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Teresa Fabião (bailarina-criadora): “Como é que ainda estamos com uma visão e uma vivência obsoleta do que é o HIV?”

Como corporificar o invisível? Como falar do tabu? Como mover e desconstruir preconceitos? Foram estas questões (e inquietações) que guiaram a bailarina, investigadora e ativista HIV+, Teresa Fabião na criação do UNA, uma pesquisa performativa sobre o vírus, baseada em questões biográficas, biomédicas e sociopolíticas.

“É um espetáculo que traz a vivência e quer trazer, para o primeiro plano, o diálogo sobre o HIV, com esta perspetiva de uma ressignificação, uma transformação”, explica Teresa. Este é um trabalho que “parte de uma jornada de dez anos a viver com o HIV”, mas também da vontade de “convocar outras vozes”.

O espetáculo – que estreia, internacionalmente, no Festival Mindelact, em Cabo Verde, no próximo sábado (13 de novembro) – faz parte do IMUNE, um projeto, mais abrangente, de intervenção social, que une estrategicamente as áreas da arte, da saúde e da educação, e que explora o vírus do HIV como metáfora e motor de transformação individual e coletiva, posicionando-o como um campo de pesquisa sobre resiliência e adaptação humanas.

Desde 2015 que Teresa Fabião, investigadora na área da dança, e também educadora, tem vindo a realizar uma vasta pesquisa para este trabalho, desde entrevistas a mulheres HIV+, à recolha de dados científicos, ideias e conceitos do imaginário biomédico, da terminologia usada para falar sobre vírus e imagens publicitárias sobre o HIV, dos anos 80, 90 até à atualidade.

UNA: um solo multivocal

O UNA – que parte de uma trilogia sobre processos de transformação e resiliência a partir do corpo, e que teve as suas origens nas performances “mão aberta” e “Uma Outra de Si” – fala de trocar de pele, de uma nova condição de vida. É uma performance que discute temas sociais como a discriminação, a opressão, o paradoxo e a resiliência dos corpos em diálogo com as questões do tabu, da invisibilidade e do preconceito.

A partir de uma dramaturgia com base em metáforas e estados corporais, a ideia de kintsugi – filosofia japonesa que valoriza as falhas e fissuras – é abordada através da experiência do corpo que dança, “desvelando fortalezas no seio das intempéries”.

Teresa explora processos de transformação corporal e identitários movidos pela convivência com vírus, numa ideia que é expandida através de entrevistas a quem convive com o vírus, de questionários de rua e ao vivo, e de histórias de resiliência de outros corpos, na busca de alcançar uma perspetiva multivocal, capaz de abordar a complexidade do assunto – “Há alguns anos que ando a fazer entrevistas com outras mulheres, outros corpos positivos, e eles virão também a cena”.

“Enquanto pessoa que vive com HIV há 10 anos, comecei a perceber que era superimportante unirmos forças e agirmos em rede, na perspetiva de uma construção de cidadania que infelizmente eu não tive, mas que tenho desenvolvido na minha ação enquanto artista pesquisadora, enquanto mulher ativista, que é: Como posso eu preencher essa lacuna do que eu não vivi? Como é que podemos desenvolver uma construção de cidadania que inclua o corpo, os afetos e a sexualidade? É algo que ainda não vejo a acontecer”, refere.

IMUNE: arte, educação e saúde

“Posso agir na minha micropolítica, na minha rede pequena, mas como é que nos expandimos e começamos a levar isto para a sociedade e a mudar mentalidades?”, questiona Teresa, para explicar a abrangência do IMUNE, projeto comunitário onde está inserido o UNA, e que pretende sensibilizar para o tema do HIV – epidemia que dura há 40 anos – e “compartilhar a sabedoria de corpos positivos que há já muito tempo estão a desenvolver respostas resilientes para viver face à incerteza.”

“É um projeto de intervenção social itinerante”, explica, “que se desloca entre localidades e vai albergar diferentes ações artístico-educativas, como workshops durante uma semana com a comunidade local, intervenções urbanas, palestras nas escolas. E tudo nessa semana culmina com a apresentação do espetáculo e uma conversa pós-espetáculo com o público, que permita integrar tudo o que foi movido.”

O objetivo é que este se torne um projeto continuado que circula por várias cidades, agitando realidades sociais por onde passa, não só mudando “cara” do HIV, mas também estimulando a desconstrução de preconceitos e a criação de sinergias inovadoras entre a arte, a educação e a saúde.

“De que me vale ser artista, se não me sei cuidar?”

Abordando o HIV como um campo de pesquisa sobre temas extensivos a diferentes corpos que vivem “nas margens”, Teresa Fabião procura que o processo criativo ajude a pensar sobre privilégios, lugares de fala, preconceitos e opressões quotidianas, independentemente da realidade social de cada um. “O HIV é uma causa que tem um potencial incrível interseccional. Exatamente porque é uma diferença não visível, porque não há um perfil associado ao HIV. Para mim, esta causa veio abrir caminho para todas as outras causas hegemónicas, seja o racismo, o machismo, a gordofobia, tudo.” É nesta perspetiva, de diálogo e de construção no espaço da diferença, que a artistas enquadra o potencial deste projeto, como ponto de confluência entre diferentes causas contra-hegemónicas. Para a também educadora, ao desmantelar o preconceito em torno deste vírus, estamos, na verdade, a ajudar a desconstruir outras formas de vírus sociais, como o sexismo, homofobia, racismo, classicismo, gordofobia, capacitismo, entre outros preconceitos.

Assim, o IMUNE vai muito além de ser um movimento apenas pela causa HIV/ Sida. Apresenta-se como um movimento pelos direitos humanos, pela construção de um espaço para a diversidade e pela desconstrução da invisibilidade e opressão associados a determinadas experiências de mundo.

“Uma doença social”

O HIV já não é uma sentença de morte. Há vários anos que pessoas em tratamento conseguem manter uma carga viral indetetável e, portanto, não transmitem o vírus, nem este evolui para estados mais graves, como o de Sida. Contudo, e apesar dos avanços científicos nesta matéria, existem ainda desafios e muita discriminação. Para a bailarina, vivemos numa época em que o vírus não é mais uma doença física, mas uma doença social. É o preconceito e opressão que deprime, adoece e continua a matar. “[O HIV] virou uma doença crónica, ótimo. Sou imensamente agradecida por fazer parte desta geração da “virada”. Mas então, onde é que está o foco do problema? Como é que ainda estamos com uma visão e uma vivência obsoleta do que é o HIV? Acho que comecei a entender que o foco é o estigma, o foco é o quanto é uma doença social, que se reproduz de formas diferentes nas instituições, nas relações de micropolítica, nas relações amorosas e em tudo o mais”, afirma. “Para eu estar aqui hoje, tive de atravessar de uma forma muito forte o meu auto-preconceito, porque sou um ser do século XXI e assimilei toda esta coisa através da media, através dos filmes.”

Quando, com 28 anos, Teresa recebeu um diagnóstico de HIV positivo, a artista não conhecia qualquer outra pessoa com o vírus. Hoje, considera que tem um lugar de privilégio e um papel importante a desempenhar para ajudar a acabar com os estigmas e imagens associados a uma pessoa HIV+. “Quantos filmes viste em que havia este tema do HIV? Como é que essas pessoas eram retratadas? Pensa um pouquinho. Pensa que, em talvez quase todos esses filmes, essas pessoas ou estavam a morrer, ou morreram. Ou estavam com sarcoma de Kaposi.” Tais imagens levaram-na, aquando do diagnóstico, a pensar que iria morrer. “Infelizmente, não conhecia ninguém que vivia com HIV até eu própria ter. Acho eu, porque, como é invisível e como as pessoas não se assumem, não sei até hoje.” Por isso, para a ativista, é preciso tornar o vírus visível, para “abrir caminho para todos”.

A ativista partilha que houve um antes e um depois do seu diagnóstico de HIV positivo: “Mudou o meu estado de consciência. E se sempre fui uma pessoa que gostava de pensar sobre as coisas e evoluir enquanto ser humano, acho que acelerou muito isso e foi um trampolim em certos aspetos que, para mim, definem o que é ser humano, seja a empatia, seja o autoconhecimento. Porque não podemos estar bem com o outro se não vamos conhecendo e curando também as nossas feridas. Acho que estamos numa sociedade que, em certos aspetos, está a ir por caminhos muito doentes, e [o vírus] veio-me trazer também esta questão de que tenho primeiro de cuidar das minhas feridas. Para mim, o HIV foi a ponta de um icebergue e que me iluminou certas coisas que tinha vivido ao longo do meu desenvolvimento como pessoa, que achava que eram normais, como esta coisa de não ter acesso a educação sexual.” O diagnóstico revelou-lhe também que, tal como o dinheiro, a educação ou as oportunidades, o amor também é um privilégio. “Acho que o diagnóstico de HIV foi esse «wake up call», esse despertar.”

“Um segundo silêncio”

Se antes pautava o medo e as imagens alarmantes do vírus, os discursos, ou a ausência deles, atualmente, podem encaminhar para uma falsa sensação de segurança. “Eu tenho 38 anos e, à medida que fui crescendo, houve uma série de imagens aterrorizantes sobre HIV, o imaginário do “bicho-papão”. Havia inclusive anúncios publicitários que eram com uma aranha, aquela viúva negra, e coisas assim para gerar pesadelos. O que aconteceu depois é que chegaram os retrovirais e se conseguiu uma cura funcional. Passou-se para esta fase que é chamada de “segundo silêncio”. Houve o silêncio inicial, que isto era a “doença dos gays”, e deles não se fala, deixem-nos morrer para lá. Depois há um segundo silêncio pelo qual acho que esta nova geração está a passar. Não é falado, não é divulgado. Anda aí, mas é como se não andasse. E ao mesmo tempo, como hoje em dia já não se morre do HIV, então está tudo bem.” Mas não está. “Continua a ser algo crónico, e é uma doença social. Não vai ser um mar de rosas.” Este é um alerta que deixa nas palestras que realiza, principalmente junto dos mais novos. “O foco da palestra é o cuidado. É trazer esta dupla-perspetiva (…). Claro, surgem aquelas perguntas básicas:
– Então a professora tem SIDA?
E eu:
– Não, eu não tenho SIDA. Tenho HIV.  
– Porquê?
– Porque me cuido. Como tomo um comprimido todos os dias, o vírus HIV não evolui para SIDA. Está adormecido. A quantidade da carga viral do vírus no meu corpo é tão baixa, que, em mim, os testes nem a detetam. É o que é chamado Carga Viral Indetetável. Indetetável igual a intransmissível.

Isto deveria ser algo que devia estar aí por todos os outdoors, e não só no dia 1 de dezembro. O governo não está a fazer a sua parte”, defende a educadora. “Então, cabe-nos a nós artistas, ativistas, abrir caminho, levar isto para as escolas, levar isto para os palcos, levar isto para as ruas. Porque a rua continua a ser, para mim, um espaço público com o contexto mais que quero explorar, porque é ainda o contexto mais democrático e foi o contexto em que comecei a dar espetáculos com dez anos.”

"Destigmatizar" através da arte (feminista)

“Eu sempre entendi a arte como uma forma de comunicação, de expressão do indivíduo, das minhas emoções e das minhas visões do mundo, e uma possibilidade de troca de visões e de coisas que são conceitos, ou maneiras de estar na vida, mas também de amor.” Segundo a investigadora na área da dança, a arte pode ajudar a transcender muita da complexidade que rodeia o tema do vírus do HIV e os artistas, como noutros temas, devem ser encarados como agentes de mudança social, cujas ações trazem oportunidades de diálogo, reinvenção, cura, sendo os processos criativos, por excelência, “laboratórios” para estas transformações. “A arte é uma forma de conhecimento acerca do mundo. A arte pensa e faz-nos pensar sobre o mundo e a sociedade. Ao mesmo tempo, é a melhor forma de mudar mentalidades e comportamentos: respondemos emocionalmente à arte. A dança, como linguagem da presença e arte do encontro, é um espaço privilegiado para conectar os tecidos sociais. Este projeto assenta na ideia da dança como um caminho de transformação social”, refere Teresa na apresentação do IMUNE. A arte tem este poder, acredita, de “desenvolvimento das emoções, da comunicação, ressignificação, construção de novos imaginários”.

Para Teresa Fabião, em Portugal, o artivismo, a importância social da arte e o papel do artista na sociedade é um meio de enorme potencial ainda por ser explorado. “No ano em que se assinalam, internacionalmente, os 40 anos do primeiro diagnóstico de HIV, parece-me que este tema ser trazido para os palcos, ruas, escolas, por uma mulher artista HIV+, traz algo de inovador ao panorama da arte contemporânea no país.” O IMUNE define-se assim também como um trabalho feminista, “que desafia o que Lina Meruane chamou de «síndrome do desaparecimento feminino» – o apagamento das mulheres que vivem com HIV das conversas sobre a epidemia.”

Entre o HIV e a Covid: uma janela de oportunidade

“Até há bem pouco tempo, para mim, era difícil contar um bocadinho do que é coexistir com um vírus e, se hoje em dia começo a falar aqui em algumas coisas, imediatamente já há uma maior possibilidade de identificação.” Apesar de trabalhar a vivência de um outro vírus, o projeto relaciona-se com o atual momento de pandemia vivido em todo o mundo, devido ao novo coronavírus. “As pessoas tiveram, em pouco espaço de tempo, essa peneira que é coexistir com o vírus, e um vírus que pode ser mortal e que te trás essa consciência da tua finitude”, nota a artista, para quem a Covid-19 inaugurou uma nova fase para a humanidade. “De repente, existe algo que destronou o HIV como inimigo público n.º 1. Aqui surge, a meu ver, uma oportunidade de ouro: o perigo deixou de estar «fora», circunscrito a um grupo marginalizado. De repente, a «ameaça» pode estar em qualquer lado, ou em cada um de nós. Na minha opinião, esta é uma grande lição de empatia e desconstrução do lugar que assumimos no mundo e, por isso, acredito que é uma boa altura para reacender o diálogo em torno destas questões. À semelhança do que está a acontecer com o novo vírus, para transformar a realidade em torno do HIV/ Sida é necessário despertar uma consciência de corresponsabilidade.”

Texto de Flávia Brito
Fotografia de Ida Fiele

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