Uma casa no palco da Sala Garrett, uma família a viver nela e um teto que alberga todas as relações e disfunções entre os seus membros. Ibsen house, a peça do jovem encenador australiano Simon Stone, ocupa o Teatro Nacional Dona Maria II (TNDM II) nos dias 25, 26 e 27 de outubro e provoca uma reflexão dos nossos tempos a partir de peças do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. 

“A importância de apresentar um espetáculo como o Ibsen House da grande companhia de Amesterdão com encenação do Simon Stone, como vamos fazer esta semana no D. Maria II, tem a mesma importância que tem por exemplo publicar Toni Morrison, Javier Marías, Haruki Murakami em português; é tornar acessível aquilo que é absolutamente fundamental na formação artística”, sublinha Tiago Rodrigues, o diretor artístico do teatro nacional. 

A peça encenada por Stone e produzida pelo Internationaal Theater Amsterdam (ITA) — Toneelgroep Amsterdam até há bem pouco tempo —, estreou-se há dois anos em Amesterdão e já foi apresentada em diferentes pontos da Europa, inclusive no Festival de Avignon. Considerado por Tiago Rodrigues “um dos grandes espetáculos europeus nos últimos anos”, Ibsen House tem sido aclamado por ser “um exemplo notável de uma nova escrita a partir da escrita antiga” e por conseguir transpor para cena uma série de problemas fraturantes da sociedade atual – muitos deles comuns a outros tempos. 

Para o diretor artístico do TNDM II, trazer uma grande produção como Ibsen house a Lisboa, como está a tentar “há dois anos”, “trata-se de um gesto de serviço público”, tornando “acessível ao cidadão português comum um tipo de teatro que não lhe está acessível porque está distante, porque é demasiado caro, e que um teatro como o Dona Maria II, com a sua história e a sua importância na cultura portuguesa, tem a obrigação de tornar acessível ao máximo de portugueses e portuguesas”. 

A história de Ibsen House situa-se entre os anos 1964 e 2016

Uma vida em palco que é “um reflexo dos nossos tempos”

Hans Kesting é um dos atores da companhia do Internationaal Theater Amesterdam a pisar a Sala Garret no próximo fim-de-semana. Numa chamada telefónica a partir de Amesterdão contou que “foi muito interessante preparar a peça porque o Simon Stone trabalha muito com as ideias que os atores lhe dão para escrever” e “tem em consideração todas as sugestões que a companhia dá”. Com mais de trinta anos de experiência no ITA e um currículo extenso e completo, Hans confessa que “esta peça é muito particular” para si e todos os que se encontram envolvidos nela, uma vez que “o espaço temporal se baliza entre 1964, quando a casa está a ser construída, e 2016, quando acaba por ser destruída”.

Em Ibsen house, conta o ator, “há muitos pontos que se tocam com a vida de qualquer pessoa – as relações amorosas, a preocupação com uma carreira, as relações entre pessoas”. “Se forem ver Ibsen House certamente irão encontrar muitos aspetos da vossa vida. É perfeitamente um reflexo dos nossos tempos”, advoga. 

São três horas e meia de peça, com um intervalo pelo meio, de uma realidade quase paralela a decorrer em palco. Ao fim de dois anos, Hans Kesting conta que “a peça não foi mudando”, mas que tanto os atores como o encenador continuam “a descobrir novos detalhes na mesma criação”. “O que é bom é que apesar de a estarmos a apresentar há dois anos, fazemo-la duas semanas, depois paramos três meses e voltamos a fazer durante mais duas semanas. Portanto quando voltamos ao palco a peça volta a nós e todos os atores sentem que se torna mais uma parte da vida deles”, explica o ator.

A peça Casa de Bonecas de Ibsen é uma das grandes referências para Ibsen House de Stone

A internacionalização do D. Maria II como parte natural de um caminho a ser traçado

Tal como Ibsen house, Sopro, uma peça de Tiago Rodrigues, foi apresentada no Festival de Avignon. “Tanto o futuro como já o presente do TNDM II passa também muito pela internacionalização dos trabalhos que produzimos e co-produzimos”, enquadra o encenador. 

“Nos últimos 5 anos o TNDM II fez mais digressão internacional do que nos 169 anos precedentes da sua história”, sublinha o diretor de artístico do teatro que “é reconhecido a nível internacional, não apenas na Europa mas também nos outros continentes”. Sobre esta “colaboração entre países, teatros de vários países, festivais e artistas”, o encenador refere que “é, sobretudo, uma colaboração que em primeira instância beneficia os artistas e os teatros que nela participam”, mas acaba por beneficiar também os públicos portugueses, na medida em que aqueles que tiveram a possibilidade de conhecer novos mundos regressam a Portugal com novas referências e de horizontes mais abertos.

De Inês Barahona, Miguel Fragata e Raquel André a Mónica Calle, Tiago Rodrigues destaca uma série de encenadores, mas também de dramaturgos como Miguel Castro Caldas, Joana Bartolo, Joana Craveiro e Jacinto Lucas Pires “que têm participado em festivais de dramaturgia noutros países através de parcerias do TNDM II e têm visto os seus textos traduzidos e, esperemos que em breve, publicados”. 

Para Tiago Rodrigues a internacionalização do D. Maria II é parte natural de um caminho que está já a ser traçado e tem repercussões evidentes: “esta afirmação do teatro português escrito e levado à cena fora de Portugal é muito importante; para os artistas, para as condições em que farão teatro no futuro, porque terão novos cúmplices, novos parceiros e novas fontes de financiamento” e “é já uma fonte de receita tão ou mais importante que a receita de bilheteira”. 

Ibsen house estreia-se em Lisboa amanhã, 25 de outubro, às 19h00 na Sala Garrett Teatro Nacional Dona Maria II. A sessão de sábado, dia 26, é à mesma hora e a de domingo, dia 27, começa às 16h00. Podes saber mais sobre esta peça e comprar bilhetes online aqui

Texto de Carolina Franco
Fotografias de ©Jan Versweyveld

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