Cat, com o seu parceiro Sam, trocou o rebuliço da cidade por um remoto recanto beirão. Entre estrangeiros recém-chegados, população idosa e património ameaçado, toma a vida – e as agulhas de tricô – nas suas próprias mãos e alça o seu próprio ninho. Mãe, horticultora e artista têxtil, abriu uma conta numa rede social como quem abre uma janela para o mundo – e há 40 mil pessoas a espreitar lá para dentro.


Quando nos conhecemos, eu era uma lenda a chegar de deambulações por continentes e oceanos. Na Lisboa fervilhante, partilhámos copos e conversas, livros e manifestações, casas e sonhos. Um dia, ela disse adeus à cidade e tornou-se uma lenda.

Passaram cinco anos. Encontro Cat no seu pequeno terreno na região de Idanha-a-Nova, o mais remota que alguém se consegue achar nesta nação-retângulo. Não está sozinha. Há o seu companheiro Sam e a filha de ambos de três anos, J. Há Serra, o cão, Bakunin, o gato, Caramelo, Alice e João, as galinhas. Há ainda rãs, salamandras, centopeias, minhocas, pulgões, joaninhas, pica-paus, poupas, pardais, abelhas...

Já lá vai a habitual hora de dormir quando nos sentamos no topo da rocha que rompe do centro do terreno. O gravador captura as nossas vozes enquanto escorregam pela noite de lua nova e se juntam à orquestra chilreante.

“As pessoas têm esta ideia romantizada de que a vida no campo é tão simples, fácil e calma… Nada disso!”, solta ela numa voz quente. E fala a sério. É a minha terceira visita com tenção de uma entrevista, e até agora só pudera ver ou ajudar Cat e Sam a cuidar da J., cozinhar, trabalhar online, regar a horta, desbastar a floresta, erguer paredes de pedra… E, incessantemente, a tricotar.

Para Cat, o ato de tricotar liga o local e a autossuficiência, a criatividade e a arte. “E é um prazer!”

“É como uma extensão de mim.” Tem estado a criar padrões e a fazer peças em lã pura e de mistura para a coleção de uma marca portuguesa de roupa para crianças. “Encontrei finalmente a minha expressão artística, em algo mais manual e menos concetual, como artista têxtil”, conta Cat, que começou por se aventurar na fotografia, enquanto cursava na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. “Tricotar é uma experiência muito sensorial. Há o movimento repetitivo dos dedos e das mãos, o som das agulhas a chocar, o toque e o cheiro da lã. São gestos quase meditativos, em que se está focado, mas a mente não está la. Estás a criar uma coisa que nunca existiu antes, a partir duma matéria-prima muito pura, muito crua...”

Outras coisas são mais duras de viver por aqui. “Lidas de uma maneira muito mais direta com os extremos do clima: o quente é horrivelmente quente e o frio mesmo frio. Há trabalho muito físico: cortar e rachar madeira, carregar carrinhos de mão de terra ou cocó de burro, cavar na horta… Ações que parecem simples tornam-se bastante complexas. Por exemplo, tomar um banho. As pessoas abrem a torneira e têm água quente. Nós temos de ir buscar água a uma mina funda, aquecê-la, pô-la no balde do duche, prendê-lo na árvore, arranjar algo para guardar a água para se poder reutilizar, porque há muito pouca no verão. Há muita ponderação atrás de cada ação.”

Aquilo que estão a fazer é tão simples quanto revolucionário: aprender a viver localmente. Cultivar a sua própria comida, fazer a sua própria medicina, construir o seu próprio abrigo.

Lá em baixo à nossa esquerda está a casa, onde J. dorme profundamente. As paredes de granito parecem ali estar sólidas desde o início dos tempos. Estivera abandonada durante meio século, as acácias a crescer por dentro, espraiando-se à ausência de telhado.

Nestes vinte e quatro metros quadrados, viviam nove pessoas. Da rocha onde agora nos sentamos, conta Cat, uma criança costumava dançar e cantar para comunicar com os seus amigos lá em baixo no vale. Cat e Sam não estão só a criar um espaço para eles próprios. “Estamos a tentar honrar o trabalho e a vida das pessoas que aqui estiveram.”

Foi um ano de trabalho. Lixar pedras, partir rochas para nivelar o chão, erguer um telhado novo em folha. “Foi muito trabalho do Sam e nosso. Mas não o poderíamos ter feito sozinhos. Para colocar a madre-viga, por exemplo, tivemos a nossa comunidade a ajudar. Quando olho para a casa, recordo as mãos e a ajuda dos vizinhos e amigos – e isso torna este lugar mais especial”, diz Cat. “Há algo muito especial em conhecer cada canto do teu abrigo, cada centímetro guardando uma memória táctil. Conheces cada fissura que pode eventualmente criar um problema e sabes como repará-lo se o fizer. A casa que constróis tu mesma não é só uma casa, é um símbolo de tempo, dedicação e carinho. Ela cresce contigo”, escreveu Cat em março, ao despertar da primeira noite sob o novo telhado. “Foi o clímax desta viagem de um ano, um espreguiçar cheio de empoderamento e de ‘nós conseguimos!’”

Com a ajuda dos vizinhos, décadas depois, esta casa volta a ter telhado.

“A casa que constróis tu mesma cresce contigo.”

O Poder de fazer

Cat cresceu em Évora, e amiúde visitava a aldeia dos avós na serra da Gardunha. Foi ali, em Casas da Zebreira, que projetou um secreto desejo de eremitagem. “Estar longe durante um ou dois anos. Cultivar comida. Colher coisas da natureza.”

Primeiro, veio Lisboa e as Belas-Artes. “Nunca ali vi o meu futuro, mas adorei todo o movimento, todas as coisas novas. Foi em Lisboa que conheci pessoas que viviam uma vida próxima daquilo que eu queria, na mesma região. Fiquei inspirada e vi que o sonho poderia tornar-se real. Foi a cidade que tornou tudo isto possível.”

Uma primavera, conheceu Sam. No verão, no mesmo mês em que terminou a universidade, disse: “Tchau, vamos para o campo!”

Assim começou: duas pessoas, durante dois anos, numa aldeia de vinte pessoas, com dois mil euros. “Na altura, parecia-nos uma fortuna!” Um velho curral, que outrora guardava touros e batatas, tornou-se a sua nova casa. Meio hectare de terraços tornou-se uma frondosa horta de permacultura.

A colheita do dia: beringelas, feijão-verde, tomatilho roxo, abóbora pattypan.

“Aquilo que mais recordo deste período é a leveza, a vida sem grandes preocupações. O isolamento. A experimentação. Explorámos ‘o poder de fazer’, de forma muito diferente de quando estás numa cidade rodeada de pessoas e recursos. Dá muito mais satisfação fazer tudo com as tuas próprias mãos, do início ao fim.”

A maioria dos aldeões andava para cima dos 70. Todos recordavam Cat de miúda. “Sentia-me num lugar a que pertencia.” A vizinha Alexandrina, que nunca viu o mar, tornou-se a sua ‘fada’. “Tinha uns dedos verdes: tudo o que plantava crescia. Foi a nossa primeira mentora no que diz respeito à horta e à medicina tradicional.” Cat pôs-se a estudar o reino das plantas e a aprender medicina local tradicional, baseada na bioregião. “Tínhamos tanto a aprender com as pessoas. Mas algo faltava. Pensámos que ao estar ali iríamos atrair mais jovens, mas não foi de todo como imagináramos.”

Numa madrugada de outono, num parto no antigo curral, J. nasceu, aumentando a população para vinte e um e baixando consideravelmente a média de idades. Mas era tempo para um novo capítulo. “Tínhamos demasiada necessidade de movimento, de contacto social com pessoas da nossa idade e com os nossos interesses.” Um evento de troca de sementes levou-os a um lugar ainda mais para nordeste. E foi amor à primeira vista.

O velho curral tornou-se a nova casa.

Cultivando a horta com um rebento às costas.

Um novo sopro de vida

Movimento não é a primeira palavra que me vem à cabeça quando aqui chego. Estou a vinte e cinco quilómetros da fronteira espanhola, e a vista é de cortar o fôlego: serenas aldeias de pedra, silenciosos campos dourados, sábios olivais sem tempo.

Durante os últimos fôlegos do fascismo, a geração dos nossos pais deixou o interior para as cidades do litoral ou para a farta Europa. Se o país fosse uma jangada, tinha-se virado ao contrário. Hoje – exceto quando de dois em dois anos os PA do Boom Festival desatam a vibrar – Idanha-a-Nova tem uma das populações mais envelhecidas de Portugal: uma em cada dez pessoas tem mais de 85 anos.

A busca de Cat e Sam por terra incluiu correr atrás de tratores de agricultores e passar longos períodos nos cafés. “Compras um terreno com base na tua visão. Requer a criatividade de ver o que pode ser feito no lugar”, observa Cat. Listaram todas aquelas coisas com que gostariam de contar: fonte de água, floresta, árvores de fruto, outras crianças por perto, uma rocha grande, uma ruína… Mas tudo o que viam estava longínquo do que podiam pagar. Certo dia, já a esperança se esvanecia, um amigo indicou-lhes alguém, que lhes indicou outro alguém… Depois de lhes mostrar três terrenos, este homem lembrou-se: “Na verdade, há mais um, não fica longe.” “Subimos o monte, e era como uma selva. Não conseguíamos ver nada.” Por entre a densa invasão de mimosas, escondiam-se oliveiras, uma mina de água, uma rocha grande – e uma ruína. “Havia um bom sentimento neste lugar. Algo ressoava connosco”. Ali viriam a contar 25 dos 26 itens da sua lista.

Foram conhecer a dona. Era uma senhora idosa, que fora outrora uma criança, que costumava dançar e cantar nesta mesma rocha para comunicar com os seus amigos lá em baixo no vale. Ela disse-lhes que propusessem um valor. “Oferecemos logo tudo que tínhamos. Ela disse: ‘Está bem. Podem mudar-se já para lá’.”

A cada ano, a senhora passa por aqui, a mostrar-lhes tudo o que há e o que houve, ver as mudanças que fizeram e partilhar novas histórias. Como quando no verão todos dormiam cá fora e a sua mãe cozinhava na fogueira. Ou como também desta rocha a mãe costumava gritar a perguntar se o forno comunitário estava livre para no dia seguinte cozer o pão.

“Somos só mais uma geração a passar por esta casa e por esta terra, dando-lhe amor e cuidado. Há uma sensação superestranha com esta coisa de ser ‘proprietário de terra’. Como poderia isto ser meu? Quantas pessoas e culturas já pisaram este chão?”, interroga-se Cat. “Não se fabrica mais terra. Se conseguires ter um pedaço de terra e cuidar dele, é um favor que fazes à própria Terra.”

Cat e Sam têm tentado agir de forma respeitosa, sustentável e bem vagarosa: são só dois e pouco dinheiro têm para investir em grandes trabalhos. Foram acolhidos pela população e pelas famílias vizinhas. “Comparado com a nossa realidade anterior, é como estar numa metrópole!”, ri-se Cat. Esta zona da Beira Baixa é um dos vários recantos rurais de Portugal onde uma turba de pessoas estrangeiras se vêm estabelecendo nos últimos anos. Por entre os outeiros bordados de estevas e oliveiras, os ribeiros escusos por silvado e vinha brava, as veredas atravessadas por um Renault 5 ou uma mula, descobrem-se famílias, gentes de todas as idades e nacionalidades: Alemanha, Israel, Escócia, Holanda, Itália, África do Sul, Tailândia…

“Às vezes é um pouco como duas comunidades à parte: os recém-chegados e a população local. Eu estou no limbo entre os dois mundos, porque sou portuguesa e há muito poucos portugueses nos novos ‘transplantes’ daqui.”

“As praias, o clima, os preços… Toda a gente quer vir viver para Portugal. Até perceberem que não é assim tão fácil aqui, que o deserto do Sahara está a subir, que as coisas estão a ficar mais secas a cada verão. Há um choque com a realidade, sobretudo de estrangeiros que compram terrenos através de agências. As fotografias na Internet mostram a terra na primavera!”, diz Cat numa gargalhada.

“Há tanta gente que chega com uma atitude de ‘eu é que sei, vamos lá fazer permacultura, que as pessoas aqui não sabem fazer nada.’. Ou ‘vamos finalmente transformar este barracão em ruínas numa casa para viver.’ Parece-me tão desrespeitoso. Isto era uma casa! O que vamos fazer é permitir-lhe continuar a viver por outras mãos, voltar a ser o que era e sempre há de ser: um espaço de habitação, feito de pedras, trabalho e amor também.”

Mais a incomodam ainda as pessoas que veem a terra como um investimento, e compram terrenos na expectativa de que daqui por uns anos valham x vezes mais. “É esta visão da terra como um recurso para aproveitar sem dar nada em troca… É muito irresponsável, não se pensa no impacto social e económico. Faz os preços subir imenso. Há tantos jovens que gostavam de ter um pedaço de terra aqui e está a tornar-se completamente inacessível. ‘A terra a quem a trabalha!’, não é? Continua a ser igual!”

Desde este monte beirão, o nosso espírito viaja até Lisboa e Cat faz o paralelo com a gentrificação e a turistificação que assaltam a cidade onde os nossos caminhos se cruzaram. “As casas a quem as habita!”, exclama.

“Acho que esta vai ser a nossa nova casa!”, anunciava Cat no início de 2017.

No cimo da rocha, onda outrora uma criança costumava dançar e cantar, sentamo-nos agora à conversa.

Vivendo local, com redes sociais

Cat provavelmente nunca se habituará à ideia de que há quase tantas pessoas a segui-la no Instagram como há habitantes na cidade onde nasceu. “Estamos aqui tão no meio do nada, podemos passar um dia inteiro sem ver ninguém, e quando partilho uma coisa na internet há mais de trinta mil pessoas a olhar para aquilo.”

Foi em Casas da Zebreira que decidiu abrir uma conta no Instagram, para quebrar o isolamento no frio da Gardunha e encontrar quiçá outras pessoas a tricotar vidas parecidas. E aconteceu. “É assim como uma pequena janela para o mundo”, descreve. Hoje, contam-se quase 40 mil seguidores. “Partilhar aquilo que nos apaixona de forma autêntica e honesta abre muitas portas. Não gosto nada desse estranho mundo dos likes e audiências. Mas abstraio-me, porque nunca foi o meu objetivo. A última coisa que quero é que o tipo de vida que tenho seja romantizado ou idolatrado. Conheci pessoas incríveis, que considero amigas apesar de nunca as ter encontrado. Estas relações autênticas sempre estiveram acima de qualquer número de likes ou seguidores.”

Como Florine, uma amiga de Larzac, França, que há três anos a veio visitar e a ensinou a seguir padrões de tricô. E, desde então, Cat não passa um dia sem tocar nas agulhas. “Percebi o prazer que me dá… Percebi a corelação entre o tricotar e a autossuficiência, e o empoderamento e autoconfiança de poder fazer roupa para mim e para a minha família. Poder trabalhar com lã pura e apoiar uma profissão que está em risco de desaparecer: a pastorícia.”

A jovem criadora reconhece que com uma grande audiência surge também uma responsabilidade. “De repente, estás a influenciar a vida de pessoas, estás a mostrar alguma coisa. Quando tens uma plataforma e uma voz, é irresponsável não a usar para amplificar movimentos, lutas e contestações. Na cidade, estava no ativismo mais direto, mais físico. Quando me mudei para a serra, estava a viver as coisas pelas quais lutava na cidade. Mas era uma escala muito pessoal. Não estava a influenciar ninguém. Quando passei a ter esta voz no mundo da Internet, pude voltar a estar no ativismo, fechar o círculo, sentir-me mais completa.”

As redes sociais mostraram-lhe também que é possível viver afastada e encontrar alguma sustentabilidade financeira online. Durante muito tempo estiveram a viver um dia depois do outro, Cat vendendo o seu artesanato online, Sam biscatando como carpinteiro. “Só nos permitia sobreviver, não tínhamos dinheiro nem para comprar materiais para construir a nossa casa, o que era superfrustrante.” Este ano, ela começou a trabalhar online de forma permanente para uma aplicação dedicada à gravidez e maternidade. “Mudou tudo! De repente, temos espaço para respirar. Não faz mal se gastarmos o dinheiro, porque daqui a uma semana vou voltar a receber. Nunca tinha experimentado isto na minha vida.”

Cat reconhece o privilégio de ter estudado artes e fotografia, que pode ajudar a explicar o sucesso do seu Instagram. “Há muita gente que não pode fazer estes estudos, tradicionalmente incertos como futuro. Só pude fazê-lo porque os meus pais estavam bem em termos financeiros para me permitir tentar e falhar.”

Os meus amigos querem agora usar este espaço para pensar num projeto económico conjunto. “O que quer que venha no próximo capítulo vai estar ligado à lã”, afirma Cat. Imagina-se trabalhar com os pastores da região e produzir fio, eventualmente criando uma cooperativa. E sonha ter o seu próprio rebanho, tosquiar as ovelhas e fiar a lã. “Fazer uma coisa aqui que nos apoie a nós, que apoie os produtores de ovelhas e os pastores, que dinamize a produção de lã em Portugal.”

“Tantos de nós aqui estamos focados na construção das nossas casas, nas nossas necessidades básicas, que não temos tempo de nos focar nos nossos sonhos. Estou curiosa de ver como vamos estar daqui a dez anos, quando todos tivermos casas, água quente, hortas produtivas, imensas árvores de fruto e animais – a produzir muito mais comida aqui. O futuro é incerto. Podemos ter onze anos mais até as alterações climáticas levarem ao colapso da sociedade.”

Mesmo o mais remoto que alguém consegue estar nesta nação-retângulo, ninguém parece ao abrigo dum modelo económico determinado em crescer, crescer até ao colapso. As potenciais reservas de lítio de Idanha-a-Nova são cobiçadas pela indústria mineira, para alimentar o sem-número de baterias requeridas pelo ‘capitalismo verde’. Há também um plano de uma nova autoestrada entre Lisboa e Madrid – para poupar trinta minutos ao percurso atual. “É aqui, literalmente, à nossa frente”, alerta Cat. “Nem quero pensar no impacto ambiental. Se for adiante, garanto que ninguém se vai calar. São oportunidades paras as pessoas se juntarem, e prepararem a resistência!”

“A resistência não é fútil”

Texto de Francisco Colaço Pedro
Fotografias de Cat

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