Acordámos para o terceiro dia do BONS SONS já habituados (e bem) às cigarras que nos despertaram nestas manhãs cheias de calor. Mais um dia e mais uma voltinha pela aldeia. Corremos a Feira das Marroquinarias: há sempre alguém que não traz a carteira, a sweatshirt para a noite…e lá nos safamos – até uma serigrafia do Homem do Saco levámos lá para casa.

Depois do passeio, a fome começou a apertar e, na hora de escolher o que comer, olhámos para a entrada pitoresca do Quintal Aleluia e a palavra “grelhados”, mesmo por baixo, fez-nos salivar. Uns foram pelo bacalhau e outros pelas espetadas, mas todas as opções sabiam inevitavelmente a comida caseira. Enquanto comíamos, inspeccionámos curiosos os pratos biodegradáveis e comestíveis que são uma das grandes novidades desta edição e refletem bem as preocupações ecológicas que tanto caracterizam o festival.

De barriga cheia, seguimos para a sala de imprensa. Vocês devem achar que isto é só brincadeira, mas nem sempre. Algum do nosso tempo é passado com os jornalistas e a amável equipa de comunicação dos BONS SONS a preparar estas histórias que partilhamos convosco. Ao início da tarde, enquanto estávamos na sala da imprensa, começámos a ouvir vozes e palmas que nos despertaram a curiosidade.

Fomos arrastados lá para fora pelo que percebemos ser o concerto dos Artesãos da Música, no palco Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, dentro da Igreja de Cem Soldos. A igreja estava a transbordar com a energia de quem tinha ido para ouvir os temas tradicionais portugueses cantados por estes três artesãos de diversas regiões do país. Para nossa sorte, ainda chegámos a tempo de cantar com eles as últimas músicas e de nos levantarmos para bater palmas, juntamente com a igreja em peso.

Voltámos à feira, agora na Rua do Cerco, e qual não é o nosso espanto quando, no número 129, apareceu Miguel Calhaz num concerto surpresa que fez as delícias de quem por ali passava. São João Baptista era o personagem protagonista desta música interpretada a três instrumentos: contrabaixo, guitarra clássica e flauta transversal.

Às 17h em ponto estávamos na sede do Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS) para uma visita guiada por duas Catarinas, duas Marianas e pelo Dário. Com idades entre os 11 e 15 anos e todos com raízes em Cem Soldos. A primeira paragem da visita é na sede do Campo de Trabalho, o grupo de jovens do qual fazem parte e que começa a trabalhar no festival com 3 semanas de antecedência. Para os mais velhos, existe a Oficina das Avós, responsável por grande parte do merchandising do festival.

Conduziram-nos por todas as “ruínhas” e pracetas, enquanto nos contavam as histórias e os mitos sobre quem aqui vivia, há muito tempo. Ficámos a saber que existe em Cem Soldos um muro do amor, onde era costume os mais novos deixarem cartas escondidas para as suas caras-metade. “Os pais não gostavam que as cachopas e os seus filhos estivessem no namoro”, explicou-nos o Dário.

Terminámos a visita numa rua estreita da aldeia e esperámos que o grupo dispersasse para ficarmos à conversa com os nossos guias. Contaram-nos que, para além de fazerem visitas guiadas, ajudaram em toda a preparação do festival e foram os responsáveis por pintar os vários versos de canções de amor que vimos espalhados pelas paredes da aldeia. Conhecem o BONS SONS desde que ele existe e repararam que o festival tem crescido a olhos vistos, mas aquilo de que mais gostam nunca mudou: “é das pessoas, sempre das pessoas”, disse-nos a Catarina.

Íamos já no terceiro dia e ainda não tínhamos visitado o Auditório Agostinho da Silva. Decidimos espreitar UM [unimal], de Cristina Planas Leitão, um espectáculo inserido na programação do festival BONS SONS pela Materiais Diversos e que foi desenvolvido a partir da ideia de sobrevivência. Um solo forte marcado pela batida de uma marcha que nos deixou completamente arrebatados.

E foi logo a seguir ao espectáculo que encontrámos o Filipe Costa e o Afonso Rodrigues, ou talvez os reconheçam melhor se vos dissermos: Sean Riley & The Slowriders. Sentados mesmo em frente ao palco onde tocariam daí a horas, tentaram entrevistar-nos. Mas que seria?! Afinal, aqui quem faz as entrevistas somos nós! Lá conseguimos fazer as nossas perguntas e percebemos que  só este ano é que estreiam com Sean Riley and The Slowriders no festival, mas que é já a segunda vez dos dois nos palcos de Cem Soldos: Filipe com The Poppers e Afonso com Keep Razors Sharp.

Filipe conta-nos: “fiquei apaixonado pelo festival da primeira vez que vim. Tem uma série de ingredientes e características que contadas não parecem ser nada de especial mas há uma coisa, muito difícil de definir, que é a vibe que conseguiram construir aqui. Sinto que as pessoas estão muito focadas em curtir o espaço e qualquer coisa que apareça num palco, elas estão disponíveis para ouvir: e isso é muito fixe.” Sobre o concerto da noite, Afonso antecipou-nos apenas que seria mais eléctrico, menos acústico do que o costumam fazer em sala. E assim foi – a electricidade dos solos da guitarra de Afonso não deixou ninguém indiferente e parar só mesmo com a balada “This Woman”.

Corremos para o palco Zeca Afonso para ver PAUS, num concerto que nos fez saltar sem parar, do início ao fim, como é hábito. Mais uma cerveja, e subimos para ver Conan Osiris no palco Aguardela. Tiago Miranda e João Moreira eram esperados pela multidão que vibrou ao som de “Adoro Bolos”, “Celulitite” e “Titanique” e até nos sentimos especiais quando Conan nos declarou o seu amor: “Se eu fosse uma máquina a carvão, vocês seriam o meu combustível fóssil.” Impossível ficar indiferente, não é?

A noite mais concorrida de Cem Soldos acabou ao som de Colorau Som Sistema: das cumbias aos sons de Bollywood, dançámos todos e, no meio da praça, bailarinos encantaram-nos as vistas. Foi um dia inteiro a tirar o pé do chão. Já estão cansados?

Ahh! Ainda bem: é que ainda voltamos amanhã!

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Reportagem por André Imenso Cruz, Clara Amante e Patrícia Roque