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Tropeçar no LAMA TEATRO com a 1ª. edição do MOCHILA às costas

Entre os dias 4 e 14 de novembro, o MOCHILA – Festival de Teatro para Crianças e Jovens traz a vários espaços da cidade de Faro, 11 espetáculos. Assinalando-se como a 1.ª edição, não serão apenas os espetáculos que ocuparão espaço na mochila. Seguem-se as formações, os debates e as conferências. No entanto, voltemos atrás no tempo.

Há cerca de onze anos nasceu o LAMA Teatro. Tendo como pano de fundo a cidade de Faro, em 2010, a nova estrutura de criação artística abriu portas, saiu à rua e trouxe consigo algumas das reflexões e pensamentos que até então se viam escassos no panorama artístico da cidade. As iniciativas que levam João de Brito, ator e diretor artístico do festival dedicado a crianças e jovens, a conversar com o Gerador vão além de uma região Algarvia e de um festival que nasceu no tropeçar de pessoas com a companhia de teatro.

Pensar nas artes, hoje, é também um processo que caminha para um futuro próximo. Os diferentes espaços culturais da cidade de Faro estão prontos a receber o festival nos mais diversos locais. João tornou-se um “visionário” que depois de partir da sua cidade de residência na região foi membro fundador do Laboratório de Artes e Media do Algarve (LAMA) e entre Lisboa e Faro trabalha com o objetivo de fazer Teatro para as pessoas. E agora?

É tempo de levar as áreas performativas nas suas mais diversas formas a todxs aquelxs[AS1]  que se permitem recebê-las. Há cerca de onze anos foi o que motivou João e toda a sua equipa e assim continuará, dez anos depois através da Black Box, a mediação cultural e a LAMA.

Gerador (G.) – Começo por te questionar o porquê do Mochila? Como é que nasce este festival?

João de Brito (J. B.) – Este festival é um bocadinho do trabalho continuado que o LAMA tem feito para este tipo de público, o público infantojuvenil. Nós acima de tudo somos uma estrutura de criação artística onde criamos espetáculos e durante estes onze anos achamos que a criação para estas faixas etárias é sem dúvida fundamental. Então, isto é um bocadinho a continuação do nosso trabalho, mas numa área da programação. Nós também temos vindo a apalpar terreno ao longo dos tempos, porque tivemos um festival – e creio que foi os primórdios da nossa interação com a comunidade, com os diferentes públicos e com o espetáculo também para toda a família –, o festival de Curtas Teatro do Algarve que teve três edições em 2012, 2014 e 2016. E este festival foi assim um boom de interação entre os criadores da região, mas também com criadores de fora e permitiu uma grande ligação com o público. Ainda hoje me falam desse festival. E foi esse o nosso primeiro momento de programação, aliás, de pensamento sobre a programação a oferecer à comunidade Farense e à comunidade regional. Depois, isso foi extinto em 2016. De seguida, surgiu a hipótese de fazermos programação de espetáculos teatrais ou multidisciplinares ao final da tarde no Festival F que é um festival de música, mas nós fazíamos espetáculos ao fim da tarde, antes das pessoas irem para os concertos. Fizemos isso durante dois anos. Entretanto entrou a pandemia e o F também mudou um bocadinho, agora são só noites F já não é o festival completo, para já.

Esta MOCHILA já estava em preparação. Começou por nascer o ano passado com o Estojo que é o laboratório pedagógico. Tinha outro nome, antes. As coisas também se vão moldando ao longo dos tempos, mas agora trancamos o nome como Laboratório Pedagógico do LAMA teatro, onde eu faço provocações a três grupos de teatro já existentes que são constituídos por adolescentes da região, não só de Faro mas também de outros locais do Algarve. Eles já têm esses grupos, já têm os seus encenadores. Eu só faço provocações com temas da atualidade e eles criam os seus próprios espetáculos. O ano passado apresentaram três espetáculos, cada grupo – o Panápaná, o Teatro Improviso Intervenção e Grupo de Leitores – apresentaram, todos juntos, na Black Box e fizeram uma espécie de maratona. Este ano fiz outras provocações. Eles estão a criar três novos espetáculos e vão ornanta-los no Auditório do Instituto Português de Desporto e Juventude (IPDJ), desta vez, em dias soltos porque eles fazem parte da programação, sendo um laboratório pedagógico que faz parte deste trabalho de mediação e de ligação com estes grupos de Faro e ainda permitir-lhes mais condições de produção para apresentarem e fazê-lo juntamente com profissionais que, na verdade, serão também os futuros profissionais de alguns deles certamente.

Loop, Panápaná

G. – Há pouco referiste que a edição do festival foi um trabalho pensado ao longo do tempo, através do LAMA. Falamos assim de um trabalho junto da comunidade. Tem sido um desafio fazê-lo e perceber o quanto isso pode influenciar numa fase de criação, mas também num processo de partilha?

J. B. – Sim, eu acho que houve sempre uma grande preocupação do LAMA em relação a isso, esse trabalho e a proximidade com as pessoas e acho que também, inevitavelmente, parte de mim sendo que sou uma pessoa acima de tudo agregadora. A Black Box, por exemplo, foi um ponto importante que nasceu o ano passado e agora está com programação regular. É mais um desses marcos em que a ideia é dar um espaço alternativo adaptado a uma sala de teatro. Não é propriamente um teatro. É uma sala adaptada. É uma box onde se estimula este trabalho de laboratório e de pesquisa, onde os criadores regionais têm espaço aberto para trabalhar e onde podem apresentar espetáculos.

A minha ideia também sempre foi esta de o LAMA misturar pessoas. Em cada projeto que surge temos pessoas de Faro que eu gosto do trabalho e podem ser influenciadas por artistas de outro sítio do país, ou quando estou em Lisboa está alguém de fora ou vice-versa… essa sempre foi uma preocupação.

Eu acho que, nos últimos dez anos, Faro e a região algarvia cresceram muito no panorama artístico, mas a ideia é facilitar coisas às pessoas que eu há uns anos não tinha, como formações com pessoas que fazem parte do circuito e já com um trabalho muito sedimentado; ter essa oportunidade sem ter de sair do Algarve; ter um espaço onde podem criar sem terem de sair daqui; abrir espaço para quem volta. Há muita gente que esteve fora e depois regressou, porque também tem esta missão de fazer um trabalho de desenvolvimento do pensamento, de questionamento e de estimular esse espírito crítico da população em geral que acho que durante muitos anos esteve um bocadinho abandonado, por vezes também pelas entidades superiores, não só pelos artistas que acabam por ser a cadeia mais baixa, mas que tentam remar desta maneira para que isso seja possível. Acima de tudo é esta coisa de agregar. Acho que na agregação é que está coisas. Houve projetos pontuais no LAMA que foram extremamente importantes para que isso acontecesse, onde se criaram ligações a outras pessoas que por sua vez vieram trabalhar juntas em outros contextos completamente diferentes. Isso deixa-me muito feliz porque acho que é para isso que trabalho.

G. – Tendo em conta todo o teu trabalho e bagagem profissional, levar o teatro a todxs, crianças e jovens, é também um processo de sair à rua e de comunicar com elxs em espaços que não se resumam tradicionalmente ao Teatro?

J. B. – Claro que sim. Gosto de dizer esta coisa: muitas vezes saímos para a rua com esta ideia das pessoas tropeçarem em nós porque há aquela deslocação, se bem que agora não se vê tanto, mas havia sempre aquele carácter imponente dos teatros. Ainda há muita gente que convive um bocadinho com isso. Já está muito melhor, mas a ideia de não haver um comodismo também me interessa.

De repente criamos espetáculos de rua, o que não era uma coisa que me passasse de imediato pela cabeça porque é um trabalho duro, claramente diferente do trabalho dentro de uma sala, mas tem sido muito importante. Foi também um dos focos. É também um processo de questionar como é que tu combates um sistema burocrático que é o nosso país em escolas, por exemplo. Tem-se tentado quebrar algumas barreiras, mas é difícil. É através da questão “como o fazer” que percebemos que a resposta é facilitando o máximo. É pedires o mínimo de coisas possível. Nos espetáculos de rua nós não precisamos de nada nem de corrente elétrica só para não dificultar e não haver barreiras e não serem causadas por nós. Claro que não deviam de ser barreiras. E, acima de tudo, sermos uma companhia de itinerância. Irmos a vários sítios do país mostrar o nosso trabalho, se bem que não é só uma questão de mostra, mas acho que a missão se estende para além do Algarve com a itinerância. Há também um interesse nosso em ir a diferentes cidades, porque elas também nos oferecem. Não é só o circular por circular e acho que a itinerância tem sido um dos grandes marcos do trabalho do LAMA. Nos mais variados espetáculos temos andado no país todo. Há a ideia de internacionalizar, o que ainda não foi possível. Depois também entrou a pandemia e foi mesmo na altura em que não estávamos a poupar terreno para a internacionalização. E este festival também. A ideia de que ele se torna internacional. Também estamos a apalpar terreno para uma próxima edição poder ser extensível a outros países, mas, sim, acho que este andar por todo o lado e tentar quebrar, não estando só à espera que nos venham ver é um dos nossos princípios. Não somos só nós que fazemos isso, como é óbvio, mas é um dos princípios para também arrastar pessoas para a Black Box. Arrastar pessoas quando vamos ao Teatro das Figuras; arrastar pessoas quando vamos ao São Luiz; arrastar pessoas quando vamos a outro tipo de sítios e aos poucos temos conseguido.

João de Brito, ator, encenador e diretor artístico

G. – E isso acaba também por ser um processo de desmistificação do espaço onde, normalmente as artes performativas ganham forma?

J. B. – Sim e por isso é que a Black Box, para mim, é um espaço informal e um espaço descontraído e nós queremos que seja um espaço descontraído. Por isso é que tem cadeiras, cada uma da sua família, um espaço que não é nada pomposo nem quero o que seja para que as pessoas também que o visitam não se sintam confortáveis dentro do possível. E também pessoas que não estão habituadas. Já aconteceu isso e só tivemos três espetáculos ainda desde que começámos a ter programação regular. A verdade é que sinto isso. Há pessoas que pura e simplesmente não estão habituadas a ir a espetáculos, foram e sentiram se bem. Cheguei a pensar “isto vai ser um ovni para estas pessoas, estes espetáculos mais abstratos”. E não, as pessoas saem de lá surpreendidas pela positiva e as respostas têm sido ótimas e essa é também a minha preocupação, ter uma programação também de qualidade para que as pessoas possam questionar-se e criar hábitos. Acredito ainda que essa informalidade pode ajudar a criar hábitos. As pessoas podem estar a beber um copo de vinho enquanto estão a ver o espetáculo. Esta é também uma ideia de informalidade onde queremos fomentar mais conversas com o público, por exemplo. Quanto mais nos aproximarmos, quanto mais eles se sentirem da casa, melhor e a Black Box é reflexo disso. Acho que continua a ser esse lado descontraído e claro que é um espelho um bocado do que eu tento passar para a companhia, mas é esse lado de não haver grandes barreiras, as coisas serem mais ou menos simples para também simplificar quem vai a nossa casa.

G. – Falar da programação é também falar de diversidade e, particularmente, neste festival existe também esta preocupação? A forma como os diferentes coletivos e as companhias de teatro podem de facto abordar temas como as obras de grandes nomes da Dramaturgia e torná-las tão suas no seu entendimento transmitindo-as a um público jovem...

J. B. – Sim, completamente. Eu estou sempre a dizer que não gosto de fazer destaques. Acho que só faz sentido destacar pelo todo, porque acredito que o festival assim o vale. É um pouco a minha maneira de estar, mas como é óbvio acho que é muito eclético, creio que assim o é dadas as estruturas em que eu cresci, a ver trabalho altamente referenciado como o Teatro Praga ou o trabalho da Madalena Vitorino, também para estas faixas etárias já desde o tempo do CCB. São pessoas que eu respeito e acho que o trabalho tem que ser visto e, depois, misturado com estruturas que são recentes que já têm um trabalho muito sedimentado como é o caso de UmColetivo que vem de Elvas e como o caso do Bestiário que é de Lisboa, e que têm uma estrutura recente, mas tem desenvolvido bastante trabalho para estas faixas etárias. Passa assim por misturar companhias de referência com companhias mais recentes. O LAMA também uma companhia, com onze anos, é mais ou menos recente.

Os três espetáculos são baseados em peças do Shakespeare, mas todas elas pegam em pontos chave dos espetáculos do Shakespeare para contar uma história ou para abordar temáticas ou pelo menos o Parlamento Shakespeare do Bestiário e o Romeu Romeu é assim. Nós pegamos em pontos fulcrais, no caso do Bestiário com “À vossa vontade” e no Romeu Romeu e Romeu e Julieta pegamos temas centrais da peça e esmiuçámos, fazendo com que o espetáculo vá por outro lado. Os Praga, com o Romeu e Julieta, a fazer um cheesecake, o que é maravilhoso. Aliás, é um espetáculo também referência que já circula há cerca de dez anos e creio que é algo que tem de ser visto. Além do mais, a possibilidade do Estojo como já falei de três grupos que estão a criar no momento, não são espetáculos que já estão feitos, mas sim espetáculos que vão nascer e que depois podem ter a sua vida pós Mochila e que estão também misturados com outros profissionais. Temos companhias referência, companhias recentes também com um trabalho muito meritório e estruturas que supostamente não são profissionais, mas que estão a um passo de o ser ou vão trabalhar como sendo porque estão envolvidas no mesmo festival de companhias profissionais. Além disso temos ainda a questão do Gang das Mochilas. Nós queremos estacionar, ou seja, o festival era para ter acontecido em março foi adiado para novembro como meio mundo adiou coisas, mas a ideia é que ele estacione ali na altura de maio e junho, onde no Algarve já começa a estar um bom tempo, Primavera-Verão e que envolva o Dia da Criança. A ideia é que na próxima edição seja nessa altura. Isto porque queria ter mais coisas de rua, mais espetáculos de rua. Acho que é importante ter estes espetáculos e como este ano havia menos A grande viagem do pequeno Mi, da Madalena Vitorino vai ser nos claustros do Museu ao Ar Livre e este Gang das Mochilas que vão fazer pequenas intervenções e happenings na rua, onde vão criar a partir do objeto da mochila como é que como é que se pega, como se utiliza a mochila; o que se leva às costas; o que é que se tira lá dentro. São premissas muito simples dadas por mim, pela Sara Martins e pela Marta Gorgulho. A Sara é bailarina e a Marta é atriz e são professoras deles, isto porque o Gang é constituído por alunos do curso de Artes do Espetáculo da Escola Secundária Tomás Cabreira e são cerca de 50 alunos do primeiro, do segundo e do terceiro ano. São quase os três anos do curso que estão envolvidos no Gang e isso deixa-me muito feliz quando eles disseram todos que queriam participar. E vai ser fixe porque de repente é uma massa humana que vai andar pela rua e que vai dar nas vistas sobre o trabalho que estamos a desenvolver a partir desta premissa muito simples, mas acho que vai ser marcante tanto para eles como para nós.

G. – Estavas à espera que assim fosse?

J. B. – Por acaso sim. Acho que eles têm muita necessidade de fazer coisas. Muitas vezes, passa por esta zona académica, se bem que vão tendo experiências porque têm também muitas horas de estágio para fazer ao longo dos três anos, mas a mim não me interessa só as horas de estágio e sei que para eles também é importante, mas a mim interessa-me a experiência que eles vão ter. Há miúdos que acabaram de entrar! A escola começou há um mês. De repente já têm um impacto assim como pessoas no meio da rua e acho que isso fará com que eles cresçam. Aos poucos vão sentindo algum alento também em ter este tipo de oportunidades de fazerem estes espetáculos e acima de tudo experimentarem na prática o que pode vir a ser a vida deles, intervirem com as pessoas e serem parte integrante do festival, sentirem que são o Gang deste festival. [risos]

G. – Falamos mais uma vez em partilha, criação de ideias e de experimentação, não é?

J. B. – Sim, é também a oportunidade de verem os outros espetáculos e que as pessoas comuniquem entre elas e sintam que a Mochila é delas também.

A grande viagem do pequeno Mi, da Madalena Vitorino

G. – Quando falamos em públicos jovens rapidamente os conectamos com a educação. Sabendo também a importância do festival Mochila junto das instituições, acreditas que estas iniciativas podem contribuir de alguma forma para que haja uma nova perspetiva, reflexão e conexão entre as áreas performativas e as escolas?

J. B. – Sim, o Plano Nacional das Artes vai-se implementado aos poucos. Nós temos ligação com a coordenadora intermunicipal que é a Anabela Conceição que tem dado uma ajuda muito boa na ligação com os agrupamentos escolares. Às vezes, bate na parede e volta. Nem todos os professores têm o mesmo tipo de recetividade ou porque há testes, por outras coisas na escola ou porque é muito no início das aulas... Eu acho que quanto mais insistirmos mais próximos estaremos. Eu gostava que a Mochila ficasse como uma referência de um festival no Algarve para que as pessoas já saibam que uma vez por ano, pelo menos, há essa programação e essa oferta e que as escolas já se organizam. É normal que no primeiro ano estejam apalpar terreno, nós também, que as coisas não sejam logo imediatas, mas mesmo assim a recetividade está a ser muito boa. Não sei como é que vai correr de adesão das escolas ainda. Não tenho noção. Mas a ideia é que se isto se sedimentar e ficar sempre numa altura do ano específica, acho que vai ajudar a que as pessoas canalizem os seus esforços, principalmente as escolas e os professores, para que os miúdos venham e até possa ser parte integrante da discussão sobre o que é que vai ser o festival. Também gostava que isso acontecesse, não só a este lado da fruição mas aqueles que fossem parte integrante da discussão do que pode ser um festival, que conversas informais é que podem existir, de fazerem parte de apresentação do Festival, oficinas que considerem necessárias... Ser algo discutido entre nós para nos aproximar ainda mais. Claro que no primeiro ano isso não vai acontecer, mas tem uma a existido uma ajuda do Plano Nacional das Artes e alguns professores que já trabalham connosco e temos uma ligação estreita entre nós, mas essa é a ideia que o festival faça esta ponte também sendo que ele também nasceu um bocadinho por esta falta de programação regular. Há programação para esse público infantojuvenil, mas não é sistemática. Esta condensação no tempo de 11 dias de festival pode ajudar pelo menos a canalizar, para depois começarmos aos poucos já com a programação da Black Box também a pintar o Algarve com mais espetáculos durante o ano inteiro.

G. – Partia agora para a palavra que nos acompanha há muito tempo. A descentralização. Tendo em conta toda a sua bagagem profissional e todo o seu conhecimento nestes últimos dez anos de que forma caraterizas esta evolução? Ainda é um longo caminho que nos acompanhará?

J. B. – É um longo caminho, porque também depende muito das entidades competentes, das entidades políticas que têm que acompanhar. Não chega a nossa vontade, a nossa forma de pensar e as nossas formas de agir. Elas podem funcionar, mas se não forem acompanhadas politicamente é muito complicado. Acho que o Algarve cresceu muito nos últimos dez anos, como disse foram os anos que melhor acompanhei, mas tenho conhecimento de causa devido ao LAMA. A coisa cresceu muito porque também politicamente em alguns concelhos foi acompanhado e também vindo do poder central. Eu acho que o 365 Algarve foi um marco muito importante que aconteceu durante quatro edições se não me engano, que foi uma alavanca financeira onde a criação floresceu na época baixa também, não só no verão. Algumas câmaras acompanharam, mas há muitas câmaras que ainda estão para trás onde a aposta nas artes e é quase nula e então é quase impossível.

Surgiu uma rede azul que ainda existe, que era uma rede que juntava todos os municípios do Algarve onde era suposto haver uma circulação, que tem havido, mas muito interrupta, porque há muitas câmaras que não acompanham. Não há sequer orçamento para nada, nem para um almoço e assim é complicado de haver uma agregação do Algarve inteiro. Tens Faro em Loulé a apostar bastante. Tens Lagos um bocadinho, Portimão um bocadinho, Lagoa mais um bocadinho, mas depois tens uma série de cidades que não acompanham para que isto possa crescer mais e quando digo cidades digo as entidades políticas das mesmas. E acho que o 365 Algarve disfarçava um bocado isso. Era uma injeção de dinheiro do poder central que vinha para a região do Turismo do Algarve que como eles financiavam as estruturas para fazer espetáculos em vários sítios, as estruturas escolhiam os sítios onde os iam fazer e, muitas vezes, havia programação até mesmo nas câmaras que não apostam quase nada. Então disfarçava um bocadinho e havia programação das mais variadas coisas, desde festivais de piano, circo, teatro, dança, gastronomia pelo Algarve inteiro que agora se vai esfumar um pouco. Uns vão continuar com outro tipo de apoios, outros vão ter um formato mais pequeno e, infelizmente, ainda temos aqueles que vão acabar por desaparecer. É uma pena porque constrói-se para depois desaparecer assim do nada e é sempre uma luta.

Ao mesmo tempo, há muita gente a aparecer. Há muitos criadores a voltar. Há muita gente que está a querer ficar no Algarve para fazer coisas e para criar espetáculos. Acho que esta fruição e desenvolvimento nos últimos dez anos está a colher alguns frutos. Claro queremos que sejam mais frutos ainda, mas está se a colher alguma coisa de pessoas a quererem voltar a querer ter os seus próprios espaços e de desenvolver o seu próprio estilo e o seu próprio pensamento. Acredito que estes cursos profissionais também ajudam de certa maneira. Acho que já mudou um bocadinho o paradigma de querer ir para lá só porque não tem Matemática. Acho que há cada vez mais miúdos a quererem ir porque querem mesmo seguir esta área. No ano passado alguns foram para Londres outros foram estudar para Lisboa este ano. A ideia é que as estruturas os possam manter cá, mas também se eles quiserem voar para outros sítios, mas também terem vontade de vir dar contributos. Acho que os que voltam podem ser mais valias e acho que isso tem sido resultado de uma aposta dos últimos dez anos de melhorias que deram às estruturas. Agora, também já há mais profissionais do que via. Acho que durante muito tempo houve algo amador, mas não era no mau sentido da palavra, amadora no sentido em que as pessoas faziam apenas como hobbie e agora há cada vez mais estruturas profissionais, há um tipo de abordagem e de exigências para com as entidades políticas e se quer chegar, por exemplo, a um Faro Capital Europeia da Cultura, acho que já há um maior reconhecimento por parte das entidades mas temos de ter outro tipo de ações das mesmas para que haja um trabalho continuado, sério e que mude e que mude um bocadinho a região para melhor.

G. – Ir e voltar. Este é também um processo muito rico?

J. B. – Completamente. Quando eu decidi criar o LAMA, eu sabia algumas coisas porque era interessado, mas tive de ir à procura e perceber o que havia. As portas na altura estavam muito mais fechadas. Agora, por exemplo, nós estamos sediados e já existe um apoio ao associativismo anual. Na altura não havia, vivíamos resquícios ainda da crise de 2008 mais ou menos, não havia muitos apoios das câmaras, mas também havia menos gente a fazer.

É curioso que as pessoas começaram a aparecer e bateram-nos à porta ou porque nos cruzamos e alguém falou nelas ou porque nos conhecíamos de outra fase da vida e elas seguiram o seu caminho como alguns amigos, bailarinas que voltaram e agora têm-se estruturas como a Camada que é uma estrutura da Carolina Cantinho que teve fora e depois voltou, por exemplo. Há mais massa crítica, há mais formas de fazer, de espicaçar o pensamento... Há mais pessoas à procura das coisas que nós podemos oferecer e há mais pessoas para influenciar outras que também é importante.

Podes consultar toda a programação do festival aqui. Os bilhetes já estão disponíveis na BOL e no Teatro das Figuras.


Texto de Patrícia Silva
Fotografia de Bernardo Gramaxo, Teatro Praga
Se queres consultar mais entrevistas, clica aqui.

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