Tiago Cadete é encenador. Vive entre o Brasil e Portugal há sete anos. Ausente dos palcos, há cerca de um ano, regressa agora a Portugal com duas estreias, Cicerone e Atlântico, ambas com temáticas sobre este país.

Cicerone estreia a 14 de novembro nos Jardins de Belém, inserido no Festival Temps D´Images. Já o espectáculo Atlântico, estreia a 3 de dezembro, e terá lugar no Teatro Nacional Dona Maria II.

Em entrevista ao Gerador, Tiago Cadete falou acerca da ausência, das expetativas em voltar a pisar os palcos, das ambições futuras e da valorização da arte visual e contemporânea.

Gerador (G.) – Estiveste cerca de um ano ausente, sem estrear espectáculos, onde te dedicaste à área da pesquisa e do doutoramento em Artes Visuais na Escola de Belas Artes na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Porquê a decisão da ausência, na cidade do Brasil, e a maior aposta nos estudos lá?

Tiago Cadete (T.C) – Então, na verdade, eu já estou no Brasil há sete anos. Fui para lá fazer uma pós-graduação em dança, porque fui bolseiro da GDA, para fazer essa formação. Eu pensei que ia só ficar lá um ano e acabei por ficar mais. E, enfim, nasceu daí uma vontade de dar continuidade ao campo da pesquisa da minha formação. Eu sou licenciado em teatro, a área da dança entra porque comecei, no meu último ano de licenciatura, a trabalhar com o Francisco Camacho, que era meu professor, e convidou-me para estar na estrutura, e comecei a trabalhar com ele. Há nesse lugar da dança, do movimento, alguma coisa que diz respeito ao corpo e que começou a surgiu muito no meu trabalho. Face a isto, senti muito a necessidade de ter alguma formação que tocasse essa área da dança. Daí ter ido para o Brasil. Para além disso, sempre me interessou muito as artes visuais. Aliás, na adolescência sempre pensei que ia ser um artista visual, mas a gente olha para o panorama português e pensa OK, se calhar vou para teatro pode ser que surja alguma coisa. No Brasil fiz o mestrado na UFRJ, na mesma faculdade em que estou a fazer o doutoramento, em artes visuais. Então, de alguma forma, o doutorado faz com que continue a fazer essa pesquisa sobre as identidades entre Portugal e o Brasil.

(G.) – Com o regresso a Portugal chegam até nós duas novas estreias, Cicerone e Atlântico, ambas com temáticas sobre Portugal. Afinal, o que te levou a focar as narrativas neste país?

(T.C) – Na minha pesquisa de mestrado foquei-me bastante na construção de um “corpo brasileiro”, com muitas aspas, podes pôr as aspas que quiseres. Era muito curioso com esse construção. Como é que esse corpo foi construído, do ponto de vista estrangeiro, neste caso dos europeus, que inventaram uma certa identidade, e pensar também como é que há uma altura em que os artistas visuais brasileiros começam a pensar, e edificar o seu corpo. E, na verdade, a construção desse corpo brasileiro está superligado a Portugal, pela questão da colonização que foi feita naquele país. Então, de alguma forma, os antepassados têm uma forte introdução nessa leitura do que é esse corpo, que atualmente é muito diverso na sua representação. Existia esse foco de eu olhar para o Brasil, e que os portugueses olhassem comigo, e que até os próprios brasileiros criassem uma interrogação sobre esse imaginário e surgimento desse corpo. Chegou uma altura em que comecei a pensar em cruzar o oceano atlântico, e observá-lo, à luz da contemporaneidade. E pensar na identidade entre este oceano. Nós podemos olhar essas histórias que estão em relatos de pessoas ou documentos. Daí nasce Cicerone, que já era para ter sido estreado em maio, ou seja, deveria existir um tempo entre as duas criações. Isto vai ser um desafio muito grande para mim, e para as pessoas pensarem como eu vejo o Cicerone, e logo passado um mês o Atlântico. Eles têm a sua materialidade, ou seja, a forma como foram abordados são completamente diferentes. Um é na rua, muito dependente da escuta, outro no teatro que toca muito a linguagem no cinema. As suas formações são muito diferentes, contudo tentam pensar as edificações de uma história portuguesa. No caso do Cicerone, parto da exposição “Mundo Português” que foi uma exposição que aconteceu há 80 anos. Quero pensar como aquelas edificações de arquitetura e de paisagismo criaram uma certa identidade portuguesa, e uma certa narrativa associada ao salazarismo. Pensar como certas ideias se mantiveram, e como elas criam um certo aprisionamento na nossa história. Elas são contadas de uma forma que impossibilita a abertura para outros campos. E eu, por estar a ter essa experiência no Brasil, parece que consigo perspetivar esta construção da identidade portuguesa de outra forma, o que é muito curioso. Há uma parte em que falo sobre como é que nós portugueses olhamos para o padrão dos descobrimentos, e como olham os turistas de países que foram colonizados por Portugal. Como interpretam aquele monumento. Parece que aquela exposição foi feita para “português ver”, mas, na verdade, hoje em dia, todos os países do mundo olham para Portugal, então como é que eles olham para aqueles monumentos. O Cicerone é isto, já o Atlântico é outra coisa.

Fotografia da cortesia da organização

(G.) – Tiveste alguma fonte de inspiração para a construção das peças?

(T.C) – O que acontece comigo é que basicamente quando estou a preparar um novo trabalho, surge uma ideia para outro trabalho que eu não consigo resolver no anterior. Por exemplo, o Entrevistas foi um trabalho que pensava quem são esses emigrantes portugueses que moram no Brasil, e entre as entrevistas que fiz, tive uma conversa com uma senhora que emigrou para o Brasil de barco. Daí nasceu a ideia de cruzar o Atlântico. Isto para te dizer que a “inspiração”, no meu caso, acontece entre trabalhos que se alimentam um ao outro. Algo que não abordei num trabalho, abordo noutro.

(G.) –  Nas várias sinopses, espalhadas pelos cartazes, da peça Atlântico dizes o seguinte: “parte de uma viagem de cruzeiro de Portugal em direção ao Brasil, percurso outrora desconhecido pelos portugueses, transformado nos dias de hoje em rota de férias”. Ao ler este resumo fico com a sensação de que sentes que a sociedade se esqueceu desses antepassados, valorizando apenas o lazer. Sentes que se vive um desligamento em relação ao conhecimento histórico? Como é que no teu ponto de vista, isso afeta a evolução da sociedade?

(T.C) – Grande questão! Eu acho que não é um esquecimento histórico, na reflexão que tenho vindo a fazer individualmente apercebi-me de que, na verdade, a história nos é contada com pontos de vista assente na figura do herói. Parece que é sempre estranho para uma sociedade falar sobre a história de um ponto de vista do anti-herói. Nós temos um grande exemplo, D. Sebastião, que naquela tentativa de tentar expandir o território e fazer mais uma invasão, morre e aquele corpo desaparece. De repente, parece que Portugal fica sem um corpo, fica sem uma liderança, e já vêm logo os espanhóis e vamos perder o território… Às vezes, parece que queremos sempre edificar alguma coisa, e nós sabemos que enquanto indivíduo, e enquanto criação de individualidade, nós não somos só edificação, somos ruína também. E não tem mal nenhum. Mal para mim são os enganos históricos. Existe um estudo muito interessante de uma pesquisadora de Coimbra, que fez uma análise dos manuais escolares, nos últimos anos, e os manuais quando tocam em pontos sobre a colonização, da invasão portuguesa em outros territórios, têm uma construção absurda. Coisas como “os povos africanos emigraram para o Brasil à procura de novas condições de trabalho”. Ninguém emigrou, foram obrigados, escravizados. Esse processo de escravatura fez com que apenas uma parte da  sociedade portuguesa enriquece-se e não todos os portugueses. Não nos podemos esquecer que a maior parte dos lucros eram destinados às congregações religiosas, associadas ao poder monárquico, ou seja, Portugal continuava com um índice de pobreza enorme.  Todo o processo de escravatura foi horrível, exceto para aqueles que se beneficiavam com ela. Então, tentando responder à tua pergunta acho que há uma certa versão da história que nos é contada, que devemos sempre desconfiar dela. Devemos sempre ouvir outros pontos de vista, sem que isso destrua a nossa identidade.

(G.)Cicerone é uma visita guiada-performática realizada nos jardins de Belém, onde os espaços e ideias da exposição “Mundo Português” (1940) são tensionados pela ausência de edifícios ou pela sua substituição através de novas temáticas. Sentes que é importante esta reflexão visual pelos jardins de Belém?

(T.C) – A exposição “Mundo Português” foi pensada para ter um carácter efémero, construções em ferro, gesso e madeira. Atualmente temos alguns vestígios, porque alguns edifícios foram recuperados, a ideia da exposição é trazida pelos seus vestígios, mas esses vestígios ainda guardam uma leitura histórica, e algum pensamento. A visita guiada performática tenciona e questiona esse lugar e a ideia clássica de um guia turístico. O que faço são pequenas paragens e pequenas ações, onde exponho imagens que entram em justaposição com aquilo que estamos a ver. Por exemplo, a imagem da divulgação que é o padrão dos descobrimentos, uma imagem manipulada em Photoshop, com a alteração da fachada. Essas pequenas ações, são realizadas pelo jardim de Belém, até chegarmos ao jardim tropical, que na exposição era um lugar terrível, julgo que na época e à luz da contemporaneidade. Para além de uma visão arquitetónica muito limitada sobre as ex-colónias, várias pessoas habitavam aquele lugar para serem vistas no seu “habitat natural”. O que faço no  Cicerone é uma exposição temporária que acontece em deslocamento, ela não vai ficar ali para sempre, tem uma duração de dois minuto ou  30 segundos. E o público escuta uma gravação que, de alguma forma cria uma ligação com o que vê.

(G.) – Em outras entrevistas tuas que tive a oportunidade de ler realçaste o seguinte: “falta mais reflexão, mais confronto”. Que poderão estar, porventura, “na resposta do público”. Podes elaborar um pouco mais esta tua reflexão?

(T.C) – Penso sempre que os trabalhos não terminam na hora em que eu os mostro. Eles não têm as respostas todas ali. Os trabalhos não acabam com as palmas. Eles lançam questões. No meu trabalho, sinto que chega um ponto em que já não tenho muito controle, ele funciona como um micro organismo que se expande. O espectador/observador deve sair com questões e interrogações. Acho que as dúvidas que tenho, partilho com o público, tento que ele se interrogue, e que o espectáculo seja só um ponto de partida para a reflexão individual e coletiva.

(G.) – Vives entre Portugal e o Brasil. Para ti, quais são as principais diferenças entre os dois países a nível artístico? Sentes que a arte visual é mais valorizada em algum?

(T.C) – Ui, grande pergunta! A grande questão do Brasil é a sua escala. Só quando as pessoas estão no Brasil e vivem o Brasil com a sua arquitetura, com a sua diferença, só aí sentes o grande peso da dimensão de um país continental. Só um estado no Brasil é país inteiro na Europa. O que é muito curioso é que existem vários Brasis dentro do Brasil. Nós aqui saímos de Lisboa, e passado uma hora estamos no Alentejo, ou seja, passado pouco tempo já notamos diferenças a nível da gastronomia, sotaques, tradições. Lá, precisas de andar muito para que haja essa diferença, e as mudanças são feitas com milhões de pessoas que fazem parte desse grande grupo. Então, acho que essa diversidade, está na própria tipografia do país, de certeza também está nas suas manifestações artísticas, e está com certeza. Então, essa pergunta sobre a  diversidade, acho que existe porque há mais pessoas, porque há uns anos houve um incentivo à cultura, e fez com que os artistas conseguissem concorrer e mostrar um outro lado do Brasil, ou seja, houve uma democratização da cultura. Acho que acima de tudo é a escala. Claro que existem mais artistas visuais, porque existem mais pessoas no Brasil. Será que é mais diverso lá do que em Portugal? Talvez, de acordo com a minha experiência. Acho que existem mais oportunidade de visibilidade do que existem cá em Portugal, parece que aqui temos de passar por muitos patamares para que as pessoas nos olhem como artistas, até que entres numa exposição, até que entres numa galeria, isto nas artes visuais. Na áreas das artes performativas, parece que há uma maior liberdade, e incentivo das instituições portuguesas em darem visibilidade a artistas muito novos, como o caso do Teatro Nacional D. Maria II ou do São Luiz.

O que acontece no Brasil é que existem muitos centros culturais, muitas instituições que são público-privadas. Em termos de valorização, não sei se é mais um país ou outro. É quase como o Covid, hoje em dia, quando ouvimos 2000 casos, temos sempre que pensar nos dados per capita, então eu não sei se há uma valorização em termos numéricos em relação às artes visuais ou performativas. Acho que há uma tradição, que não sei se devia de investigar mais sobre isto, das artes visuais ainda estarem num lugar menos visível, menos palatável para as pessoas. Não que não possa ser interessante, mas há o lugar da própria linguagem, da arte contemporânea, que pode afastar um pouco as pessoas. Mas não deveria ser assim. Em portugal as artes performativas têm muito público e apoio, porque existe e existiu um investimento muito grande em Portugal nas artes performativas, talvez exista um desequilíbrio no que diz respeito ao apoio às artes visuais. Se bem que, quando falas em valor, surgiu-me logo essa questão do mercado, até porque o mercado das artes performativas é totalmente diferente ao das artes visuais. Então, se por exemplo o estado faz um investimento para a criação de um espectáculo, que na verdade é um investimento para o público, o público vai ter acesso ao bilhete a um preço muito mais reduzido, nesse caso o espectáculo/investimento acaba ali. O valor dele termina no ato da sua apresentação. Quando fazes um “objecto” de artes visuais, e ele é cofinanciado pelo estado esse valor pode aumentar até dez vezes, então, na verdade, há aí uma questão do valor que é um pouco estranha para o estado porque, na verdade, estás a dar dinheiro para uma coisa que depois pode valer 50.000 euros. Então, entras num local de lucro, em que o estado não entra. Há aí uns pontos em relação ao valor, que às vezes acho que não beneficiam os artistas visuais em Portugal, e para que haja um respiro maior sobre os seus trabalhos e sobre a sua visibilidade.

Fotografia da cortesia da organização

(G.) Completaste em 2018, 10 anos de carreira. Tendo em conta o teu percurso, o que ainda gostavas de realizar?

(T.C) – Tanta coisa! Dez anos ainda não é nada! Ter ido para o Brasil fez com que criasse uma linha de pesquisa, começasse a pensar no meu processo de criação de uma forma diferente. Essa vivência abriu um campo de interrogações individuais que se tornaram artísticas, acho que esse foi, sem dúvida, um momento de mudança. Gostava muito de fazer uma peça de grupo. O máximo que fiz foi com duas ou três pessoas, então apetecia-me muito, porque possibilita outros discursos, materializa-se de outra forma, chama o público de outra forma. O que há para fazer? Tudo. Mas há o desejo grande de trabalhar com um coletivo.

(G.) – Dos vários projetos que já tiveste a oportunidade de realizar, há algum que te tenha marcado de forma mais especial? Se sim, porquê?

(T.C) – O Atlântico ainda não aconteceu, e isto é muito estranho, mas de alguma forma ele marca-me pela oportunidade de o ter feito. Na verdade, ter atravessado o Atlântico em 15 dias, sair da minha lógica de nove horas, criou em mim uma reflexão. Na verdade, o trabalho ainda não está feito, mas já está feito.

(G.)Há algum projeto futuro que ainda gostasses de destacar?

(T.C) – Eu estou, lá está, com esse desejo de trabalhar com muitas pessoas, em 2021, e pode ser que aconteça até ao final do ano. Isto porque tenho de acabar a tese de doutoramento, e pelo menos uns cinco, seis meses vou ter de ficar fechado na escrita. Mas a ideia é pensar em pessoas que são emigrantes brasileiros em Portugal, e tentar que essas histórias se misturem com a experiência do que é ser migrante no país do outro.

Texto de Isabel Marques
Fotografia da cortesia da organização