Pouco depois da viragem do milénio, em 1903, Franz Xaver Kappus, um jovem militar que dava os primeiros passos na poesia decidiu escrever a Rainer Maria Rilke. Um pedido simples e honesto, de quem procura um guia que admira, podia ter resultado numa troca de meia dúzia de palavras; mas não foi isso que aconteceu. Até 1908 trocaram uma série de cartas entre si que, mais tarde, resultaram no livro “Cartas a um Jovem Poeta”, a obra que Rilke escreveu sem saber que algum dia seria publicada. 

O resultado de uma escrita apenas para uma leitura foi uma obra que se tornou a referência de pensadores – sejam eles poetas ou não. 

Na mais silenciosa hora da sua noite, pergunte a si mesmo: tenho de escrever? Escave dentro de si à procura de uma resposta profunda. Se lhe for permitido encarar essa pergunta séria com um simples e forte tenho, então construa a sua vida segundo essa necessidade; a sua vida, até ao âmago da hora mais indiferente e limitada, terá de se tornar um sinal e um testemunho para esse ímpeto.

excerto de “Cartas a Jovens Poetas” (2016) , Rainer Maria Rilke,
traduzido por José Miranda Justo, Antígona 

Enquanto por vários pousos na Europa Rilke pensava o universo de um jovem poeta, Virginia Woolf fazia-o, por volta da mesma altura, em Inglaterra. Em 2003 a Relógio D’Água reuniu as duas visões que seguem quase em sentido contrário, mas que convergem num conselho fundamental a qualquer jovem poeta: não ter pressa de publicar. 

A pensar nesta multiplicidade de formas de ver (e dar a ver) a poesia a quem se quer iniciar, o Gerador lançou o desafio a poetas e leitores de poesia – dos que a lêem alto, aos que a lêem em casa, para dentro. Jorge Silva Melo, João Sousa Cardoso, Rosa Azevedo, António Poppe, Anabela Mota Ribeiro, NERVE e Raquel Nobre Guerra aceitaram um desafio e, junto a um pequeno parágrafo que responde à pergunta “O que dirias a um(a) jovem poeta?”, enviaram um poema que lhe dá a mão. 

Jorge Silva Melo, encenador, autor e fundador dos Artistas Unidos

©Jorge Gonçalves

1. Ler, ler, ler. Clássicos e contemporâneos. Portugueses, espanhóis, franceses, italianos, ingleses, alemães… romanos e gregos! Ler.
2. Traduzir. Traduzir um poema por dia, hesitar, riscar, deitar fora, recomeçar, guardar para reler daqui por uns tempos.
3. Escrever todos os dias. Apagar. Riscar. Deitar fora. Guardar até poder rever. Recomeçar no dia seguinte.
4. Ler.
5. ARMANDO SILVA CARVALHO

AQUI
Aqui o inferno mata as profissões 
Que têm acesso ao ar.
Diz-se que deus se absteve 
De criar servidores para os condenados 
Ao tédio.

Morre-se no emprego 
Com a garganta apertada por uma mão 
Sem ossos.

Aqui os anos crescem pouco ou nada. 
Os dias e dias secam na raiz. 
Não há horas felizes.

O sol sempre se deu bem com gente como esta 
Que salpica de chuva os seus pequenos 
Afazeres 
Para ficar em casa.

Gente com plenos poderes 
Para desmanchar a festa que se alonga 
Para lá da cabeça.

Diz um: eu sou o sábio de domingo. 
Agora não me ocupo de dias úteis, de remendos d’alma, 
De fragilidades. 
Esperem por mim mas só depois 
Da missa.

Diz outro: a ética é grega de nascença 
Movemo-nos por números, já sentenciava Pitágoras. 
Não cunhamos moeda, não sujamos as mãos 
Nos improvisados remos do naufrágio. 
O nosso destino é perguntar.

Parece que deus quis que não nascesse a obra. 
Nascer que nasça o sol 
E é bastante. 
Quem pergunta ao sonho pelo homem 
De serviço?

Nos campos vicejam novamente as urtigas 
São restauros agrícolas, 
Exemplos a seguir, ordens vindas de cima, 
Ao ouvido, 
Na sala dos banquetes.

O mar faz de cão velho e deixa-se ficar 
À espera no patamar dos mitos. 
Ninguém o suporta 
Nem ao seu uivar aos pés 
Da história.

Comovidos estamos, com um não sei quê, 
Um quanto, um como, uma dor 
Que levanta asas 
E vai do vale à montanha 
Como vão os monges cavaleiros 
À televisão.

Aqui a cidade abre-se para lá da noite 
E é sempre belo ver a madrugada 
A chorar os seus ídolos.


Aqui os que têm coração 
Têm desconto.

“AQUI”, Armando Silva Carvalho 

João Sousa Cardoso, artista multidisciplinar e professor 

Hugo Magalhães (CC BY-SA 3.0)

Partilharia esta convicção: a poética, a carpintaria do fazer no concreto e no prosaico que resulta em imprevista poesia, é a poesia certa de um tempo histórico. Diria que sou leitor involuntário de uma certa poesia portuguesa, chã, presente: Sophia de Mello Breyner (a nitidez do mar frio da Granja e o mar grego de Lagos; a verve política, justa e prenha de desejo em Sophia), a escrita rude, rigorosa e atenta da Luiza Neto Jorge (O seu a seu tempo…”e a matéria seja uma hora/de os objetos estarem.”) e a contemplação da luz e das linhas de sombra na voz da Fiama Hasse Pais Brandão. Mas a um jovem poeta que aspire a incorrer nos riscos de se aproximar do poético, sugiro todo o Brecht, a começar por O ABC da Guerra. Ou a ter a coragem de se ver quieto e deixar as figuras humildes do conhecimento tomarem forma.

Rosa Azevedo, autora, editora e co-fundadora da livraria Snob

©Andreia Mayer/Gerador

Em primeiro lugar dizia-lhe que se esquecesse desde o início de que é um poeta. Quem é poeta não sabe que é poeta, não escreve por ser poeta. E depois talvez não lhe dissesse nada e lhe lesse poemas. Lia-lhe o Forte e falava-lhe da acção poética. Lia-lhe a Maria Velho da Costa e falava-lhe do quotidiano podre e poético da vida enclausurada de algumas mulheres. Lia-lhe Pedro Oom e falava-lhe da poesia que não quer ser salva. Lia-lhe Cesariny e falava-lhe da fusão rebelde dos contrários. E depois deixava-o perceber sozinho se ainda era poeta.

O MAIS BELO ESPECTÁCULO DE HORROR SOMOS NÓS
Este rosto com que amamos, com que morremos, não é nosso; nem estas cicatrizes frescas todas as manhãs, nem estas palavras que envelhecem no curto espaço de um dia. A noite recebe as nossas mãos como se fossem intrusas, como se o seu reino não fosse pertença delas, invenção delas. Só a custo, perigosamente, os nossos sonhos largam a pele e aparecem à luz diurna e implacável. A nossa miséria vive entre as quatro paredes, cada vez mais apertadas, do nosso desespero. E essa miséria, ela sim verdadeiramente nossa, não encontra maneira de estoirar as paredes. Emparedados, sem possibilidade de comunicação, limitados no nosso ódio e no nosso amor, assim vivemos. Procuramos a saída – a real, a única – e damos com a cabeça nas paredes. Há então os que ganham a ira, os que perdem o amor.

excerto de “O MAIS BELO ESPECTÁCULO DE HORROR SOMOS NÓS”, António José Forte in Uma Faca nos Dentes (2017), Antígona 

António Poppe, artista multidisciplinar

©Galeria Zé dos Bois (ZDB)

Ser de muitas diferenças infindas múltiplas e uma profunda astronómica semelhança FALA A TERRA as águas estão unidas entre si. 

Canção III
Já a roxa manhã clara
do Oriente as portas vem abrindo, 
dos montes descobrindo
a negra escuridão da luz avara. 
O Sol, que nunca pára,
de sua alegre vista saudoso,
trás ela, pressuroso,
nos cavalos cansados do trabalho,
que respiram nas ervas fresco orvalho,
se estende, claro, alegre e luminoso.
Os pássaros, voando
de raminho em raminho vão saltando, 
com ũa suave e doce melodia
o claro dia estão manifestando.

excerto da Canção III, Luis de Camões in RIMAS (1595)

Anabela Mota Ribeiro, jornalista 

©Estelle Valente

Parece-me cada vez mais importante usar o verbo “poetar”. Parece-me urgente criar instantes de respiração. Parece-me essencial dar abraços, receber abraços, acolher, ser acolhido. O poema-abraço que partilho é de um poeta e médico, João Luís Barreto Guimarães, que está nas trincheiras, como tantos outros profissionais de saúde, por nós. O meu respeito, gratidão e admiração são ilimitados. Estas palavras fazem parte da minha definição particular de “poetar”.

Mecânica de um abraço

‘How long shall I hold this hug?’
TESS GALLAGHER

O que encerras num abraço quando
abraças alguém não é
um corpo: é o tempo. Nesse demorar suspenso
(enquanto deténs outra vida) há
um corpo que é teu enquanto o reténs
nos braços
(porquanto o tens para ti
suspendendo o movimento)
enquanto paras o tempo pelo
tempo
de um abraço. Mas a
força dos teus abraços é mais fraca
que a do tempo e
tens de ser tu a ceder
(tens de ser tu a largar) porque
o tempo não aceita estar parado tanto tempo e
exige que o soltes para
tornar ao movimento.

João Luís Barreto Guimarães, in Nómada (2018), Quetzal Editores 

NERVE, músico, poeta e ilustrador

Tiago NERVE Gonçalves

Escreve como se ninguém fosse ler. Sobretudo o que partilhas.

antero 

se conseguires meter 3 balas na cabeça
encontrarás a síntese que procuras
 «O Amigo de Antero» (inédito)

a primeira bala na cabeça: a Tese
a segunda bala na garganta: a Antítese
a terrível determinação de extermínio
não conseguiu a inteira cessação imediata da vida

fero só contra a Ideia, e Voz que a moldava
agonizou realmente como um Santo
(ganhando o que era, aos poucos)
enquanto a Caixa de Pensar saía

de mistura com a Lógica e um pêlo de poeta
que caiu no parterre e encaracolou
liberto de Proudhon Hegel e Kant

«Deixá-la VIR, a Vida…»

“antero”, Mário Cesariny in Primavera Autónoma das Estradas (1980), Assírio&Alvim

Raquel Nobre Guerra, poeta 

De todas as questões, só algumas são indispensáveis.

Gnosticism VI

Walking the wild mountain in a storm I saw the great trees throw their arms.
Ruin! they cried and seemed aware

the sublime is called a “science of anxiety.”
What do men and women know of it?—at first

not even realizing they were naked!
The language knew.

Watch “naked” (arumim) slide into “cunning” (arum) snake in the next verse.
And suddenly a vacancy, a silence,

is somewhere inside the machine.
Veins pounding. 

Gnosticism VI, Anne Carson in Decreation: Poetry, Essays, Opera (2016)

Na página de História em permanente escrita no momento atual, a noção de tempo troca-nos as voltas e relembra-nos que não a devemos subestimar. Se desse lado, tu, que estás a ler este artigo, tens a ânsia de criar, aproveita o isolamento para descobrires a tua voz (ou, quem sabe, as tuas múltiplas vozes). Quem sabe num destes sete autores encontras uma ponta solta que te indique o caminho para o teu âmago. 

Neste Dia Mundial da Poesia, o Gerador publica, além deste artigo, mais dois em torno da arte poética e dos seus ecos no tempo em que vivemos. Já podes ler (e ouvir) “Palavras para os emparedados, a poesia para a descoberta”, aqui. Mais logo, “De que servem os poetas em tempo de indigência?” chegará até ti.

Texto de Carolina Franco
Excerto de fotografia de Claudiu Hegedus disponível via Unsplash


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