O pianista apresenta o seu novo disco Oh Sweet Solitude dia 2 de dezembro às 19h, no TBA - Lux, em Lisboa.

Depois de lançar Um Piano Nas Barricadas, Tiago Sousa dedicou-se a um processo de reflexão, durante o qual estudou compositores de tradição erudita em simultâneo com a improvisação que tanto o destaca nos últimos anos, "eu percebi que precisava de repensar e de alguma forma trabalhar intimamente, o que me levou sempre a estudar mais a fundo algumas referências, nomeadamente compositores do século XX, que são muito importantes para mim", afirma.

Através da sua linguagem pessoal, ausente de cânones e academismos, o artista autodidata desenvolveu um período de introspeção, pesquisa e um estudo dos seus processos criativos. Segundo Tiago, " aquilo que me acabou por acontecer é o que acontece naturalmente a uma pessoa que se começa a debruçar sobre um tema. Numa perspetiva mais estudiosa, começas a ficar com algum bloqueio criativo. Os exemplos são gigantes. Têm obras tão fenomenais e tu, com a tua pequenez, começas a considerar a validade daquilo que estás a fazer. Por um lado, comparativamente a esses trabalhos tão gigantes e, por outro, começas a pensar um bocadinho, ou cais no erro, como eu, de pensar que eles tinham tudo sobre controlo. Havia uma visão muito clara daquilo que estavam a fazer e como chegavam a isso. Então, eu próprio tentei, de alguma forma, ter esse mesmo controlo, essas mesmas certezas e essa clarividência.", revela ao Gerador.

O álbum que agora apresenta, Oh Sweet Solitude, reúne um conjunto de peças para piano solo que dá continuidade ao caminho estético que persegue desde o lançamento de Insónia (2009).

Tiago Sousa, fotografia de Vera Marmelo

Com um caráter "acidental", "livre" e "improvisativo" o artista dialoga com a música contemporânea e exploratória, com elementos jazzísticos difusos e com a música impressionista francesa, "comecei a explorar uma faceta mais improvisativa que eu também já trazia desde o início dos meus trabalhos. (...) no fundo, quero abraçar: a abertura ao que é; ao que pode acontecer; às coisas que não estão programadas e abraçá-las. E, com isto, chegar a sítios que nós nunca pensávamos que fosse possível chegar.", conclui.

Oh Sweet Solitude reflete ainda uma cronologia musical, desde as inspirações dos românticos do século XIX aos modernos do século XX. Das ideias orientalistas do taoísmo e do budismo, às ideias de beatnicks e libertários somam-se temas explorados pelos existencialistas europeus modernos. Esta bagagem permitiu ainda que Tiago percebe-se a sua essência, mantendo-se fiel à sua narrativa.

A escolha de Solitude - nome do disco - revê-se numa relação direta com o artista, "desde logo, o meu objetivo foi distinguir solitude de solidão, que é um questão que quase se difunde, mas que para mim são coisas distintas. Solidão, seria um estado mais depressivo. Acho que nenhum ser-humano se quer sentir só. Somos um ser social ... mas de facto acho que existe um excesso de comunicação, de informação, um excesso quase de tudo na nossa sociedade. No entanto, parece que a solitude contrapõe isso. É o espaço que adora o silêncio, a contemplação, que é dado à calma e à descontração. É um espaço onde não é preciso estar a representar papéis sociais e imagens. É nesse mesmo espaço e intimidade que a mim me interessava também educar, neste caso, através do título.
Além disso, tem uma relação quase direta com o facto de ser a solo. Só o piano e eu. Há essa relação muito próxima e muito própria da música feita em solitude. ", explica o autodidata.

O disco foi lançado pela primeira vez em Braga, no dia 14 de novembro. No entanto, será ouvido pela primeira vez em Lisboa, no dia 2 de dezembro pelas 19h, no Lux.

O artista irá também até Setúbal, no dia 14 de dezembro, pelas 11horas, à Casa da Cultura. Já no início do ano, dará um concerto que será emitido online, no dia 14 de Janeiro, com transmissão a partir do Barreiro.

Texto por Patrícia Silva
Fotografias de Vera Marmelo

Se queres ler mais entrevistas sobre a cultura em Portugal, clica aqui