrando o quanto o racismo estrutural pode condicionar o desenvolvimento de crianças e adolescentes negros em Portugal.

O título surgiu numa conversa informal com a Cirila, com que partilha a interpretação da peça. “Estávamos a falar das dificuldades de existir. E a Cirila, a determinada altura, diz, ‘eu sempre que acordo tenho de lutar pela minha existência ao impô-la.” Lara ficou com aquela frase, que incluiu, logo de seguida, numa cena que escreveu.

O espetáculo remete para a consciencialização dessa “condição especial” de existir, enquanto mulher negra em Portugal, e dos seus efeitos na construção de identidades. “Sempre que acordo” era tão representativo do que sentia que a expressão virou título. “Antes de ser qualquer outra coisa, sou mulher negra”, diz. “O (não) privilégio começa nesse lugar.”

Sempre que acordo, de Lara Mesquita, venceu o Prémio Nova Dramaturgia de Autoria Feminina 2021, concurso nacional literário que premeia um texto inédito de teatro.
Uma descoberta tanto artística quanto pessoal

Ao longo do seu crescimento, Lara Mesquita foi confrontada com a “(quase) inexistência de mulheres negras empoderadas” no seu circuito sociocultural. “A minha mãe, por ser minha mãe, e a minha professora da escola primária foram as únicas referências positivas de mulher negra a que tive acesso”, relata. “Inevitavelmente”, considera, “isso toldou a minha visão do mundo, o que acabou por condicionar o entendimento das minhas possibilidades, traindo as minhas ambições”. Perante a urgência de mudar este paradigma, esta criação – que lhe valeu o Prémio Nova Dramaturgia de Autoria Feminina 2021 – serve também esse propósito.

A ideia inicial surgiu em 2017, depois de acabar o conservatório na Escola Superior de Teatro e Cinema, face à iminência de não conseguir encontrar trabalho no meio artístico e como resposta à sua vontade de criar e contar histórias à sua maneira. “Começou exatamente com a ideia de fazer um espetáculo acerca da dificuldade de ser atriz negra em Portugal.”

Primeiro, pensou fazer uma criação a partir de Otelo de William Shakespeare, mas deparou-se com a falta de financiamento – “é muito difícil fazer um espetáculo, sobretudo sem dinheiro”. Depois, em 2019, trabalhou sobre uma segunda ideia, com base em Desdémona, de Toni Morrison, que também não se concretizou.

Escrever um texto a partir da sua biografia estava longe do plano inicial, mas acabou por acontecer em 2020. “Fui ver um espetáculo, no Festival Almada, e fiquei muito inspirada pela simplicidade daquela proposta. Era simplesmente uma atriz a falar sobre a sua história, sobre a sua experiência na escola secundária e pensei ‘é só isto que quero fazer, quero só partilhar a minha história’, e a partir daí comecei a escrever o texto”, descreve.

“Queria criar o meu próprio trabalho, queria fazer um espetáculo. Sabia que, eventualmente, estava a sentir a necessidade de falar sobre a falta de representatividade no meio artístico em Portugal e que queria falar sobre isso, mas não sabia como ia ser. E, de repente, senti este chamamento”, continua. “Em 2017, era isso que já queria fazer, de certa forma, mas achava que a minha voz, só a minha opinião, a minha vivência e as minhas experiências não eram suficientes. Daí o facto de me estar a agarrar a fontes como o Otelo, como a Desdémona.”

Naquela altura, Lara Mesquita tinha ainda receio de que escrever sobre si não fosse “suficiente” ou que a sua experiência não fosse “importante”. “Era só a minha experiência. Não sabia se era válida.” O ponto de viragem aconteceu depois de ler Memórias da Plantação, de Grada Kilomba. “Foi ter lido esse livro e ter percebido que, sim, era válida a minha voz, e que, sim, ainda era preciso falar sobre isto tudo”, declara. “Não precisas de livros, filmes e referências. Claro que é importante, mas a tua voz é suficiente."

Em Sempre que acordo – que conta com assistência à dramaturgia de Marco Mendonça e Isabel Costa – há uma contextualização sobre todo este processo de criação do próprio espetáculo. “Falo sobre as referências, sobre o que se passou até chegar até aqui”, explica a autora. “Depois há uma partilha de algumas histórias pessoais, minhas e da Cirila, naquele formato de conferência-performance.”

Um espetáculo que, não sendo político, já o é

“A falta de representação, a infância, a desigualdade, a educação, o sofrimento, o silêncio, a negação, o medo, as relações inter-raciais, o fingimento, a herança cultural, os amigos, as nossas mães, o trabalho, a sociedade, Portugal, o Mundo, Toni Morrison, Grada Kilomba, bell hooks, os efeitos do colonialismo. A vergonha. E, depois, o orgulho. Tudo gatilhos. Todas inspirações.” Para Lara Mesquita, este trata-se, inevitavelmente, de um espetáculo com caráter político, mesmo sem ser essa a sua motivação. “Quando digo que não é um espetáculo político, ou que não o quero associar a essa ideia, é porque não tenho conhecimentos teóricos suficientes e não me quero também comprometer. Isto, na verdade, é mesmo só a minha voz”, clarifica. Agora, eu sou uma cidadã que faz parte desta sociedade, que está organizada de determinada forma, portanto, as minhas opiniões acabam sempre por ser políticas. Não dá para falar de desigualdade racial e de desigualdade de oportunidades e fingir que não estou a falar sobre política. É claro que estou. Só não é esse o meu foco. É um assunto que acaba por ser político, mas é abordado de uma forma mais pessoal”.

Da culpa ao empoderamento

Como “ferramenta provocatória do pensamento”, a peça procura, mais do que encontrar respostas, promover a reflexão. “Isto não é um espetáculo de apontar o dedo. Isto tem a ver com consciencialização – nossa, em primeiro lugar, e depois o outro.”

Da primeira versão do texto – onde, segundo Lara, era evidente um certo sentimento de “culpa” – ao resultado final, que agora será apresentado, houve um trabalho de retirar essa culpa inerente de só naquele momento se estar a debater com determinadas questões. “Se contarmos que comecei este projeto, assim mais a sério, há dois anos, demorei 33 anos até me sentir capaz de assumir algum tipo de responsabilidade. Senti que foi tarde para mim e culpei-me por isso.”

Na opinião da atriz, o processo de consciencialização e de empoderamento é algo muito pessoal, a que deve ser retirado esse peso. Até porque “antes não há entendimento, antes há inocência, há querer ser igual, querer disfarçar”, nota. “Quantas pessoas negras eu não conheci ao longo da minha vida que, tal como eu, faziam um esforço muito consciente para não falar sobre racismo? Porque falar sobre racismo era evidenciar a nossa diferença em relação aos outros. O que eu mais queria, o que essas pessoas mais queriam, era simplesmente integrar-se e serem iguais a toda a gente.”

Sobre o empoderamento coletivo, não gosta de falar em “responsabilidade”, exatamente pelo mesmo motivo – porque “traz culpa”. “Claro que as pessoas que o fazem – acho incrível – estão a abrir caminho para todas as outras”.

“Este espetáculo é a minha tentativa de contribuição, mas sem essa pressão”, esclarece. “Acho que muitas pessoas negras se vão identificar com este texto e com este espetáculo, mas não tenho uma ambição política. Basta uma pessoa sentir-se empoderada ou valorizada.”

Gerar desconforto para mudar paradigmas

Sempre que acordo, que foi financiado através de uma ação de crowdfunding, coloca em evidência situações de racismo quotidianas, levantando uma série de questões de caráter histórico e social. Mas o objetivo, reforça, não é “apontar o dedo”. O desconforto, esse, é inevitável. “Este espetáculo pode ser, em determinadas alturas, bastante desconfortável, porque as pessoas vão-se relacionar com coisas que disseram ou fizeram”, acredita Lara, que relembra uma opinião de Cirila: “Ela disse que ‘sem desconforto, não há mudança.”

 “Para haver mudança real, tem de haver desconforto, tem de mexer, de agitar. Porque senão, se está tudo flete, porque é que vai mudar? Tem de haver agitação, desconforto. As pessoas têm de se sentir incomodadas. Quando se vão deitar, no fim do dia, têm de estar a pensar sobre aquilo. Se não, porque é que vão mudar?”, completa.

Para a autora, tanto pessoas racializadas, como pessoas brancas, se poderão relacionar com o que ali será encenado, porque, no final de contas, vivemos as mesmas situações, mesmo que experienciadas de forma diferente. “Toda a gente via a acontecer. Estou a falar da escola preparatória, por exemplo. Era a única aluna negra da minha turma. Éramos 28. Os outros 27 estavam lá. Não dá para fingir que não. Se queriam olhar para isso, ou não, é diferente, mas, sim, conseguem-se identificar e relacionar”, garante.

Texto por Flávia Brito
Fotografias de Filipe Ferreira

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